29 de julho de 2020

A Rosa Tudor e a Romã Trastâmara

TUDOR ROSES AND SPANISH POMEGRANATES
Thomas More, Coronation Suite (1509)
«-Eu sei, Madame. Mas eu sentar-me-ei aqui ao vosso lado e falarei de tudo menos de infelicidade. Os cortinados da antecâmara precisam de ser reparados. Poderei começar a a arranjá-los ou preferis ajudar-me? Talvez pudéssemos bordar um desenho:ou as rosas Tudor ou o nosso próprio emblema de Romã.»
Julia Hamilton, Catarina de Aragão (1973)


Avises, Trastâmaras, Habsburgos & Tudors  


De 9 a 13 de outubro de 2007, passou na RTP1 The Tudors, série pro-duzida pela Peace Arch Entertainment para a Showtime. Segui-a com interesse até ao quarto episódio e com reservas os seis restantes. A mudança de motivação deveu-se sobretudo à falta de rigor histórico registado na sua conceção televisiva. D. Manuel I de Avis nunca se casou com nenhuma princesa inglesa, tendo optado por duas infantas Trastâmaras e uma Habsburgo. Henrique VIII Tudor seguiu a mesma política de aliança dinástica, contraindo matrimónio com a cunhada Catarina de Aragão, viúva do príncipe Artur e irmã mais nova das duas rainhas consorte de Portugal, Isabel e Maria de Aragão e Castela, e tia da terceira, Leonor de Áustria. Uma verda-deira família real, ligada pelos vínculos de sangue às coroas de três países: Portugal, Espanha e Inglaterra.

Tendo o processo de divórcio do filho do vencedor da Guerra das Duas Rosas e da filha dos Reis Católicos tido início em 1530, seria impossível que a hipotética princesa Margarida Tudor se tivesse casado com o Venturoso ou de o ter sequer assassinado, dado que este falecera de morte natural em 1521. A senilidade lúbrica do monarca lusitano resulta também uma brincadeira de mau gosto, dado que por essa altura reinava em Portugal D. João III, de 28 anos de idade, conjuntamente com Catarina de Áustria, a filha mais nova de Joana-a-Louca e de Filipe-o-Belo. Os erros sistemáticos cometidos não se ficam por aqui, espalhando-se um pouco por toda a série de fundo histórico mas tratada como uma história de ficção televisiva. Dispenso-me de elencar a totalidade das fantasias cometidas, porque outros já se deram ao trabalho de o fazer.

Voltei a visionar os pés encardidos do inventado e decrépito rei de Portugal numa reposição do AXN White, iniciada a 23 de março de 2020. A sensação de repulsa causada pela cena repetiu-se com a mesma intensidade experimentada aquando da estreia da série, só que desta vez resolvi rever todos os episódios da primeira temporada e ver como estreia absoluta os restantes episódios das três temporadas seguintes. Este regresso aos dramas conjugais do fundador da Igreja Anglicana levou-me a recordar As seis mulheres de Henrique VIII, uma outra série produzida pela BBC em 1970 e transmitida no ano seguinte pela RTP. O grande sucesso alcançado com essa saga familiar foi, aproveitada pelas Edições Dêagá em 1973, através da publicação de seis volumes centrados em cada uma das rainhas consorte do segundo monarca Tudor.

Quando a viúva do Príncipe de Gales se casou com o Defensor da Católica em 1509, mal imaginava que estava a dar início à Reforma Inglesa. O divórcio em 1533 pôs também termo à aliança da Rosa Tudor e da Romã Trastâmara, representadas por Thomas More na Coronation Suite. A união dinástica da rosa vermelha Lencastre e da branca York deixou de partilhar a Coroa Real com o emblema da tomada do Reino de Granada aos Nacéridas em 1492. A fertilidade simbolizada nos grãos da romã (granada em castelhano) seguida por Catarina de Aragão como divisa produziria um único fruto, a futura Maria-a-Sanguinária, colheita muito escassa para as aspirações de Henrique VIII. Mais certeiro foi o mote seguido pela rainha, Humble and Loyal. Que melhor lema para definir a Humildade e Lealdade que manteve até à morte para a Roma papal e a Londres real. 

24 de julho de 2020

Mario Vargas Llosa, a festa do chibo contada em três atos e um merengue

«Pero, aquello del libre albedrío lo afectó. Tal vez por eso decidió que Trujillo debía morir. Para recuperar, él y los dominicanos, la facultad de aceptar o rechazar por lo menos el trabajo con el que uno se ganaba la vida. Tony no sabía lo que era eso. De niño tal vez lo supo, pero lo había olvidado. Debía de ser una cosa linda. La taza de café o el trago de ron debían saber mejor, el humo del tabaco, el baño de mar un día caluroso, la película de los sábados o el Merengue de la radio, debían dejar en el cuerpo y el espíritu una sensación más grata, cuando se disponía de eso que Trujillo les arrebató a los dominicanos hacía ya treinta y un años: el libre albedrío.»
Mario Vargas Llosa, La fiesta del chivo (2000)
Há um popular merengue dominicano que celebra com todo o ritmo esfuziante caribenho conhecido e reconhecido, o folclórico Mataron al chivo, onde se canta em tom festivo e convida o povo a bailar com muito entusiasmo a morte do Chibo, do Bode, do Chefe, do Chapita, do tirano Rafael Leonidas Trujillo Molina, nesse já distante 30 de maio de 1961, o dia da liberdade. Mario Vargas Llosa apropria-se dum dos versos da composição (III, 5) para intitular um dos seus mais icónicos romances, La fiesta del chivo (2000), que transcreve, também, em forma de epígrafe inicial da sua versão dos factos. Não se pense,  todavia, que a festa histórica musicada se identifica com a festa escrita ficcionada e já adaptada ao cinema. As pistas começam a ser dadas desde os primeiros parágrafos do livro, mas só são desvendadas de forma cabal no seu derradeiro capítulo, quinhentas e tal páginas bem contadas mais à frente.

A construção imaginária concebida pelo jornalista, político e escritor peruano-espanhol, reparte-se alternadamente por três sequências narrativas de sinal dramático ou atos duma tragédia com final anunciado. A configuração geral dos atores no teatro das operações discursivas centra-se na visita duma emigrante-exilada há trinta e cinco anos nos Estados Unidos ao seu país natal, para visitar o pai, ex-senador e ex-político caído em desgraça pelo regime; no último dia de vida do autocrata militar apodado pelos seus seguidores de Benfeitor, de Pai da Pátria Nova, de Generalíssimo dos Exércitos Nacionais, de Salvador da Pátria, de Restaurador da Independência Financeira, completado com outros momentos que antecederam o atentado; no relato pormenorizado dos motivos que levaram os sete conspiradores a atuar, nos preparativos para punir o opressor, na execução bem-sucedida do magnicídio e nas perseguições que lhes foram movidas e aos familiares nos derradeiros meses da Era Trujillo pelos seus apaniguados e fiéis seguidores, com especial relevo para os membros ligados pelo sangue ao clã no poder.

A arquitetura estrutural da obra obedece a um vaivém constante entre tempos e cenários diegéticos, possível através da corrente de pensamento e memórias recorrentes dos protagonistas ou da própria instância narrativa que lhes vida e interpela retoricamente a cada momento, sem esperar uma resposta adequada às suas dúvidas e incertezas, deixando ao leitor a tarefa de o fazer. Esta omnisciência ou semiomnisciência assumida do narrador permite-lhe revelar-nos os monólogos interiores das personagens, mas dá-lhe igualmente a liberdade tática de se calar sempre que a economia do texto assim o exija, chegando mesmo a dar a entender o facto insólito de ignorar de ciência certa alguns aspetos menos relevantes para o desenrolar dos eventos. Outras vezes tem a habilidade de saltar bruscamente duns espaços e momentos para outros, de parágrafos contíguos ou à distancia de vários capítulos, recorrendo à técnica folhetinesca das novelas radiofónicas ou televisivas, para criar um clima de suspense, que domina à perfeição e já havia demonstrado na elaboração d'A tia Júlia e o escrevedor. A execução do homem-que-nunca-sua, do Maligno, do déspota maquiavélico é reportada, por exemplo, duas vezes, precisamente a meio do relato e já reta final do mesmo. O ponto de vista dos diferentes grupos de conspiradores, situados em locais estratégicos contíguos.

O Ilustrísimo Señor Marqués de Vargas Llosa, membro eleito da Real Academia Española e futuro prémio Nobel da Literatura, opta aqui por compor uma novela del dictador, cultivada com grande êxito por vários autores do movimento boom latino-americano, que lançou as letras hispânicas do Novo Mundo um pouco por toda a parte. Como subgénero narrativo dos relatos de sucessos reais acontecidos, tem a desvantagem de dificilmente causarem surpresa nos leitores. Os factos são conhecidos de todos e encontram-se registados nas crónicas, relações, anais e demais documentos de cariz oficial. Em contrapartida, os romances de ficção pura oferecem-nos o prazer inesperado do contacto com o desconhecido. Neste caso concreto, qualquer enciclopédia nos pode informar qual o destino do caudilho dominicano e dos seus matadores. A poeticidade é estabelecida com a ironia trágica do devir histórico, que converte os traidores assassinos em heróis nacionais e o todo poderoso senhor do país na besta diabólica que subjugara toda a população por um período de trinta e um anos, marcados pela arbitrariedade governativa, pela crueldade praticada no desempenho de funções, pela repressão sádica indiscriminada exercida sobre toda a oposição, pela tortura generalizada incluindo o canibalismo, pelos assassinatos políticos e pelas execuções sumárias em massa.

O mais conhecido efeito de suspense inserida no texto reside no sentido-outro dado à fiesta presente no título. Ao invés de seguir à letra a aceção plasmada na letra do merengue, no romance em apreço, esse vocábulo ganha um significado erótico dum encontro amoroso a dois, disfarçado de festa, em que el Chivo, el Maligno, senhor absoluto do país, tenta seduzir uma jovem de catorze anos, Urania Cabral, e que acaba por violar ao ver os seus intentos malogrados. Episódio gizado pela ficção mas baseada em ocorrências factuais que a fama do tirano granjeou ao longo dos seus setenta anos de idade. Com esta associação engenhosa, o seu mentor demonstra que o real e o imaginário costumam andar de mãos dadas, que os seus caminhos se cruzam e se confundem muitas vezes, como reflexo que são um do outro, oferecendo um manancial precioso aos grandes criadores de Arte, feita com palavras escolhidas ao sabor da fantasia e assim atingirem pela escrita o sublime poético, como é o caso.

19 de julho de 2020

Viagem literária por Barcelona com Carlos Ruíz Zafón na bagageira...

EL CEMENTÉRIO DE LOS LIBROS OVIDADOS

Mapa de los lugares más emblemáticos de las novelas de Carlos Ruiz Zafón

Na pista da Sombra do Vento & do Jogo do Anjo

Em junho de 2009 voei para a capital da Catalunha para participar no «Col·loqui internacional sobre les relacions entre les literatures ibèriques», organizado pela Universitat Pompeu Fabra e Universitat de Barcelona. Levava preparada a comunicação «Terceira parte portuguesa do Guzmán de Alfarache. As metamorfoses do pícaro na visão do 1.º Marquês de Montebelo». Mas mais do que desenvolver aqui o contributo novelesco de Félix Machado de Silva e Castro e Vasconcelos, um grande de Portugal e de Espanha, que preferiu manter-se fiel a Filipe IV de Castela do que aderir à causa de D. João IV de Portugal, centrar-me-ei num vulto mais recente das letras hispânicas, com dimensão global, cujas tiragens (dizem os media) só são ultrapassadas pelo Don Quijote de Cervantes.

Tudo começou no aeroporto de Lisboa, quando deparei na estante da Relay local um Guia da Barcelona de Carlos Ruiz Zafón (2008), de Sergi Doria com um prólogo de Sergio Vila-Sanjuán. O título despertou-me de imediato a atenção, não só por se referir à ciutat condal que me esperava no final da viagem, mas, sobretudo, por destacar um autor que eu tinha descoberto recentemente e me enchera as medidas de forma inusitada. Adquiri de imediato o livro, deixei a zona dos duty & tax free shops, dirigi-me a um local tranquilo da sala de trânsito e comecei logo ali a leitura, que continuei a debitar enquanto sobrevoava os ares da Península Ibérica. Ao chegar ao meu destino já tinha traçado um plano de gestão dos tempos livres que o encontro académico me deixasse.

Ocupei o primeiro dia na grande metrópole catalã a estudar o trajeto que me levaria desde o Eixample até ao campus universitário da Estació de França. O encontro com a malha urbana descrita nas páginas da Sombra do Vento e do Jogo do Anjo iniciava-se também nesta caminhada inaugural, na catedral de ferro, lugar de partida e chegada das personagens mais emblemáticas da saga. Depois, nas pausas das sessões de trabalho, segui alguns percursos pedestres do roteiro literário. Achar a livraria dos Semper, espreitar o Ateneu Barcelonès, refrescar-me na fonte Canaletas, petiscar na taberna Els Quatre Gats, beber um chocolate no Cafè de l'Òpera, passar pela Carreter de l'Arc del Teatre no encalço do Cementiri dels Libres Oblidats. Tudo um faz de conta consentido de verdades mentirosas.

Nesse 19 de junho, uma sexta-feira, entrei na Casa dell Llibre do Passeig de Gracia e adquiri o romance Marina, o primeiro centrado em Barcelona. Neste 19 de junho, uma sexta-feira, o autor morria em Los Angeles. Há coincidências difíceis de entender, especialmente quando se referem a eventos separados por mais duma década. Foi a última vez que passeei pelas ramblas da ciutat dels misteris gòtics. Tenho de lá voltar um dia destes para rever os cenários das restantes partes da tetralogia entretanto concluída, O prisioneiro do céu e O labirinto dos espíritosDar um pulo depois a Madrid, partir do Urso da Puerta del Sol, passar pela Plaza Mayor, rever os gatos e gatas que a habitam e seguir os caminhos tortuosos da ciudad reina da Meseta Ibérica, trilhados pelos Sempere & C.ª. Ya veremos...

14 de julho de 2020

Mémoires du 14 Juillet 1789

ANONYME - Prise de la Bastille et arrestation du gouverneur M. de Launay, le 14 juillet 1789[Musée de l’Histoire de France - Archives nationales]

Prise de la Bastille


Le 14 juillet, prise de la Bastille. J’assistai, comme spectateur, à cet assaut contre quelques invalides et un timide gouverneur : si l’on eût tenu les portes fermées, jamais le peuple ne fût entré dans la forteresse. Je vis tirer deux ou trois coups de canon, non par les invalides, mais par des gardes-françaises, déjà montés sur les tours. De Launay, arraché de sa cachette, après avoir subi mille outrages, est assommé sur les marches de l’Hôtel de Ville ; le prévôt des marchands, Flesselles, a la tête cassée d’un coup de pistolet ; c’est ce spectacle que des béats sans cœur trouvaient si beau. Au milieu de ces meurtres, on se livrait à des orgies, comme dans les troubles de Rome, sous Othon et Vitellius. On promenait dans des fiacres les vainqueurs de la Bastille, ivrognes heureux, déclarés conquérants au cabaret ; des prostituées et des sans-culottes commençaient à régner, et leur faisaient escorte. Les passants se découvraient avec le respect de la peur, devant ces héros, dont quelques-uns moururent de fatigue au milieu de leur triomphe. Les clefs de la Bastille se multiplièrent ; on en envoya à tous les niais d’importance dans les quatre parties du monde. Que de fois j’ai manqué ma fortune ! Si moi, spectateur, je me fusse inscrit sur le registre des vainqueurs, j’aurais une pension aujourd’hui. 

7 de julho de 2020

James Joyce: fragmentos da vida dublinense

"There was no hope for him this time: it was the third stroke. Night after night I had passed the house (it was vacation time) and studied the lighted square of window: and night after night I had found it lighted in the same way, faintly and evenly. If he was dead, I thought, I would see the reflection of candles on the darkened blind for I knew that two candles must be set at the head of a corpse. He had often said to me: “I am not long for this world,” and I had thought his words idle. Now I knew they were true. Every night as I gazed up at the window I said softly to myself the word paralysis. It had always sounded strangely in my ears, like the word gnomon in the Euclid and the word simony in the Catechism. But now it sounded to me like the name of some maleficent and sinful being. It filled me with fear, and yet I longed to be nearer to it and to look upon its deadly work."
Acabei de fazer uma viagem muito especial pela cidade natal de James Joyce, através da leitura espaçada do Dublinenses (1914). Evitei fazê-lo dum jato, de modo a prolongar por mais tempo o prazer da descoberta da capital irlandesa e dos seus residentes, através das palavras escritas em cada um dos quinze contos reunidos em livro. No final do percurso pela malha urbana que lhes serve de cenário, de ter atravessado pontes e entrado nos espaços públicos e privados que os povoam, de ter acedido aos pequenos e grandes conflitos dos seus moradores, de ter ficado na expetativa de os ver resolvidos a contento de todos, a sensação de satisfação alcançado pela partilha é total. Algo bem diverso do experimentado no desfecho da visita guiada pelo restante corpus literário do autor, quer no Retrato do artista quando jovem, quer no Ulisses. Sobretudo neste último, fomentador de todas as polémicas interpretativas. Ao que dizem os entendidos, há ainda um livro praticamente intraduzível, o Finnegans Wake, por fundir vocábulos do inglês com o doutros idiomas. Mas sobre esse exercício experimental é muito duvidoso que alguma vez lhe chegue a pegar.

Dezena e meia de pequenos relatos levam-nos até aos primeiros anos do século passado de vida quotidiana da Gente de Dublin - título alternativo da tradução portuguesa -, na véspera de grandes convulsões geopolíticas que iriam transformar de modo radical a Europa e o mundo. De repente apercebemo-nos estar na presença de episódios citadinos centenários que a modernidade da escrita nos remete para uma intemporalidade que só é possível no horizonte criativo das obras pioneiras, aquelas que marcam o início revolucionário das novas eras do imaginário humano. O final dos impérios estava iminente mas a separação do país da tutela britânica ainda estava longe de ser alcançada. O reconhecimento da independência da República da Irlanda pelo Reino Unido, declarada unilateralmente em abril de 1916, ocorreria de facto em dezembro de 1922, mas os conflitos nacionalistas latentes desde sempre no seio do Eire estão bem presentes em bastas páginas da coletânea.

À exceção dos três fragmentos iniciais da vida dublinense revelados por um eu-narrativo, a dúzia restante é apresentada por uma voz omnisciente que tudo sabe, desde o pensamento dos intervenientes aos monólogos-diálogos por si travados. É como se o ponto de vista individual assumido pelo narrador-autor tivesse cedido a palavra à comunidade urbana, convertida numa heroína-coletiva, a verdadeira e legítima protagonista dos relatos. Este conhecimento absoluto não impede a instância narrativa de deixar com alguma frequência a trama em suspenso, transferindo para o leitor a árdua tarefa de tecer as respetivas ilações, se para aí estiver voltado, e de encontrar soluções de futuro viáveis ou desejáveis, como se em ficção o preenchimento do não-narrado fosse possível ou fizesse sentido em termos reais.

A captação instantânea de momentos específicos selecionados por James Joyce para contar a história moral do país, centrada na sua cidade mais importante, passa por episódios ligados à morte dum sacerdote católico, ao encontro de dois alunos faltistas com um ancião desconhecido, à paixão dum rapaz pela irmã dum amigo e do presente que gostaria de lhe dar, à desistência de fuga duma jovem com um marinheiro, ao esforço dum colegial pobre de se adaptar aos seus colegas mais abastados, ao esquema usado por dois galãs para enganar uma donzela, às manobras duma matrona para arranjar um casamento de interesse para a filha, a um jantar de dois amigos e se enfrentam os sonhos literários falhados de um deles e o sucesso reconhecido do outro, a um escriturário frustrado que se embriaga em diversos pubs, à celebração em família na véspera de Todos-os-Santos, a uma aventura extraconjugal interrompida com final trágico, a divergências num comité político de ativistas para fazer reviver a memória dum independentista histórico, ao esforço inglório duma mãe para organizar um recital perfeito de piano para a filha, à tentativa dos amigos dum beberrão de o fazer regressar ao seio do catolicismo, a um jantar de família onde se medita sobre o sem-sentido da vida.

Feita a apresentação sucinta destes flashes narrativos, fica-se com a ideia de se estar na presença dum vasto políptico constituído pelos painéis dum retábulo ou de vitrais duma grande catedral, de cromatismos e luminosidade diferente, ligados entre si por um tema comum, o dia-a-dia duma cidade-capital e das suas gentes nos alvores dos anos de 1900. Testemunho admirável de as revelar ao mundo e de inaugurar um percurso singular no universo das letras que à distância dum século e picos nos continua a fascinar e a motivar para a leitura de livros escritos com engenho e arte.