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5 de maio de 2026

Ormuz e o estreito de que tanto se fala

Georg Braun & Frans Hogenberg: Civitates Orbis Terrarum, 1572
[
Universitätsbibliothek Heidelberg]
«Ormuz, top. Ilha e estreito da Ásia. A mais ant. referência que por ora conheço a esta localidade é a de Fernão Brandão: "Yndia, Malaqua, Armuz / com a espera..." no C. Ger., III; quase contemporânea desta deve ser a de Barbosa (pp. 50 e 54). Na carta de Jerónimo de Santo Estêvão, anexa ao Livro de Marco Paulo (fl. 98 r), é Ormos, mas Aromuz em Bisnaga (p. 70). Ormuz é a forma de Déc. (II, cap. 2, p. 48) e Lus. (II, 49; X, 40, 53, 101). Creio que se trata de forma (persa?) ouvida pelo Portugueses quando chegaram àquelas bandas, não havendo qualquer relação directa entre ela e as antigas por vezes citadas por autores classificófilos. Refiro-me à Harmazaei (Harmozia e Armuzia noutras edições) de Plínio (Nat. Hist., VI, 110) ou à Harmozonte de Amiano Marcelino (23.º, VI, 10, p. 322).»
José Pedro Machado, Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa (1984)

ORMVS ÉPICO

E vereis o Mar Roxo, tão famoso,
Tornar-se-lhe amarelo, de infiado;
Vereis de Ormuz o Reino poderoso
Duas vezes tomado e sojugado.
Ali vereis o Mouro furioso
De suas mesmas setas traspassado:
Que quem vai contra os vossos, claro veja
Que, se resiste, contra si peleja.

Esta luz é do fogo e das luzentes
Armas com que Albuquerque irá amansando
De Ormuz os Párseos, por seu mal valentes,
Que refusam o jugo honroso e brando.
Ali verão as setas estridentes
Reciprocar-se, a ponta no ar virando
Contra quem as tirou; que Deus peleja
Por quem estende a Fé da Madre Igreja.

Virá despois Meneses, cujo ferro
Mais na África, que cá, terá provado;
Castigará de Ormuz soberba o erro,
Com lhe fazer tributo dar dobrado.
Também tu, Gama, em pago do desterro
Em que estás e serás inda tornado,
Cos títulos de Conde e d’honras nobres
Virás mandar a terra que descobres.

Olha Dófar, insigne porque manda
O mais cheiroso encenso pera as aras;
Mas atenta: já cá destoutra banda
De Roçalgate, e praias sempre avaras,
Começa o reino Ormuz, que todo se anda
Pelas ribeiras que inda serão claras
Quando as galés do Turco e fera armada
Virem de Castelbranco nua a espada.

Camões, Os Lusíadas (II , 49; X, 40, 53 e 101)

Vasco da Gama - Luís de Camões - Afonso de Albuquerque

23 de agosto de 2024

As presas escravas do homem lobo

Anónimo, c. 1570-1580
(Coleção Berardo)
«Sendo embora limitada a utilização comercial em larga escala do trabalho es-cravo, o recurso aos escravos estava generalizado dentro da maioria das socie-dades africanas. A existência deste grande número de escravos era sinal de que havia um dinâmico mercado interno de escravos, e comércio intracontinental dos mesmos. Portanto, muito antes da abertura das rotas da África Ocidental-Atlântico existia um comércio interno e externo de escravos. Através do norte e para leste, já se fazia exportação de escravos em grande número para fora de África pelo menos seis séculos antes da chegada dos Portugueses.»
Herbert S. Klein, O comércio atlântico de escravos.
Quatro séculos de comércio esclavagista (1999)

Homo homini lupus 

A escravatura não foi um monopólio exclusivo de Portugal, Europa ou Ocidente. Inscrita na mais profunda herança genética da humanidade, a sua presença está atestada desde que existem registos escritos, havendo indícios que seria praticada muitíssimo antes, nos alvores da civilização, talvez na transição da fase dos caçadores-recoletores nómadas para a dos agricultores-pastores sedentários. Passou pela Suméria, pólis gregas, Roma e demais potentados mesopotâmicos e mediterrânicos, atravessou toda a medievalidade cristã e islâmica, tendo chegado aos tempos modernos, no velho e nos novos mundos descobertos e conquistados.

Muito do comércio atlântico de escravos deveu-se à estreita parceria dos traficantes europeus com os negociadores africanos. Os panos, armas e álcool, cedidos pelos primeiros, eram trocados por homens, mulheres e crianças, capturados pelos segundos nas tribos rivais. Ficavam todos a ganhar em termos políticos, económicos e sociais, refletido nos milhões de seres humanos enviados para as colónias americanas e estados independentes ali criados. Nas vésperas da guerra civil, o número atingia a cifra astronómica de quatro milhões de negros destituídos de liberdade e em absoluta dependência dos senhores esclavagistas.     

Ganha aqui força a conhecida locução latina homo homini lupus (= o homem é o lobo do homem), parafraseada, comentada e adaptada, entre outros, por Plauto, Séneca, Erasmo, Rabelais ou Hobbes. Nesta sentença da sabedoria milenar, não cabe separar os lobos bons dos maus. No que toca ao esclavagismo, todos os homens trazem em si a semente do bem e do mal. A cor da pele, o local de origem, a convicção religiosa, são perfeitamente irrelevantes. Todos eles a conheceram, exerceram e defenderam. Todos eles resistiram a ferro e fogo à sua abolição. Muitos continuam a segui-la na calada da noite ou das teias policiais.

Comemora-se hoje o Dia Internacional em Memória do Tráfico de Escravos e da sua Abolição, data da Revolução de São Domingos, no Haiti, em 1791. O processo começou cedo e acabou tarde. O embrião da erradicação global deste flagelo será seguido pelas potências coloniais europeias muito depois. Os britânicos marcaram o ponto de partida em 1834 e os portugueses em 1869. Curiosamente, as ex-colónias só o terão feito ulteriormente. A Lei Áurea Brasileira, v.gr., teria de esperar até 1888 para ver a luz do dia. Digamos que as forças conservadoras se haviam mudado de armas e bagagens para o outro lado do mar oceano.

26 de fevereiro de 2024

A maçã-de-elefante, bolsa-de-pastor ou fruta-cofre da árvore das patacas

DILLENIA INDICA

Contam as histórias com história que a lenda da árvore-das-patacas terá nascido no hemisfério sul, após a debandada da Corte Lusitana para Terras de Vera Cruz. A crença na existência duma árvore capaz de dar frutos repletos de moedas anda associada à dillenia indica, speciosa ou elongata, planta oriunda das Índias Orientais introduzida nas Índias Ocidentais durante a vigência da política imperial botânica dos Bragança. A particularidade que celebrizou essa espécie reside no facto das suas pétalas se fecharem sobre o centro das flores para produzir o respetivo fruto. 

Com o propósito de ministrar uma formação pedagógica adequada para o herdeiro, D. João VI ter-se-á aproveitado das propriedades insólitas da dilénia índica, colocou uma moeda de pataca numa das suas flores para que gerasse a maçã-de-elefante, bolsa-de-pastor ou fruta-cofre da árvore-do-dinheiro ou das patacas. Ao que parece, mais tarde D. Pedro de Alcântara terá usado com sucesso esse subterfúgio para desfazer os sonhos desmedidos de riqueza fácil dos súbditos reais de Portugal e imperiais do Brasil com resultados visíveis ainda nos nossos dias.

A árvore das patacas saiu dos jardins do palácio imperial brasileiro, varou o largo mar oceano e alojou-se de armas e bagagens na selva do partidarismo mediático português em véspera de eleições. Vestiu a roupagem do despudor atrevido e pôs-se a prometer mundos e fundos para resolver todos as crises atávicas que por aí vão pululando. Terá descoberto não se sabe muito bem onde uma nova fazedora vegetal de fundos capaz de cobrir todos os sufocos, um feliz pomo de ouro colhido no Jardim das Hespérides a trocar as velhas patacas há muito tempo caídas em desuso.

22 de novembro de 2023

As rainhas proscritas

  Beatriz de Borgonha & Joana de Trastâmara  
António de Holanda

A história oficial dos países é sempre contada pelos vencedores e quando, a posteriori, se aplicam os ditames do politicamente correto, tendemos a cair nos trilhos movediços do cronologicamente errado. Assim aconteceu com o destino dinástico de Beatriz de Borgonha e de Joana de Trastâmara, legítimas herdeiras de Fernando I de Portugal e Algarve e de Henrique IV de Castela e Leão. A seu tempo aclamadas, destronadas, proscritas, vencidas, banidas. Reduzidas de rainhas soberanas do país de origem a rainhas consortes do país vizinho.

À distância de três únicas gerações, as filhas reconhecidas do rei Formoso e do rei Impotente foram privadas do direito monárquico que as assistia de reinar. A ausência da apresentação dum conjunto de formalidades legais comprovadas cometidas por ambas foi substituída nos dois casos por hipotéticas acusações da infidelidade das mães, Leonor Teles e Joana de Avis, a Aleivosa e a Leviana. Um recurso eficaz seguido pelas mais altas esferas das duas cortes ibéricas em tempos agitados de guerra civil e de agitação política.

Nesta muito oportuna versão coroada de pecado original torna-se particularmente difícil encontrar um pai alternativo para a infanta portuguesa casada aos dez anos com o rei João I de Castela e Leão, remota que é a ideia de a atribuir ao conde galego João Fernandes Andeiro. Ficou assim privada dum epíteto aviltante idêntico ao da sua prima em terceiro grau, a Beltraneja, depois transformado num outro de cariz elogioso, a Excelente Senhora, ao tornar-se na consorte real do tio D. Afonso V de Portugal e Algarve.

Os reinados de facto e de jure de Beatriz de Borgonha e de Joana de Trastâmara nos seus torrões de berço terminam de vez após as batalhas de Aljubarrota (14.08.1385) e do Toro (6.04.1474), quando os respetivos cônjuges e reis titulares são vencidos pelos novos soberanos efetivos das duas coroas peninsulares, o Mestre de Avis do lado de cá da fronteira e Isabel-a-Católica do lado de lá. A longa agonia das rainhas consortes de jure uxoris começava então até ao seu desaparecimento final sem honra nem glória dignos de memória.

Num ato de reparação tardia, alguns catálogos reais começaram a incluir nas suas listagens de monarcas o Prior do Crato, teimando a omitir a sobrinha do rei da Boa Memória. É o que acontece, v.g., na Cronologia dos Reis de Portugal, publicada pela Casa Real Portuguesa na sua página oficial da Net. Ostracismo permanente que continua a marginalizar a última rainha aclamada, jurada e com moeda cunhada da primeira dinastia. Mistério insondável que o sangue azul dos Bragança saberá explicar, se estiver para  virado.

PENDÕES REAIS DE CASTELA-PORTUGAL & DE PORTUGAL-CASTELA
Juan I de Castilla y Beatriz de Portugal  |  Afonso V de Portugal e Joana de Castela

5 de outubro de 2023

Histórias com história dentro p'ra contar

SELO PORTUGAL
Carta de doação pelo infante D. Afonso Henriques a
Egas Ramires da igreja de São Bartolomeu de Campelo
28 de julho de 1129
[Arquivo Nacional da Torre do Tombo] 
CONDES ‒ REIS  PRESIDENTES
[com  Duques, Infantes, Príncipes e Vice-Reis de permeio]
A substituição solene da Monarquia pela República, formalizada nas varandas da Câmara Municipal de Lisboa em 1910, é celebrada no país com toda a pompa e circunstância que os tempos presentes permitem. Altura para evocar a realização, neste mesmo dia e mês do longínquo ano de 1143, da Conferência de Zamora, que reconhecia a Portugal o estatuto de Reino e ao seu soberano o título de Rei. Um duplo aniversário que os partidários belicosos dos dois regimes rivais revivem de modo distinto  invariavelmente virulento na verbalização emotiva de sentires. Feitios.

Quem ninguém felicita é Vímara Peres, pela tomada de Portus Cale, criação da Presúria do Porto e fundação de Portugal em 868Histórias da História com 1155 anos de idade bem contados, com muitos e variados condes, reis e presidentes a contá-las e alguns duques, príncipes, infantes, vice-reis mais de permeio. falta encontrar uma data precisa para festejar condignamente e em igualdade de direito o nascimento dum país. Até podia ser simbolicamente a 5 de outubro e ganhava-se assim um oportuno três em um à maneira para juntar ao feriado já existente. Ideias.

24 de julho de 2023

Epítetos Reais & Apodos Plebeus

O REI AZARADO & O IRMÃO GOLPISTA

Cognomes, apelidos & alcunhas

Todos os reis portugueses têm um cognome (o Povoador, o Lavrador, o Magnânimo, o Usurpador) ou vários (o Conquistador ou o Fundadoro Cruel ou o Justiceiro), por vezes contraditórios (o Grande / o Opressor) e a caírem no domínio da mera alcunha popular (o Gordo). O mesmo se diga das rainhas (a Piedosa ou a Louca, a Educadora ou a Parideira) e dos respetivos cônjuges (o Capacidócio, o Sacristão ou o Edificador e o Rei-Artista), bem como de algumas consortes (a Aleivosaa Desejada, a Excelente Senhoraa Princesa Perfeitíssima). Esta proliferação de epítetos reais deve-se ao facto de carecerem de verdadeiros apelidos e não posporem ao nome próprio a estirpe dinástica a que pertenciam: Borgonha, Avis, Habsburgo e Bragança.    

Falta essa tradição aos presidentes, por possuírem prenome(s) e sobrenome(s), conquanto os apodos plebeus atribuídos a alguns deles corram à boca pequena. Quase segredados nos tempos da outra senhora e pronunciados à tripa-forra nos nossos dias. o Cabeça-de-Abóbora ou Corta-Fitas será, quiçá, o mais conhecido de todos. Depois veio o trio armado (o Caco-de-Vidro, o Chico-Rolha, o Endireita) e o trio letrado (o Bochechaso Cenoura, a Múmia), a precederem o já crismado Senhor das selfies e dos afetos. E como não ofende quem quer, só ofende quem pode, ousemos chamar-lhe também o Tio Celito, o Cata-Vento, o Papagaio, o Comentador-Mor, o Egocêntrico, o Língua-de-Trapos, o Fala-Barato. É caso para dizer que o que a uns falta a outros sobeja.

Res publica, a caricatura ao serviço da tristeza pública, 2010

13 de fevereiro de 2023

Uso discreto da coroa real dos oito arcos e da banda presidencial das três ordens

           Batalha de Ourique           
António de Holanda, Genealogia dos Reis de Portugal, 1530-1534

COROAÇÃO ‒ ALÇAMENTO ‒ ACLAMAÇÃO  INVESTIDURA 
O grande circo mediático à escala global prepara-se para levar a todos os cantos da esfera terrestre a cerimónia da coroação de Carlos Filipe Artur Jorge Mountbatten-Windsor. Para tal, teve de aguardar 70 anos pela morte da mãe, passou de Sua Alteza Real, o Príncipe de Gales, a Sua Majestade Britânica, o Rei do Reino Unido e dos Reinos da Comunidade de Nações. Tudo pela Graça de Deus, está bem de ver.

Dom Afonso Henriques não teve de esperar pela morte da mãe para se tornar o primeiro Rei dos Portugueses. Obteve a dignidade régia por mérito próprio. Bastou-lhe vencer os cinco reis mouros na mítica Batalha de Ourique (1139) e ser alçado e aclamado depois pelas tropas ainda no campo da contenda. Só depois, o Arcebispo de Braga o terá coroado com a coroa de bronze dos reis visigodos.

Mitos à parte, a tradição real portuguesa nunca se submeteu a uma coroação formalA entronização dos monarcas fez-se sempre por alevantamento, através dum ato prático, popular e laico celebrado num espaço público, numa aliança simbólica entre o novo soberano e os respetivos súbditos. Um ou outro Borgonha e Avis até terá usado por acaso uma coroa, sempre com peso, conta e medida.

Dom Manuel II encerrou entre nós o ciclo das aclamações reais, quando a 6 de maio de 1908 jurou cumprir solenemente a Carta Constitucional na Assembleia das Cortes em Lisboa. Curiosamente, será a 6 de maio de 2023 que Carlos III será coroado com toda a pompa e circunstância britânicas na Abadia de Westminster de Londres. Acasos que a história de vez em quando gosta de gizar.

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Banda das Três Ordens que os Bragança usaram e abusaram a torto e a direito passou a ser uma insígnia exclusiva do Presidente da República. Tal como a Coroa Real, dispõe dum papel protocolar, sendo envergada em momentos muito especiais excluindo a própria investidura de tomada de posse na Assembleia da República. Aqui, pelo menos, a sobriedade, a moderação e a simplicidade presidem.

COROA REAL & BANDA DAS TRÊS ORDENS
Museu do Tesouro Real - Museu da Presidência da República 

30 de dezembro de 2022

A vigília da Capela do Rato

1972
30 de dezembro
Um grupo de católicos progressistas e de não católicos ocupa a Capela do Rato, em Lisboa, como o objetivo de comemorar o Dia Mundial da Paz através da realização de uma vigília de 48 horas sobre o tema «A  paz é possível». Os presentes aprovam uma moção na qual condenam a continuação da guerra colonial, reconhecem o direito dos povos das colónias portuguesas a decidirem acerca do seu próprio futuro, classificam de criminosa a «política africana» seguida pelo governo, criticam a atitude de cumplicidade assumida pela hierarquia da Igreja Católica relativamente a esta e a outras questões, de muitos «jovens e trabalhadores portugueses por se manifestarem contra a guerra». A polícia intervém invadindo a capela (que é posteriormente encerrada) e detendo cerca de 70 pessoas - 15 das quais ficam preses à ordem da DGS.
António Simões Rodrigues (coord.), História de Portugal em datas (1997)
A paz é possível...
Faz este fim de semana 50 anos que a Capela do Rato esteve nas bocas do mundo e eu não estava lá. Todos os sábados participava invariavelmente na missa que ali se realizava por volta das 7h30 da tarde. Fazia-o acompanhado dos meus colegas do ICL que à data viviam como eu no bairro vizinho de Campo de Ourique. Naqueles 30/31 de dezembro de 1972, já me encontrava a passar parte da época natalícia em família, fora do bulício de Lisboa.

Soube dos eventos então ali ocorridos já entrados em janeiro e por portas travessas. Nos tempos cinzentos da outra senhora, as notícias tardavam a chegar e traziam sempre as marcas percetíveis dos censores. Comemorar o Dia Mundial da Paz quando se vivia uma guerra colonial em três frentes africanas era uma tarefa a todos os títulos temerária. As detenções que se seguiram a essa vigília de 48 horas num templo católico eram inevitáveis.

Foi também há meio século que deixei de acreditar no poder das preces religiosas para obter a paz. Não voltei a entrar na Capela do Rato a partir dessa data. O minha fé já então periclitante com o transcendente metafísico chegara inexoravelmente ao fim. Até hoje e sem volta à vista. Passou a representar uma fase distante no meu amadurecimento pessoal, sem as fantasias infantis de histórias da carochinha à vista e com os pés bem assentes no chão.

Picasso, La colombe de la paix (1950)

11 de outubro de 2022

Igualdades desiguais

BALLET ROYAL DE LA NUIT - SÉC. XIII

 

Ð Ǝ S ! ₲ Ʉ Ɐ Ꝇ ꓷ A D € Ƨ

A rainha Margarida da Dinamarca acaba de anunciar o propósito de retirar os títulos reais de príncipe e princesa aos filhos do príncipe segundogénito Joaquim e de os manter para os do príncipe herdeiro Frederico. A medida parece seguir a mais recente tendência das monarquias europeias de reduzirem o número de membros oficiais das respetivas casas dinásticas. Sinais dos tempos em que se tentam amenizar algumas desigualdades sociais sem eliminar de raiz os princípios igualitários inquinados. A solução de nivelamento entre súbditos e soberanos talvez até pudesse passar pela elevação de toda a plebe pé-rapada à mui nobre categoria fidalga de príncipes e princesas, alimentando assim o ego ávido de sangue azulado que lhes passaria a correr nas veias.

O candidato a novo czar da Rússia acaba de anexar quatro regiões da Ucrânia, depois de ter falhado a conquista total do país e de ter encenado um referendo ilegal que desse cobertura legal à conquista parcial por si perpetrada. O direito a veto que o Kremlin detém como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU foi suficiente para fazer abortar a resolução de condenação da alegada consulta popular e subsequente apropriação de territórios alheios. Aqui como na Animal Farm de George Orwell, dá vontade de afirmar que todos os países representados nas Nações Unidas são iguais perante a lei, mas há alguns deles que são mais iguais do que os outros. Muito significativo para entender as igualdades desiguais que (des)governam o mundo.

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O Rei-Sol Luís XIV da França e Navarra julgava ocupar o centro do cosmos apolíneo. Se tivesse o conhecimento astronómico dos nossos dias mudaria rapidamente de opinião. Ficaria a saber que há mais estrelas no céu do que grãos de areia em todas as praias e desertos da terra. Dizem. Cálculos sábios de quem consegue contar até o número incontável que cabe no infinito. O mesmo se passaria com as pretensões de Filipe IV das Espanhas ou de Dom João V de Portugal e Algarves, apodados de Rei-Planeta e Rei-Constelação. Por este andar, até o super Putin de todas as Rússias almejaria um cognome astral à altura. Creio que lhe ficaria bem o de Imperador do Buraco Negro, na esperança, porém, de não nos arrastar para as mais profundas trevas do universo.