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11 de outubro de 2023

Seomara da Veiga Ferreira, a crónica esquecida e relembrada de D. João II

«Nasceu uma criança do sexo masculino, de pele branca e rosada, de cabelo escuro. A alegria dos pais estendeu-se do alto escarpado do castelo e da Alcáçova, a todo o país. Naquele ninho de águia, para espanto futuro de muitos, nascera o Falcão, como a si se chamaria, o predador da nobreza abusadora e ociosa, o homem do Novo Mundo e da Nova Europa.»
Seomara da Veiga Ferreira, Crónica esquecida d’el-Rei D. João II (1995) 

Costuma aceitar-se sem grandes reservas ter o romance histórico moderno sido criado por Walter Scott com o Waverley (1814), nas vésperas da queda de Napoleão em Waterloo (1815) e da difusão triunfal do movimento romântico à escala global. A caraterização do novo género literário, estudado à exaustão por György Luckács no Der historische Roman (1955), não refuta o papel desempenhado pelos relatos afins provenientes dos tempos antigos e medievais, entendidos como antecedentes poéticos moldados aos requisitos exigidos pelas matrizes estéticas então vigentes e a abrirem as portas às inúmeras modalidades entretanto ideadasO contributo de Seomara da Veiga Ferreira, com a Crónica esquecida d'el-Rei D. João II (1995), insere-se precisamente neste cenário.

O trajeto de vida traçado pelo Príncipe Perfeito sempre me mereceu uma atenção muito especial, colocando-o numa posição destacada no seio de quase meia centena de soberanos que o antecederam ou sucederam na ação governativa do país. Essa a razão pela qual adquiri e trouxe para casa um exemplar do livro acima referido, quando o vi exposto no escaparate duma livraria. Cheguei até a perguntar-me se não se trataria mesmo duma verdadeira crónica em tempos perdida e em boa hora encontrada. Ao folheá-la logo ali, in loco, apercebi-me tratar-se duma mera biografia romanceada assente na alternância contínua de sequências históricas verídicas com outras verosímeis reveladas por um longínquo e desconhecido participante-observador fictício do relato. Isso não me impediu de o ler à data com algum prazer e proveito e de o ter voltado a fazer agora, passados quase duas décadas sobre a sua descoberta.

Ambrosius Roiz, o narrador judeu converso, filho e neto de judeus, centra as suas memórias diretas/indiretas na primeira fase da Dinastia Joanina à frente dos destinos da Coroa Portuguesa, desde a eleição em Cortes do Mestre de Avis até à subida ao trono do Duque de Viseu e Beja. Reparte-as por três livros, com um número variável de capítulos, subordinados às principais fases dos reinados dos respetivos monarcas, com uma atenção especial a D. Afonso V n'«O ciclo do Dragão» [L.I] e a D. João II n'«O tempo do Falcão» [L.II] e «Na rota dos mundos mortos» [L.III]. Para facilitar a tarefa dos leitores, o autor anexa ainda nas páginas finais do testemunho apócrifo uma extensa Cronologia enquadrante do período em causa, pautado pelo nascimento do futuro Conde de Barcelos (1377) e Duque de Bragança e pela morte da Rainha D. Leonor de Lencastre (1525), bem como uma Genealogia referente à descendência de D. João I e à da família do presumido biógrafo do monarca nomeado no título atribuído aos anais secretos voluntariamente escondidos e finalmente revelados meio milénio depois.

O conhecimento generalizado dos eventos históricos trazidos para a ficção dispensa resumi-los numa breve resenha de leitura como esta. Basta elencá-los e tecer depois as reflexões adequadas. Dizer, v.g., que entre a crise dinástica que substituiu os Borgonha pelos Avis e a conversão forçada dos Judeus por ordem do Afortunado, estariam as batalhas de Aljubarrota e do Toro, o Tratado de Alcáçovas e a Terçaria de Moura, as conjuras dos grandes do reino contra o poder real do biografado, a divisão das terras descobertas e por descobrir acordado em Tordesilhas pelos representantes de Portugal e Castela. Estaria ainda uma sentida incursão pelos sendeiros calcorreados pelo Infante D. Pedro, o Dragão de São Jorge, Cavaleiro do Cisne, Senhor das Sete Partidas, Regente do Reino e Duque de Coimbra, sogro e tio do Africano, sacrificado em Alfarrobeira. Uma mancheia de episódios labirínticos e jogos poder que dariam uma boa série televisiva, caso a RTP dispusesse de verbas idênticas às da BBC para uma produção desta natureza. Assim, resta-nos fantasiar uma mudança radical do panorama mediático português e entretanto contentarmo-nos com as histórias contadas com história dentro, impressas em letra de forma nas páginas dum romance de época inspirado na figura ímpar do Rei-Falcão, o obreiro perfeito dum império minuciosamente sonhado, que o primo, cunhado e sucessor ergueria depois dele.