Mostrar mensagens com a etiqueta Retóricas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Retóricas. Mostrar todas as mensagens

8 de dezembro de 2017

História exemplar das quatro concubinas de Takenobu Matsuura senhor de Hirado

   Toyohara Chikanobu - The shogun celebrating New Year's Day (1838 - 1912)   


A pergunta retórica do senhor de Chikugo...

Takenobu Matsuura, senhor de Hirado, tinha quatro concubinas que constante-mente se tomavam de ciúmes e brigavam entre si. Não as podendo suportar por mais tempo, Takenobu correu com elas do seu castelo. Mas talvez não seja esta uma história muito própria para padres celibatários...
– Acho que esse Matsuura não era nada parvo... – Como Inoue se mostrasse conciliador, o padre ganhara ânimo e desafogava deste modo a tensão.
– Diz isso a sério, padre? Que peso me tira dos ombros! É que acontece com o nosso Japão, e não apenas com Hirado, o que aconteceu a Matsuura. – Rodopiando a tigela nas mãos, o senhor de Chikugo prosseguiu: – As mulheres, neste caso, chamam-se Portugal, Espanha, Holanda e Inglaterra. Uma vez aqui chegadas, ciosas umas das outras, encheram de intrigas e mexericos os ouvidos do marido, o Japão. À medida que ouvia a tradução do intérprete, foi o padre compreendendo onde queria o governador chegar. Estava bem longe de ser um disparate o que Inoue dizia. Quantas vezes, estando ainda em Goa e Macau, ouvira dizer que países protestantes como a Inglaterra e a Holanda, e católicos como Portugal e Espanha, ávidos todos de sucesso neste país, se caluniavam reciprocamente na presença dos japoneses! Por seu lado, envolvidos na mesma rivalidade, os missionários recorriam a idêntica moeda, chegando a proibir severamente os seus convertidos japoneses de todo e qualquer contacto com ingleses e holandeses. – Padre, se tem por inteligente o procedimento de Matsuura, terá de admitir que os motivos que levaram o Japão a proscrever o cristianismo não são assim tão levianos e absurdos.
Enquanto falava, o magistrado exibia um amplo sorriso nas faces rosadas e nédias, ao mesmo tempo que fitava intensamente o padre. Para japonês, Inoue tinha uns olhos estranhamente castanhos e claros, e não se lhe via nas suíças, a menos que fossem tingidas, um só cabelo branco.
– Como a nossa Igreja prega a monogamia – observou o padre ironizando deliberadamente – ou seja, como só consente uma mulher para cada homem, tem o senhor carradas de razão quando entende que se devem despedir as concubinas. Sendo assim, que diria o senhor se o Japão escolhesse uma só dessas quatro mulheres para sua legítima esposa?
– E quem seria essa legítima esposa? Portugal?
– Nada disso! A Igreja católica.
Quando o intérprete, com a sua habitual impassibilidade estereotipada, passou a resposta a Inoue, este desfez o rosto de circunstância até aí afivelado e desatou a gargalhar desalmadamente. Dada a idade que tinha, era um riso demasiado estridente, mas nos olhos dominadores que fitavam o padre não havia a mais pequena emoção. Os olhos, esses não riam.
– Padre, não acha melhor que esse homem chamado Japão deixe de pensar nas mulheres de outros países e se volte unicamente para uma mulher da sua terra, uma mulher da sua plena confiança?
Shusaku Endo, Silêncio (1966)
[Lisboa: Dom Quixote, 2010, cap. 7, pp. 176-177]

10 de junho de 2017

Falar a língua em que se mamou...

Samuel Usque
Consolação às tribulações de Israel
Ferrara, 1553


Prologo

Algũs  ſeñores  quiſerom dizer antes que
ſoubeſem  minha  razam, que fora milhor
auer cõpoſto  em  lingoa  caſtelhana, mas
eu  creo que niſſo nam errey, porque ſen-
do o  meu principal  yntento falar cõ Por
tugheſes e repreſentando a  memoria  de-
ſte  noſſ deſterro  buſcarlhe  per  muitos
meos  e  longo  rodeo,  algum  aliuio aos
trabalhos  que  nelle  paſſamos,  deſconue
niente  era  fugir da  lingua que mamey e
buſcar outra preſtada per a falar aos meus
naturais; E  dado  caſo  que  A  volta ou-
ue muitos do desterro de Caſtela,
e os meus paſſado a daly ajam
ſido, mais razaõ parece
que tenha agora co
nta com o pre-
ſente e
ma-
yor can-
tida-
de.

CONSOLACAM AS TRIBVLACOENS DE ISRAEL 
COMPOSTO POR SAMVEL VSQVE.

NOTA:
Assim se ortografava no tempo de Samuel Usque, assim se ortografava também no tempo de Luís de Camões, assim se demonstra deter cada tempo os seus usos de ortografar a língua que se mamou na infância...

12 de dezembro de 2016

Labirinto de palavras

Theseus und dem Minotaurus im Labyrinth
(C. 275-300 EC)
[Kunsthistorisches Museum, Vienna, Austria]

Retóricas parlamentares...


      — Não posso nem pretendo, honrados juízes e meus bons co-munais, não pretendo nem posso, nem tenho intenção ou possibili-dade de negar e de pôr em dúvida que a proposta ou proposição do benemérito orador que acaba de falar seria daquelas que, dadas as condições, e admitida a possibilidade e conveniência das circuns-tâncias, era talvez, e porventura se apresentaria de um modo, e por tal dedução de causas e efeitos, que eu poderia, e todos nós de co-mum acordo estaríamos dispostos e inclinados a que, admitidos os princípios que são a base e fundamento essencial de toda a doutri-na, consultada somente a suprema, a supina consideração das ra-zões abstratas, e tais que o entendimento, a norma, a lei geral das mais elementares regras da boa administração e da reta congruência dos elementos mais vitais — ou antes daqueles que progridem por certa e invariável marcha desde o seu ponto de partida até o mais culminante; e bem assim firmados naqueles dados estatísticos por mim colhidos e que foram elaborados pela confrontação dos factos — e os factos são tudo na ciência! — Ciência que eu posso dizer com alguma vaidade, que peço me seja permitida, tenho levado desde o caos em que a achei, até outro caos... Quero dizer até onde são os limites confinantes da racionalidade bem entendida; pois se não pode negar que entre os dois máximos perigos do ser e do não ser — como daqui a alguns séculos tem de dizer um grande poeta inglês: To be, or not to be; o que então há de significar traduzido em romance: 
Ou ser capitão-mor ou não ser nada... 
      E citando estas futuras trovas, eu homem de alta ciência que desprezo trovadores e jugulares, sacrifico às musas como Sócra-tes... O conselho sabe quem é Sócrates e quem são as musas; mas quando não soubesse, bastaria dizer-lho eu...
Almeida Garrett, O Arco de Sant'Ana (1845 & 1850: cap. xxxii)

20 de março de 2016

Falemos de equinócios e solstícios...


LE SOLSTICE D'ÉTÉ

21 mars : le printemps, l’équinoxe. On guette chaque signe de l’allongement des jours. L’année se met à dévaler, tout s’accélère. On file vert l’été. Après le 21 juin, déjà, les jours commencent à raccourcir. On s’en amuse, parce que bien sûr les meilleurs mois d’été sont encore à venir, les déambulations dans les rues chaudes, les repas aux terrasses, aux bougies dans les jardins.

 Quand même, lance toujours quelqu’un, soulevant autour de lui une réprobation agacée, quand même, les soirées sont déjà moins longues…

À soixante ans on a franchi depuis longtemps le solstice d'été. Il y aura encore de jolis soirs, des amis, des enfances, des choses à espérer. Mais c'est ainsi : on est sûr d'avoir franchi le solstice. C'est peut-être un bon moment pour essayer de garder le meilleur : une goutte de nostalgie s'infiltre au cœur de chaque sensation pour la rendre plus durable et menacée. Alors rester léger dans les instants, avec les mots. Le solstice d'été est peut-être déjà l'été indien, et le doute envahit les saisons, les couleurs. Le temps n'est pas à jouer ; il n'y a pas de temps à perdre. 

Avec les mots rester solaire. Je sais ce qu'on peut dire à ce sujet : l'essentiel est dans l'ombre, le mystère, le cheminement nocturne. Et puis comment être solaire quand l'humanité souffre partout, quand la douleur physique et morale, la violence, la guerre recouvrent tout ? Eh bien peut-être rester solaire à cause de tout cela. Constater, dénoncer sont des tâches essentielles. Mais dire qu'autre chose est possible, ici. Plus les jours passent et plus j'ai envie de guetter la lumière, à plus forte raison si elle s'amenuise. Rester du côté du soleil. 
Philippe Delerm, Le trottoir au soleil (2011: 14-15)

1 de julho de 2015

Lições da história...

La Cité de Dieu / Augustinus - ms. 216, f. 185 - Amiens - BM . C. 1420


RODA DA FORTUNA

«Quem se encontre fascinado em excesso pelo “grande mundo” da política é amiúde levado a esquecer que também o grande foi pequeno, que para todos e cada um chega a hora da ascensão e da queda, e que até para o mais pequeno chega o momento de levantar a cabeça.»
Cláudio Magris, Danúbio (Quetzal 2010: 293)

17 de junho de 2015

A grande arte de mentir

PIOLHO
Maria del Mar & Marta Gaspar

CARAPUÇAS

A grande arte de mentir é a que entre todas as mais tem tido mais aceitação. Ela tem chegado ao último ponto da aceitação, tem sido adotada por todas as nações com diferentes nomes. Apenas temos uso da razão, já nossos pais no-la vão ensinando com todo o cui-dado e vigilância e insensivelmente nos entranhamos nela com tanto gosto que uma pequena conversa, quando não é marchetada com trezentas ou quatrocentas mentiras, é o mesmo que comer sem sal: não tem graça alguma e, a poucos passos, estão todos a dormir...
ANÓNIMO, O Piolho Viajante, Parte II, carapuça xxxiv (1802-1804)

6 de abril de 2015

Caminhos das Índias



Dobrando o mundo: a terra e os mares...

Empreendimento organizado de descobrimento a longo prazo, o feito dos portugueses foi mais moderno, mais revolucionário, do que as mais largamente celebradas proezas de Colombo. É que Colombo seguiu um rumo sugerido por fontes antigas e medievais, a melhor informação do seu tempo, e se tivesse alcançado o seu propósito confessado tê-las-ia confirmado. Não havia no seu espírito nenhuma incerteza, quer a respeito da passagem na rota para a Ásia, quer a respeito da direção a seguir. Só o mar era desconhecido. A coragem de Colombo consistiu em meter por uma passagem marítima direta para terras «conhecidas» numa direção conhecida, mas sem saber precisamente qual seria a extensão da passagem.

Pelo contrário, as viagens dos portugueses à volta da África e, esperava-se, para a Índia baseavam-se em ideias especulativas arriscadas, em boatos e sugestões. Teriam de ser contornadas terras desconhecidas, utilizadas como escalas de aprovisionamento de alimentos e água em viagem. Esta seguiria para lugares onde a geografia cristã ameaçava com perigos mortais, lugares muito abaixo do equador. Por isso, os descobrimentos portugueses exigiram um programa nacional progressivo, sistemático, passo a passo, para se ir avançando através do desconhecido.

O planeamento a longo prazo foi possível porque os portugueses tinham empreendido uma aventura nacional com espírito de colaboração.
Daniel J. Boorstin, Os descobridores (1983)

26 de março de 2015

Duas culturas, dois povos, dois textos



No ano de 1922, o escritor irlandês James A. Joyce publicou o seu Ulisses, hoje considerado um dos romances do século xx. O romance descreve as errâncias do pequeno-burguês irlandês Leopold Bloom em Dublin ao longo do dia 16 de junho de 1904. Este dia é celebrado pelos fãs de James Joyce como o Bloomsday (um jogo de palavras com Doomsday, o dia do Juízo Final). O herói do romance é judeu. Mas os episódios por ele vividos naquele dia seguem o padrão da Odisseia. Com isto, James Joyce quer recordar-nos de que a nossa cultura é uma Mesopotâmia banhada por dois rios. A fonte de um deles jorra em Israel, ao passo que a do outro nasce na Grécia. E os rios são dois textos centrais que abastecem todo o sistema de irrigação da cultura com histórias ricas em nutrientes.

É que: uma cultura é, não em último lugar, o património comum de histórias que mantém unida uma sociedade. Destas também fazem parte os relatos sobre as próprias origens, ou seja, a biografia (descrição da vida) de uma sociedade que diz à mesma quem ela é.

─  A Bíblia judaica;

O duplo poema épico grego sobre o cerco de Troia a Ilíada (Troia chamava-se em grego Ílion) e a Odisseia, a atribulada e errante viagem de regresso do astuto Ulisses da cidade de Troia destruída para casa e para junto da sua mulher Penélope.

O autor do poema épico grego foi Homero. O autor da Bíblia foi Deus. Ambos têm características de autores mitológicos: Homero não via; Deus não podia ser olhado era proibido fazer dele um retrato.

Dietrich Schwanitz, Cultura (1999 | 2004: 37)

19 de fevereiro de 2015

Diatriba contra el deporte

Ένα υγιές μυαλό σε ένα υγιές σώμα | Mens sana in corpore sano

TARA & MÁCULA

«No conozco mentira más abyecta que la expresión con que se alecciona a los niños: "Mente sana en cuerpo sano". ¿Quién ha dicho que una mente sana es un ideal deseable? "Sana" quiere decir, en este caso, tonta, convencional, sin imaginación y sin malicia, adoce-nada por los estereotipos de la moral establecida y la religión oficial. ¿Mente "sana", eso? Mente conformista, de beato, de notario, de asegurador, de monaguillo, de virgen y de boyscout. Eso no es salud, es tara. Una vida mental rica y propia exige curiosidad, malicia, fantasía y deseos insatisfechos, es decir, una mente "sucia", malos pensamientos, floración de imágenes prohibidas, apetitos que induzcan a explorar lo desconocido, y a renovar lo conocido, desacatos sistemáticos a las ideas heredadas, los conocimientos manoseados y los valores en boga».
Mario Vargas Llosa, Los cuadernos de don Rigoberto (1997).

8 de dezembro de 2014

Estudar ou não estudar

LUÍS ANTÓNIO VERNEY

(Lisboa, 1713 — Roma, 1792)
Quanto à necessidade, eu acho-a grande que as mulheres estudem. Elas, principalmente as mães de família, são as nossas mestras nos primeiros anos da nossa vida: elas nos ensinam a língua; elas nos dão as primeiras ideias das coisas.

E que coisa boa nos hão de ensinar, se elas não sabem o que dizem? Certamente que os prejuízos que nos metem na cabeça, na nossa primeira meninice, são sumamente prejudiciais em todos os estados da vida; e quer-se um grande estudo e reflexão para se despir deles. 

Além disso, elas governam a casa, e a direção do económico fica na esfera da sua jurisdição. E que coisa boa pode fazer uma mulher que não tem alguma ideia de economia? 

Além disso, o estudo pode formar os costumes, dando belíssimos ditames para a vida; e uma mulher que tem alguma notícia deles po-de, nas horas ociosas, empregar-se em coisa útil e honesta, no mes-mo tempo que outras se empregam em leviandades repreensíveis.

Muito mais, porque não acho texto algum da Lei, ou Sagrada, ou Profana, que obrigue as mulheres a serem tolas; e não saberem falar.
Luís António Verney, Verdadeiro método de estudar (1746)

15 de outubro de 2014

Elogio da língua portuguesa

Francisco Rodrigues Lobo, Corte na aldeia. Lisboa: Edições Vercial, 2010

DIÁLOGO I

E verdadeiramente que não tenho a nossa língua por grosseira, nem por bons os argumentos com que alguns querem provar que é essa; antes é branda para deleitar, grave para engrandecer, eficaz para mover, doce para pronunciar, breve para resolver e acomodada às matérias mais importantes da prática e escritura. Para falar é engraçada com um todo senhoril, para cantar é suave com um certo sentimento que favorece a música; para pregar é substanciosa, com uma gravidade que autoriza as razões e as sentenças; para cartas nem tem infinita cópia que dane, nem brevidade estéril que a limite; para histórias nem é tão florida que se derrame, nem tão seca que busque o favor das alheias. A pronunciação não obriga a ferir o céu da boca com aspereza, nem a arrancar as palavras com veemência do gargalo. Escreve-se da maneira que se lê, e assim se fala. Tem de todas as línguas o melhor: a pronunciação da Latina, a origem da Grega, a familiaridade da Castelhana, a brandura da Francesa, a elegância da Italiana. Tem mais adágios e sentenças que todas as vulgares, em fé de sua antiguidade. E se à língua Hebreia, pela honestidade das palavras, chamaram santa, certo que não sei eu outra que tanto fuja de palavras claras em matéria descomposta quanto a nossa. E, para que diga tudo, só um mal tem: e é que, pelo pouco que lhe querem seus naturais, a trazem mais remendada que capa de pedinte.

Francisco Rodrigues Lobo, Corte na aldeia (1619)

13 de setembro de 2014

Retóricas do rei prudente

Alonso Sánchez Coello
 «Felipe II das Espanhas, vestido como Filipe I de Portugal»
 (1580)
Yo lo heredé, yo lo compré, yo lo conquisté. Yo lo heredé, porque me lo resolvieron muchos doctores; yo lo compré, para evitar repugnan-cias; yo lo conquisté, para quitar dudas. Y como lo heredado, compra-do y conquistado es de quien lo heredó, compró y conquistó, de la misma manera Portugal por todas las cabezas es mío, y no de la señora Catalina, que no lo heredó, ni lo compró, ni lo conquistó como yo…
ANÓNIMO, Arte de furtar (1652: XVI, ix, 116)