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13 de fevereiro de 2024

Risos, sorrisos e risadas de carnaval

Le Carnaval des Animaux : Verbier Festival / VF Kids Zon
« Je suis en train de perpétrer une vaste composition pour le Mardi-Gras proc-hain. Je n’ai plus que le final à écrire. Quatorze numéros ! Vous me direz que je ferais bien mieux de travailler à ma symphonie. Vous avez raison, cent fois rai-son, mais c’est si amusant ! »

Na primeira década de viragem de milénio, assisti a uma série de cursos breves promovidos pela Biblioteca António Ramos Rosa e Fundação Calouste Gulbenkian. No encontro dedicado à «Música Românica», falou-se de raspão nos Péchés de vieillesse (1857-1868) de Rossini e de se poder inserir o Duetto buffo di due gatti (1825) nessa coletânea, pese embora o facto de se basear em parte na ópera Otello (1816) e no contributo doutros autores. Polémicas à parte, os miaus cantados em termos líricos não mereceram a aprovação duma participante sentada ali ao meu lado. A seu ver, a música erudita só tinha a perder se se misturasse com a popular. Na altura fiquei sem palavras ou não quis dizer nenhuma. Cada um deve ficar com os lugares-comuns com que sente feliz.

Suspeito que a apreciação da minha vizinha de auditório seria muito semelhante se confrontada com os miaus introduzidos por Mozart no «Nun, liebes Weibchen», caso se tivesse abordado esta ária da ópera Der Stein der Weisen, oder die Zauberinsel (1790), atribuída pelos especialistas da arte de associar sons a Mozart, que a terá composto em parceria com outros vultos então conhecidos do meio musical vienense já contaminado pelas estéticas pré-românticas europeias. Intuitos maldosos à parte, presumo que a sonoridade do nome do criador desta «Pedra Filosofal ou Ilha Mágica» tivesse um peso superior ao do criador do «Dueto bufo dos dois gatos». É que, quer se queira quer não, o prestígio melómano de Mozart parece ganhar aos pontos à faceta jocosa  de Rossini.

Na visão dada por Saint-Saëns na suíte instrumental Le carnaval des animaux (1886) uma clara ausência de miados, rugidos, zurros, bramidos ou chilreios violadores da ordem clássica imposta pelos ditames canónicos da harmonização académica. Dizem os registos que até nós chegaram ter o musicista gaulês sido criticado por ter comprometido o remate da Troisième symphonie ao votar-se a uma fantasia zoológica de menor dimensão artística. Sem se opor a essa opinião, o compositor justificou-se com o caráter divertido da tarefa. Censuras à parte, expressou a ideia de serem os risos, sorrisos e risadas carnavalescas, provas provadas de alegria, deleite e prazer, numa clara afirmação de ser adequado a uma terça-feira gorda ou a todos os demais dias do ano ou géneros musicais.

21 de fevereiro de 2023

O carnaval português de Ricardo Reis

Leal da Câmara, Pierrot & Xexé
Ilustração Portugueza , N.º 781, 5.02.1921
[Hemeroteca Digital]

Ai como é diferente o carnaval em Portugal. nas terras de além e de Cabral, onde canta o sabiá e brilha o Cruzeiro do Sul, sob aquele céu glorioso, e calor, e se o céu turvou, ao menos o calor não falta, desfilam os blocos dançando avenida abaixo, com vidrilhos que parecem diamantes, lantejoilas que fulgem como pedras preciosas, panos que talvez não sejam sedas e cetins mas cobrem e descobrem os corpos como se o fossem, nas cabeças ondeiam plumas e penas, araras, aves-do-paraíso, galos silvestres, e o samba, o samba terramoto da alma, até Ricardo Reis, sóbrio homem, muitas vezes sentiu moverem-se dentro de si os refreados tumultos dionisíacos, só por medo do seu corpo se não lançava no turbilhão, saber como estas coisas começam, ainda podemos, mas não como irão acabar.

Em Lisboa não corre esses perigos. O céu está como tem estado, chuvoso, mas, vá lá, não tanto que o corso não possa desfilar, vai descer a avenida da Liberdade, entre as conhecidas alas de gente pobre, dos bairros, é certo que também há cadeiras para quem as pode alugar, mas essas irão ter pouca freguesia, estão numa sopa, parece partida carnavalesca, senta-te aqui ao de mim, ai que fiquei toda molhada. Estes carros armados rangem, bamboleiam, pintalgados de figuras, em cima deles há gente que ri e faz caretas, máscaras de feio e de bonito, atiram com parcimónia serpentinas ao público, saquinhos de milho e feijão que acertando aleijam, e o público retribui com um entusiasmo triste. Passam algumas carruagens abertas, levando provisão de guarda-chuvas, acenam lá de dentro meninas e cavalheiros que atiram confetti uns aos outros.

Alegria destas também as há entre o público, por exemplo, está esta rapariga a olhar o desfile e vem por trás dela um rapaz com uma mão cheia de papelinhos, aperta-lhos contra a boca, esfrega freneticamente e vai aproveitando a surpresa para a apalpar onde pode, depois ela fica a cuspinhar, a cuspinhar, enquanto ele afastado ri, são modos de galantear à portuguesa, há casamentos que começaram assim e são felizes. Usam-se bisnagas para atirar ao pescoço ou à cara das pessoas esguichos de água, ainda conservam o nome de lança-perfumes, é o que resta, o nome, do tempo em que foram suave violência nos salões, depois desceram à rua, muita sorte é ser limpa esta água, e não de sarjeta, como também se tem visto.

Ricardo Reis aborreceu-se depressa com a farrapagem do corso, mas assistiu a pé firme, qualquer coisa que tivesse para fazer não era mais importante do que estar aqui, por duas vezes chuviscou, outra vez caiu forte a chuva, e ainda há quem cante louvores ao clima português, não digo que não, mas para carnavais não serve. No fim do dia, já terminado o desfile, o céu limpou, tarde foi, os carros e carruagens seguiram para o seu destino, lá ficarão a enxugar até terça-feira, retocam-lhes as pinturas deslavadas, põem-se os festões a secar, mas os mascarados, mesmo pingando das melenas e cadilhos, vão continuar a festa por essas ruas e praças, becos e travessas, em vãos de escada para o que não se possa confessar ou cometer às claras, assim se praticando por maior rapidez e barateza, a carne é fraca, o vinho ajuda, o dia das cinzas e do esquecimento será só na quarta-feira. Ricardo Reis sente-se um pouco febril, talvez tenha apanhado um resfriamento a ver passar o corso, talvez a tristeza cause febre, a repugnância delírio, até aí ainda não chegou.

Um xexé veio meter-se com ele, armado com o seu facalhão de pau e o bastão, batendo um contra o outro, com grande estrépito, bêbado, a pedir equivocamente. Dá cá uma pançadinha, e arremetia ao poeta, de barriga esticada para a frente, avolumada por um postiço, almofada ou rolos de trapos, uma risota, aquele papo-seco de chapéu e gabardina a esquivar-se ao velho do entrudo, trajado de bicórnio, casaca de seda, calção e meia, Dá cá uma pançadinha, o que ele queria era dinheiro para vinho. Ricardo Reis deu-lhe umas moedas, o outro fez uns passos de dança grotescos, batendo com o faca e o pau, e seguiu, levando atrás de si um cortejo de garotos, mais os acólitos da expedição.

Num carrinho, como de bebé, era levado, com as pernas de fora, um marmanjão de cara pintada, touca na cabeça, babeiro ao pescoço, fingindo chorar, se é que não chorava mesmo, até que o mostrunço que fazia de ama lhe chegava à boca um biberão de vinho tinto em que ele mamava sofregamente, com grande gáudio do público reunido, donde, de repente, saía a correr uma rapazola que, rápido como o raio, ia apalpar o vasto seio fingido da ama e deitava logo a fugir, enquanto o outro berrava com voz rouca, de não duvidoso homem, Anda cá ó filho dum cabrão não fujas, anda cá apalpar-me aqui, e juntava o gesto à palavra com ostensividade suficiente para que as senhoras e mulheres desviassem os olhos depois de terem visto, o quê, ora, nada de importância, a ama tem um vestido que lhe desce até meio da perna, foi só o volume da anatomia, agarrada com as duas mãos, uma inocência. É o carnaval português.

José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis
 Lisboa: Caminho, 1984; ([7], 159-161)

16 de fevereiro de 2021

O entrudo ficou em casa num dia assim

MARIA HELENA VIEIRA DA SILVA
Ballet ou Les Arlequins
(1946)

Pierrot, Colombina & Arlequim

Segundo se julga saber, a palavra Carnaval provém da expressão latina carne, vale!, pelo italiano carnevale, com o sentido de «adeus, carne!», i.e., representava a última terça-feira do período litúrgico que mediava o Dia de Reis e a Quaresma. A abstinência começava na quarta-feira de Cinzas seguinte, substituindo as grandes festividades pagãs de despedida aos excessos da véspera e prolongar-se-ia por mais quarenta dias (quadragesima dies) até ao domingo de Páscoa. Também é conhecido por Entrudo, designação derivada da palavra latina introitus, a simbolizar a preparação para a mais importante celebração do calendário cristão.

Com raízes na antiga tradição ática dos hinos a Dioniso-Baco e do Canto de Aldeia, os folguedos, farras, festins, folias e pândegas mil andaram sempre ligados aos mais diversos disfarces, na tentativa de se fingir ser aquilo que não se é ou se tem pudor de assumir no resto do ano. Nos cortejos de rua multiplicam-se os mascarados, munidos duma caraça, máscara ou mascarilha de cartão ou com a cara profusamente pintada, caraterizada ou maquillée. As crianças apreciam especialmente transformarem-se por um só dia que seja nas mais diversificadas personagens de fantasia a enriquecer o seu imaginário infantil de faz de conta.

No Renascimento italiano, a camada menos instruída da população, desconhecedora da língua tida na época como universal, substituiu o latim da comédia erudita pelo vulgar italiano da Commedia dell'Arte também chamada Commedia all'Improviso e Commedia a Sogetto. As companhias familiares praticavam a itinerância de cidade em cidade. Deslocavam-se de carroça, tal como o fizera Téspis na Ática do séc.  AEC, representavam em pequenos palcos rudimentares instalados nas ruas e praças públicas, interagiam com o público exercendo a arte do improviso, limitando-se a seguir as linhas gerais dum roteiro simplificado. 

A criançada apropriou-se ao longo dos tempos de algumas das figuras-tipo dessa representação dramática. A riqueza cromática do seu vestuário e dos motivos que lhe dão forma estará na origem dessa preferência multissecular. Entre essas caricaturas da vida humana, foi-se destacando o triângulo amoroso constituído por Colombina, enamorada de Arlequim e amada por Pierrot. A vingança deste último sobre o rival está-se a manifestar sem dó nem piedade esta terça-feira gorda de jejum. Roubou-lhe o Carnaval pelo segundo ano consecutivo, depois de este lhe ter roubado a musa da sua paixão. Cá se fazem cá se pagam.      

23 de fevereiro de 2020

As serpentinas coloridas do Rei Momo

M  O  M  O
"The Fool"
[from an 18th century minchiate playing card deck].
Γένος Νύκτας
Νὺξ δ᾽ ἔτεκεν στυγερόν τε Μόρον καὶ Κῆρα μέλαιναν καὶ Θάνατον, τέκε δ᾽ Ὕπνον, ἔτικτε δὲ φῦλον Ὀνείρων· - οὔ τινι κοιμηθεῖσα θεὰ τέκε Νὺξ ἐρεβεννή, - δεύτερον αὖ Μῶμον καὶ Ὀιζὺν ἀλγινόεσσαν Ἑσπερίδας θ᾽, ᾗς μῆλα πέρην κλυτοῦ Ὠκεανοῖο χρύσεα καλὰ μέλουσι φέροντά τε δένδρεα καρπόν.
Ησίοδος - Θεογονία (211-216)

Contam-nos os mitos helénicos registados pela tradição escrita e oral ser Momo a personificação do Sarcasmo. Hesíodo diz na Teogonia tratar-se duma divindade primordial dos escritores e poetas, filha da Noite e irmã das Hespérides, as fiéis guardiãs do jardim dos pomos de ouro ou dos Imortais. Luciano lembra no Hermotimus a avaliação trocista proferida contra as criações de Atena, Poseidon e Hefesto na qualidade de jurado dum concurso de deuses. Filóstrato ridiculariza nas Epístolas as infidelidades de Zeus para com Hera, pelo que se viu exilada do Monte Olimpo.

Um dos lances mais marcantes da sua faceta etiológica situa-se entre duas querelas armadas mítico-lendárias do mundo antigo: a Guerra de Tebas e a Guerra de Troia. Sem se ter batido em nenhuma delas, criticou a primeira e causou a segunda. Aconselhou Zeus a abandonar o plano de fulminar os mortais através dum contínuo bélico artificial. Para diminuir o excesso de população, bastava criar uma mulher muito bela que levasse as nações a baterem-se pela sua posse e assim se destruírem. Helena de Argos nasceu e preparou a entrada de Menelau e Páris em cena.   

Quando o mais belo soldado romano passou a desfilar nas Saturnais, com uma coroa na cabeça, uma máscara a tapar-lhe o rosto e um boneco na mão a simbolizar a loucura, a subida do Rei Momo ao trono das folias acabava de surgir. As festividades rituais dedicadas a Saturno, o deus das colheitas, resistiram aos caprichos do tempo e converteram-se aos poucos nas atuais batalhas de flor do Entrudo. Na sua aparição anual, empunha o cetro do poder real e brinda-nos com mãos-cheias de serpentinas coloridas de papel a celebrar o efémero reinado de três dias.

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A realeza portuguesa foi mandada para o caixote de lixo da História na primeira década de novecentos. A coisa pública que lhe sucedeu só guardou no seu calendário de festividades toleradas quatro cabeças coroadas dum reino fingido de faz-de-conta. Tolera-as em duas únicas ocasiões e sem direito a feriado civil ou religiosoOs Reis Magos em janeiro e o Rei Momo em fevereiro/março. O ouro, incenso e mirra da tríade natalícia foi substituída pelos confetti do monarca carnavalesco. Tudo muito q.b. Noblesse oblige. E assim a lenda se fez fábula e o mito contramito.

1 de março de 2019

Carnavais em verso

José de Almada Negreiros
«Retrato Clássico de Arlequim»
(1941)

               É Carnaval, e estão as ruas cheias
               É Carnaval, e estão as ruas cheias
               De gente que conserva a sensação,
               Tenho intenções, pensamento, ideias,
               Mas não posso ter máscara nem pão.
               Esta gente é igual, eu sou diverso —
               Mesmo entre os poetas não me aceitariam.
               Às vezes nem sequer ponho isto em verso —
               E o que digo, eles nunca assim diriam.
               Que pouca gente a muita gente aqui!
               Estou cansado, com cérebro e cansaço.
               Vejo isto, e fico, extremamente aqui
               Sozinho com o tempo e com o espaço.
               Detrás de máscaras nosso ser espreita,
               Detrás de bocas um mistério acode
               Que meus versos anódinos enjeita.
               Sou maior ou menor? Com mãos e pés
               E boca falo e mexo-me no mundo.
               Hoje, que todos são máscaras, és
               Um ser máscara-gestos, em tão fundo...

               Fernando Pessoa |  Álvaro de Campos: «Carnaval» (s.d.)

27 de fevereiro de 2017

Vem ao baile, vem ao baile...

Fernando Botero  -  Pareja bailando  (1987)

[Museo Botero del Banco de la República - Bogota - Colômbia]

UM CARNAVAL


Vem ao baile vem ao baile
Pelo braço ou pelo nariz
Vem ao baile vem ao baile
E vais ver como te ris
Deixa a tristeza roer
As unhas de desespero
Deixa a verdade e o erro
Deixa tudo vem beber
Vem ao baile das palavras
que se beijam desenlaçam
Palavras que ficam passam
Como a chuva nas vidraças
Vem ao baile oh tens de vir
E perder-te nos espelhos
Há outros muito mais velhos
Que ainda sabem sorrir
Vem ao baile da loucura
Vem desfazer-te do corpo
E quando caíres de borco
A tua alma é mais pura
Vem ao baile vem ao baile
Pelo chão ou pelo ar
Vem ao baile baile baile

E vais ver o que é bailar.

Alexandre O´Neill

9 de fevereiro de 2016

Tragédias, comédias & carnavais

VASO DI  PRONOMOS (c. 410 AEC )

«Preparazione della recita di un dramma satiresco»
[Museo Archeologico Nazionale di Napoli]

Itinerários dramáticos do hipócrita...
Quando os Hinos dedicados a Dioniso se converteram em Dramas patrocinados pelo filho de Sémele e Zeus, os descendentes de Heleno tinham acabado de criar o teatro ático. Um elemento do coro circular destacou-se do grupo, dirigiu-se ao centro da orquestra, ocupou o local destinado ao deus tutelar dos regressos bem-vindos. Depois, dançou, cantou e falou como se fosse a encarnação da divindade que nascera duas vezes e triunfara da morte. Passaram a chamar-lhe hypokritḗs, aquele que fingia ser o que não era.

Quando ao Canto do Bode se juntou o Canto da Aldeia, os ritos dionisíacos anuais ganharam uma nova forma de escapar à transitoriedade da vida. Os conflitos remotos de deuses e heróis começaram a ombrear com os conflitos atuais dos homens. A representação mítica da Tragédia transformara-se na apresentação realista da Comédia. A superioridade dos imortais é confrontada com a inferioridade dos mortais. A imitação de ações de caráter elevado é completada pela imitação de ações de caráter inferior.

Quando os espetadores se viram cara-a-cara com estes dois modos antagónicos de celebrar a condição humana, hesitaram entre um e outro. Ostracizaram o primeiro e eternizaram o segundo. Adaptaram-no aos novos tempos e inventaram o Carnaval. Durante três dias dá-se livre curso à liberdade catártica de escarnecer os defeitos alheios. A máscara criada por Théspis dá lugar às máscaras do Rei Momo. A res seria sai do palco e a res ridicula entra em cena. Triunfal. Como nos tempos de Dioniso mais conhecido por Baco.