«Mestre Mestre! Oh Mestre! | Onde é que estás, Mestre? || Silêncio absoluto.»
Ana Hatherly, O Mestre (1963)
Cruzei
-me
com
a
professora
Ana Hatherly numa
sexta
-feira
chuvosa
de
outubro
de
1990
. O
encontro
teve lugar numa dependência da Universidade Nova de Lisboa sita no Príncipe Real, separada pela calçada da Patriarcal do
palacete mourisco onde então funcionava a reitoria
. Entrou no salão nobre do edifício à hora marcada para a apresentação do mestrado que dirigia de Literatura e Cultura Portuguesa
- época moderna
. Comigo encontravam
-se umas seis dezenas de alunos admitidos ao curso. Vestia uma gabardina de oleado cor de alface amarelecida ainda a pingar e segurava um chapéu
-de
-chuva cujos pormenores a minha memória cromática não registou
. Enquanto se recompunha, apressou-se a informar que o período escolhido para os trabalhos seria o Barroco
. Quem achasse a tarefa difícil podia mudar para a época contemporânea. Um silêncio absoluto instalou-se
. Resolvi ficar
. Tinha encontrado a orientadora ideal da tese que teria de preparar daí para a frente.
Enderecei-lhe o pedido formal no final do primeiro ano da parte escolar. Encarou-me de frente sem espanto no olhar e disse-me que sim. Sugeriu-me trabalhar a Pedagogia. Pegar em Martinho de Mendonça de Pina e Proença e desbravar os
Apontamentos para a educação de um menino nobre (1734). Contrapus-lhe a Picaresca sem indicação de autor e obra. Educação por educação sempre preferia alguma que me divertisse um pouco. Aceitou o argumento e perguntou-me se sabia bem onde me estava a meter. É que para muitos especialistas esse género novelesco era exclusivo da cultura literária hispânica. Mesmo assim aconselhou-me a ler João Palma-Ferreira e Ulla M. Trullemans. Entre um e outro alguma pista havia de encontrar. Atravessámos a rua da Escola Politécnica e entrámos na Imprensa Nacional. Na primeira página d'
A Preciosa que havia editado de Sóror Maria do Céu, registou: «No início da sua tese de mestrado - um marco histórico?». Acertou em cheio.
Descobrimos
em
conjunto
o
quase
esquecido
Frei
Gaspar
Pires
de
Rebelo
, licenciado
em
teologia
pela Universidade
de
Évora
e
criador
do
único
relato
pícaro
canónico
redigido
em
português
, O desgra-ciado amante Peralvilho de Córdova, deixado
inédito
com
outros
cinco
relatos
cortesãos
que
um
amigo
publicou
postumamente com o título então em voga de
Novelas exemplares (1649-1650). Descobri a
editio princeps na Biblioteca Municipal do Porto, que serviria de base à minha tese de mestrado defendida com aproveitamento em 1995
. Ganhámos gosto pelo frade seiscentista da ordem de Santiago e avançámos com o único romance bizantino composta entre nós, os
Infortúnios trágicos da constante Florinda e de Arnaldo procurando-a pelo mundo (1625 e 1633)
. A tarefa terminou em 2001, ano em que defendi com aproveitamento a minha tese de doutoramento
. Um s
umma cum laudio que devo à minha amiga de caminhada e que coloco no lugar privilegiado dos mestres.