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19 de novembro de 2021

Karen Blixen, a história contada de Ehrengarda, a ninfa do lago

En gammel dame fortalte denne historie…
For hundrede og tyve år siden, begyndte hun, fortalte min historie sig selv, over et længere tidsrum end De eller jeg nu kan give til den, og med et mylder af enkeltheder og biomstændigheder, som vi aldrig kan håbe på at lære at kende.
Karen Blixen, Ehrengard (1963)

uma cena no filme de Sydney Pollack, Out of Africa (1985), onde Meryl Streep, a encarnar o papel de Karen Blixen, nos demonstra a capacidade inata que a aristocrata escandinava tinha de contar uma história, de a improvisar de viva voz quando a ocasião surgia e dispunha dum público atento para a ouvir e se deixar envolver pela intriga. Ao passarmos da versão oral para a escrita, a sensação imediata de quem a é a mesma. Tal o caso do Ehrengarda, a ninfa do lago (1963), um conto redigido em inglês, trabalhado depois pela autora e publicado em dinamarquês um ano após a sua morte.

Depois de lidos os livros com dimensão de conto, publicados avulso ou em coletâneas, transpostos ou não para o pequeno ou grande ecrãs, com suporte em vídeo ou bobine de celuloide, o universo imagético criado pela baronesa de Blixen-Finecke possui o dom inato de nos prender à densidade discursiva que nos é dado sempre com a maior economia de meios gráficos e editoriais. Os géneros e subgéneros transmitidos são conjuntamente variados e singulares. A estrutura aparente dum conto de fadas parece ser o modelo seguido neste texto que nos deixou a título póstumo.

A entidade narrativa incumbida de unir as várias vozes que contam a história tem sempre em pano de fundo o testigo duma velha senhora, sua bisavó, através dos escritos por si recebidos dum participante na ação. A crise dinástica dos Fugger-Babenhausen está cindida em três partes/movimentos, anotados na didascálico inicial da comediazinha representada em meados do século dezanove num esquecido e fictício principado livre, alegadamente extinto e diluído no Império Alemão. Ao extenso prelúdio-pastoral-rondó, segue-se um breve epílogo no trecho final da crónica grã-ducal de Lotário (= guerreiro famoso) e Ludmilla (= amada do povo), bem como do desempenho em cena de Ehrengarda (= guarda de honra), a dama de honor da herdeira consorte do trono, a Ninfa do Lago, retratada como Vénus no banho pelo pintor da corte Herr Cazotte.

O raconto deixado inédito pela antiga dona duma quinta africana e senhora absoluta de Rungstedlund nas imediações de Copenhaga, também conhecida por Isak Dinesen, expõe-nos um cenário mágico sem fadas nem bruxas, sem elfos nem duendes, sem feitiços nem varinhas de condão, sem reis nem rainhas, sem sequer dispor dum final feliz. Revela-nos, todavia, alguns segredos de alcova, intrigas de bastidor e duelos travados pelas linhagens dinásticas legítimas e pelos ramos colaterais duvidosos de grão-duques e grã-duquesas, de príncipes e princesas, de damas e cavaleiros de nobreza registada nos anais ancestrais dum país de fantasia. Dá-nos ainda a conhecer o caso irónico dum sedutor que acaba seduzido, singularidades laterais a rivalizar com a centralidade da palavra dita feita escrita.

13 de maio de 2021

Karen Blixen, uma história imortal da baronesa contadora de histórias

„Jeg holder ikke af opspind, jeg holder ikke af profetier. Det er forrykt og uanstændigt at give sig af med uvirkelige ting. Jeg holder mig til virkeligheden. Jeg skal sørge for at forvandle dette stykke opspind til virkelighed
Karen Blixen, Den udødelige historie (1958)

O meu fascínio pela escrita de Karen Christetze Dinesen é antigo e perene. Data do início dos anos oitenta, quando visitei a Dinamarca pela primeira vez. Lidos os livros disponíveis no mercado, me resta voltar às segundas e terceiras leituras que nos trazem sempre algo de novo a explorar desse manancial singular que nos legou, em parte já editado com caráter póstumo. Recomecei a viagem com a História Imortal, um dos cinco contos inseridos na coletânea Anecdotes of Destiny / Skæbne-Anekdoter (1958) e mais tarde impressos avulso.

O exemplar que tenho comigo corresponde à mais antiga tradução portuguesa feita e publicada entre nós da obra da grande contadora de histórias de inspiração gótica, a quem alguém considerou com legítima razão a Sherazade do Século Vinte. Foi-me oferecido pela Sílvia S., residente no país e profunda admiradora da Baronesa Blixen-Finecke, aquando do lançamento pela Assírio & Alvim em 1985 do relato. Escrito originalmente em dinamarquês e vertido depois pela autora para inglês, ou vice-versa, as duas variantes divergem nos pormenores, mantendo, todavia, uma estrutura narrativa idêntica. Para conciliar em parte as discrepâncias encontradas, a versão composta e prefaciada por Aníbal Fernandes seguiu de muito perto a fonte gaulesa que vertera diretamente da escandinava em detrimento da britânica.

Condicionada pelo seu estatuto de mulher, a contista-novelista recorreu a diversos pseudónimos para tornar pública a sua produção literária. O mais divulgado foi o de Isak Dinesen, mas também o de Osceola e Pierre Andrézel, tendência masculinizante mais seguro na época para garantir algum sucesso editorial, prática que as modernas edições têm vindo a desfazer, substituindo-os a todos eles pelo de Karen Blixen, um semiortónimo pelo qual a Baronesa passou a ser reconhecida nos dias de hoje no universo das letras tomadas a nível internacional.

Cruzadas todas as lições disponíveis do texto, incluindo a adaptação cinematográfica de Orson Welles de 1969, fica-nos como pano de fundo o conto que Mr. Clay, um poderoso comerciante de chá de Cantão, mão de ferro e espírito avarento, ouvira em tempos sobre um marinheiro que fora abordado à chegada a um porto por um velho muito rico e lhe propusera, a troco de cinco guinéus, engravidar a jovem esposa que até ao momento lhe não dera nenhum filho a quem deixar a sua imensa fortuna. Ao aperceber-se tratar-se duma ficção repetida de boca em boca como uma anedota em que ninguém acreditava de facto, resolveu torná-la realidade, porque detestava profecias e não era de acreditar em fábulas imaginárias. Assim o pensou, assim o fez, transformando esse seu projeto numa verdadeira história imortal.

Os pormenores seguem nas oito dezenas de páginas imaginadas pela ilustre aristocrata de Rungstedlund, nas imediações de Copenhaga, aquela que esteve casada com um barão sueco, que teve e viu falir uma plantação de café no Quénia e que para sobreviver financeiramente foi obrigada a dedicar-se à literatura aquando do seu regresso ao país natal. Em boa hora o tomou essa decisão, dado a vida do café ser efémera, desaparecendo para sempre depois de plantado, processado, torrado, fervido e bebido, enquanto a vida dum conto bem contado renasce em cada momento que o lemos, podendo ascender à esfera superior da eternidade. Assim aconteceu com esta história imortal cuja perenidade já vinha registada no próprio título com que foi composto, impresso e oferecido aos leitores, que somos todos nós.

5 de fevereiro de 2016

Karen Blixen, contos de inverno com sabor dinamarquês

"Tragedy should remain the right of human beings, subject, in their conditions or in their own nature, to the dire law of necessity. To them it is salvation and beatification." 
Karen Blixen, "Sorrow-Acre", IN Winter's Tales (1942)
Entretive-me este inverno a reler os Contos de inverno (1942) e os Novos contos de inverno (1957) de Karen Blixen. Um sol estival em plena estação hibernal. Milagres meteorológicos promovidos pela república das letras. A viagem de revisitação às duas coletâneas de textos, redigidos originalmente em inglês com o pseudónimo de Isak Dinesen, iniciou-se na capital dinamarquesa, na passagem do Natal de 2015 para o Ano Novo de 2016. Boas saídas, melhores entradas. Fi-lo através duma edição avulso de «Uma temporada em Copenhaga», título bem apropriado para avivar a memória dum conjunto de relatos que me foram apresentados há cerca de duas décadas. Encontrei-os a olhar para mim nos expositores da livraria da Rungstedlund, a Casa Museu da autora, situada nas costas bálticas do Øresund com vista para a Suécia. As imagens fixadas por Sydney Pollack na versão filmada do África minha (1985) estavam ainda muito vivas nas minhas retinas, levando-me a testar a facilidade que a protagonista tinha de contar histórias e de cativar os ouvintes com a sonoridade das suas palavras. Quis juntar-me ao auditório, partilhar esse privilégio de sedução verbal e adquiri todos os títulos que ali achei então à minha inteira disposição. 

E a inventora de heróis da imaginação começou logo a segredar-me ao ouvido, em jeito de confidência, o caso dum jovem aprendiz de marujo, que salvou um falcão e foi salvo por uma lapoa; a aventura dum escritor infeliz no porto de Antuérpia, que queria fugir da própria vida; o símbolo misterioso dum colar, que tinha uma pérola suplementar; os artifícios de duas irmãs arruinadas, que se faziam passar por herdeiras de grande fortuna; os atos destemidos duma heroína durante a grande guerra... E mais não me disse nessa altura, porque a contracapa onde lera a síntese desses cinco primeiros relatos se ficara por essas reticências indesejadas. Abandonei o Have og fuglereservat, o jardim e santuário de pássaros que envolve a casa senhorial onde a baronesa escandinava nasceu, morreu e criou todo o seu universo de faz-de-conta, como só ela sabia fazer, entrelaçando de modo indelével o real e o ideado. Apanhei um autocarro e dirigi-me a um sítio tranquilo para iniciar a descoberta completa de todo o manancial literário contido nos volumes impressos em tamanho de bolso que ganhara nessa tarde de verão dinamarquês em tempo de férias boreais. 

Viagem vai, viagem vem, os enredos tão cuidadosamente tecidos foram sendo revelados um a um. Os sonhos grandiosos dum jovem órfão, originados pelas descrições entusiastas duma solteirona; as fantasias duma jovem órfã com nome de protagonista de mito grego; as alusões ao assassinato do rei Eric V, pressagiado por um anel achado na barriga dum peixe; o trajeto de Peter e Rosa pelas águas geladas do Sundo, ao largo do porto de Helsingor, em direção à fronteira invisível entre o mar e o céu, entre a vida e a morte, entre o tudo e o nada; a história trágica duma viúva, que, para salvar o filho da prisão, aceita ceifar um campo de centeio num único dia, quando em situação normal a tarefa exigiria o trabalho de três homens; o longo debate sobre a criação artística e a sua relação com os espetadores, que a transformam numa obra-prima ou numa caricatura digna de lástima. Os argumentos aí estão. Resumidos. Para que a vontade de conhecer os pormenores se não perca. E a resenha nem sequer foi exaustiva. Ficaram ainda alguns por visitar e referir. Estão agrupados na categoria dos últimos contos. Apetece-me destacar aquele que nos exibe uma modalidade muito especial de aplicar a justiça, digna dum drama passional, dum libreto de ópera ou duma história infantil, centrado num jovem rei português não identificado. Obviamente. No universo da literatura tradicional de vocação exemplar, os nomes contam pouco. Depois há ainda um diálogo travado em 1767 por Cristiano VII e Johannes Ewald, o monarca e o poeta dinamarqueses que tanta tinta fariam correr nos tempos conturbados que se lhe seguiram. E fico-me mesmo por aqui. 

Ao longo da visita, perguntei-me várias vezes sobre o significado do título dado ao conjunto destas catorze micronarrativas. O facto de terem sido compostas em ambiente de guerra, quando a contadora nata de contos fazia o percurso dos 57 para os 72 anos de idade, pode ajudar a justificar o inverno como estação específica escolhida. O século XIX, aquele em que veio ao mundo, é chamado à colação para servir de cenário aristocrático ou campesino privilegiado às fábulas, lendas, mitos e histórias trazidas à presença dos leitores-ouvintes como eu. É que, como é referido no corpo da obra, os quadros e os livros são feitos para ser olhados e lidos. Só existem de facto se tiverem espetadores. Caso contrário, a arte deixaria de existir. Destino que as palavras pronunciadas por Karen Blixen (1885-1962) no inverno da sua existência não se arrisca a correr. Nem de longe nem de perto.

6 de janeiro de 2016

Karen Blixen, a quinta africana da baronesa escandinava

Hun havde en farm i Afrika ved foden af bjerget Ngong...
Karen Blixen, Den afrikanske farm (1937)
Quando estive em Copenhaga, nos finais da década de oitenta, a cidade ainda guardava intactos alguns vestígios visíveis do esplendor hollywoodesco com que se vestira por altura da estreia do filme de Sydney Pollack, Out of Africa (1985). As réplicas ao guarda-roupa supersofisticado vestido por Meryl Streep, quando encarnou a figura da baronesa sueca nascida dinamarquesa, ainda luziam como rescaldo de luxo nas vitrinas de alguns magasins de moda com apetência para os universos dum certo chic revivalista com laivos de sangue azul. As livrarias ainda expunham em locais de destaque exemplares do bestseller transposto com grande sucesso de bilheteira para o grande ecrã. Resisti durante muito tempo a fazer uma leitura sistemática do meio milhar de páginas que serviram de suporte à versão cinematográfica do texto de Isak Dienesen, pseudónimo de Karen Blixen, traduzido para português com o título algo desviante de África minha (1937). O receio de quebrar o fascínio das imagens captadas pelo realizador norte-americano esteve na origem deste longo afastamento da versão literária da obra. Fi-lo agora de fio a pavio, com proveito e deleite, motivado por mais uma visita aos espaços escandinavos onde a história da «Quinta Africana» foi escrita.

Terminada a revisitação do mais conhecido livro da escritora aristo-crata, que entre 1914 e 1931 teve uma plantação de café no Quénia, apetece-me dizer que a etiqueta geralmente usada de romance para a definir foge um pouco ao conceito genérico documentado nos manuais académicos de teoria literária. Nesses dezassete anos que passou na antiga colónia britânica, teve oportunidade de contactar uma realidade bem diferente da experimentada no ambiente europeu natal e de os registar num conjunto heterogéneo de microrrelatos, posteriormente reunidos num volume único de recordações nostálgicas vividas na vizinhança das tribos nativas de masais, kikuyus, wakambas e karivondos, no convívio com as comunidades imigrantes de somalis, indianos, núbios e árabes, na companhia de eventuais visitantes do hemisfério norte de passagem mais ou menos prolongada pelo hemisfério sul. Na tranquilidade bucólica da mansão familiar de Rungstedlund, situada nas proximidades do mar Báltico, distribui o manancial recolhido por três partes ou secções temáticas distintas, ainda que complementares entre si. Uma montagem cuidadosa de sequências devidamente legendadas, para dar uma maior e melhor visibilidade às histórias compiladas.

As dezassete reflexões multiculturais que abrem a tessitura narrativa centram-se no desenho de cenários captados pelos sentidos atentos da recoletora de flashes de vida real testemunhados. A aceção etimológica do ato de descrever é atualizado e ampliado a cada momento. A grande preocupação de transmitir aos recetores é levada às últimas consequências. Vemos, ouvimos e cheiramos as imagens, sons e odores vistos, ouvidos e cheirados pela observadora branca em terra de negros. A mancha gráfica é preenchida sinestesi-camente com os carateres tipográficos com que as mensagens são transmitidas. Linha-após-linha. Incessantemente. Rios, montanhas, vales e lagos. Plantações, florestas, flora e fauna. Homens, mulheres, crianças e velhos. Episódios de caça e episódios do dia-a-dia. Convo-cados todos eles por igual. Elementos fundamentais para dar alma ao relato e pintar com palavras um painel de paisagens averbadas na lembrança.

O alinhamento prossegue com trinta e duas Notas duma emigrante. Digressões breves de poucos parágrafos sobre tudo e todos. Nada escapa ao olhar clínico e pena ágil da autora. Um entreato apropriado para ligar os sucessos compostos de factos feitos e refeitos no papel. Trivialidades quotidianas a assinalarem a sua passagem rápida pela propriedade rural situada junto ao Ngong, na linha do Equador, nas proximidades das falhas do Rift e gelos do Kilimanjaro. Observações rápidas a anteceder a despedida definitiva do continente que serviu de berço à humanidade. Adeus lhe chama e é composto por cinco únicos fragmentos de despedida compulsiva da terra de adoção que um dia quis que fosse a sua. As leis da oferta e da procura recusaram-no. A venda da fazenda impôs-se e o regresso à terra onde viera ao mundo perfilou-se no horizonte. A aventura tinha chegado inexoravelmente ao fim. Sem apelo nem agravo. Depois chegaria o momento de dar corpo a uma crónica composta por muitos e variados contos dignos de memória futura. A vida pessoal chamada à colação pelo filme está afastado do livro. Nada de divórcios conjugais, nada de ligações amorosas. O barão Bro von Blixen-Finecke é aludido de passagem como marido e sem direito a registo de nome. O caçador Denys Finche Halton protagoniza uma mão cheia de faits-divers sempre com a etiqueta de amigo e nada mais. Os pormenores românticos terão de ser procurados noutros registos. Os curiosos da literatura cor-de-rosa que o façam. Eu fico-me por aqui. E já está.