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5 de agosto de 2022

Uma tisana com máquina de escrever

Ana Hatherly - Autorretrato

TISANA 29

Quando cheguei a casa o meu porco Rosalina estava a escrever à máquina. Fiquei num grande estado de perplexidade e por isso perguntei o que estás aí a fazer. Sem erguer a cabeça Rosalina apontou com o chispe para o papel convidando-me a ler. A folha estava em branco porque Rosalina tinha retirado a fita da máquina para a enrolar na sua encaracolada cauda que nesse momento agitava com prazer. Rosalina foi sempre o que me impeliu ao mergulho na metafísica. Por isso sem dizer nada dirigi-me para a cozinha. Abri a gaveta dos talheres. Tirei a grande faca do estojo do trinchante. Acendi o lume e pus a grelha a aquecer. Dirigi-me de novo para o escritório onde Rosalina escrevia à máquina. Cortei-lhe algumas febras do lombo. O suficiente para uma bela refeição. Cortei também um pedaço de fita para enfeitar a travessa.

Ana Hatherly, 351 Tisanas. Lisboa: Quimera (1997) 


UMA TISANA METAFÍSICA EM DIA DE ANIVERSÁRIO

(Ana Hatherly: Porto, 8 de maio de 1929 – Lisboa, 5 de agosto de 2015)

1 de junho de 2022

Junho das romãzeiras, dos lírios, das perpétuas e do olhar atento do pavão

                  PENA  DE  PAVÃO                  
[O olhar vigilante de Argos]
«O atributo vulgar de Hera é o pavão cuja plumagem se dizia ser a imagem dos olhos de Argos, o "vigilante" que a deusa colocara junto de Io. As suas plantas eram o helicriso, a romãzeira, o lírio. | Em Roma foi identificada com Juno.»
Pierre Grimal, Dicionário da mitologia grega e romana (Lx: Difel, 1992, 205a)

O quarto mês do calendário romano primitivo pré-juliano estava dedicado a Juno, a nem sempre bem-amada irmã e mulher de Júpiter. As aventuras extraconjugais continuadas do rei dos deuses e dos homens levaram-na a ser conhecida como a mais ciumenta, violenta e vingativa moradora celestial do Monte Olimpo. Por essa razão também, a majestosa e solene filha de Crono e Reia converteu-se na todo-poderosa protetora das casadas, símbolo mítico da fecundidade e patrona da fidelidade conjugal.

Para idear esses atributos divinos da Iuno Lucia, aquela que preside desde o Esquilino ao nascimento das crianças, passou a estar associada à fertilidade das bagas vermelhas da romãzeira, à pureza imaculada do lírio branco e à perenidade dourada do helicriso solar. A Iuno Moneta, aquela que a partir das alturas do Quirinal e do Capitólio nos adverte e faz lembrar dos perigos latentes, socorria-se ainda do olhar atento e penetrante de Argos-o-Vigilante, espelhado na plumagem luxuriante do pavão.

Nestes dias tão cheios de surtos pandémicos e conflitos bélicos, não seria pedir muito a Iuno Deæ Diæ Virtus o mediar junto das mais altas esferas celestiais o retorno da ordem aos seus domínios terrestres. Depois lembramo-nos ser a esposa do Senhor dos Raios e Trovões a mãe de Marte, Éris e Vulcano, os deuses da Guerra, Discórdia e Fogo e pensamos que o melhor é deixar deuses entretidos entre si e obrigar os homens a resolverem por si sós as suas querelas multisseculares. Sic fiat semper!

Ana Hatherly, Romã (1971); Sydenham Edwards, Iris florentina (1803);
Antonio Šiber, Helichrysum italicum (2017)

6 de janeiro de 2022

Uma romã no Dia de Reis

A ROMÃ
Ana Hatherly
« Le symbolisme de la grenade relève de celui, plus général, des fruits à nom-breux pépins (cédrat, courge, orange). C'est, tout d'abord, un symbole de fécon-dité, de postérité nombreuse : dans la Grèce antique, elle est un attribut d'Héra et d'Aphrodite ; et, à Rome, la coiffure des mariées est faite de branches de grenadier. »
FRUTA DA ÉPOCA
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O primeiro dia do Ano Novo começa e termina sempre com uma dúzia de uvas passas, preparada na última noite do Ano Velho. Representam-se assim as doze badaladas da 1/2 noite e dá-se passagem de testemunho para o Ano Bom. Costuma ainda brindar-se com uma flûte de champagne ou de espumante. Em ambos os casos, a uva desidratada ao sol ou fermentada em cave é rainha e senhora, símbolo de prosperidade, fartura, longevidade, fertilidade e plenitude desejadas num novo ciclo renascido.

À falta de ouro, incenso e mirra requeridos pelos mitos e contramitos bíblicos neotestamentários, sobejam os frutos secos e cristalizados à mesa de Natal, Ano Novo e Reis. Figos, peras, cerejas e cascas de laranja a brilharem no bolo-rei a rivalizarem com as nozes, pinhões, avelãs e amêndoas do bolo-rainha. Representados também com maior ou menor protagonismo no panettone italiano, no christmas pudding britânico, na galette des rois gaulesa, no roscón de reyes hispânico ou no Apfelstrudel  germano-austríaco.

Ao que dizem as crenças ancestrais dos povos, o festival de fruta omnipresente nos dias de festa simboliza a prosperidade, a fartura, a longevidade, a fertilidade e a plenitude almejadas para todo o ano, máxime no render da guarda dum ciclo sazonal por outro. As castanhas calóricas dos troncos de natal e as ameixas conservadas em calda de açúcar a marcarem, umas e outras à sua maneira, um rito ancestral de mudança dos gelos invernais duma velhice final para a pureza primaveril duma juventude renovada.

No Dia de Reis a romã continua a reinar, não fosse ela (que eu saiba) o único fruto coroado à mesa, convertendo-se na rainha da festa, a rivalizar com os três reis magos do oriente e com o casal real em forma de bolo. Destronados ficam o melão e o ananás, muito embora possam fazer companhia como meros vassalos à rival da polpa vermelha, suculenta e granulada, personificação alegórica dos desejos sensuais, da imortalidade e da prosperidade. Que mais se poderia desejar dum fruto real numa mesa republicana.  

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5 de agosto de 2021

As lições dos mestres carismáticos

Accademia di Platone ad Atene
Mosaico da villa di T. Siminius Stephanus a Pompei 
(c. séc. )
[MuseoNazionale Archeologico di Napoli]

«A profissão de professor [...] compreende numerosas tipologias que vão desde a do pedagogo destruidor de espíritos à do Mestre carismático.»
George Steiner, As lições dos mestres (2003)

1. Letras & Números
Soube dias que o Prof. Dinis morrera, ao que me foi dado saber num acidente de viação, desconheço exatamente quando. Rondaria agora os noventa e picos. Durante muito tempo, tive vontade de rever o meu mestre-escola da Primária. Nunca calhou. Não voltei a saber nada dele. Nem sequer me lembro do apelido. Difícil de o encontrar na Net. Iniciou-me nas Letras e nos Números e demais artes do trívio e do quadrívio. Recordo-o vestido a rigor de príncipe de gales, sempre de gravata e sapatos superengraxados. Por alguma razão era conhecido por Manequim Inglês. Podia ser pior.

2. Língua & História
tempos, dizia eu a um amigo, num diário em rede que quando estava a ler pela enésima vez As lições dos mestres de George Steiner, me lembrara do Dr. Bento Monteiro, meu professor no Secundário de Língua e de HistóriaNa altura perguntei-me porquê, depois percebi ter sido o meu primeiro mestre carismático, aquele que me iniciara no universo do canto lírico e da paideia grega e me motivara a escrever e a ler ainda mais. Através da blogosfera soube ter falecido em 2008. Mais um que não voltei a ver como desejava, o Aristóteles Bigodaça, como alguns lhe chamavam.  

3. Filosofia & Dialética
E nada digo a propósito de epítetos, porque a partir do Médio os discípulos deixavam de alcunhar os mestres. Se o Prof. Barrilaro Ruas algum tivesse, seria com certeza o de Sofista Maiêutico, dado o modo como referia o método pedagógico de Sócrates, o grande mestre da Filosofia e da Dialética, nas aulas que eu frequentava no Instituto Comercial de Lisboa. Perdi-o de vista, apesar de tal como eu se ter mudado para a Faculdade de Letras. Vi-o algumas vezes na RTP, enquanto deputado do PPM, até que em 2003 os mass media anunciaram o seu passamento aos 82 anos de idade.   
 
4. Filologia & Linguística
Encontrei o Prof. Lindley Cintra já no final de vida, aquele que foi o meu Mestre de Mestres na Universidade de Lisboa, onde me iniciou no seio da Filologia e da Linguística, o estudo da linguagem nas fontes históricas antigas dos textos literários e registos escritos das diversas variantes do português e das suas congéneres românicas. Com ele aprendi que sem um conhecimento mínimo do latim e do grego, dificilmente entenderia a génese, avanço e triunfo da realidade cultural portuguesa. É que quem descura as suas origens ancestrais, empenha seriamente a sua razão de existir e dos seus.    

5. Literatura & Cultura 
Nunca perdi de vista a Prof.ª Ana Hatherly desde que a vi pela primeira vez no Príncipe Real, numa dependência da Universidade Nova de Lisboa. Sobre a minha orientadora de Mestrado e Doutoramento em Literatura e Cultura contei aqui algumas histórias que não vou repetir. Limito-me a reforçar a ideia de ser uma Mestre Prodigiosa de muitas artes e saberes, que me ajudou a olhar com olhos de ver para o Barroco. Convivemos como mestre e discípulo um quarto de século. E mais houvera se não tivesse entretanto partido para o Parnaso, o único lugar mítico que lhe pertence de direito*.

NOTAS
* No dia em que há seis anos Ana Hatherly partiu para junto de Apolo e das nove Musas, as entidades míticas inspiradoras da criação artística e científica.

1 de maio de 2020

Maio maduro maio...

        Ana Hatherly, As ruas de Lisboa (1977)        
Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian - Coleção Moderna
Maio maduro Maio | Quem te pintou | Quem te quebrou o encanto | Nunca te amou | Raiava o Sol já no Sul | E uma falua vinha | Lá de Istambul || Sempre depois da sesta | Chamando as flores | Era o dia da festa | Maio de amores | Era o dia de cantar | E uma falua andava | Ao longe a varar || Maio com meu amigo | Quem dera já | Sempre depois do trigo | Se cantará | Qu'importa a fúria do mar | Que a voz não te esmoreça | Vamos lutar || Numa rua comprida | El-rei pastor| Vende o soro da vida | Que mata a dor | Venham ver, Maio nasceu | Que a voz não te esmoreça | A turba rompeu.
Em 1974, o Dia do Trabalhador foi celebrado na rua. Uma multidão de manifestantes juntou-se no estádio do Inatel depois de ter percorrido as principais artérias de Lisboa. No resto do país, a demonstração pública de alegria de poder comemorar o primeiro 1.º de Maio em liberdade não se fez também rogada.

Em 2020, o Dia do Trabalhador vai ser celebrado em casa. As palavras de ordem, se as houver, serão gritadas à janela. Os mass media repetirão à exaustão os discursos partidários e sindicais previsíveis e habituais nestas circunstâncias. A associação ao COVID-19 será obrigatória e amanhã será outro dia.

3 de setembro de 2018

Ana Hatherly, da experiência do prodígio ao prodígio da experiência

            A noção de escrita alargou-se
            a TUDO
            a QUASE TUDO
            porque escrita é sinónimo de IMAGEM

Ana Hatherly, A idade da escrita (2005)
Voltei a cruzar-me com a Ana Hatherly num local especial. Mágico. Desta vez foi na Casa da Cerca, em Almada. E A experiência do prodígio (1983) transformou-se n'O prodígio da experiência (2018). As bases teóricas dos textos-visuais barrocos dos séculos xvii e xviii expostas em livro converteram-se numa exposição visual neobarroca dos séculos xx e xxi. Prodigiosas as formas que a arte inventa de se reinventar constantemente.

Os labirintos, acrósticos, anagramas, emblemas e empresas, rebus, enigmas, a escrita ropálica e o texto-amuleto, os calígrafos, os ecos, os versos centónicos ou mosaicos, as macarróneas e versos de línguas juntas, os lipogramas e versos de cabo roto antologiados pela ensaísta cedem passo à poesia experimental e visual da artista plástica exibidas ao público a partir das obras do Arquivo Fernando Aguiar. Portentoso o resultado final da mostra.

E na antiga Quinta da Cerca, o Centro de Arte Contemporânea, ro-deado de jardins paradisíacos debruçados sobre o Tejo e Lisboa em pano de fundo, ofereceu-me O escritor invadido pelo escritor (1974). Pintura, poesia, escrita, desenhoTextos entre tecidos / entretecidos a escrever a escrita. Experiências prodigiosas / prodígios experimen-tais. E a Ana Harthely lembrou-me que o Escrever é falar com o silêncio & Falar é escrever com o silêncio (1979).

13 de abril de 2018

A rádio, a televisão, o mundo virtual, a ponta do prego e a saída dum saco...

POSTAL
Ana Hatherly
«O poeta imaginado: ou como ele é imaginado pelos outros»
Londres, Junho Ana 72

[Fundação Calouste Gulbenkian] 
Há dias visionei por acaso uma entrevista conduzida por Ana Sousa Dias a Ana Hatherly. Passou na RTP2 a 8 de março de 2004 integrada no programa «Por outro lado IV» e encontra-se disponível nos arquivos da estação. O Facebook por vezes também nos surpreende pela positiva na capacidade de levar a todos os lados os conteúdos que nos contam histórias exemplares de vida e morte.

Palavra puxa palavra, as ditas e as por dizer, e veio-me à memória um desafio que a Radio Comercial divulgou há tempos nas ondas hertzianas baseado no Global Teacher Prize, no intuito de eleger o melhor professor ou aquele que mais nos teria inspirado. Soube da iniciativa, mais uma vez, através do livro das caras e do blogue da escola preparatória e secundária por onde andei in illo tempore.

Tive algum pudor em destacar um professor entre tantos que fui tendo e ainda tenho. Deixei cair o repto mediático e pulei em frente. As lições da minha mestre nos labirintos barrocos dos sentidos e do sentido deram-me a resposta desejada que aqui revelo, sem a sujeitar a certames virtuais que o poeta dispensa. Até porque a criatividade é como um prego num saco, a ponta acaba sempre por aparecer...

7 de janeiro de 2018

Ana Hatherly e o jardim feito de tinta

Conversas / Ana Hatherly e o Barroco

Museu Calouste Gulbenkian

(Lisboa: 13.10.17 - 15.01.18)


Encontrei-me um destes dias com a Ana Hatherly num jardim barroco feito de tinta. A professora de muitos saberes e mestre de muitas artes recebeu-me numa sala de exposições da Gulbenkian. Estava ladeada dum «Loom» (s.d.), por si esculpido em acrílico, e por uma «Transverberação de Santa Teresa» (1672), pintado a óleo sobre tela por Josefa de Óbidos, a demonstrar que no ato criativo a tradição e a inovação coabitam numa perenidade absoluta.

Conversámos com palavras desenhadas com pontas de feltro e verniz, tinta da china e spray, aguarela e lápis de cera, sobre papel, cartolina e madeira. Falámos de mil e uma coisas com o olhar atento de quem ouve histórias dos labirintos das dobras sobre dobras, dos tempos do jogo e da morte, das alegorias da folia e da interpretação, das metamorfoses do diálogo oblíquo entre a poesia e a pintura. Diálogos antigos convocados ao sabor da imaginação.

Ana Hatherly - Romãs (1971-1972)

5 de agosto de 2017

Ana Hatherly, o Mestre e a Discípula que andava à procura da Alegria

«O Mestre é um homem que aparece. Está-se sempre a rir e ri de tudo, mas diz: há coisas que a gente não deve querer. Em francês soava melhor: il y a des choses qu'il ne faut pas vouloir. [...] Porém a Discípula não gostava de rir nem tão pouco de chorar e é por isso que andava à procura da Alegria, já que essa devia excluir o riso e o choro.»
Ana Hatherly, O Mestre (1963)
Tenho entre mãos a versão definitiva do texto de estreia de Ana Hatherly na ficção, O Mestre (1963), dado à estampa pela Ulisseia-Babel em 1910. Li-o dum jato. Para trás ficaram os inúmeros prefácios, posfácios e comentários que acompanham esta 5.ª edição da novela. A introdução da autora e as leituras de Maria Alzira Seixo, Silvina Rodrigues Lopes, Simone Pinto Monteiro de Oliveira e José Carlos Barcellos ficaram para o fim. Com todo o respeito que esses nomes mais ou menos sonantes da crítica portuguesa e brasileira me merecem, reservei-me o privilégio de descobrir em primeira mão todos os meandros do relato sem interferências contaminantes de terceiros.

Lido e relido o livro em todas as suas componentes constitutivas, apercebi-me que os mestres d'O Mestre já disseram tudo ou quase tudo sobre as histórias do Mestre e da Discípula. Pouco ou nada terá ficado por dizer. Deixemos essas demonstrações do saber académico nos espaços impressos que lhe foram dedicados. Apetece, em contrapartida, pegar nos considerandos que a criadora disse sobre a obra criada. Ouvi-la através das palavras escritas foi como se a tivesse a ouvir de novo com as palavras ditas no período de tempo em que eu fui o discípulo e ela a mestre. Já me referi a esse momento decisivo da minha formação e fico-me portanto por aí no que ao assunto toca, o de Ana Hatherly entre os mestres...

Diz a mestre de mais duma década ao discípulo de escritas barrocas, de errâncias pícaras e bizantinas, caberem os diálogos-monólogos travados nessa invenção de situações verosímeis na categoria do realismo direto simbólico, centrado na dificuldade da comunicação humana. Afirma tê-lo feito sem recorrer aos expedientes usuais dos relatos surrealistas. Quem sou eu para duvidar. Agrega noutro passo da autointerpretação dos factos narrados tratar-se duma digressão programática pelos meandros do experimentalismo, movimento que dominaria o seu trabalho nas décadas de 60 e 70. Confessa depois, a concluir, entender toda a malha discursiva da fábula como uma máscara de si mesma. Discípula e mestre. Nem mais nem menos.

A voz que obscurece da Autora cala-se e cede a palavra ao Leitor para encontrar a Lição que ilumine os sentidos convocados pela Obra. Descobrir a tal Alegria que a Discípula procurava no Mestre. Só assim se entenderá. Os dez capítulos de fragmentos compostos em dez dias aí estão a desafiar a capacidade interpretativa de todos nós. Em termos pessoais, direi que o Mestre do romance curto ou conto longo não é a mestre que conheci na década de 90. Pelas mesmas razões, o discípulo da vida real não se confunde com a Discípula da vida imaginada nas páginas duma novela de filiação genérica imprecisa. É que os mestres e discípulos da Vida não se podem confundir com os mestres e discípulos dos Livros...

Arcádia (1963); Moraes (1976); Quimera (1995); 7 Letras (2006)

5 de agosto de 2016

Uma tisana com chave

Pablo Picasso, Puerta y llave (1919)
[Colección Marina Picasso]
TISANA 17

Era uma vez uma chave que vivia no bolso de um homem. Durante muito tempo desempenhou com honestidade o seu trabalho de abrir portas. Até que um dia descobriu que todo o seu trabalho tinha consistido sempre em abrir portas que já estavam abertas. Quando descobriu isso lançou-se corajosamente para fora do bolso. Caiu no chão. Ficou ali. Passa uma criança vê a chave e diz que coisa tão engraçada para fazer um carrinho.
Ana Hatherly, 351 Tisanas. Lisboa: Quimera (1997)

UMA TISANA BEM SERVIDA EM DIA DE ANIVERSÁRIO
(Ana Hatherly: Porto8 de maio de 1929 – Lisboa5 de agosto de 2015)

21 de setembro de 2015

Uma tisana com serpentes


Duas serpentes

Pintura mural de Pompeia (séc. I EC)

TISANA 12
Era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra. Um dia encontraram-se num caminho muito estreito e como não gostavam uma da outra devoraram-se mutuamente. Quando cada uma devorou a outra não ficou nada. Esta história tradicional demonstra que se deve amar o próximo ou então ter muito cuidado com o que se come (sic!).
Ana Hatherly, 351 Tisanas. Lisboa: Quimera (1997)

7 de agosto de 2015

Ana Hatherly e o lugar dos mestres…

«Mestre  Mestre! Oh Mestre! | Onde é que estás, Mestre? || Silêncio absoluto.»
Ana Hatherly, O Mestre (1963)
Cruzei-me com a professora Ana Hatherly numa sexta-feira chuvosa de outubro de 1990. O encontro teve lugar numa dependência da Universidade Nova de Lisboa sita no Príncipe Real, separada pela calçada da Patriarcal do palacete mourisco onde então funcionava a reitoria. Entrou no salão nobre do edifício à hora marcada para a apresentação do mestrado que dirigia de Literatura e Cultura Portuguesa - época moderna. Comigo encontravam-se umas seis dezenas de alunos admitidos ao curso. Vestia uma gabardina de oleado cor de alface amarelecida ainda a pingar e segurava um chapéu-de-chuva cujos pormenores a minha memória cromática não registou. Enquanto se recompunha, apressou-se a informar que o período escolhido para os trabalhos seria o Barroco. Quem achasse a tarefa difícil podia mudar para a época contemporânea. Um silêncio absoluto instalou-se. Resolvi ficar. Tinha encontrado a orientadora ideal da tese que teria de preparar daí para a frente.

Enderecei-lhe o pedido formal no final do primeiro ano da parte escolar. Encarou-me de frente sem espanto no olhar e disse-me que sim. Sugeriu-me trabalhar a Pedagogia. Pegar em Martinho de Mendonça de Pina e Proença e desbravar os Apontamentos para a educação de um menino nobre (1734). Contrapus-lhe a Picaresca sem indicação de autor e obra. Educação por educação sempre preferia alguma que me divertisse um pouco. Aceitou o argumento e perguntou-me se sabia bem onde me estava a meter. É que para muitos especialistas esse género novelesco era exclusivo da cultura literária hispânica. Mesmo assim aconselhou-me a ler João Palma-Ferreira e Ulla M. Trullemans. Entre um e outro alguma pista havia de encontrar. Atravessámos a rua da Escola Politécnica e entrámos na Imprensa Nacional. Na primeira página d' A Preciosa que havia editado de Sóror Maria do Céu, registou: «No início da sua tese de mestrado - um marco histórico?». Acertou em cheio.

Descobrimos em conjunto o quase esquecido Frei Gaspar Pires de Rebelo, licenciado em teologia pela Universidade de Évora e criador do único relato pícaro canónico redigido em português, O desgra-ciado amante Peralvilho de Córdova, deixado inédito com outros cinco relatos cortesãos que um amigo publicou postumamente com o título então em voga de Novelas exemplares (1649-1650). Descobri a editio princeps na Biblioteca Municipal do Porto, que serviria de base à minha tese de mestrado defendida com aproveitamento em 1995. Ganhámos gosto pelo frade seiscentista da ordem de Santiago e avançámos com o único romance bizantino composta entre nós, os Infortúnios trágicos da constante Florinda e de Arnaldo procurando-a pelo mundo (1625 e 1633). A tarefa terminou em 2001, ano em que defendi com aproveitamento a minha tese de doutoramento. Um summa cum laudio que devo à minha amiga de caminhada e que coloco no lugar privilegiado dos mestres.

21 de outubro de 2014

Uma tisana com gabardina

Teatro do Bairro

Tisanas: um antídoto contra o cinzento dos dias (2012)


TISANA 161


A mulher é logo em criança educada para a prolongada tarefa de alimentação do homem. Adulta diz o resto da vida com ternura de ferro: come meu esposo come meu filho (Quando a minha filha era pequena eu dava-lhe de comer à colher. Como ela detestava sopa cuspia-a sobre a minha cara. A sopa acabava escorrendo pelo meu vestido. Mas um dia passei a dar-lhe de comer de gabardina).

Ana Hatherly, 351 Tisanas. Lisboa: Quimera (1997)