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18 de março de 2025

Olhares de Albrecht Dürer olhados por si mesmo e por quem os quiser olhar

Albrecht Dürer, Selbstbildnis mit Landschaft (1498)
[Madrid, Museo Nacional del Prado]

O autorretrato viajante...

Passei pelo Museu do Prado em 2016 e o meu olhar não se cruzou com o olhar de Albrech Dürer captado em formato de Autorretrato. Na altura, não me apercebi da ausência inexplicável dum olhar seu que já tinham olhado detidamente em visitas anteriores. Quando me apercebi da falta de atenção pessoal então cometida, atribui o facto a ter ocorrido durante uma passagem algo apressada pelas vastas e labirínticas salas da mais famosa coleção de obras de pintura de Madrid. É que a minha atenção nessa primavera já distante e o meu interesse imediato estavam decididamente voltados para a grande exposição ali organizada em honra de Hieronymus Bosch, por ocasião do quinto centenário da sua morte.

Socorri-me da Net para recordar o olhar penetrante do grande mestre renascentista, depois completado nos livros de pintura que o dão a conhecer e até na página oficial do Museu de Arte Antiga de Lisboa. Foi então aí que desvendei o enigma misterioso do seu sumiço madrileno, assinalado aquando da minha última passagem pela capital espanhola. Descobri nessa altura, que o olhar autofixado a óleo numa tela viajara do Passeo del Prado para a rua das Janelas Verdes. Deixara de olhar e ser olhado por quatro meses numa sala majestosa da pinacoteca criada pela rainha Isabel de Bragança por uma sala nobre de exposições temporárias do palácio mandado edificar por D. Francisco de Távora.

Olhados à distância com o olhar duma memória antiga, atualizados com os recursos impressos/virtuais postos à disposição de quem olha e é olhado, revejo o perfil autorretratado a meio corpo do gravurista, pintor, ilustrador, matemático e teórico de arte alemão. Os jogos de olhar de Dürer veem-me à mente como se os estivesse a olhar pela primeira vez. O ambiente cénico que então o envolvia evaporou-se. Supérfluo, inútil, dispensável. Reolho-o sentado de perfil junto a uma janela aberta para o exterior, de mãos cruzadas, em trajo de gala talhado de acordo com as estéticas do olhar da época. A sua, a nossa, a vindoura. Aquela que o olhar da arte fixa para ser olhado para todo o sempre.

8 de julho de 2016

Jardins do Paraíso

Hieronymus Bosch
[Museo del Prado - Madrid] 


CONTOS & QUADROS


«Eu, súbdito feliz da Europa Federada, recebo todos os dias o recado subliminar: “Alegra-te, cidadão, que estás no melhor dos mundos. Tens a Federação e a prosperidade; estás, enfim, no Jardim das Delícias. Agora goza-o, paga os impostos, olha para o ecrã de televisão e não chateies” Tudo isto, evidentemente, omitindo os despedimentos em massa de cada vez que há uma fusão de empresas ou de cada vez que uns quantos acionistas querem comprar um Ferrari novo. A mensagem ignora tudo isso, apenas fala subliminarmente do Jardim das Delícias, na imprensa, nos discursos, nas telenovelas. E eu defeco sobre este jardim, que é uma paisagem de pesadelo, como aquele tríptico do nosso querido Hieronymus Bosch, o qual deve ter tido uma antevisão do futuro que corresponde ao nosso presente. Defeco e não me sinto minimamente feliz.»
NOTA
Agora que a coesão da União Europeia das estrelas douradas em fundo azul começa a vacilar, apetece lembrar as antecipações de futuro ficcionadas por João Aguiar em forma de conto n'O canto dos fantasmas (1900) e de novela n'O jardim das delícias (2005). Tempus fugit vincit qui se vincit...

16 de outubro de 2015

Perversidades, tempestades e delírios

AS TENTAÇÕES DE SANTO ANTÃO (1500)
Hieronymus Bosch
[Museu Nacional de Arte Antiga - Lisboa] 


LIVROS & TELAS

O Pintor Copiador abriu uma garrafinha de terebentina e começou a limpar as mãos com cuidado. O Bosch tinha uma imaginação perversa, disse, ele atribui essa imaginação ao pobre do Santo Antão, mas a imaginação é do pintor, era ele quem pensava todas essas coisas feias, é evidente, acho que o pobre Santo Antão nunca teria imaginado coisas dessas, o Santo Antão era uma pessoa simples. Mas foi tentado, objetei eu, é o diabo que insinua essas coisas perversas na imaginação dele, Bosch pintou a tempestade que se está a passar na alma do santo, pintou um delírio.
Antonio Tabucchi, Requiem (1991: 78-79)