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21 de maio de 2021

Fitas & Escritas

« Un jour, parlant à Florinde, appuyés tous deux sur une fenestre, lui tint tels propos : “ Madame, je vous prie me vouloir conseiller lequel vaut le mieux, ou parler ou mourir ? ” Florinde lui répondit promptement : « Je conseillerai tou-jours à mes amis de parler et non de mourir; car il y a peu de paroles qui ne se puissent amender, mais la vie perduë ne se peut recouvrer. — Vous me promettez doncques, dist Amadour, que non seulement vous ne serez marrie des propos que je vous veux dire, mais ny estonnée, jusqu'à ce qu'en entendiez la fin. ” Elle lui répondit : “ Dites ce qu'il vous plaira, car, si vous m'étonnez, nul autre m'assurera. ” »
Marguerite de Navarre, L'Heptaméron des nouvelles (1559)
[Premiere Journée, 10e nouvelle]
É melhor falar ou morrer?
filmes que se veem uma única vez e ficam gravados no nosso imaginário para toda a vida. Outros, pelo contrário, por mais que se vejam, nunca conseguem transmitir uma única ideia que mereça a pena recordar. Dos livros e doutras formas de criação artística pode dizer-se precisamente o mesmo. Neste momento, fico-me com as imagens em movimento associadas a uma coletânea de contos renascentista que a república das letras regista como uma obra de referência digna de ocupar um lugar de destaque no Parnaso, a residência de Apolo e das suas nove Musas.

Num habitual zapping rápido de exploração, deparei-me com um título que me despertou desde logo a atenção. Tratava-se do Call me by your name (2017), uma película de Luca Guadagnino, numa adaptação do romance homónimo de André Aciman. Não resisti à sua visualização integral e não me arrependo de o ter feito. Os especialistas integram a obra no universo de inspiração gay, o que não foge em muito à realidade, mas que pessoalmente prefiro considerar como uma abordagem à iniciação sexual-amorosa dum adolescente de 17 anos de origem judaica.

Com ação centrada na Lombardia, província de Cremona no norte da Itália, corria o ano de 1983, a história é-nos transmitida com diálogos travados em inglês, francês e italiano, com o recurso pontual a outros idiomas. Será o caso da leitura dum breve extrato d'O Heptaméron de Margarida de Navarra, versão alemã parafraseada livremente para a língua inglesa predominante e ponto de partida de todo o argumento cinematográfico. Fixei a pergunta que uma das personagens da 10.ª novela da coletânea coloca e que no português das legendas corresponde a algo como: É melhor falar ou morrer?

Elio resolve falar e dizer a Oliver o que sentia e o caso entre os dois aconteceu. Passaram a assumir o nome um do outro, a demonstrar que enquanto a sua história durasse eram um e um só para o que desse e para o que viesse. Demonstra também que a lição colhida num roman courtois pode influenciar o desencadear duma paixão contada com as técnicas muito particulares emprestadas às fitas e às escritas a uma distância de quase cinco séculos de devir histórico e literário. Se a imortalidade duma obra tivesse de ser comprovada este seria sem dúvida um bom exemplo.