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5 de outubro de 2025

Majestades fidelíssimas desconstruídas

Altezas reais & majestades fidelíssimas caídas

O cardeal Dom Henrique recusou o tratamento de Sua Majestade, quando imprevistamente subiu ao trono, por morte do sobrinho-neto em Alcácer-Quibir. A seu ver, o título era demasiado imponente para ser usado por um mero mortal. Manteve, assim, a designação de Sua Alteza Real no curto período de tempo em que pela Graça de Deus foi Rei de Portugal e dos Algarves (1578-1580).

Dom Sebastião foi o único membro da Casa de Avis a usufruir dessa honraria, que lhe foi outorgada por Filipe II de Castela. Fê-lo na entrevista de Guadalupe (1577), dado o sobrinho ter acalentado o desejo de juntar aos reinos, senhorios e domínios lusitanos a conquista de África. O resultado dessa aventura está bem à vista, com a perda da vida na Batalha dos Três Reis (1578).

Os Braganças seguiram o exemplo dos Áustrias e mantiveram a titularia, estilos e honras como fórmulas de endereçamento real já usuais por todo o lado. Não descansaram, porém, até terem um estatuto similar à Sa Majesté Très Chrétienne gaulesa e Su Majestad Católica hispânicaDom João V conseguiu-o finalmente da Santa Sé, ao obter o epíteto de Sua Majestade Fidelíssima (1748).

A grandiosidade, imponência e excelência majestática e fidelíssima há muito ruíram sem deixar saudade ou rasto visível.. Cavaram à sua volta uma realeza destituída, exilada, caída. Os ventos republicanos varreram-na de vez do nosso horizonte de eventos. A ostentação parasitária monárquica persiste na memória anquilosada de alguns à espera duma bastilha redentora que há muito tarda.

25 de agosto de 2023

Olhares dos Avis-Áustria, olhados por Sánchez Coello e Cristóvão de Morais

Don Carlos (1564) & Dom Sebastião (1565)

Alonso Sánchez Coello e Cristóvão de Morais

Os dois primos de Avis-Áustria parece que se olham sem nunca se terem olhado olhos nos olhos. Nem na vida real nem na versão pintada. O olhar do Príncipe Don Carlos das Astúrias foi captado pelo olhar de Alonso Sánchez Coelho em Madrid. O olhar d'el-Rei Dom Sebastião de Portugal foi captado por Cristóvão de Morais em Lisboa. Os retratos dos netos de Carlos V e de Dom João III estão dispostos para quem os quer olhar a uma distância ainda maior. O filho de Filipe II e de Maria Manuel na capital austríaca e o filho de Juana de Áustria e de Dom João Manuel na capital espanhola.

Colocados lado a lado na disposição virtual de circunstância, num face a face evitado pelo olhar dos dois pintores régios quinhentistas das coroas ibéricas, os dois retratos são o produto das alianças matrimoniais multigeracionais estabelecidas entre primos e primas direitos e por partida dupla. O resultado está à vista de quem quiser olhar com olhar de quem olha estes dois bisnetos de Dom Manuel I de Portugal e Algarves e de Maria de Aragão e Castela. Um olhar atento não deixa escapar alguns dos traços fisionómicos que os retratistas não deixaram de fixar com o seu olhar de artistas.

Don Carlos (1545-1568) morreu encarcerado nos seus aposentos pessoais do Real Alcázar de Madrid, por insanidade mental, traição e tentativa de parricídio. Tinha então 23 anos e não chegou a lançar um olhar soberano sobre os domínios do pai, os tais onde o sol nunca se punha. Dom Sebastião (1554-1578), altivo, mimado e louco como o primo, morreu aos 24 anos no campo de batalha de Alcácer-Quibir, longe de poder olhar para o seu almejado império de além-mar em África. Triste fim para os herdeiros de príncipes, reis e imperadores das estirpes dos Habsburgo hispânicos e dos Avis lusitanos.

O Príncipe das Astúrias e o Rei de Portugal mais do que se olharem como primos-irmãos, bem podiam olhar-se como meios-irmãos, que detinham cerca de 50% de genes familiares em comum, fruto de fusões consanguíneas a perder de vista na árvore genealógica a que o seu olhar pudesse enxergar. Partiram os dois sem deixar descendência, assim como sucederia aos seus sobrinhos-netos, bisnetos, trinetos, tetranetos ou primos afastados de Carlos II de Espanha e Afonso VI de Portugal. Olhar distante duma parentalidade ancestral, há muito tempo malquista, malvista ou mal-olhada.

1 de dezembro de 2021

A disputa familiar das coroas ibéricas ou o dualexit dinástico à portuguesa

José da Cunha Taborda - Aclamação de Dom João Ⅳ (1823)
[Lisboa: Palácio Nacional da Ajuda]

No Primeiro de Dezembro de 1640, o risco da associação dinástica tolerada dos Avis-Beja com os Habsburgo-Áustria se converter numa anexação imperial imposta dos primeiros pelos segundos conduziu inevitavelmente ao dualexit, i.e., ao fim anunciado da Monarquia Dual, aquela que durante 60 anos unira os destinos de Portugal e Castela. A Guerra da Aclamação de 28 anos seguintes deitou por terra o projeto filipino de substituir a união pessoal das duas coroas peninsulares numa união real dirigida a partir de Madrid. A edificação duma Ibéria multinacional, à semelhança do Benelux de além-Pirenéus, tem soçobrado a todas as hipóteses entretanto levantadas em quase quatro séculos de devir histórico.

Quando as sondagens de opinião pululam e os resultados oscilam entre o real e o imaginário, o crédito que idealmente nos deveriam merecer é cada vez mais ténue. Independentemente dos dados percentuais obtidos de aceitação do pan-iberismo, o sentimento que ainda hoje se vive entre nós assenta na secular sabedoria popular quando afirma sem oscilar que De Espanha nem bom vento nem bom casamento. As notícias que de vez em quando vêm dos lados de lá da fronteira também não ajudam muito a alterar o secular preconceito contido no provérbio. O plano de Franco para invadir Portugal ou o mapa de Portugal anexado pelo Vox ao império espanhol. Faits divers sensacionalistas que o subconsciente retém.

Faz hoje três anos que celebrei em Sevilha a minha carta de alforria profissional. Não o repeti até hoje por razões alheias ao meu querer. Gosto muito da Ciudad del Nodo e da piel de toro española. Sem preconceitos. Não nego que gostaria de ver os dois países unidos e não ignoro tratar-se duma tarefa a roçar a utopia. Haveria que resolver o problema da república/monarquia que nos separa, do acordar o emprego paritário das línguas que nos identificam, optar por uma capital marítima/continental que nos represente e un montón más de quebra-cabeças que não cabe aqui elencar. Para o ano vou a Sevilha se o Covid deixar. Um quadriénio de autonomia laboral não é uma efeméride qualquer que se deixe passar facilmente em branco.

Os primos desavindos & de costas voltadas
Filipe  de Castela - Dom João 
 de Portugal

5 de outubro de 2021

Bastardias duma monarquia milenar

Fanny Nushka, Petit bâtard (2019)
[Saatchi Art]

bas·tar·do
(francês antigo bastard, francês bâtard)
Que não nasceu de matrimónio. Que não é de casta pura. Que não é puro; degenerado. Filho ilegítimo.

Diz-se que a monarquia portuguesa nasceu bastarda e assim se manteve até ter sido mandada às ortigas quando a República chegou. Faz hoje precisamente o número redondo de 111 anos. Estou a reportar-me ao segundo Condado Portucalense, refundado em 1096 por Henrique de Borgonha, casado com Dona Teresa de Portugal, filha ilegítima de Afonso de Castela e Leão.

As bastardias monárquicas prosseguem aquando da passagem conflituosa da primeira dinastia real lusitana para a segunda. Beatriz de Borgonha é impedida de suceder ao pai por suspeita de infidelidade matrimonial cometida pela mãe, por alguma razão apelidada de Aleivosa. Ironicamente, é derrotada pelo Mestre de Avis, filho ilegítimo de Dom Pedro Ⅰ de Portugal e Algarve.   

A sorte não esteve do lado do filho natural do infante Dom Luís tal como estivera com Dom João Ⅰ. O Prior do Crato, apesar de ter sido aclamado rei de Portugal e cunhado moeda nessa qualidade, foi derrotado por Filipe Ⅱ das Espanhas, o todo poderoso primo da Casa de Áustria. Morreu exilado em Paris e com ele as aspirações de recuperar a coroa que detivera de julho a agosto de 1580.

Esgotadas as bastardias diretas, entra-se nas indiretas da união ibérica e da realeza lusitana autónoma, oriundas de descendentes remotos do primeiro duque de Bragança, filho natural do Rei da Boa Memória. A única incerteza assenta nas alegadas origens espúrias de Dom Miguel, assente nas apregoadas ligações adulterinas de Carlota Joaquina de Bourbon, a pouco fiel consorte de Dom João Ⅵ.


cd

Nos dias que correm, as preocupações genéticas das castas puras deixaram de fazer sentido. Tornaram-se obsoletas. O sangue azul dos filhos-de-algo foi substituído pela nobreza do sangue vermelho dos filhos-do-vulgo. A linhagem dos presidentes eleitos deixou de fazer parte da coisa pública com a extinção de infantes, príncipes e reis. Morta a Monarquia, viva a República! Agora e sempre, viva!...

1 de dezembro de 2020

Sonhos de união ibérica sem fusão ou anexação

    MIGUEL DA PAZ DE AVIS E ARAGÃO   
Príncipe Herdeiro de Portugal & Príncipe de Asturias y Gerona

Uniões e desuniões dinásticas peninsulares

Celebra-se hoje sem pompa nem circunstância o feriado do Primeiro de Dezembro ou da Restauração da Monarquia Lusitana, separada de vez dos destinos da Hispânica e confiados a título pessoal e sem fusão ou anexação a um Rey de tódalas Españas. A união ibérica de 1580-1640 foi desfeita pela força das armas 380 anos, quando os Áustrias Filipinos se renderam dinasticamente aos Braganças Joaninos. O estado de emergência nacional que vivemos em plena crise pandémica condicionou grandes ajuntamentos junto ao obelisco da praça dos Restauradores em Lisboa, onde uma escassa centena de manifestantes costuma comemorar a efeméride, compelida a fazê-lo, neste 2020 aziago de COVID-19, entre as 5h00 da manhã e as 13h00 da tarde. Provavelmente ninguém dará pela sua falta, salvo duma mancheia de mirones curiosos costumeiros e vezeiros nestas ocasiões e dum punhado de saudosistas monárquicos solidário com o atual pretendente ao extinto trono português, por regra presente na cerimónia, acompanhado de toda a autoproclamada família real.

O sonho duma Ibéria unificada não nasceu com a Monarquia Dual. É tão antigo quanto os primitivos reinos medievais, herdeiros diretos do legado romano-visigodo e manifestaram-se à vez nos diversos espaços políticos hispânicos, regidos por soberanos aparentados entre si. Dom Fernando Ⅰ de Portugal quis ser rei de Castela após o assassinato de Pedro Ⅰ pelo irmão, por ser bisneto legítimo de Sancho Ⅳ, enquanto o fratricida Enrique Ⅱ o era por via bastarda. O Formoso foi derrotado nas três Guerras Fernandinas em que se envolveu, travadas entre 1369 e 1382, dando assim origem ao Interregno de 1383-1385, quando o trono português foi disputado pelo Mestre de Avis e por Juan I de Castilla. A suspeita de bastardia materna que caiu sobre Dona Beatriz de Portugal acabou por recair em Juana la Beltraneja ou a Excelente Senhora, destituída do trono castelhano pelas mesmas razões, levando o tio materno e marido Dom Afonso de Portugal a declarar guerra a Isabel Ⅰ de Castilla e Fernando Ⅱ de Aragón e derrotado na Batalha do Toro em 1476.

As crises surgidas com as sucessões dinásticas problemáticas nem sempre foram resolvidas com recurso a confrontos bélicos travados pelos litigantes. Por vezes também se fizeram por via pacífica sem recurso ao poder de embate de exércitos rivais. Os Reis Católicos não se coibiram de casar a filha mais velha com dois herdeiros de Dom João Ⅱ. A Infanta Isabel, após enviuvar do Príncipe Dom Afonso, desposaria em segundas núpcias o futuro Rei Dom Manuel Ⅰ. Por golpes sucessivos do destino, a nova rainha consorte portuguesa ascenderia a herdeira dos pais, daria à luz o Príncipe Miguel da Paz e sucumbiria de parto. Pela primeira vez na história peninsular, as coroas de Portugal, Castela e Aragão teriam um soberano, aceite por todos sem derrame escusado de sangue. De 24 de agosto de 1498 a 29 de julho de 1500 datas do nascimento em Saragoça e da morte em Granada do Príncipe de Portugal, Astúrias e Gerona ‒, o sonho ancestral da unificação peninsular pairou no horizonte. Depois desfez-se subitamente no ar. Durara menos de dois anos.

Dom Manuel Ⅰainda desposou a Infanta Maria, irmã da anterior consorte, mas os direitos ao duplo trono castelhano-aragonês haviam transitado para a Princesa Joana-a-Louca, casada desde 1496 na Flandres com Filipe-o-Formoso, Duque titular da Borgonha. A tríplice aliança então gorada não seria muito diferente da lograda em 1580 com FilipeⅡde Espanha. O filho varão do Venturoso nunca pisou terra portuguesa e é pouco provável que alguma vez o viesse a fazer, a menos que os deveres dinásticos do momento assim o exigissem de modo categórico. Anteciparia aquilo que os três Filipes da Casa de Áustria fariam mais tarde, enquanto senhores do cetro lusitano. A política de aproximação entre as casas reais de Avis-Beja e de Trastâmara-Habsburgo só vingaria com o herdeiro de Isabel de Portugal e de Carlos Quinto, Sacro-Imperadores Romano--Germânicos e reis de Castela, Leão, Aragão e Navarra. O facto estava consumado e só findaria no Primeiro de Dezembro de 1640, efeméride que hoje se celebra sem pompa nem circunstância.

Armas de Fernando I, D. Beatriz, Afonso V, Joana, Miguel da Paz & Filipe II  

20 de novembro de 2020

Velázquez e as meninas da infanta

[Museo Nacional del Prado - Madrid]
menino, na
Del port. menino 'niño'.
1. m. y f. Niño de familia noble que entraba en palacio a servir a la reina o a sus hijos.
Diccionario de la lengua española - Real Academia Española

A figura da Senhora Infanta e Arquiduquesa Margarita María Teresa de Austria domina o retrato de família pintado por Diego Rodríguez de Silva y Velázquez em 1656. A protagonista tinha então cinco anos de idade e ainda lhe faltariam outros dez para se tornar na Imperatriz Consorte do Sacro Império Romano-Germânico e de trocar de vez o Cuarto del Príncipe e demais dependências do Real Alcázar de Madrid pelos salões do Kaiserlicher Palast de Hofburg em Viena, após o seu casamento com o tio materno e primo Leopold Ⅰ de Habsburg.

O pintor sevilhano representou a filha de Filipe Ⅳ de Espanha e de Mariana de Austria a olhar de revés para quem a olha de frente, de lado e de todos os ângulos possíveis, que tanto podem ser os pais refletidos no espelho da parede de fundo dos aposentos palacianos, como serem os visitantes que todos os dias admiram a tela exposta numa das salas maiores do Museo Nacional del Prado, desde a sua fundação em 1819 pela Rainha Consorte de Espanha Dona Maria Bárbara de Bragança, segunda esposa de Fernando Ⅵ de Borbón.

A futura soberana imperial está ladeada pe'Las Meninas, que dão nome ao óleo, então designado Retrato de la señora emperatriz con sus damas y una enana ou La familia del Señor rey Phelipe Quarto, depois simplificado para La familiaAs açafatas ou damas de honor da rainha, tal como a sua real senhora, vestem os guarda-infante e apresentam-se numa posição de vénia protocolar. De joelhos e com o olhar fixo na ama de doña María Agustina Sarmiento, levemente inclinada e com o olhar perdido no vazio de doña Isabel de Velasco.

Dão ainda colorido ao quadro e em posição destacada as figuras da anã hidrocéfala alemã Maribárbola Asquin, caricatura grotesca das nobres a quem servia e divertia, e do pajem de câmara e anão italiano de origem fidalga Nicolasito Pertusato, entretido a pisar um mastim deitado no chão. Num plano mais recuado e a meio corpo, vislumbra-se doña Marcela de Ulloa, camareira-mor da infanta e da rainha, a falar com o mentor don Diego Ruiz Azcona. Em pano de fundo, no vão duma porta, o aposentador José Nieto observa a cena. 

Os antigos aposentos do Príncipe das Astúrias Baltasar Carlos, onde o mais reputado artista da corte do Rey Planeta instalou o seu atelier, é completada com a presença do próprio pintor. Surge aos nossos olhos defronte do seu cavalete e em pleno labor, com o pincel numa das mãos e a paleta na outra. Ignoramos o que estará a pintar na grande tela colocada à sua frente e dos diversos grupos que nos são revelados no espaço pictórico. Digamos que um quadro dentro doutro quadro a acentuar a dinâmica barroca no seu melhor.

É sempre com grande prazer que dirijo o olhar para o retrato de família dum monarca espanhol que também foi português criado por um pintor espanhol com sangue português herdado dos avós paternos. Sempre que vou a Madrid apetece-me rever este flash do quotidiano palatino castelhano com um toque lusitano muito especialBoca de cena onde o autor plástico, num cruzamento de olhares e linhas de fuga, nos incita a entrar na oficina a observar o ato criativo em curso. Nessas ocasiões, não me faço rogado, aproveito o convite e entro.

14 de setembro de 2020

Os olhares de D. João III e D. Catarina de Áustria olhados por Cristóvão Lopes

CRISTÓVÃO LOPES

D. João III com São João & D. Catarina de Áustria com Santa Catarina
Cópia atribuída a Cristóvão Lopes (c. 1552-1571), original de Antonio Moro

[Convento da Madre de Deus - Lisboa]

Dom João III de Avis-Beja e Dona Catarina de Áustria-Habsburgo, Reis de Portugal e Algarves, estão, há cerca de quatro centúrias e meia, voltados para o altar-mor da Igreja do Convento da Madre de Deus, a olhar desde o coro-alto para a talha dourada barroca que o reveste e a adorar a Sagrada Forma da Eucaristia, na companhia de São João Batista e Santa Catarina. Os dois esposos, cunhados e primos foram retratados em corpo inteiro por Cristóvão Lopes, ajoelhados e de mãos postas a orar, virados um para o outro, mas sem se olharem de frente. O mesmo se diga dos olhares diagonais dos padroeiros pessoais, dos anjos da guarda e do cordeiro divino. Nada de distrações nas devoções religiosas de corte.

Os netos dos Reis Católicos, Isabel e Fernando de Castela e Aragão, podem também ser olhados na versão simplificada do Museu de Arte Antiga, depois de terem sido levados a contragosto do Convento de Nossa Senhora da Esperança para as Janelas Verdes. Continuam em Lisboa, lado a lado, em posição simétrica, mas sem se olharem olhos nos olhos ou para os dois bem-aventurados pela Cúria de Roma que os protegem. Os visitantes olham-nos nos rostos régios fixados no duplo retrato individual contemplativo de aparato palatino, sem lhes encontram, por mais que o façam, o olhar majestático e distante de cada um deles fixado a óleo sobre tábua por Cristóvão Lopes ou por algum outro pintor anónimo da sua oficina.

Ao que se julga saber, este conjunto de Tableaux Vivants dos avós de Dom Sebastião, tal como os bustos do Museu de São Roque, terão sido inspirados em originais de António Moro, datados de 1552, atualmente em dois museus de Madrid, o da irmã de Carlos V no Prado e o do irmão de Isabel de Portugal no Lázaro Galdiano. Aí, ganharam coragem e atreveram-se a olhar de frente quem os olha, que o destino os afastou para espaços diferentes. O duplo olhar piedoso dos painéis portugueses, fruto de quem sobreviveu a nove filhos e à perda de algumas praças do Algarve de além-mar em África, não está espelhado no duplo olhar altivo fixado pelo mestre flamengo, apesar de nessa data os ter retratado de luto carregado.

OFICINA DE CRISTÓVÃO LOPES

D. João III com São João & D. Catarina com Santa Catarina
Cópia anónima, original de Antonio Moro

[Museu Nacional de Arte Antiga - Lisboa]

29 de julho de 2020

A Rosa Tudor e a Romã Trastâmara

TUDOR ROSES AND SPANISH POMEGRANATES
Thomas More, Coronation Suite (1509)
«-Eu sei, Madame. Mas eu sentar-me-ei aqui ao vosso lado e falarei de tudo menos de infelicidade. Os cortinados da antecâmara precisam de ser reparados. Poderei começar a a arranjá-los ou preferis ajudar-me? Talvez pudéssemos bordar um desenho:ou as rosas Tudor ou o nosso próprio emblema de Romã.»
Julia Hamilton, Catarina de Aragão (1973)


Avises, Trastâmaras, Habsburgos & Tudors  


De 9 a 13 de outubro de 2007, passou na RTP1 The Tudors, série pro-duzida pela Peace Arch Entertainment para a Showtime. Segui-a com interesse até ao quarto episódio e com reservas os seis restantes. A mudança de motivação deveu-se sobretudo à falta de rigor histórico registado na sua conceção televisiva. D. Manuel I de Avis nunca se casou com nenhuma princesa inglesa, tendo optado por duas infantas Trastâmaras e uma Habsburgo. Henrique VIII Tudor seguiu a mesma política de aliança dinástica, contraindo matrimónio com a cunhada Catarina de Aragão, viúva do príncipe Artur e irmã mais nova das duas rainhas consorte de Portugal, Isabel e Maria de Aragão e Castela, e tia da terceira, Leonor de Áustria. Uma verda-deira família real, ligada pelos vínculos de sangue às coroas de três países: Portugal, Espanha e Inglaterra.

Tendo o processo de divórcio do filho do vencedor da Guerra das Duas Rosas e da filha dos Reis Católicos tido início em 1530, seria impossível que a hipotética princesa Margarida Tudor se tivesse casado com o Venturoso ou de o ter sequer assassinado, dado que este falecera de morte natural em 1521. A senilidade lúbrica do monarca lusitano resulta também uma brincadeira de mau gosto, dado que por essa altura reinava em Portugal D. João III, de 28 anos de idade, conjuntamente com Catarina de Áustria, a filha mais nova de Joana-a-Louca e de Filipe-o-Belo. Os erros sistemáticos cometidos não se ficam por aqui, espalhando-se um pouco por toda a série de fundo histórico mas tratada como uma história de ficção televisiva. Dispenso-me de elencar a totalidade das fantasias cometidas, porque outros já se deram ao trabalho de o fazer.

Voltei a visionar os pés encardidos do inventado e decrépito rei de Portugal numa reposição do AXN White, iniciada a 23 de março de 2020. A sensação de repulsa causada pela cena repetiu-se com a mesma intensidade experimentada aquando da estreia da série, só que desta vez resolvi rever todos os episódios da primeira temporada e ver como estreia absoluta os restantes episódios das três temporadas seguintes. Este regresso aos dramas conjugais do fundador da Igreja Anglicana levou-me a recordar As seis mulheres de Henrique VIII, uma outra série produzida pela BBC em 1970 e transmitida no ano seguinte pela RTP. O grande sucesso alcançado com essa saga familiar foi, aproveitada pelas Edições Dêagá em 1973, através da publicação de seis volumes centrados em cada uma das rainhas consorte do segundo monarca Tudor.

Quando a viúva do Príncipe de Gales se casou com o Defensor da Católica em 1509, mal imaginava que estava a dar início à Reforma Inglesa. O divórcio em 1533 pôs também termo à aliança da Rosa Tudor e da Romã Trastâmara, representadas por Thomas More na Coronation Suite. A união dinástica da rosa vermelha Lencastre e da branca York deixou de partilhar a Coroa Real com o emblema da tomada do Reino de Granada aos Nacéridas em 1492. A fertilidade simbolizada nos grãos da romã (granada em castelhano) seguida por Catarina de Aragão como divisa produziria um único fruto, a futura Maria-a-Sanguinária, colheita muito escassa para as aspirações de Henrique VIII. Mais certeiro foi o mote seguido pela rainha, Humble and Loyal. Que melhor lema para definir a Humildade e Lealdade que manteve até à morte para a Roma papal e a Londres real.