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15 de dezembro de 2022

Um livro, alguns recortes de jornal e muitos versos cantados de Serrat

 Joan Manuel Serrat 
Ara que tinc vint anys | Ara que encara tinc força | Que no tinc l'ànima morta | I em sento bullir la sang || Ara que em sento capaç | De cantar si un altre canta | Avui que encara tinc veu | I encara puc creure en déus || Vull cantar a les pedres, la terra, l'aigua | Al blat i al camí, que vaig trepitjant | A la nit, al cel, a aquest mar tan nostre | I al vent que al matí ve a besar-me el rostre | Vull alçar la veu, per una tempesta | Per un raig de sol | O pel rossinyol | Que ha de cantar al vespre...

Na viragem dos anos 60 para os 70, entrei a passos largos no universo da música de matriz hispânica. Do lado de cá da raia vivia-se então o período áureo dos baladeiros de intervenção pré-revolucionária, mais tarde apelidados a bem ou a mal de cantautores. Do lado de lá, vivia-se identicamente uma situação de profunda e bem-sucedida renovação da canção espanhola, levada a cabo por uma mão cheia de compositores-letristas-intérpretes que se faziam acompanhar quase sempre dos acordes duma simples guitarra.

A primeira a chegar terá sido a Mari Trini, depois o Patxi Andion e um pouco mais tarde o Paco Ibáñez. Creio, também, que a vez do Joan Manuel Serrat terá surgido por volta do festival da Eurovisão de 1968, quando as polémicas em torno do Lá, lá, lá castelhano o impediram de cantar o Lá, lá, lá em catalão. A RTVE afastou-o compulsivamente dos écrans e a voz d'el noi del Poble-sec ou simplesmente Nano foi igualmente silenciada pela Rádio Nacional, boicote que durou até ao final do regime franquista.

A memória duma vinda nessas datas de Serrat a Lisboa ecoa-me nos ouvidos. Cheguei a ser convidado para assistir ao evento que terá sido filmado nos estúdios da RTP. O interesse que então nutria pelo jovem arauto da Nova Cançó catalã levou-me a adquirir o ensaio que Manuel Vásquez Montalbán lhe dedicou, o Joan Manuel Serrat (1972), que adquiri na Compasso de Campo de Ourique. Ainda conservo o exemplar com uma mão cheia de recortes jornalísticos da época e muitos versos no seu interior.

O meu interesse pela arte do poeta-cantor-compositor de Barcelona deve-se por certo ao lançamento entre nós do Mediterráneo (1971), que ouvira à exaustão aquando duma estadia de verão em Badajoz. Destacar uma das dez canções do disco resulta numa tarefa difícil de executar ou demasiado injusto para todas as restantes que a acompanham. Arrisco todavia apontar Aquellas pequeñas cosas, por ser a mais breve de todas, ou, em alternativa, o Barquito de papel, a que já aludi por aqui numa outra ocasião.

Uma das figuras cimeiras da canção hispânica despede-se dos palcos ao fim de 57 anos de carreira bem vivida e com El vicio de cantar 1965-2022. Não o vou ver a Barcelona em dezembro, tal como não o vi em Lisboa quando ainda era um quase desconhecido nestas paragens. Espero que o último concerto seja televisionado e retransmitido depois para todo o mundo ou disponibilizado em-linha na Net. Prémio de consolação para quem não o pode ver ao vivo no Palau Sant Jordi da Ciutat Comtal como gostaria.

15 de maio de 2018

Barquinho de papel


TERMAS CALDAS - PISCINA

Na década 50/60, o Hospital Termal Rainha D. Leonor abria as portas a 15 de maio. Iniciava-se uma nova temporada balnear e celebrava-se o feriado municipal da cidade. Realizava-se então a Festa do Pau Caiado. Se bem me lembro, a banda tocava e plantavam-se umas bandeirolas alusivas com um mastro colorido nas imediações dos edifícios joaninos da Câmara e das Termas. Haveria os discursos pelo meio que se me varreram da memória.

Do que me recordo muito bem é que nas praias estremenhas o verão terminava em meados de agosto. A nortada varria tudo à sua frente menos os nevoeiros que se instalavam com caráter definitivo até se transformarem nas chuvadas de inverno. Tempo de rumar a outras paragens mais abrigadas. Fugir às intempéries sazonais ainda em período de férias escolares. Depois das águas geladas do mar seguiam-se inexoravelmente as águas mornas das caldas.

Cumpri este ritual anos a fio. Nunca tive outra opção. Ali fiz e desfiz amizades entre as inalações matinais e vespertinas. Sobretudo numa das fontes de águas santas chamada piscina. Aí a criançada jogava às cartas, ria-se de tudo e de nada e fazia barquinhos de papel. De seguida, punha-os a navegar ali mesmo naquele oceano de vagas sufúricas, para navegarem à maneira de Serrat, sem nome, sem patrão, sem bandeira e sem leme, aonde a corrente os levasse.