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7 de dezembro de 2023

Triangulações de paz em tempo de guerra cantadas em quatro línguas

   TORNERAI - LILI MARLEEN - WE'LL MEET AGAIN     

TORNERAI
Tornerai | da me | perchè l'unico sogno sei | del mio cuor | tornerai | tu perchè i senza tuoi | baci languidi | non vivrò | ho qui dentro ognor | la tua voce che dice tremando amor | tornerò perchè è tuo il mio cuor.
Nino Rastelli / Dino Olivieri (1937)
LILI MARLEEN
Vor der Kaserne | Vor dem großen Tor | Stand eine Laterne | Und steht sie noch davor | So woll'n wir uns da wiederseh'n | Bei der Laterne | wollen wir steh'n | Wie einst Lili Marleen.| | Uns're beiden Schatten | Sah'n wie einer aus | Daß wir so lieb uns hatten | Das sah man gleich daraus | Und alle Leute soll'n es seh'n | Wenn wir bei der Laterne steh'n | Wie einst Lili Marleen.|| Schon rief der Posten | Sie blasen Zapfenstreich | Es kann drei Tage kosten | Kam'rad, ich komm sogleich | Da sagten wir auf Wiedersehen | Wie gerne wollt ich mit dir geh'n | Mit dir Lili Marleen. || Deine Schritte kennt sie | Deinen schönen Gang | Alle Abend brennt sie, | Doch mich vergaß sie lang | Und sollte mir ein Leids gescheh'n | Wer wird bei der Laterne stehen | Mit dir Lili Marleen? || Aus dem stillen Raume | Aus der Erde Grund | Hebt mich wie im Traume | Dein verliebter Mund | Wenn sich die späten Nebel drehn | Werd' ich bei der Laterne steh'n | Wie einst Lili Marleen.
Norbert Schultze / Hans Leip (1915, 1937, 1939)
WE'LL MEET AGAIN
Let's say goodbye with a smile, dear | Just for a while dear we must part | Don't let this parting upset you | I'll not forget you, sweetheart || We'll meet again | Don't know where | Don't know when | But I know we'll meet again some sunny day || Keep smiling through | Just like you always do | 'Til the blue skies chase those dark clouds far away || And I will just say hello | To the folks that you know | Tell them you won't be long | They'll be happy to know | That as I saw you go | ou were singing this song || We'll meet again | Don't know where | Don't know when | But I know we'll meet again some sunny day || And I will just say hello | To the folks that you know | Tell them you won't be long | They'll be happy to know | That as I saw you go | You were singing this song | We'll meet again | Don't know where | Don't know when | But I know we'll meet again some sunny day.
Hughie Charles / Ross Parker (1939)

ENCONTROS - DESENCONTROS - REENCONTROS

Selecionar as canções duma vida é uma tarefa tão espinhosa como praticar o mesmo exercício a nível dos livros, dos filmes, das artes. Há sempre um ou outro título que fica de fora ou à espera de algum melhor que ocupe o lugar. Depois a cifra dos dias, meses e anos deixados para trás passa a superar em muito os que restam ainda pela frente. As hipóteses de encontrar a tal obra capaz de fazer a diferença do já escrito, rodado e olhado diminuem drasticamente. O mesmo se diga do cantado, escutado e trauteado. Deste modo, resolvi restringir o pódio a três únicos casos, unidos pelos tópicos poéticos dos regressos em tempo de guerra. Substitui entretanto as medalhas desportivas de ouro, prata e bronze, pelos discos de platina atribuídos pela indústria fonográfica, pelas cópias vendidas ao longo de décadas e décadas bem contadas e à espera de muitas outras que por aí virão.

A primeira ouvi-a cantar em francês por uma espanhola de Múrcia. A Mari Trini, sucederam-se muitas outras vozes provenientes das mais diversas nacionalidades e idiomas a interpretá-la, até chegar à de Rina Kelly, a cantora ítalo-gaulesa de Turim que gravou a versão original da icónica J'attendrai (1938), convertida de imediato num sucesso internacional durante a Segunda Guerra Mundial e num verdadeiro hino de resistência à ocupação germânica do país. De audição em audição, apercebi-me resultar essa chanson da feliz adaptação duma canzone popularizada em Itália pelo Trio Lescano e Quartetto Jazz Funaro, a Tornerai (1937), que Nino Rastelli e Dino Olivieri criaram inspirados no «Coro a bocca chiusa» da Madama Butterfly de Giacomo Puccini. E assim o «Tornerai da me perchè l'unico sogno sei del mio cuor» se transformou no «J'attendrai jour et nuit, j'attendrai toujours ton retour».

Descobri a história da segunda canção escolhida nas poltronas superdeslizantes do extinto cinema Londres, localizado então na avenida de Roma em Lisboa. Tive como contador privilegiado Rainer Werner Fassbinder, realizador Lili Marleen (1981) protagonizado por Hanna Schygulla, a intérprete dum Lied escrito por Hans Leipe e musicado por Norber Schultze no decorrer de dois conflitos bélicos travados à escala mundial. Até então identificava a composição com Marlene Dietrich, que os cantava tanto em inglês como em alemão. A semelhança sonora dos nomes terá ajudado nessa associação. Só mais tarde é que vim a devolver a Lale Andersen o lançamento absoluto da Lili Marleen (1939) num vinil de 78rpm da Electrola 6993. E os acordes musicais voltaram a soar com toda frescura do original que as palavras vertidas para todas as línguas continuam a fascinar-me sempre que as ouço.

Concluo a triangulação às separações forçadas e regressos adiados em forma de gritos cantados com o contributo britânico de Vera Lynn no We'll Meet Again (1939), um cântico de despedida antes da frente de batalha, idealizado por Hughie Charles e Ross Parker. Os encontros-desencontros-reencontros latentes na mais famosa song inglesa dos tempos da grande guerra civil europeia que incendiou o mundo continuam vivos na nossa memória coletiva. Chegam-nos sempre que os ecos distantes da barbárie Nazi são atualizados nas contendas marciais desencadeados dia após dia, noite após noite à escala planetária, reproduzidos todos eles em direto pelos canais televisivos globais postos à nossa disposição. Instantaneamente. Hora a hora, minuto a minuto, segundo a segundo. E a nós só nos resta perguntar até quando teremos de esperar por esse sol sem sombras evocado na canção.

15 de dezembro de 2022

Um livro, alguns recortes de jornal e muitos versos cantados de Serrat

 Joan Manuel Serrat 
Ara que tinc vint anys | Ara que encara tinc força | Que no tinc l'ànima morta | I em sento bullir la sang || Ara que em sento capaç | De cantar si un altre canta | Avui que encara tinc veu | I encara puc creure en déus || Vull cantar a les pedres, la terra, l'aigua | Al blat i al camí, que vaig trepitjant | A la nit, al cel, a aquest mar tan nostre | I al vent que al matí ve a besar-me el rostre | Vull alçar la veu, per una tempesta | Per un raig de sol | O pel rossinyol | Que ha de cantar al vespre...

Na viragem dos anos 60 para os 70, entrei a passos largos no universo da música de matriz hispânica. Do lado de cá da raia vivia-se então o período áureo dos baladeiros de intervenção pré-revolucionária, mais tarde apelidados a bem ou a mal de cantautores. Do lado de lá, vivia-se identicamente uma situação de profunda e bem-sucedida renovação da canção espanhola, levada a cabo por uma mão cheia de compositores-letristas-intérpretes que se faziam acompanhar quase sempre dos acordes duma simples guitarra.

A primeira a chegar terá sido a Mari Trini, depois o Patxi Andion e um pouco mais tarde o Paco Ibáñez. Creio, também, que a vez do Joan Manuel Serrat terá surgido por volta do festival da Eurovisão de 1968, quando as polémicas em torno do Lá, lá, lá castelhano o impediram de cantar o Lá, lá, lá em catalão. A RTVE afastou-o compulsivamente dos écrans e a voz d'el noi del Poble-sec ou simplesmente Nano foi igualmente silenciada pela Rádio Nacional, boicote que durou até ao final do regime franquista.

A memória duma vinda nessas datas de Serrat a Lisboa ecoa-me nos ouvidos. Cheguei a ser convidado para assistir ao evento que terá sido filmado nos estúdios da RTP. O interesse que então nutria pelo jovem arauto da Nova Cançó catalã levou-me a adquirir o ensaio que Manuel Vásquez Montalbán lhe dedicou, o Joan Manuel Serrat (1972), que adquiri na Compasso de Campo de Ourique. Ainda conservo o exemplar com uma mão cheia de recortes jornalísticos da época e muitos versos no seu interior.

O meu interesse pela arte do poeta-cantor-compositor de Barcelona deve-se por certo ao lançamento entre nós do Mediterráneo (1971), que ouvira à exaustão aquando duma estadia de verão em Badajoz. Destacar uma das dez canções do disco resulta numa tarefa difícil de executar ou demasiado injusto para todas as restantes que a acompanham. Arrisco todavia apontar Aquellas pequeñas cosas, por ser a mais breve de todas, ou, em alternativa, o Barquito de papel, a que já aludi por aqui numa outra ocasião.

Uma das figuras cimeiras da canção hispânica despede-se dos palcos ao fim de 57 anos de carreira bem vivida e com El vicio de cantar 1965-2022. Não o vou ver a Barcelona em dezembro, tal como não o vi em Lisboa quando ainda era um quase desconhecido nestas paragens. Espero que o último concerto seja televisionado e retransmitido depois para todo o mundo ou disponibilizado em-linha na Net. Prémio de consolação para quem não o pode ver ao vivo no Palau Sant Jordi da Ciutat Comtal como gostaria.

7 de abril de 2019

Mari Trini: canciones a mi manera...

           Mari Trini    

não me recordo quando é que ouvi Mari Trini pela primeira vez. Os anos 70 mal tinham começado e já era uma das minhas vozes preferidas. Ouvi-a vezes sem conta em formato EP e K7. Os LP e os CD vieram mais tarde. Agora a via mais fácil de acesso é o You Tube alojado na Net. Mudam-se os tempos, mudam-se as siglas, mudam-se os canais, mas fica o talento para sempre.

Vi-a atuar ao vivo no Casino de Montijo, província de Badajoz. Fi-lo com os meus amigos extremeños. Corria o verão de 74. Seria uma tarde de domingo. As férias estavam no seu auge. A sala estava repleta. A vontade de assistir ao show era enorme. Chegou vestida de branco. Um lenço ao pescoço com um MT bordado. Guitarra na mão. E as palavras cantadas tomaram conta do espaço.  

O concerto foi todo ele alinhado com temas dos Amores (1970) e do Escúchame (1971). Impossível ficar indiferente. Os restantes álbuns depois editados não lograram sobrepor-se ao impacto que esses temas de juventude haviam granjeadoYo no soy esa que te imaginas | una señorita tranquila y sencilla | Que un día abandonas y siempre perdona  | Esa niña si, no | Esa no soy yo...

Um dos nomes maiores do canto hispânico partiu dez anos. Silen-ciosa, sem dizer adeus, numa noite calada. Discreta como sempre. Mañana me ire despacio | sin dejar ninguna huella. A verdade das palavras cantadas foge por vezes à verdade das palavras por can-tarPartiu e deixou muitas marcas nas canções cantadas à sua ma-neira. Canciones que lleva el viento | por su torpe melodía...