Mostrar mensagens com a etiqueta Helénicas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Helénicas. Mostrar todas as mensagens

16 de junho de 2026

Sono & Sonhos

Evelyn De Morgan, Nigth and Sleep (1878)
[London - De Morgan Centre]

Morrer, dormir, sonhar, talvez...

INTERRUPTOR

Clica-se a tecla dum interruptor e faz-se luz. Clica-se de novo essa tecla e reavemos o breu inicial. A sucessão do claro/escuro faz-se ao ritmo dum único click. Alternadamente, o tudo e o nada são-nos fornecidos por um dispositivo mecânico que suspende a passagem da corrente elétrica com um simples toque manual. O processo pode repetir-se amiúde até atingir o colapso final do comutador de energia. A eternidade é mais uma vez om produto da imaginação dos homens criadores dos deuses.

Mais fantasista do que os fabricantes de mecanismos atuais, Hesíodo atribuiu a Nyx o poder de dar à luz por partenogénese o incansável Thánatos e o seu irmão gémeo Hypnos, bem como a imensa tribo dos Oneiros. Por outras palavras do dia a dia, a Noite pariu sem fertilização masculina a dócil Morte e o pacífico Sono, o seio divino de todos os Sonhos humanos. Para compor o ramalhete mítico, Ovídio introduz a figura de Morfeu, capaz de dar forma às fantasias noturnas dos meros mortais adormecidos.

A resistência da irmandade pré-rafaelita à gramática renascentista não impediu Evelyn De Morgan de retratar, na Nigth and Sleep (1878), as figuras aladas da Noite e do Sono a pairarem sobre uma paisagem crepuscular, no seu afã imemorial de espalharem às mãos cheias papoilas vermelhas, inspiradoras dos Sonhos e das suas incontáveis fantasias. Nada nos garante que nesse esvoaçar idílico das duas potestades helénicas houvesse o propósito fatídico de privar algum adormecido de voltar a acordar pela manhã.

Para dramatizar um Sono sem Sonhos, com ou sem retorno ao mundo dos seres viventes, teremos de recorrer às palavras versificadas de Shakespeare, no Hamlet (c.1601), em que o ser ou não ser trágico se resume ao morrer, dormir, sonhar talvez. A frieza prosaica do estalido seco do interruptor que liga/desliga, entre Gaia e Thânatos, entre a personificação da Vida e da Morte, divindades primevas da Mãe Terra e do Pai Caos, origem do tudo e do nada, matéria-prima de onde tudo derivou e aonde tudo voltará.

2 de abril de 2026

Mente sã em corpo são

Corrida de atletas gregos em Olímpia

[Vaso grego, 431-434 - gettyimages]

Orandum est ut sit mens sana in corpore sano.
Fortem posce animum mortis terrore carentem,
qui spatium vitæ extremum inter munera ponat
naturæ, qui ferre queat quoscumque labores,
nesciat irasci, cupiat nihil et potiores
Herculis ærumnas credat saevosque labores
et venere et cenis et pluma Sardanapalli. 
Monstro quod ipse tibi possis dare; semita certe 
tranquillæ per virtutem patet unica vitæ.
Juvenal, Sátiras ( Séc. II EC:  IV.10.356-364) 

Neste primeiro septenário de reformado, aposentado ou jubilado, tenho praticado a mente sã em corpo são a caminhar, a yogar, a cantar, a lecionar e a blogar. Faço-o regularmente todos os dias da semana de modo alternado, com breves intervalos nos meses mais quentes do estio meridional.

O intervalo este ano foi mais prolongado no dois primeiros itens da série. O município laranja da urbe findou as suas funções camarárias fechando as portas a todas as atividades desportivas inseridas no programa sénior, tendo sido retomadas nove meses escoados com a nova equipa camarária rosa.

Voltei ao equilíbrio lunar e solar das asanas, pranayamas, pratyharas e dharanas do Ioga, depois de ter passado em passo de corrida pelas práticas sem registo sânscrito do Pilatos. Hábitos antigos não se mudam do dia para a noite. Juntei as mãos e reavivei a ancestral saudação ritual hindu: Namastê!

As passeatas, marchas e corridas pelos trilhos, veredas e carreiros algarvios, por vales, campos e montes da região, a vencer riachos rurais, asfalto urbano ou terra batida, a andar é que se faz caminho. Sapatilhas nos pés, bastões nas mãos e a meta bem à vista no horizonte ou ao virar da esquina.

Leciono uma manhã por semana. Arejo os livros da biblioteca cá de casa, para lhes dar vida enquanto os abro, leio e comento. Garanto que os neurónios ainda continuam despertos e a funcionar em termos académicos, embora submetidos ao regime pro bono e dirigidos a um pública sénior, tal como eu.

Quem canta seus males espanta. Se for num coral ameniza a vida, se for em dois ainda melhorDepois vêm os concertos, participações, encontros dentro fora das divisas do quotidiano habitual. Plateias, anfiteatros, auditórios abrem-nos as portas e os acordes entoados a várias vozes ecoam em liberdade.

Palavra a palavra, frase a frase, ideia a ideia, as histórias vão surgindo dia a dia, mês a mês, ano a ano neste blogue composto em nome dum herói imaginário nado num romance medieval de cavalaria. E assim, o exercício semanal do corpo são em mente sã lá vai surgindo no fluir dos dias, dos meses e dos anos. 

EPÍGFRAFE 
Deve-se pedir em oração que a mente seja sã num corpo são. | Peça uma alma corajosa que careça do temor da morte, | que ponha a longevidade em último lugar entre as bênçãos | da natureza, que suporte qualquer tipo de labores, | que desconheça a ira, nada cobice e creia mais | nos labores selvagens de Hércules do que | nas satisfações, nos banquetes e camas de plumas de Sardanápalo. | Revelarei aquilo que podes dar a ti próprio; | certamente, o único caminho de uma vida tranquila passa pela virtude.
Juvenal, Sátiras ( Séc. II EC:  IV.10.356-364) 

22 de janeiro de 2026

Olhares maneiristas de Narciso olhados em claro-escuro por Caravaggio

Michelangelo Caravaggio, Narcissus (1597-1599)
[Roma, Galleria Nazionale di Arte Antica - Galleria Corsini - Roma]
«Havia uma fonte límpida com águas brilhantes e prateadas, que nem pastores, nem cabras, nem qualquer outro animal jamais se aproximara, que nenhuma ave, nenhuma fera selvagem, nenhum ramo caído de uma árvore jamais perturbara. Estava rodeada de erva que se mantinha fresca pela proximidade da água; e a floresta impedia que o sol aquecesse esses locais. Foi ali que Narciso, cansado do ardor da caçada e do calor, veio deitar-se, atraído pelo aspeto do local e pela fonte. Mas enquanto tentava matar a sede, outra sede crescia dentro dele. Enquanto bebia, seduzido pela imagem da sua beleza que vislumbrava, apaixonou-se por um reflexo sem substância, tomou por corpo o que era apenas uma sombra.»
Ovídio, Metamorfoses (8 EC)

    Narcísicas                                                          

Contam os mitos helénicos ter o deus Cefiso e a ninfa Liríope gerado Narciso, um jovem muito belo insensível aos apelos do amor. A pedido dos pais, o adivinho Tirésias previu que a criança viveria até ser velho, se não olhasse para si mesmo. Já adulto, mostrou-se alheio a todas as paixões, incluindo a ninfa Eco. Esta definharia com a rejeição, até restar apenas a sua voz a ecoar nas montanhas. As pretendentes desdenhadas rogaram vingança aos céus, Némesis ouviu-as e num dia de grande calor, após uma caça, obrigou o efebo a refrescar-se numa fonte. Ao debruçar-se sobre a água, olhou para o rosto ali revelado e enamorou-se pela própria imagem.

O olhar maneirista de Caravaggio capta, precisamente, o momento crucial em que Narciso olha a sua imagem claro-escura refletida no espelho de águas cristalinas duma fonte nas imediações de Tebas. Segundo o olhar de Ovídio, fixado nas Metamorfoses (Liv. III), a semidivindade helénica teria sucumbido ao fascínio da sua beleza, brotando no local da sua morte uma flor a que foi dado nome de narciso. Ignoramos se o grande mestre milanês das artes pictóricas se terá rendido a esta versão latina da lenda ou se teria virado para outros finais alternativos, caso o seu olhar perscrutador tivesse ido um pouco mais longe do plasmado na tela.

Com o olhar letal reproduzido no olho-d'água beócio cumpriu-se o oráculo de Tirésias. A flor que recorda a beleza efémera de Narciso sobreviveu até hoje. Com ela espalhou-se também a memória dum narcisismo absoluto que os narcisos atuais tanto gostam de servir. À diferença dos mitos de antanho, os contramitos hodiernos não enviam ninguém para o reino das sombras com um simples olhar. Espelho, espelho meu, quem é o mais esplendoroso ser vivente do mundo? E sem ouvir a resposta do espelho: Sou eu, sou eu, o mais poderoso narciso de todos os tempos! Até quando, perguntamo-nos nós, a justiça de Némesis continuará inerte...

1 de dezembro de 2025

O país das laranjas & o pais dos coelhos

LARANJA

Laranja, s. Do persa nārang (por sua vez do sânscrito nāranga) pelo ár. nāranjâ, mesmo sentido; cf.: esp. naranja, galego laranja. Este dualismo hispânico (laranja-naranja) faz-me hesitar quanto ao caso port.: trata-se da evolução ár. nāranjâ < port. laranja, ou, talvez antes, de port. laranja < ár. vulgar nāranâ? Esta última forma é nome de unidade de laranj, muito espalhado pelos dialetod ocidentais...
J. P. Machado, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa,  Lx. Horizonte: 1977 (III, 386b)

Os mitos e lendas greco-latinos localizaram o Jardim das Hespérides nas terras do fim do mundo junto ao grande mar Oceano. Os Pomos de Ouro ali existentes passaram com o tempo a confundir-se com as Laranjas. Provavelmente as amargas, porque as doces parece terem sido introduzidas/inventadas pelos habitantes históricos ali instalados, sobretudo na parte mais ocidental da península. Alguns passaram então a chamar-lhes Portugal ou «Terra das Laranjas».

Inspirados nesse diz que diz enriquecido pela mitologia helénica, portokáli, portocálâ, portokal' e portokal passaram a designar LARANJA em grego, romeno, búlgaro e turco. O exemplo foi depois seguido por outras línguas faladas fora das fronteiras europeias, tais como o arménio, georgiano, afegão ou iraquiano. Até a vintena de países árabes (os introdutores do fruto na península), o fazem no seu dia a dia, registando برتقال e pronunciando bortugal ou burtugálum.

Os mitos e contramitos fenícios não tiveram a mesma sorte neste rincão distante da Ibéria a que chamaram Span ou Spania, que, através da terminação I-shphanim, remeteria para um mamífero roedor da família dos hiracoides ali existentes em grande quantidade. À falta dum nome mais adequado para identificar esse território obscuro onde o sol se punha no final do dia, batizaram-no de «Terra dos Coelhos». A denominação Hispânia viria mais tarde por via latina, derivando depois para Espanha.

No Primeiro de Dezembro de 1640 o País das Laranjas venceu o Pais dos Coelhos. Dizem por aí que o primeiro se libertou da tutela do segundo, ou que recuperou mesmo a sua independência. Bocas. Os Habsburgos coroados caíram e os Braganças levantaram-se. Sai um primo entra outro primo. Castelhanos/Portugueses ou vice-versa. Tudo farinha do mesmo saco. Os herdeiros de Carlos Quinto de Gand e de Isabel de Portugal revezaram-se no poder.

Os festejos da restauração monárquica portuguesa foram breves, sendo logo substituídas pelas fanfarras dos exércitos hispânicos. A Guerra da Aclamação duraria 28 anos a que se seguiram alguns conflitos mais em períodos intermitentes. Até houve uma Guerra das Laranjas ainda viva em Olivença por palavras ditas/reditas nos dois lados da raia. Questiúnculas antigas de irmãos/hermanos desavindos e sempre de braços abertos para o restabelecimento da paz.

6 de novembro de 2025

A tertúlia das musas parnasianas…

Raffaello Sanzio, Parnaso (c. 1510-1511)
[Pallazzo Apostolico, Stanza della Segnatura, Vaticano]

Tertúlia - Tália - Parnaso

Ao entrar nos pretéritos anos 60 na Rua das Montras rumo à Praça da Fruta, deparávamo-nos com três pequenas livrarias, cujos nomes nos sugeriam de imediato alguns dos mitos e lendas ancestrais mais conhecidos da cultura helénica clássica: Tertúlia, Tália e Parnaso. Estava concentrado naquela via central da Caldas da Rainha um grupo de seres divinos e heroicos evocados amiúde pelas letras e artes. Olhando para os frescos renascentistas de Rafael no Vaticano, encontramos ali representados muitos deles a duas dimensões, sobretudo os ligados ao deus Apolo e às nove Musas, reunidos na ΄Ορος Παρνασσός, próximos de Delfos, a cantar e dançar em coro ao som da lira e dos versos dos poetas imortais antigos e modernos.

A Tertúlia de Artes e Letras ficava à entrada daquela correnteza de lojas variadas. Estava sediada no primeiro andar dum prédio idêntico a tantos outros ali residentes, mas com um recheio de livros, discos, gravuras, peças de arte, permitindo o convívio com muitos criadores dos heróis da imaginação elevados às alturas da imortalidade. Ali se reuniram no escasso par de anos da sua vida vultos conhecidos da nossa cultura, em tertúlias literárias e artísticas da παιδεία lusitana, resistente às diatribes usuais nos tempos da outra senhora de má memória para os amantes do livre-pensamento. Subi os degraus daquela escadaria uma meia dúzia de vezes e encontrei sempre ao meu dispor tudo aquilo que procurara em vão noutros locais.

Um pouco mais à frente, no outro lado da rua ainda aberta ao tráfego automóvel ficava a Tália, a mais ampla e concorrida do trio, talvez por funcionar também como papelaria, discoteca, ludoteca e outras ofertas mais para quem a visitava por hábito ao longo do dia. A musa da Comédia ‒ a tal que inspirara o nome da loja ‒ lá estava em sintonia fraterna na companhia das demais protegidas de Apolo, a guiar os potenciais amantes mortais da poesia, drama, história, dança e beleza em geral, para levarem para casa um pouco da criação artística e científica produzidas com a sua inspiração divina. Por ali passei vezes sem conta. Ali folheei revistas, ouvi discos e cirandei sem destino certo, como muitas vezes convém.

A terminar o circuito triangular e após uma nova travessia do itinerário comercial a céu aberto da cidade da rainha, deparámo-nos com a Livraria Parnaso, a mais pequena de todas mas também a mais longeva, a única que tem conseguiu resistir até aos nossos dias à voragem inexorável do tempo. A minha memória visual guarda a imagem precisa do espaço exíguo onde os livros se viam por toda a parte protegidos pela vitrine da montra virada para os passeantes e pelo balcão protetor de atendimento dos clientes. Tocávamos-lhes à distância com os olhos arregalados e cheirávamo-los com ambas as narinas bem abertas. Depois da compra, saíamos com os sentidos bem despertos para a aventura da escrita que nunca falhava.

Livrarias surgem, livrarias partem, mas, no admirável mundo novo em que vivemos, são mais as que fecham as portas até um nunca mais do que aquelas que as abrem para os amantes de livros físicos novinhos em folha. O contacto com a escrita faz-se cada vez mais à distância. O virtual condenou as sinestesias da leitura à tirania insípida do digital. Tudo se resume ao matraquear do teclado dum PC ligado à Net e à visualização do texto desejado no respetivo ecrã. Livrámo-nos de vez das poeiras e odores a mofo das edições antigas, mas fomos igualmente impedidos de acariciar as palavras impressas a tinta numa folha de papel. Por outras palavras, deitou-se o bebé fora junto com a água do banho. Nem mais nem menos.

29 de maio de 2025

Original & Imitação

Um peixinho dourado com barbatana dorsal de tubarão

Não queiras sapateiro tocar rabecão…

Qualidade & Quantidade

Quando os complexos de inferioridade se transformam em complexos de superioridade, a mania das grandezas manifesta-se em toda a sua extensão. Desmesuradamente. A originalidade evapora-se e a imitação explode. Os exemplos não faltam. Pequenos e grandes, antigos e recentes, imprevisíveis e expectáveis. Deixemos os de menor calibre de fora e convoquemos alguns dos mais visíveis. Nascidos numa etapa civilizacional longínqua, desenvolvidos num fluxo civilizacional contínuo e prenúncio duma evolução civilizacional vigente, perdida num horizonte de eventos ignotos, mas cada vez mais próximos do nosso ângulo de visão.

Começando com os Sumérios, não se sabe ao certo de onde vieram nem para onde foram. Provavelmente, quando inventaram a escrita, já teriam esquecido a sua proveniência e acabaram por se diluir no seio dos Acádios semitas. Nem uns nem outros se encarregaram de registar em nenhuma placa cuneiforme estes dados que em nada lhes interessaria documentar. As lendas do rei sumério de Uruk uniram-se na epopeia acádia de Gilgamesh. Estes aproveitaram-se da matéria-prima original, ampliaram-na a seu belo prazer e criaram um género novo que muitos outros depois imitaram, com Homero, Virgílio e Camões à cabeça de todos eles.

Na Idade dos Heróis épicos, Troia foi tomada, saqueada e incendiada pelos Aqueus, após um cerco de dez anos. Eneias consegue fugir e protagonizar um sem número de aventuras por terra e por mar até chegar à anelada península italiana. Aí, estará na origem da fundação lendária de Roma, cidade imperial que posteriormente conquistará toda o Mare Nostrum mediterrânico, incluindo os antigos territórios gregos. Com esta anexação punitiva, a nova senhora incontestável do mundo conhecido tenta demonstrar a alegada superioridade bélica latina sobre a invejada superioridade cultural helénica. Exageros à parte, cá se fazem cá se pagam.

Os eixos do poder mudaram-se para o novo mundo, levando consigo a secular matriz do velho continente. Para a ereção da capital, os seus arquitetos associaram as colunas e pilastras gregas aos arcos e cúpulas romanas. A acumulação desregrada de originais alheios imitados à exaustão encontra o expoente máximo no Capitólio, um misto de templos helénicos e de basílica latina ou dum bolo de noiva com vários andares. A sujeição da qualidade à quantidade, feita à medida do atual inquilino da Casa Branca, a alimentara-lhe o ego e a transformá-lo num lídimo César global, a vencer aos pontos a loucura de Nero, Calígula ou Caracala.

WASHINGTON, THE CAPITOL. (US-D.C.(1891) 

15 de maio de 2025

Mitos, Lendas & Contos de Fadas

«Foi a mulher que trouxeste para junto de mim que me ofereceu da árvore e eu comi...»
Génesis 3, 12

A arte de contar histórias terá surgido no preciso momento em que o homem adquiriu a capacidade de traduzir por palavras as imitações de realidades vividas ou imaginadasEsta habilidade de criar mundos paralelos numa fase remota, difícil de precisar, ocorreu na chamada etapa infantil ou animista da humanidade. Terá sido também neste comenos que os deuses e fadas entraram em cena nos mitos, lendas e contos que viriam depois a alimentar as literaturas orais e escritas de todos os povos dispersos pelos quatro cantos da terra.

A arte rupestre gravada e pintada em rochas, cavernas e abrigos pré-históricos, os carateres cuneiformes mesopotâmicos cunhados em placas de argila, os pictogramas hieroglíficos traçados nos papiros egípcios faraónicos, os manuscritos greco-romanos registados em rolos antigos e pergaminhos medievais, mais não são do que o germe dos cantos épicos, dramáticos e diegéticos clássicos, das narrativas sapienciais divinas, das fábulas e histórias da carochinha, impressos ou transmitidos de boca em boca e de geração em geração.

O Pomo de Ouro do Jardim das Hespérides, lançado pela Discórdia à mais bela das três deusas do Olimpo, provocou a rivalidade de todas e a Guerra de Troia. O Fruto Proibido da Árvore da Sabedoria, dado pela Serpente a Adão e Eva, levou à sua expulsão imediata do Paraíso Terrestre. A Maçã Envenenada, oferecida pela Rainha à Branca de Neve, causou-lhe um sono profundo e instantâneo, quebrado pela magia do beijo apaixonado do Príncipe Perfeito, num happy end sempre presente e esperado nos contos de fadas.

Mitos e lendas, epopeias e tragédias, histórias e romances, fábulas e apólogos, contos e parábolas, compostos em verso ou em prosa, são tudo produto duma mesma safra imagética, independentemente da natureza do pomar ou de se tratar dum pomo de ouro, dum fruto proibido ou duma maçã envenenada. A grande diferença é que a Literatura Infantil é a mais abrangente de todas as séries gizadas pela criatividade humana ao longo dos tempos, porque, ao contrário da literatura para adultos, se aplica a todos sem limite de idade.

29 de abril de 2025

Sófocles, a cegueira e a clarividência trágicas do rei Édipo de Tebas

Jean-Auguste-Dominique Ingres
Œdipe explique l'énigme du sphinx - 1808
ΟΙΔΙΠΟΥΣ
Τέκνα του Κάδμου του παλιού γενεά νέα, τι συναγμένοι κάθεσθε σ’ αυτούς τους τόπους, με τα κλαδιά της ικεσίας στεφανωμένοι; Και η πόλις είν’ από θυμιάματα γεμάτη, και αντιλαλεί από στεναγμούς κι από παιάνας; Αυτά εγώ απ’ το στόμα να μάθω θέλοντας, κι όχι απ’ το στόμα των μαντατοφόρων ο πολυφήμιστος ήλθα εδώ πέρα Οιδίπους. Λέγε μου ωστόσο γέροντα που σου ταιριάζει πρώτα απ’ τους άλλους να μιλής: η αιτία ποια να ’νε που ήλθατ’ εδώ στεφανωτοί με δάφνης κλώνους; Για ένα κακό που πάθατε ή μήπως γι’ άλλο που προσδοκάτε; πρόθυμος να σας βοηθήσω. Γιατί θενά ήμουν άσπλαχνος αν δεν λυπούμουν αξιολύπητους όπως εσάς ικέτας.

Repete a sabedoria popular milenar que Édipo matou o pai e casou com a mãe. Assimnem mais nem menos, sem esclarecer muito bem a razão de tal insólito. Sigmund Freud encargou-se de clarificar essa dupla singularidade com a formulação do popular complexo centrado na figura do rei/tirano de Tebas, protagonista da tradição lendária grega antiga. Mais abrangente seria o saber do público ateniense contemporâneo dessas histórias pretéritas do que a dominada pelos espetadores/leitores atuais, a ponto de dispensar a menção a alguns eventos significativos ocorridos em data anterior aos representados no drama. Sabia, v.g., ter Laio raptado Crísipo, tendo por isso sido maldito por Pélops e punido por Zeus. O castigo seria executado pelo próprio filho do violador das leis da hospitalidade, que lhe tiraria acidentalmente a vida e desposaria a viúva. Todos os antecedentes causadores do desenlace funesto são de seguida revelados pelas falas ditas pelas vozes em cena no Prólogo, Párodo, Episódios, Estásimos e Êxodo, compostos por Sófocles no Rei Édipo (415 AEC), certamente a mais famosa tragédia ática que até nós chegou.

Às omissões já referidas, haverá que acrescentar os episódios que levaram à morte do velho tirano de Tebas e ao entronamento do novo, tal como do seu passado remoto e enlace com a rainha viúva. É que tanto o público dos festivais dionisíacos urbanos da primavera e dos leneus rurais de inverno, como das Paneteneias quadrienais, sabia perfeitamente que o protagonista havia sido abandonado à nascença, adotado pelos reis de Corinto e tirado fortuitamente a vida ao pai biológico numa rixa travada num cruzamento de caminhos estreitos da Beócia. A tragédia de Sófocles centra-se, precisamente, no processo de autognose de Édipo, determinado em esclarecer a razão da animosidade dos deuses para com a cidade que o escolhera como soberano, por ter decifrado o enigma da Esfinge e livrado a pólis de males maiores, e para as causas que haviam provocado a morte do seu antecessor por um malfeitor desconhecido.

A chave de todo o drama baseia-se na convicção helénica de que ninguém pode fugir à sua sorte. Nem sequer os deuses teriam a faculdade de exercer o livre-arbítrio, de fugir à inevitabilidade ditada pela ananke, a necessidade, força, compulsão, coação ou ordem natural, levada ao extremo da arrogância. O oráculo de Delfos, ao prever o destino do herói/anti-herói que empresta o nome ao drama, guiou em vão os verdadeiros pais a mandá-lo matar. Contra a sua vontade e à de todos os intervenientes na representação cénica dos factos acontecidos, o corifeu e coreutas na orquestra e os atores no proscénio, a liha de vida traçada mesmo antes de nascer acabaria por se cumprir em todos os seus pormenores. O parricídio seguido do incesto, ainda que inconscientes, teriam de seguir o seu trajeto tal e qual estavam predestinados desde a origem dos tempos.

ironia trágica definidora do género distribui-se pela circunstância, algo absurda nos nossos dias, de serem os filhos a expiar os erros dos pais, de tomarem sobre os seus ombros a hybris pretérita dos genitores, propiciando, assim, a catarse purificadora de soberbas mil, descomedimentos e insolências de outrem. Édipo, o todo poderoso pés-furados de Tebas, submete-se às suas próprias leis, vazando os olhos que não tinham visto a realidade enquanto sãos e renunciando ao trono que lhe cabia por herança. Clarividência sábia difícil de repetir desde pelos detentores do poder. Nem sequer em sentido figurado. Estes ouvem os rumores sem fundamento documentado, comutam as dúvidas em certezas e derrubam os caídos em desgraça sem apelo nem agravo. Ignoram o exemplo do descendente de Laio e Jocasta, quando as suspeitas de favorecimentos alheios recaem sobre os seus ombros, demonstrando ser a inocência encarada de modos muito distintos, consoante as molduras conjunturais envolventes, a da honestidade ou a da prepotência. É que de facto, como diz a sabedoria popular, o pior cego é aquele que não quer ver.

ÉDIPO
Meus filhos, nova geração do antigo. Cadmo nascida, que quereis sentados neste lugar, com ramos de suplicantes adornados? A cidade está, a um tempo, repleta de incenso, de peanes e de gemidos. O que entendi  não bastar conhecer pela boca dos mensageiros, vim sabê-lo em pessoa, filhos, eu, nome Édipo, para todos glorioso. Mas vamos, ancião, fala, pois a ti compete falar por eles: em que disposição vieste, por que medos ou anseios? Pois é meu desejo em tudo vos ajudar. Insensível eu seria, se me não apiedasse perante esta vossa atitude. 
Sófocles, Rei Édipo (415 AEC; Prólogo 1-14)