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24 de julho de 2024

Castelos semeados em fundo vermelho

Tabardo e colar de Rei de Armas séc. xviii

Cumpriu-se no passado 27 de março o 775.º aniversário da conquista de Faro, a Santa Maria al-Harum dos mouros berberes do Califado dos Almóadas. Até ao final desse ano, seguir-se-ia a tomada de posse de Loulé, Aljezur, Porches e Albufeira, pequenos enclaves resistentes do Reino do Algarve. Diz-se por aí, à boca cheia e grande convicção triunfalista, pertencerem algumas destas praças ao elenco das representadas nos castelos do brasão de armas real e atual bandeira nacional. A escolha final da lista é difícil de fixar, porque qualquer que ela seja estará sempre a falsear a verdade. A História tem outras histórias bem diferentes para contar.

Rezam os anais que até nós chegaram ter o filho segundo de D. Afonso II inserido um número variável de flores-de-lis e castelos no seu brasão pessoal, por estar casado com Matilde de Bolonha e ser filho de Beatriz de Castela. A adoção deste distintivo heráldico (1238) significa que, muito antes da sua ascensão ao trono português (1248) e da posse efetiva do Algarve (1249), D. Afonso III já usava como insígnia distintiva própria de poder senhorial uma semeadura variável de castelos amarelos numa bordadura vermelha, depois agregada ao brasão real, como quebra ritual de escudos e diferença de armas, decorrente da deposição papal do irmão D. Sancho II.

Armas de D. Afonso III
Conde de Bolonha & Rei de Portugal e Algarve
 

Ao que se sabe, as antigas taifas de Silves, Tavira e Santa Maria nunca dispuseram de nenhum brasão próprio, enquanto entidades autónomas/unificadas do Gharb al-Andaluz do Califado de Córdoba e do Império Almorávida ou da Coroa do Portugal. Os castelos e cabeças de reis muçulmanos e cristãos que aparecem nos antigos armoriais nacionais mais não são do que meras fantasias por vezes seguidas como fidedignas nos nossos dias. Tradições que regra geral se esquecem da rutura causada pela troca de cetros d'O Capelo pel'O Bolonhês ou da natureza tão-somente nominal do designado Reino do Algarve/Algarves d'Aquém e d'Além Mar em África.

NOTA
Neste mesmo 24 de julho, mas de 1245, em que o Conde Bolonha assumiu o título de Dom Afonso de Portugal, Visitador, Curador e Defensor do Reino.

26 de janeiro de 2018

Os mil cento e cinquenta anos da terra portucalense

Ceci n'est pas un pays

         CELEBRAÇÕES & DEPENDÊNCIAS          

Portugal começou o seu historial multissecular como uma presúria instalada no Porto, cidade acabada de conquistar aos muçulmanos em 868 por Vímara Peres. Afonso III das Astúrias confiou a Terra Portucalense a este vassalo galego, que a administrou como entidade distinta da Galécia com o título de Presor e Conde de Portucale. O primeiro Condado Portucalense acabava de ser fundado, faz um destes dias precisamente 1150 anos.

Iniciava-se também nesta data o processo de separação definitiva da antiga Portugália da Galiza (1128) e de Leão (1143). Os condes converteram-se em duques e o condado em reino. Tudo pela força das palavras e das armas. O reconhecimento de Afonso Henriques como rei e de Portugal como reino é oficializado pelo papa Alexandre II na bula Manifestis Probatum (1179). O país é retirado da órbita do Império Hispânico e colocado no da Santa Sé.

De independência se passou a falar a partir deste momento, como se o poder temporal de Roma se não continuasse a fazer sentir ao longo dos séculos no destino dos povos a si submetidos. Que o diga Sancho II, deposto pelo papa Inocêncio IV em 1246, a demonstrar a dependência efetiva da Coroa de Portugal da Tiara do Vigário de Cristo em todos os domínios da Respublica Christiana. Conceitos que mais tarde ou mais cedo teremos de rever.

Batalha de São Mamede 1128 - Net

17 de maio de 2016

Impeachments reais à portuguesa...

ARMAS DO REY DE PORTUGAL
António Godinho, Livro da Nobreza e perfeiçam das armas (1521-1541)
[Arquivo Nacional da Torre do Tombo - Lisboa]

Expedientes de bota-fora...

O processo de impedimento da continuidade do mandato de Dilma Rousseff como Presidente da República Brasileira tem vindo a animar nos tempos que correm os mass media de serviço à aldeia global. Impeachment lhe chamam por lá, termo pouco usual entre nós até à presente data, esquecido que estava o afastamento coercivo de Fernando Collor de Mello das mesmas funções em 1992.

Entre nós, a destituição dos chefes de estado fez-se sempre de modo distinto. Os conflitos políticos foram quase sempre resolvidos pela força das armas e muito poucas pela das palavras. Em mais de 1000 anos de devir histórico, foi assim que as dissidências de regime se fizeram, chegando mesmo a incluir os assassinatos de D. Carlos I (1908) e de Sidónio Pais (1918). Um rei e um presidente.

D. Teresa de Leão afastada pelo filho depois de São Mamede (1128), D. Beatriz de Portugal impedida pelo tio após Aljubarrota (1385), D. António Prior do Crato vencido pelo primo castelhano durante a crise sucessória (1580), Filipe de Habsburgo substituído pelo primo D. João de Bragança a seguir à Restauração (1640), D. Manuel II destronado com o advento da República (1910).

Pelo meio ficam ainda as disputas dinásticas de D. Pedro IV e D. Miguel que levaram ao trono de D. Maria II, filha do primeiro e sobrinha do segundo (1834). Acrescentem-se ainda as deposições de D. Sancho II por D. Afonso III (1245) e a de D. Afonso VI por D. Pedro II (1667). Uma mão cheia de destituições, abdicações e exílios com que se foi fazendo o impeachment à portuguesa.

A presidenta foi trocada por um presidento, por vontade dos deputados e senadores do maior país latino-americano. Jogos de poder entre Petistas e Tucanos. O «aqui tem golpe» dos primeiros vs. o «tudo legal» dos segundos. Palavras fortes de contar histórias com história dentro. O tempo dirá para que lado sopra o vento no final deste bota-fora à brasileira com muito lava jato à mistura.