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5 de maio de 2023

Uma cantiga de amigo dialogada com refrão de Dom Dinis no Dia da Língua

CANTIGAS MEDIEVAIS GALEGO-PORTUGUESAS

[Iluminura do Cancioneiro da Ajuda]

               Ai flores, ai flores do verde de pino

Ay flores ay flores do uerde pyno

Se sabedes nouas do meu amigo

       Ay de9 y hu e

Ay flores ay flores do uerde ramo

Se sabedes nouas do meu amado

       Ay de9 y hu e


Se sabedes nouas do meu amigo

Aquel qmètiu do q’po9cõmigo

       Ay de9 y hu e


Se sabedes nouas do meu amado

Aql qmètiu do q’ mha iurado

       Ay de9 y hu e


Vos me pcgùntades polo uossamigo

E eu bè v9 digió q’ e sanoe vyue

       Ay de9 y hu e


Vos me pcgùntades polo uossamado

E eu bè v9 digió q’ e vyue sanoe

       Ay de9 y hu e


E eu bè v9 digió q’ e sanoe vyue

E sera uos canto prazo passado

       Ay de9 y hu e

Dom Dinis, B 568, V 171 

Obs.: Assim se falava e escrevia no tempo de Dom Dinis (1261-1325), o rei-trovador que instituiu o Português como língua oficial do país (1297) e fundou a primeira universidade portuguesa em Lisboa (1288-1290).

1 de julho de 2022

Julho, o mês natal do divino Júlio

Julius Caesar

Workshop of Colin Nouailher (c. 1541)
IULO. (Iulus.) Iulo (em latim Iulus) é outro nome do filho de Eneias, Ascânio. É a ele que se vai buscar a origem do nome da família dos Iulii, à qual pertenciam César e, por adoção, Augusto. Iulo fundou no Lácio a cidade de Alba, a metrópole de Roma.
Pierre Grimal, Dicionário da mitologia grega e romana (Lx: Difel, 1992, 255b)

Tal como el-rei D. Dinis, Caio Júlio César (100-44AEC) fez tudo quanto quis. Tudo ou quase tudo. Nasceu patrício, foi militar e morreu político. Fez-se general, ditador e cônsul. Conquistou, governou, subornou. Foi tribuno militar, pontífice máximo e primeiro triúnviro. Contribuiu para converter a República em Império. Só lhe escapou ‒ como desejaria ‒ a coroa real e a imperial. Foi impedido de as usar por um grupo de senadores que o assassinaram nos idos de março, na cúria pompeia do Campo de Marte. A César o que é de César a Roma o que é de Roma.

O membro da Gens Júlia, alegado descendente de Vénus, Eneias e Ascânio, esposo de Cornélia Cinila e amante de Cleópatra Filopátor, tio-avô e pai adotivo de Otávio Augusto, obteve após a morte o título de Divino Júlio com direito a um templo no fórum romano. Fundador da dinastia Júlio-Claudiana ou dos Doze Césares, influenciou ainda os senhores absolutos dos impérios europeus modernos, pretensos herdeiros legítimos do antigo Império Romano que tentaram imitar, tais como o Kaiser germânico e o Czar russo, evoluções fonéticas claras do Cæsare latino.

As vitórias bélicas alcançadas na Gália e na Britânia estenderam-se a outros campos de batalha. Apoiou a reforma do calendário romano tradicional organizada pelo astrónomo Sosígenes de Alexandria e usou depois o seu próprio nome para o batizar de calendário juliano. NaturalmenteTambém aqui veio, viu e venceu. O Qvintilis Mensis lunissolar transformou-se no Iulius Mensis de 365 dias e seis horas do ciclo anual solar. Julho passou a ser o sétimo mês do ano, aquele em que o senhor absoluto de Roma viera ao mundo para o dominar a seu belo prazer.


DICT PERPETVO CÆSAR
[Antiqua Roma Denarius, c. 44 AEC]

5 de maio de 2021

Histórias da Língua

«Em 1297, findado o processo de Reconquista, D. Dinis, monarca e grande mecenas da literatura trovadoresca, adotou o português como língua do reino de Portugal, assim como seu avô Afonso X, o Sábio (1221-1284), monarca de Leão e Castela, anos antes fizera com o castelhano, ao mandar redigir na língua grandes obras históricas, astronómicas e legais. O caráter oficial possibilitou ao português seu desenvolvimento autónomo em relação ao galego, língua esta que, em virtude da expansão territorial portuguesa e da dominação castelhana, perdeu a importância literária de outrora.»

  Dia Mundial da Língua Portuguesa  

Fala-se muito tempo na integração do Português no seio das línguas oficiais da ONU, dado ser a mais difundida no Hemisfério Sul e a terceira no Ocidental, para além de ser a sexta a nível global. A grande objeção situar-se-ia nas divergências escritas que separavam as normas escritas portuguesa e brasileira, problema resolvido com o Acordo Ortográfico de 1990, que agora o mundo lusófono interpreta à sua maneira, não afastando as habituais questiúnculas atávicas de lana-caprina que nos caraterizam. Como se as diferenças existentes entre o francês europeu e o canadiano, o inglês britânico e o ianque ou o castelhano peninsular e o hispano-americano tenham impedido a sua oficialização pelos estados-membros que o constituem

A iniciativa até é louvável mas algo difícil de concretizar como tem vindo a ser demonstrado. Nem a eleição de António Guterres como nono Secretário-geral da Organização das Nações Unidas em 2017 resolveu o impasse. Aliás, seria muito pouco espetável que fora do espaço da lusofonia as suas intervenções internacionais passassem a ser proferidas na língua materna no desempenho das suas funções. Fá-lo-ia tanto como grande parte dos deputados nacionais ao Parlamento Europeu o fazem no seio da União Europeia, muito embora o Português seja um dos seus idiomas oficiais, preferindo fazê-lo em Inglês, mesmo após a consecução do Brexit e da saída subsequente do Reino Unido da associação de países em 2020. 

Polémicas à parte, celebra-se hoje nos nove países da CPLP, o Dia Mundial da Língua Portuguesa, instituída em 2019 pela Unesco. Data recente em comparação com a própria idade do idioma, difícil de achar, embora disponhamos de alguns dados para a sua identificação relativa. Sabe-se, por exemplo, cumprir-se agora o 724.º aniversário da sua adoção como língua oficial das chancelarias régias de Dom Dinis, ocorrida em 1297. Todavia, parece que desde 1255 Dom Afonso III já o fazia a par do Latim. Depois, consideremos ainda os documentos mais antigos redigidos em vernáculo, como a Notícia de Fiadores de 1175, lavrada no reinado de Dom Afonso Henriques. Mais ano menos ano, aqui ficam os meus votos de parabéns.

26 de março de 2021

Reino do Algarve

Lucas Janszoon Waghenaer 
(c. 1600)

Um reino sem rei...

Sou de Lisboa, estudei no Porto, vivo em Coimbra, estou no Algarve. Nesta perspetiva, fica-se sem se saber ao certo se se está em Lagos ou em Portimão, em Silves ou em Olhão, em Vila Real de Santo António ou qualquer outra parte da extinta província e atual região do distrito de Faro. De repente, o Algarve transformou-se na maior cidade do país, numa metrópole sem o ser, com o tamanho dum velho reino sem rei, a persistir nos tempos de hoje no seio duma república há mais duma década centenária.

A unificação das antigas taifas de Silves, Tavira e Santa Maria do Algarve, inseridas no Gharb al-Andaluz muçulmano do Califado de Córdova e do Império Almorávida, deu origem ao Reino do Algarve, conquistado em momentos distintos pelas armas cristãs, com início no reinado de Dom Sancho I (1189) e concluído no de Dom Afonso III (1249), que se intitularam respetivamente Rei de Portugal, de Silves e do Algarve e Rei de Portugal e do Algarve. 

O segundo Reino da Coroa de Portugal, também disputado pela de Castela, será separado do Reino de Niebla por Afonso X que o lega em testamento ao neto Dom Dinis, pelo tratado de Badajoz (1267). Mais tarde, com a conquista das praças de Marrocos, foi ampliado pelos Avis para Reino dos Algarves, d'Aquém e d'Além-mar em África, integrando ainda no tempo dos Bragança o efémero Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (1815-1822).

A singularidade da integração da taifa de Santa Maria do Algarve na Coroa Portuguesa deu-lhe o estatuto de reino de direito, nominal, sem instituições, foros, privilégios ou autonomia, um mero título honorífico e nada mais. Sa'id b HarunMuhammad al-Mu'tasim foram os seus únicos emires, não voltando a ter um rei próprio. Caso à parte no mapa administrativo do país, apesar de no referendo de 1998 ter dito não à regionalizaçãoVá-se lá entender porquê.


      BRASÕES DE ARMAS & ESTANDARTE DO REINO DO ALGARVE    
Johannes Janssonius, Atlas Contractus, 1666 
Francisco Coelho, Thesouro de Nobreza, 1675
VABL Design,  Armas Reino de Algarve, 2019

20 de julho de 2015

Os rankings do cicerone de Coimbra

DIPLOMA DA FUNDAÇÃO DO ESTUDO GERAL DE LISBOA
Leiria, 1 de março de 1290 - Dom Dinis
[Arquivo da Universidade de Coimbra]
Nos meus tempos de menino e moço, participei numa visita de estudo a Coimbra. O cicerone de serviço no Paço das Escolas forneceu-nos então um conjunto de dados estatísticos que me deixaram embasbacado durante toda a adolescência. Entre outros pormenores de menor monta, afirmou estarmos na mais antiga universidade do país e na quinta a nível mundial, logo a seguir às sediadas em Bolonha, Paris, Oxford e Salamanca.

Deixada a ingenuidade dos verdes anos, a que a gíria anglo-saxónica remete para a categoria dos teenagers, apercebi-me que o ranking então apresentado carecia de algum rigor histórico, sobretudo no que à realidade nacional se refere. O Estudo Geral de Lisboa foi criado por iniciativa d'el-rei D. Dinis, lavrada na carta Scientiæ thesaurus mirabili, assinada em Leiria a 1 de março de 1290 e ocupando a 16.ª posição nas suas congéneres europeias.

A certidão de nascimento do Estudo Geral de Coimbra remonta a 26 de fevereiro de 1308. Iniciava-se nessa data uma série de seis transferências/regressos dos Studium Generale entre as cidades do Tejo e do Mondego que só terminará na Lusa Atenas em 1537, já no reinado de D. João III. Durante dois séculos e meio, a corporação medieval portuguesa de estudantes comportou-se como uma verdadeira universidade vagabunda sem paralelo conhecido.

Decorridos 725 anos sobre a efeméride, o aniversário da fundação régia da primeira universidade portuguesa é celebrada com toda a pompa e circunstância pela segunda como se fosse a mais antiga do país. Faz-se tábua rasa dos documentos guardados nos arquivos nacionais e dá-se livre trânsito ao faz de conta que dá jeito a quem os segue e sanciona. Afinal o cicerone de Coimbra é que tinha razão de espalhar aos sete ventos a fantasia do seu ranking académico.