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19 de setembro de 2018

O diário de Anne Frank e o anexo independente da casa dos fundos

«Ik weet dat ik kan schrijven. Een paar verhaaltjes zijn goed, m'n Achterhuisbeschrijvingen humoristisch, veel uit m'n dagboek spreekt, maar... of ik werkelijk talent heb, dat staat nog te bezien.»
Anne Frank, Het Achterhuis, 5 april 1944
Descobri o fascínio dos livros muito cedo. Numa altura em que a televisão dava os primeiros passos e a rádio ainda reinava nas ondas hertzianas, o tempo era gerido dum modo bem mais calmo do que viria a suceder nas décadas seguintes. Preenchiam-se então à maravilha os momentos livres a ler, quando mais não fosse através dos folhetins que saíam periodicamente nos jornais. Estou a ver o meu avô a recortar os capítulos dos romances publicados nas páginas d'O Século. A minha avó, essa, preferia segui-los na Rádio Renascença, ouvido colado à telefonia, a tentar interagir à sua maneira com as personagens de ficção, como se estas fossem seres reais de carne e osso. Entre o ver e o escutar as palavras escritas e faladas fica sempre a recriação de mundos alternativos, feitos à imagem e semelhança dos nossos. Por vezes a ordem dos fatores inverte-se e o faz-de-conta das vidas contadas transforma-se em documentos autênticos de factos acontecidos. Estará neste caso o diário redigido por Anne Frank entre 12 de junho de 1942 e 1 de agosto de 1944, dado à luz nos Países Baixos em 1947, com a chancela da Contact, com o título de Het Achterhuis (= anexo independente da casa dos fundos). A edição portuguesa data de 1955 e ficou a cargo da Record, tendo sido traduzida e prefaciada por Ilse Losa, que seguiu a versão alemã e o original neerlandês.

Entrei em contacto com o Diário de Anne Frank no início dos anos 60. Frequentava à altura o chamado ciclo preparatório e a se'tôra de Português tinha-nos levado a organizar uma biblioteca de turma. Cotizávamo-nos mensalmente, adquiríamos as obras adequadas às nossas idades, permutávamo-los entre nós e procedíamos depois à sua análise em grande grupo. Tarefa ingrata para muitos mas exequível para mim. Ainda hoje me pergunto como é que um testemunho pessoal, tão especial como o traçado por uma jovem refugiada judia à barbárie nazi, passou sem problemas de maior num ambiente escolar regido pelas normas estado-novistas da outra senhora. Mistérios talvez explicáveis pela inocência do título ou pela abertura de espírito da professora de Língua História Pátria. O antes e o depois do testemunho registado em letra de forma não foi escamoteado, muito embora o comentário político aos factos relatados tivesse ficado no tinteiro. Pequena/grande lacuna de pormenor que essa época pretérita aconselhava vivamente a cultivar e os nossos 10/11 anos deixou passar como se de facto não existisse. A riqueza do texto supria as censuras do contexto.

Voltei ao convívio da menina apátrida nascida alemã de origem judai-ca em 1997. Ocorreu em Faro entre 18 de janeiro e 28 de fevereiro, no âmbito da exposição O mundo de Anne Frank, 1929-1945, organizada pela Fundação da Juventude com material disponibi-lizado pela Anne Frank Stichting, de Amesterdão. Adquiri então um exemplar do livro que tinha descoberto 35 anos antes. Aproveitei para o dar a conhecer a um grupo de pré-adolescentes que os pais me haviam encarregado de entreter num clube de leitura. Tarefa inglória, porque nenhum deles mostrou o menor interesse de seguir a história daquela rapariguinha de sorriso aberto, que ocupara grande parte dos dias que cabem em catorze meses e meio a registar a sua rotina quotidiana num caderno de folhas em branco, que lhe fora oferecido num aniversário. Olharam com alguma desconfiança para a mostra fotográfica que vimos em conjunto, que já percorrera dezenas de cidades em 40 países e contara com cerca de seis milhões de visitantes. Reagiram com uma indiferença aparente à realidade do Holocausto e de tudo o mais a ele associado. Foram incapazes de esboçar duas frases seguidas que espelhassem minimamente a experiência visual por que tinham passado ou de ir além das três primeiras páginas do diário. Ficaram-se a meio dos parágrafos iniciais traçados por Annelies Marie Frank a 20 de junho de 1942, um sábado, um pouco antes da autora ter começado a dirigir as suas confidências pessoais em forma de missiva à Querida Kitty, a amiga imaginária que a acompanharia até à sua prisão pela Grün Polizei, passagem por Westterbork e Auschwitz e morte em Bergen-Belsen, o campo de concentração germânico localizado na Baixa Saxónia, tinha então pouco mais de 15 anos de idade.

O terceiro reencontro com o livro é mais fácil de traçar. Aconteceu agora, à distância de quase um quarto de século, já bem entrado um novo milénio. Foi absolutamente casual. O culpado foi o Philip Roth e O escritor fantasma (1979). Na secção 3 do romance apresenta-nos uma enigmática «Femme fatale» que a breve trecho nos apercebemos tratar-se duma alegada Anne Frank, disfarçada de Amy Bellette. Havia sobrevivido à solução final preconizada pelo III Reich e ali estava para contar a sua história secreta a Emanuel Isidore Lonoff, o seu protetor americano e um dos protagonistas do relato. Não a vou revelar aqui. Já tratei o tema noutra ocasião mais propícia. Resgatei o exemplar esquecido no meu gabinete de trabalho e trouxe-o ao meu convívio doméstico. Li-o de ponta a ponta. Fui incapaz de resistir ao apelo que este me fez lá do local onde estava alojado há tanto tempo. Sabe-se lá se haverá uma nova oportunidade de trocar esta edição dos Livros do Brasil por uma versão crítica definitiva entretanto posta à disposição dos leitores à escala global. Pouco importa. O documento humano elaborado num período penoso balizado pela II Guerra Mundial mantém toda a intensidade dramática transmitida aquando da escrita. Olhamos em redor e vemos muitos outros casos de vidas roubadas que em tudo se lhe assemelham. A questão judaica transformou-se em muitas outras questões de ordem indistinta e variada. Basta estar atento aos mass media dos dias de hoje. E mais não digo. Prefiro registar as derradeiras palavras da «mergulhada» no anexo da casa dos fundos da Prinsengracht, o Canal do Príncipe da capital holandesa, quando manifesta a vontade de continuar a ser aquela que gostava de ser, se... sim, se não houvesse mais ninguém no mundo.

10 de setembro de 2018

Philip Roth e as histórias de vida do escritor fantasma

«I turn sentences around. That’s my life. I write a sentence and then I turn it around. Then I look at it and I turn it around again. Then I have lunch. Then I come back in and write another sentence. Then I have tea and turn the new sentence around. Then I read the two sentences over and turn them both around. Then I lie down on my sofa and think. Then I get up and throw them out and start from the beginning. And if I knock off from this routine for as long as a day, I’m frantic with boredom and a sense of waste.» 
Philip Roth, The Ghost Writer (1979)
Há livros que falam de livros. Há outros livros que vão mais além e falam dos autores que escrevem livros. Contos, novelas, romances. Livros que falam das voltas que é preciso dar a uma frase para a juntar a outras frases identicamente martirizadas, palavra a palavra, até encontrarem a versão final. Aquelas que depois de terem sido marteladas incessantemente numa Olivetti serão entregues às rotativas das impressoras e confiadas ao público leitor. Philip Roth consegue tudo isto n'O escritor fantasma (1979), primeiro volume duma trilogia e epílogo protagonizada por Nathan Zuckerman, um jovem e auspicioso romancista em princípio de carreira, que nos proporciona um proveitoso encontro com a literatura e com os grandes livros que a compõem.

A badana de capa da edição que me serviu de abre-te, Sésamo! às histórias contidas no seu interior dá-nos logo um lamiré sobre a sua trama discursiva, tecida como se se tratasse do diário duma ilusão. Remete-nos, sem o explicitar, para a lei das três unidades dramáticas concebidas por Aristóteles na Poética. Tempo, espaço, ação. Tudo se passa numa única noite, na casa de campo de E. I. Lonoff, autor reputado do bildungsroman e figura de culto do protagonista-narrador da fábula, numa conversa sobre a literatura e a vida. Nesse encontro de homens das letras, o consagrado e o promissor, desenvolvem um diálogo que os levará, passo a passo, a revelarem as fronteiras entre a existência imaginária das personagens feitas de papel e tinta e a concreta vivida pelas pessoas de carne e osso.

A unidade e a diversidade da memória, traçadas pelo eu enunciador, cruzam-se na questão judaica, que atravessa o relato de ponta a ponta, sem pausas nem rebuços, distribuída de forma avassaladora pelas quatro partes dramáticas postas em cena. As dedicadas ao maestro ou anfitrião, a Nathan Dédalo ou convidado, à femme fatale ou discípula do mestre e à casada com Tolstoi ou anfitriã. As referências literárias são evidentes neste labirinto discursivo de ramificações hipertextuais, típico das narrativas que falam doutras narrativas. As gizadas pelo grande escritor, as vividas pelo aprendiz de escritor à imagem das descritas por James Joyce no Retrato do artista enquanto jovem, as imaginadas por Amy Bellette no papel duma Anne Frank sobrevivente do holocausto nazi e as de Hope Lonoff a abandonar o lar conjugal à semelhança do vulto maior das letras russas de todos os tempos.

Lidos os livros, os reais e os virtuais, pergunto-me quem será mesmo o escritor fantasma. O que se mantém por vontade própria nos bas-tidores do sucesso, o que procura a todo o custo o reconhecimento público à sombra duma celebridade consagrada, o que se esconde por detrás dessas figuras da ficção decalcadas duma realidade fac-tual concreta. Por alguma razão Nathan Zuckerman e Emanuel Isidore Lonoff podem ser entendidos como duas vertentes comple-mentares do alter ego multifacetado de Philip Roth, situadas nas duas fases do seu percurso fecundo pelos universos da escrita. O sujeito externo de enunciação romanesca a escolher um sujeito interno como verdadeiro transmissor duma autenticidade artística almejada. Um risco assumido por um contador genial de histórias verdadeiras como se fossem fingidas.