Mostrar mensagens com a etiqueta Homero. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Homero. Mostrar todas as mensagens

24 de fevereiro de 2025

Homero, a Ilíada e a cólera de Aquiles

                  Páris & Menelau                  

Kalliadès, figuras vermelhas de argila (c. 490-480 aec)

Μῆνιν ἄειδε θεὰ Πηληϊάδεω Ἀχιλῆος
οὐλομένην, ἣ μυρί᾽ Ἀχαιοῖς ἄλγε᾽ ἔθηκε,
πολλὰς δ᾽ ἰφθίμους ψυχὰς Ἄϊδι προΐαψεν
ἡρώων, αὐτοὺς δὲ ἑλώρια τεῦχε κύνεσσιν
οἰωνοῖσί τε πᾶσι, Διὸς δ᾽ ἐτελείετο βουλή,
ἐξ οὗ δὴ τὰ πρῶτα διαστήτην ἐρίσαντε
Ἀτρεΐδης τε ἄναξ ἀνδρῶν καὶ δῖος Ἀχιλλεύς 

Dizem que o fundador da Paideia helénica terá nascido em Esmirna e vivido em Quios, que seria um aedo/rapsodo/compilador cego, que terá criado em data incerta a obra prima/primeira do cânone literário ocidental. A tradição dá-lhe o nome de Homero e assegura ser o autor irrefutável da Ilíada, um longo poema épico de 15 693 versos em hexâmetros dactílicos ou heroicos, distribuídos por 24 livros, um por cada letra do alfabeto grego. A ação remonta à lendária Guerra de Troia travada cerca de 1300-1200 AEC e terá sido gizada oralmente ou por escrito à volta de 800-700 AEC. Entre uma e outra baliza temporal, um hiato de 400 anos de escuridão, a chamada Idade das Trevas, a separar os derradeiros momentos da Cultura Micénica dos inaugurais da Cultura Grega, aqueles em que os mitos/lendas ancestrais deram passo às histórias formatadas na Era Axial, i.e., a sistematização das religiões e da criação dos principais géneros poéticos idealizados em verso e prosa.

Ao invés do que se costuma dizer, a Ilíada não trata na sua totalidade do relato minucioso dos dez anos do assédio, conquista e incêndio de Ílion. Nem sequer referências ao famoso Cavalo de Troia, dado que o seu aparecimento só sucederá no final do conflito sangrento duma década travado entre Gregos e Troianos. O núcleo central da efabulação decorre no final do nono ano do cerco da cidade e não ocupa mais do que cinquenta dias, condensados em pouco mais duma semana. Tudo começa no primeiro verso com a menção à cólera de Aquiles, o Pelida, e culmina no postremo com os funerais de Heitor, o domador de cavalos. Por outras palavras, os heróis épicos por excelência do poema, representantes das duas forças beligerantes pela posse da Pólis situada às portas do Helesponto, a meio caminho do Mar de Mármara, do Estreito do Bósforo e do Ponto Euxino, no limite estratégico entre os continentes europeu e asiático, fronteira natural entre o mundo ocidental e o oriental.

Identificados os actantes fulcrais da refrega homérica, há que apontar os periféricos, os adjuvantes/oponentes de cada uma das forças em presença, bem como do seu contributo na trama. Aquiles dos pés ligeiros recusa-se a combater mais os seus guerreiros ao sentir-se ofendido por Agamemnon, rei de Micenas e líder dos sitiantes, enfraquecendo assim o exército aqueu e levando-os a uma derrota. Este havia-o despojado duma escrava que lhe coubera como butim duma escaramuça recente e só retoma quando o seu amigo Pátroclo é morto num duelo pelo primogénito de Príamo, o rei de Troia. Como vingança, retoma o combate e mata igualmente numa luta de corpo a corpo Heitor, príncipe herdeiro da cidade assaltada. A cólera inicial do filho da deusa Tétis e do mortal Peleu converte-se num apaziguamento final, pondo assim termo ao Poema Épico de Ílion, contado/cantado por Homero para registo pleno dos ouvintes e glória eterna dos heróis.

Quanto ao destino de Helena e Páris, os causadores da conflagração armada de gregos e troianos, bem como da própria cidade-estado que os acolhera, temos de o encontrar na imensidade de textos descritivo-narrativos em verso e prosa, registados em rolos de papiro e pergaminho, sobreviventes à voragem inclemente do tempo com dois mil e oitocentos anos de existência. Procurá-los sobretudo na Odisseia, a epopeia do regresso acidentado de Ulisses a Ítaca, ao encontro de Penélope e Telémaco, a mulher e o filho que já não via há duas décadas, composta também ela por Homero, o grande cosedor de cantos heroicos do ciclo troiano. Feitos inesquecíveis de seres semidivinos a quem deu vida nos seus dias e continuam vivos nos nossos, omnipresentes na memória coletiva de todos aqueles que continuam a ouvir as suas vozes distantes através das palavras registadas nas páginas do livro que temos entre mãos. Assim o prazer pela leitura continue vivo nas nossas práticas quotidianas.

INVOCAÇÃO
Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida | (mortífera!, que tantas dores trouxe aos Aqueus | e tantas almas valentes de heróis lançou no Hades, | ficando seus corpos como presa para cães e aves | de rapina, enquanto se cumpria a vontade de Zeus), | desde o momento em que primeiro se desentenderam | o Atrida, soberano dos homens, e o divino Aquiles.

26 de novembro de 2021

Mulheres-aves & Mulheres-peixes

 Ulysses and the Sirens
John William Waterhouse (1891)
 
Σειρῆνας μὲν πρῶτον ἀφίξεαι, αἵ ῥά τε πάντας
ἀνθρώπους θέλγουσιν, ὅτις σφεας εἰσαφίκηται.
ὅς τις ἀιδρείῃ πελάσῃ καὶ φθόγγον ἀκούσῃ
Σειρήνων, τῷ δ᾽ οὔ τι γυνὴ καὶ νήπια τέκνα
οἴκαδε νοστήσαντι παρίσταται οὐδὲ γάνυνται,
ἀλλά τε Σειρῆνες λιγυρῇ θέλγουσιν ἀοιδῇ
ἥμεναι ἐν λειμῶνι, πολὺς δ᾽ ἀμφ᾽ ὀστεόφιν θὶς
ἀνδρῶν πυθομένων, περὶ δὲ ῥινοὶ μινύθουσι.
ἀλλὰ παρεξελάαν, ἐπὶ δ᾽ οὔατ᾽ ἀλεῖψαι ἑταίρων
κηρὸν δεψήσας μελιηδέα, μή τις ἀκούσῃ
τῶν ἄλλων: ἀτὰρ αὐτὸς ἀκουέμεν αἴ κ᾽ ἐθέλῃσθα,
δησάντων σ᾽ ἐν νηὶ θοῇ χεῖράς τε πόδας τε
ὀρθὸν ἐν ἱστοπέδῃ, ἐκ δ᾽ αὐτοῦ πείρατ᾽ ἀνήφθω,
ὄφρα κε τερπόμενος ὄπ᾽ ἀκούσῃς Σειρήνοιιν.
εἰ δέ κε λίσσηαι ἑτάρους λῦσαί τε κελεύῃς,
οἱ δέ σ᾽ ἔτι πλεόνεσσι τότ᾽ ἐν δεσμοῖσι διδέντων.
Ὅμηρος, Οδύσσεια (39-54)

O canto das sereias

As Sereias (Σειρήνες = «atar com uma corda», «secar») são seres quiméricos criados pelo imaginário primitivo e eternizados pela veia épica grega de Homero na Odisseia, bizantina de Apolónio de Rodes nos Argonautas e romana de Ovídio nas Metamorfoses. Estes entes híbridos verbalizados na origem dos tempos com palavras transmitidas de boca em boca, serão depois convertidos em mitos, lendas e contos, desenhados em vasos de terracota, talhadas em pedra e bronze, pintados em tela, registados em filme e de novo moldados em palavras ditas, cantadas e lidas em todas as línguas delineadas pela criatividade humana ao longo do devir histórico que atravessou séculos e milénios até chegar aos nossos dias.

Os relatos da Antiguidade dizem que Ulisses resistira ao Canto das Sereias fazendo-se atar ao mastro central do navio e que Orfeu já as vencera com o som harmónico da sua voz e da lira por si dedilhada. Filhas aladas do rio Achelous e da musa Terpsícore, viviam junto aos rochedos aguçados das águas revoltas do Mediterrâneo. Segundo os mitos que se foram tecendo, tinham o dom de atrair os nautas que as viam e ouviam as melodias que entoavam. Segundo os contramitos, as mulheres-aves helénicas pairavam sobre a tona agitada do mar, tal como a espuma formada pelo rebentamento das ondas contra as costas escarpas que as acolhiam e pelos ventos uivantes que as impeliam. O ruído gerado seria então o fruto do seu canto fatal.

O fabulário medievo ajustou a relação das sereias pré-olímpicas com o meio aquático em que planavam e põe-nas a nadar depois de as converter em genuínas mulheres-peixes pós-clássicas. Em Varsóvia, a lenda ideou uma sereia lutadora, com uma espada numa mão e um escudo na outra. Em Copenhaga, a Sereiazinha de Andersen fita, com olhar sonhador desde as margens do Báltico, a cidade que a adotou como símbolo perene. Duas estátuas erigidas nos pontos fulcrais de duas capitais europeias, a lembrarem os feitos atribuídos a duas criaturas irreais, a pautarem os universos fabulosos da dimensão humana com ânsias incontidas de fugirem à prisão do imanente e de atingirem a ilusão escorregadia do transcendente perene.    

Sereias de Copenhaga e de Varsóvia

Nos dias da pós-modernidade, os navegadores de águas tangíveis deixaram de ser as únicas presas do canto das sereias. O digital apanhou na sua rede todos os navegadores virtuais à escala global. Surgem-nos agora sem penas nem escamas, sem asas nem cauda, sem barbatanas nem patas de pato, mas bem mais perigosas do que as mediterrânicas ou bálticas suas antecessoras. Tornaram-se reais, seres providencias de carne e osso, capazes de enfeitiçar o argonauta mais atento. Substituíram as melopeias marítimas pelo discurso de ação especialmente apto para atrair os incautos às armadilhas por si engatilhadas. Em tempos eleitorais, cuidado com elas. Não há estratégia odisseica que as possa travar ou calar.    

EPÍGRAFE

Às Sereias chegarás em primeiro lugar, que todos | os homens enfeitiçam, que delas se aproximam. | Quem delas se acercar, insciente, e a voz ouvir  das Sereias |  ao lado desse homem nunca a mulher e os filhos | estarão para se regozijarem com o seu regresso; |  mas as Sereias o enfeitiçam com seu límpido canto, | sentados num prado, e à sua volta estão amontoadas | ossadas de homens decompostos e suas peles marcescentes, Prossegue caminho, pondo nos ouvidos dos companheiros | cera doce, para que nenhum deles as oiça. | Mas se tu próprio quiseres ouvir o canto, | deixa que, nau veloz, te amarrem as mãos e os pés | enquanto estás de pé contra o mastro; e que as cordas sejam atadas ao mastro, para que te possas deleitar com a voz | das duas Sereias. E se a eles te ordenares que te libertem, | então que te amarrem com mais cordas ainda.

Homero, Odisseia. Lisboa: Livros Cotovia, 2003

[Trad. Frederico Lourenço, Ⅻ, 39-54, p. 200]

12 de outubro de 2020

Em demanda da Atlântida platónica

               FRESCO DE AKROTIRI - SANTORINO               

«Entrada dum navio num porto» (séc. XVI AEC)

«Muitos e grandes foram os feitos da vossa cidade que são motivo de admiração nos registos que deles aqui ficaram. Mas, entre todos eles, destaca-se um em grandeza e beleza; os nossos escritos referem como a vossa cidade um dia extinguiu uma potência que marchava insolente em toda a Europa e na Ásia, depois de ter partido do oceano Atlântico. Em tempos, este mar podia ser atravessado, pois havia uma ilha junto ao estreito a que vós chamais Colunas de Héracles [...] Posteriormente, por causa de um sismo incomensurável e de um dilúvio que sobreveio num só dia e numa noite terríveis, toda a vossa classe guerreira foi de uma vez engolida pela terra, e a ilha da Atlântida desapareceu da mesma maneira, afundada no mar.»
Platão, Timeu (24e;25c-d)

Fábula- Mito - Lenda - História - Alegoria...

1. Civilização Micénica
No final do séc. XIX, o empresário alemão Heinrich Schliemann partia para a Anatólia, na Turquia, em busca da cidade de Troia, tomada e destruída pelas forças aliadas gregas em meados do séc. XIII AEC, diz-se que com um exemplar da Ilíada de Homero debaixo do braço em jeito de guia. Estava convicto que a encontraria subterrada em Hissarlik, um montículo de 28m de altura, situado a 6,5km da embocadura dos Dardanelos. Iniciou os trabalhos de escavação em 1870 e rapidamente encontrou a partir dos 7,5m de profundidade sucessivas camadas sobrepostas de ruínas urbanas, entre as quais a da milenar Ílion do rei Príamo e da rainha Hécuba, dos príncipes Heitor e Páris, de Cassandra, de Eneias e Anquises, de Helena de Argos e de tantos outros heróis e heroínas que têm povoado o nosso imaginário ao longo dos tempos. Identificaram-se atualmente onze povoações erigidas naquele local, entre 3500 AEC e sécs. XIII-XIV EC, incluindo a Troia VIIa (c. 1300-1200 AEC), subjugada e aniquilada por Agamémnon, Menelau, Aquiles, Ajax, Ulisses e demais invasores aqueus descendentes de Heleno. Os sonhos de infância do autodidata germânico não se quedaram por aí. No decorrer dessa década prodigiosa e na seguinte, ainda explorou outros assentamentos arqueológicos aqueus, tendo posto a descoberto os restos de Micenas, no Peloponeso, centro da civilização micénica dos Aqueus da Idade do Bronze, bem como Tirinto na Argólida e Orcómeno na Beócia. E assim do mito se fez lenda e desta se fez história.

2. Civilização Minoica
Ignoro se o arqueólogo britânico Sir Arthur John Evans levava consigo a Descrição da Grécia de Pausânias, a Biblioteca Histórica de Diodoro da Sicília, a Geografia de Estrabão ou algum outro texto da literatura clássica greco-romana, quando partiu para a ilha de Creta, tida como a terra-mãe de Zeus e dos deuses do Olimpo, para localizar os vestígios ali deixados pelos povos proto-helénicos, com um destaque especial para as pedras-sinetes ou pedras-de-leite, pequenas peças de olaria gravadas numa escrita indecifrada e usadas na origem como marcas pessoais dos seus donos e depois como amuletos mágicos pelas mulheres em período de gestação. Sabemos porém ser um apaixonado convicto e confesso das lendas labirínticas do Minotauro, de Pasífae e do culto do touro, de Teseu e Ariadne, de Dédalo e Ícaro, de Deucalião e Idomeneu. Segundo testemunho do próprio explorador, o primeiro objetivo que o levara para aquelas paragens fora a descoberta da cidade do Rei Minos e do lendário palácio ali construído, que acaba por encontrar em Knossos, corria então o ano de 1900. A Civilização Minoica, como passou a ser designada, acabava de renascer nesse momento, a par do interesse crescente pelo seu percurso milenar até à data ignorado de todos. A queda abrupta das cidades cretenses continua a ser um dos grandes mistérios por desvendar dos nossos dias. Diz-se ter sido causada pela erupção vulcânica ocorrida na ilha de Santorini por volta de 1400 AECE mais uma vez do mito se fez lenda e desta se faz história.

3. Civilização Atlântida
Muitos têm sido os herdeiros da Civilização Atlântida. Todos têm falhado nas suas pretensões por um motivo ou por outro. É que ao invés de Troia e Knossos, a grande ilha-continente descrita por Platão no Timeu e no Crítias desapareceu do dia para a noite no meio do Atlântico sem deixar atrás de si pedra sobre pedra que nos possa assegurar a sua real existência. A dúvida continua instalada a dividir as mais diversas opiniões. Dizem uns que a Atlântida é uma ficção, uma alegoria, uma fábula que não deve ser levada muito a sério para além da sua dimensão filosófica, duma sociedade perfeita que caiu no pecado da perversidade e foi castigada pelos deuses que a haviam fundado. Dizem outros que a Atlântida existiu mesmo e mais tarde ou mais cedo há de ser encontrada. Dizem alguns ainda que já foi identificada e até a colocam num mapa. Só falta haver um consenso destes últimos em situá-la num mesmo ponto. Superar o problema do espaço e do tempo. Comprovar que o cataclismo se deu 9600 anos AEC num local situado para além das Colunas de Hércules. Tarefa difícil, a que Akrotiri e Tenochtitlán, entre muitas outras, não satisfazem nem de perto nem de longe. É bem verdade que quem conta um conto acrescenta um ponto, pelo que o relato do sacerdote egípcio de Saís fez a Sólon, que o confiou a Drópides, e este ao filho, avô de Crítias, que depois o revelou nos diálogos platónicos referidos até pode ter um pouco de verdade no meio de muita fantasia. E desta feita o mito se fez lenda à espera de se fazer história...

Hernán Cortes, Praeclara Fernandi epistola 
(Nuremberg, 1524)

3 de abril de 2017

Argos, o cão de Ulisses

RHYTON

Pintor de Brygos, «Cabeça de cão» (séc. V AEC)
[Musée Jérôme Carcopino - Aléria (Haute-Corse - France)]


Reconhecimento & Fidelidade

Assim falaram entre si, dizendo estas coisas.
E um cão, que ali jazia, arrebitou as orelhas.
Era Argos, o cão do infeliz Ulisses; o cão que ele próprio
criara, mas nunca dele tirou proveito, pois antes disso partiu
para a sagrada Ílion. Em dias passados, os mancebos tinham levado
o cão à caça, para perseguir cabras selvagens, veados e lebres.
Mas agora jazia e ninguém lhe ligava, pois o dono estava ausente:
jazia no esterco de mulas e bois, que se amontoava junto às portas,
até que os servos de Ulisses o levassem como estrume para o campo.
Aí jazia o cão Argos, coberto de carraças dos cães.
Mas quando se apercebeu que Ulisses estava perto,
começou a abanar a cauda e baixou ambas as orelhas;
só que já não tinha força para se aproximar do dono.
Então Ulisses olhou para o lado e limpou uma lágrima.
Escondendo-a discretamente de Eumeu, assim lhe disse:

«Eumeu, que coisa estranha que este cão esteja aqui no esterco.
Pois é um lindo cão, embora eu não consiga perceber ao certo
se tem rapidez que condiga com o seu belo aspeto,
ou se será apenas um daqueles cães que aparecem às mesas,
que os príncipes alimentam somente pela sua figura.»

Foi então, ó porqueiro Eumeu, que lhe deste esta resposta:
«É na verdade o cão de um homem que morreu.
Se ele tivesse o aspeto e as capacidades que tinha
quando o deixou Ulisses, ao partir para Troia,
admirar-te-ias logo com a sua rapidez e a sua força.
Não havia animal no bosque, que ele perseguisse,
Que dele conseguisse fugir: e de faro era também excelente.
Mas está agora nesta desgraça: o dono morreu longe,
e as mulheres indiferentes não lhe dão quaisquer cuidados.
Pois os servos, quando os amos não lhes dão ordens,
não querem fazer o trabalho como deve ser:
Zeus que vê ao longe retira ao homem metade do seu valor
quando chega para ele o dia da sua escravização.»

Assim dizendo, entrou no palácio bem construído
e foi logo juntar-se na sala aos orgulhosos pretendentes.
Mas Argos foi tomado pelo negro destino da morte,
depois que viu Ulisses, ao fim de vinte anos.

Homero, Odisseia (XVII, 290-327)
Άργος, ο σκύλος του Οδυσσέα

20 de junho de 2015

O cavalo de Troia & os cifrões da Troika

MÁSCARA DE AGAMÉMNON
[Micenas, séc. xvi aec - Museu Nacional Arqueológico de Atenas]
Contam as lendas guardadas na memória dos povos que, em tempos que já lá vão, Agamémnon conseguiu unir todas as cidades-estado helénicas para derrotar um inimigo comum. Recorreu para tal ao pacto dos heróis assinado por todos aquando do casamento de Helena de Argos. Ao fim de dez anos de cerco, Troia caiu nas mãos do rei de Micenas e dos seus aliados aqueus. A ajuda do cavalo de madeira imaginado pelo e engenho e arte de Odisseu, o rei de Ítaca, foi precioso. A mais bela mulher alguma vez nascida na terra foi arrebatada ao raptor, o príncipe Páris de Ílion, e restituída ao legítimo marido, o rei Menelau de Esparta.

A história foi cantada por Homero na Ilíada e na Odisseia, as duas epopeias compostas pelo aedo e rapsodo jónio nos finais do século oitavo antes da era comum. Iniciou assim o período arcaico da literatura grega antiga e matriz inaugural da cultura ocidental atual. As forças confederadas do subcontinente europeu atravessaram o mar Egeu e obtiveram uma vitória decisiva no subcontinente asiático. As portas do Helesponto e do Bósforo estavam abertas e o acesso ao Ponto Euxino assegurado para os vindouros, através das águas mar de Mármara. A hegemonia do Mediterrâneo oriental acabava de ser obtida com a conquista da Tróade.

Volvidos mais de três milénios sobre o confronto de gregos e troianos um outro se vive agora entre gregos e troikanos. A UE que deveria demonstrar uma lealdade para com um dos seus estados-membro virou-lhe as costas. O cerco dos credores será muito mais célere a tomar a cidade de Atenas. Contra os cifrões da Troyka não há cavalo de Troia que lhe valha. Todavia, sempre é bom acreditar que os sobreviventes do poder imperial macedónico, romano, bizantino, otomano e nazi consigam levar a melhor sobre o poder financeiro do FMI, BCE e CE. A bem da Grécia e da Europa, que os descendentes divinos de Heleno ajudaram a fundar.      

26 de março de 2015

Duas culturas, dois povos, dois textos



No ano de 1922, o escritor irlandês James A. Joyce publicou o seu Ulisses, hoje considerado um dos romances do século xx. O romance descreve as errâncias do pequeno-burguês irlandês Leopold Bloom em Dublin ao longo do dia 16 de junho de 1904. Este dia é celebrado pelos fãs de James Joyce como o Bloomsday (um jogo de palavras com Doomsday, o dia do Juízo Final). O herói do romance é judeu. Mas os episódios por ele vividos naquele dia seguem o padrão da Odisseia. Com isto, James Joyce quer recordar-nos de que a nossa cultura é uma Mesopotâmia banhada por dois rios. A fonte de um deles jorra em Israel, ao passo que a do outro nasce na Grécia. E os rios são dois textos centrais que abastecem todo o sistema de irrigação da cultura com histórias ricas em nutrientes.

É que: uma cultura é, não em último lugar, o património comum de histórias que mantém unida uma sociedade. Destas também fazem parte os relatos sobre as próprias origens, ou seja, a biografia (descrição da vida) de uma sociedade que diz à mesma quem ela é.

─  A Bíblia judaica;

O duplo poema épico grego sobre o cerco de Troia a Ilíada (Troia chamava-se em grego Ílion) e a Odisseia, a atribulada e errante viagem de regresso do astuto Ulisses da cidade de Troia destruída para casa e para junto da sua mulher Penélope.

O autor do poema épico grego foi Homero. O autor da Bíblia foi Deus. Ambos têm características de autores mitológicos: Homero não via; Deus não podia ser olhado era proibido fazer dele um retrato.

Dietrich Schwanitz, Cultura (1999 | 2004: 37)

2 de janeiro de 2015

Descidas épicas aos infernos

SANDRO BOTTICELLI
La mappa dell'Inferno di Dante (c. 1480-1490)
[Bibllioteca Apostolica Vaticana]

No término da sua longa viagem de regresso a casa pelas águas mediterrânicas, Ulisses desce às profundezas subterrâneas do Hades, para consultar o adivinho Tirésias e visitar as sombras dos companheiros já embarcados na barca de Caronte (Homero, Odisseia: XI). A catábase helénica promove deste modo simbólico a ligação entre os tempos pretéritos e os vindouros, para assim enfrentar com maior clareza os desafios do dia-a-dia.

O troiano Eneias segue o exemplo heroico do seu inimigo aqueu e desce ao Infernum latino para visitar o pai Anquises, já recebido por Plutão no reino dos mortos, que lhe vaticina as glórias a realizar no porvir pela augusta família imperial romana (Virgílio, Eneida: VI). Faz-se acompanhar da sibila de Cumas, que o guia nesse labirinto soturno de tristeza plena e lhe permite uma saída segura desse espaço cavernoso normalmente sem retorno.

Uma das viragens poéticas do mundo antigo para o moderno é feita pela visão renascentista de Dante. Escolhe Virgílio para visitar o Inferno e o Purgatório e Beatriz para subir ao Paraíso. Nesta pere-grinação ao outro lado da existência humana, às esferas do trans-cendente católico do pós-morte e além-vida, o arquiteto da Divina Comédia arroga-se o direito de julgar o mundo que lhe era hostil, arrumar a casa e preparar-se para as batalhas ainda por travar.

Os fogos de artifício dedicados a Ianus, o deus latino das passagens, já se extinguiram como efémeros que eram. Iluminaram o mundo nos primeiros minutos do ano novo. Depois a noite voltou tão negra como havia sido no ano antigo. As premonições da taróloga Maya pairam indecisas no ar. A descida aos infernos da vida real regressa, enquanto a subida aos paraísos ilusórios dum ano bom esperam impacientes por mais uma final/início de ciclo redentor.