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6 de dezembro de 2024

Sinestesias miradas

Vincent van Gogh

De sterrennacht | A noite estrelada (1889)

[NY, Museum of Modern Art - MoMA]
Olhares, Visões, Prismas, Miragens 
Dizem que Vicent van Gogh era daltónico. O mesmo se diz também de Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo, Tintoretto, Claude Monet, Paul Cezanne ou Andy Warhol. Outros haveria decerto a apontar, se esse modo especial de olhar o mundo perturbasse o jeito como os seus adeptos olham essas sinestesias de cores pintadas a óleo, guache, pastel, aguarela e acrílico nas telas, tábuas, frescos que nos legaram.

Como teria o grande mestre neerlandês colorido A noite estrelada, se não sofresse da alegada anomalia genética de visionar as diferentes frequências de luz refletida nos corpos? Como seria o sorriso da Mona Lisa, se a paleta cromática do seu criador tivesse sido outra? Por certo não atrairiam as multidões habituais no MoMA e no Louvre. Um se muitíssimo longo, inexistente na mancha gráfica que o regista.

As outras suposições fantasiosas para os demais gestores de cores elencados seria igualmente incomensurável. Os fitares, enfoques, prismas e miragens planas vistas com profundidade imaginada pelo engenho e arte da perspetiva. Perceções combinatórias de natureza sensorial distinta, que os espreitares atentos conseguem enxergar nos espaços cobertos com todas as matizes presentes no arco-íris. 

Olhar distorcida da Mona Lisa de Leonardo da Vinci

29 de janeiro de 2020

Os olhares da dama com arminho olhados por Leonardo da Vinci

LEONARDO DA VINCI
«Dama con l'ermellino» (c. 1490)
[Muzeum Książąt Czartoryskich w Krakowie]

Em setembro de 2013, La dama con l'ermellino de Leonardo da Vinci estava a deixar-se olhar por quem a olhava no Zamek Królewski na Wawelu de Cracóvia. Olhar oblíquo o dela, a desviar-se dos olhares dos mirones oriundos dos quatro cantos do mundo. Olhei-a também eu no fundo duma sala meio escura daquele que dizem ser o mais belo castelo real da Polónia. Dirigi o meu olhar para aquela que dizem ser Cecilia Gallerani, a amante do duque Ludovico Sforza de Milão, Il Moro. Olhei-a com mais uma boa dezena doutros olhares, impedidos todos eles de fotografar aquele olhar distante registado pela paleta do retratista nell'ultimo decennio del Quattrocento.      

A Dama com arminho regressou ao Muzeum Książąt Czartoryskich de Cracóvia, concluídas que estão as obras de renovação do mais emblemático museu da cidade. Durante uma década afastou-se 1200 metros a pé da sua residência habitual. Um aventura de nada para quem se viu perdida e achada, roubada e recuperada, admira-da e cobiçada. Voltou sempre incólume e disposta a deixar-se olhar sem se dignar olhar-nos. Viajante de muitas viagens previstas e im-previstas, talvez tenha viajado  este ano para o Louvre, onde o quinto centenário da imortalidade de Leonardo da Vinci se celebra à grande e à francesa em Paris. Os olhares de quem olham agradeceriam.

2 de maio de 2019

Cinquecento anni della morte di Leonardo da Vinci

AUTORITRATTO
(circa 1510-1515)
[Torino, Biblioteca Reale]
Non ho offeso Dio e gli uomini, perché il mio lavoro non ha raggiunto la qualità che avrebbe dovuto avere.
Leonardo da Vinci
Ultime parole prima di morire, 2 maggio 1519
Quando viajo por aí fora, deixo sempre por ver um ou outro recanto interessante para alimentar a vontade de regressar mais tarde ou mais cedo, para assim poder visitá-lo com todo o pormenor exigido. A estratégia tem sido bem sucedida e continua a ser implementada sem vacilação em várias investidas.   

Leonardo da Vinci (1452-1519) antecedeu-me meio milénio na data de nascimento e partiu com 67 anos, tantos quantos os que acabei de celebrar dias em Florença, a sua cidade natal, e onde se destacou como cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico.

A obra do vulto maior do Alto Renascimento toscano está dispersa por todo o mundo culto. A dificuldade de a admirar nos locais públicos e privados que atualmente a detém torna-se particularmente difícil. As comemorações dos 500 anos da sua morte reuniu algumas delas sem atingir completamente o pleno expositivo.

Tenho de voltar a Itália para ver a Ultima Cena na Santa Maria delle Grazie di Milano, o Uomo Vitruviano na Gallerie dell'Accademia di Venezia ou o Autoritratto na Biblioteca Reale di Torino. Tenho de voltar a França para ver a La Belle Ferronnière, o Ritratto di Isabella d'Este ou a La Gioconda no Musée du Louvre.

Tenho de o fazer no inverno para evitar as multidões de verão. Cotejar o sorriso enigmático da Mona Lisa del Giocondo de Paris com o olhar sereno de La dama con l'ermellino de Cracóvia. Tenho de visitar todas as donne e madonne possíveis e pedir-lhes a fare da parte mia gli auguri di buon compleanno a Leonardo.

     La dama con l'ermellino (1485-1490)                       Mona Lisa del Giocondo (1503-1506)
     Muzeum Narodowe, Krakowie                                         Musée du Louvre, Paris      

23 de maio de 2015

A nova era da pedra lascada

Leonardo da Vinci - Uomo Vitruviano (c. 1490)
[Gallerie dell'Accademia, Venezia]

NEOPALEOLÍTICO

Foram descobertos no Quénia ferramentas de pedra fabricadas há 3,3 milhões de anos, ou seja, 700 mil anos mais velhas do que os vestígios humanos mais antigos que resistiram à voragem do tempo. Significa isto que as marcas manufacturadas deixadas pelo homem para transformar a natura são bem mais resistentes do que as marcas biológicas deixadas pelo inventor da cultura.

Com esta capacidade de dar uma nova forma ao mundo, os descendentes da família de mamíferos homínidas procederam à conversão do caçador-recoletor em agricultor-pastor. Aprenderam a pensar, a falar, a comunicar. Inventaram a escrita, erigiram cidades, povoaram a terra. Passaram do estado de barbárie primitiva aos estado de civilização moderna. Fizeram-no por tentativa e erro.

Agora anda por uma horda de kaliphatopithekoi a destruir por onde passam tudo aquilo que outros construíram. A apagar em instantes as marcas de humanidade que as ferramentas criarem em milénios. Usurpadores duma espécie que teimam em negar. Por inversão empedernida do homo sapiens em ignarus. Troglodita empenhado na fundação duma nova era da pedra lascada. Total e definitiva.