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16 de janeiro de 2023

Paulo Rezzutti e a história não contada de Dom Pedro de Bragança e Bourbon

«"O PEDRÃO é nosso!", exclamou certo funcionário da cripta imperial, localizada abaixo do Monumento à Independência, no bairro paulistano do Ipiranga, ao ter a certeza de que o sarcófago de granito verde que protegera durante anos não estava vazio. Havia realmente algo lá dentro, ao contrário da descrença exteriorizada por um taxista que conduzira um fotógrafo até lá: "Você vai fazer o quê lá em baixo? Não tem nada lá, não!"»

Dom Pedro de Alcântara (1798-1834) nasceu e faleceu no Palácio de Queluz, no seio dos Bragança e Bourbon. Na sua curta existência de 34 anos repartida por dois continentes, assumiu sucessivamente os títulos de Infante, Príncipe, Imperador, Rei e Duque, adornados com os estilos de Alteza Sereníssima e Real e de Majestade Imperial e Fidelíssima. No cenário aristocrático que sempre pisou, foi filho e neto de reis e imperadores, e pai dum imperador e duma rainha. Deteve a coroa imperial brasileira e a real portuguesa até ter abdicado das duas. Casou-se com uma arquiduquesa austríaca e uma princesa francesa, tendo mantido um número incerto de amantes, com quem gerou um número impreciso de filhos naturais e bastardos. Todos estes dados são referidos nos anais históricos que até nós chegaram, com maior ou menor precisão factual. O investigador brasileiro Paulo Rezzutti reune-os numa obra de divulgação biográfica do monarca, intitulada D. Pedro [IV]. A história não contada. O homem revelado por cartas e documentos inéditos (2015).

Publicado no segundo centenário da elevação do Brasil à categoria de Reino Unido de Portugal e Algarves, a meia dúzia de anos do Dia do Fico, o registo analítico do percurso de vida do rei-imperador das duas coroas brigantinas reparte-se por três sequências centradas nos espaços cénicos em que os eventos evocados ocorreram: Portugal (P.I: 1798-1808), Brasil (P.II: 1808-1831) e Europa (P.III: 1831-1834). A completar a informação dada, este núcleo medial está limitado por um Prólogo e um Epílogo tradicionais, seguidos duma Cronologia, Notas, Bibliografia, Crédito de Imagens e Agradecimentos. O estilo do relato apresenta uma fluidez discursiva assinalável, destinado a um público leitor alargado, menos propenso à linguagem hermética que alguns textos académicos por vezes enfermam.

É um lugar comum considerar o reinado de Dom Pedro IV como o mais breve do regime monárquico, vigente de 10 de março a 2 de maio de 1826, o que perfaz uns meros 51 dias. Esta contagem tão exígua não é perfilhada por todas as fontes, levando algumas delas como será o caso da página em linha do Parlamento  a dilatá-la de 1826 a 1834, i.e., desde a morte de Dom João VI até à aclamação de Dona Maria II, excluindo assim liminarmente Dom Miguel da lista real aceite como tal. A discrepância significativa no cômputo das cabeças coroadas ou simplesmente aclamadas não merece a atenção explícita do ensaísta em apreço, muito embora estas minudências históricas acabem por marcar uma presença naturalmente implícita. O seu interesse recai mais no trajeto vitorioso de Dom Pedro I, enquanto primeiro Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil, do que na de efémero trigésimo primeiro Rei de Portugal e Algarves e dos demais senhorios acumulados e ampliados pelos seus avoengos ao longo dos séculos.

Para um leitor português, é justamente essa faceta exótica brasílica menos conhecida entre nós que desperta mais atenção. A resenha bibliográfica em boa hora encetada pelo popular youtuber paulista transforma-se, a breve trecho, quase no guião dum acabado romance histórico oitocentista ou numa genuína novela televisiva de grande sucesso mediático. Os amores/desamores do Libertador da Terra de Vera Cruz e Rei-Soldado da Pátria Lusitana, as intrigas de bastidor, as tricas de alcova e as polémicas de palácio tecidas aquém-e-além Atlântico, as rivalidades familiares entre várias gerações e ramos dos Braganças luso-brasileiros, os mitos e contramitos que a tradição romântica coeva e tardia foi tecendo à sua volta contêm, todos eles, itens vitais para perpetuar a sua presença na memória coletiva dos povos de duas nações. Os dados estão lançados, a leitura integral do texto aconselha-se, útil todo ele para nos dar uma imagem mais nítida da personalidade controversa do filho rebelde criado no mais ultramontano e ancilosado Absolutismo régio e lhe deu a roupagem triunfante e renovadora do Liberalismo.

Edição brasileira da Leya

12 de setembro de 2022

Viagens de ida e volta do rei soldado

Amélia de Leuchtenberg – Pedro de Alcântara – Maria da Glória
«S. M. I. o Senhor Dom Pedro restituindo Sua Augusta Filha a Senhora
Dona Maria II e a Carta Constitucional aos Portugueses»

O coração peregrino à casa torna...

No tempo da formação oitocentista dos impérios efémeros das gerações românticas, Napoleão Bonaparte empurrou a família real portuguesa para terras de Santa Cruz. O imperador dos franceses mal adivinhava que quinze anos mais tarde surgiria no outro lado do Mar Oceano o primeiro imperador brasílico moldado à sua imagem e semelhança. Dom Pedro de Alcântara levava para o Novo Mundo muito do sangue azul multissecular colhido de todas as costelas coroadas do Velho Continente.

Quando as turbulências da Guerra Peninsular acalmaram e o sonho imperial napoleónico se desfez, Dom João Ⅵ regressou a Lisboa e deixou no Rio de Janeiro o Príncipe Real Dom Pedro como regente do Brasil. Tentou pôr cobro às arbitrariedades britânicas no país e debelar a resistência aos ideais liberais então em curso. O processo foi duro e exigia a presença na metrópole do herdeiro da coroa. Este recusou-se a trocar a América pela Europa e gritou o tal Digam ao povo que fico, que a história registou.

Ficar ficou, mas sem aquecer o lugar. Mesmo assim, ainda teve tempo de ocupar um trono imperial e um real nas duas margens do Atlântico. Dom Pedro Ⅰ do Brasil (1822-1831) ou Dom Pedro Ⅳ de Portugal e Algarves (1826) voltou à terra que o vira nascer (1798) e ouviu o último suspiro (1834), já reduzido a mero Duque de Bragança. Nado e finado no Quarto Dom Quixote do Paço Real de Queluz. Um alfa-ómega simbólico a pautar o trajeto vivencial do Rei Soldado ou Cavaleiro da Triste Figura.

O Grito do Ipiranga foi dado a 7 de setembro de 2022. O coração do Libertador visitou o local para celebrar o evento. Cruzou-se por alguns dias com os seus despojos mortais trasladados em 1972 do Panteão Real dos Braganças em Lisboa para a Cripta Imperial de São Paulo. Regressou agora em torna-viagem à Cidade Invicta do Porto, onde será de novo fechado a cinco chaves na Igreja da Lapa. Talvez volte a viajar no próximo centenário do país. Mas isso serão histórias a contar por outros que não nós.     

BRASÕES DE ARMAS
Reais de Portugal - Sereníssima Casa de Bragança - Imperiais do Brasil

12 de julho de 2019

Os nós emblemáticos dos Bragança

Porta dos Nós - Vila Viçosa
     Depois de Vós, Nós    


Quando em 1498 D. Manuel I se deslocou a Toledo com D. Isabel, para assumirem conjuntamente o Principado das Astúrias e a sucessão dos Reis Católicos, o Afortunado nomeou o sobrinho D. Jaime herdeiro do trono. Em sinal de reconhecimento, o jovem duque escolheu para emblema da Sereníssima Casa de Bragança, reabilitada nesse mesmo ano, a figura do «Nó» e o lema do «Depois de Vós», como corpo e alma da divisa. A honraria seria de curta duração, dado que pouco depois nasceria em Saragoça o Príncipe D. Miguel da Paz, jurado pelas respetivas Cortes como futuro monarca das Coroas de Portugal, Castela e Aragão.

A emblemática criada pelo quarto titular da mais importante família nobre do reino seria ampliada pelo sexto, quando transformou a primitiva letra do mote em «Depois de Vós, Nós». Queria o Duque D. João I significar que logo a seguir aos Avis estavam os Bragança na linha de subida ao trono. O desaparecimento de D. Sebastião em Alcácer Quibir e a crise dinástica que se seguiu, colocava a mulher, a Infanta D. Catarina, como principal candidata à coroa deixada vaga pelo Cardeal-Rei D. Henrique. A força da razão dos Bragança acabou por ser derrotada pela força das armas dos Áustria, representados por Filipe II de Castela e I de Portugal.   

A simbólica dos «Nós» adquiriu nova dimensão, quando o oitavo duque é aclamado rei como D. João IV de Portugal. O górdio frígio que unia a Monarquia Dual é desfeito com o advento da dinastia de Bragança, evento devidamente representado no cordame cortado, alegoricamente esculpido em pedra na Porta dos Nós, que o novo soberano manda erigir como padrão comemorativo nas muralhas de Vila Viçosa. Razão tinha o descendente do Mestre de Avis e do Condestável do Reino, qual outro Alexandre Magno dos tempos modernos, de se considerar liberto das amarras hispânicas e de partir à reconquista dum mundo que lhe pertencia de direito.

Doravante, o título ducal passou a ser atribuído exclusivamente ao herdeiro presuntivo do trono, continuando a dar sentido às palavras contidas na sentença escolhida várias gerações para caraterizar a família. Depois de «Vós» (o Rei), «Nós» (o Príncipe), garante da per-petuidade exigida pela legitimidade dinástica. Foi o que aconteceu com o Rei-Imperador D. Pedro IV de Portugal e I do Brasil, após a abdicação sucessiva da coroa real portuguesa e da imperial brasileira. Reassumiu-se como Duque de Bragança e colocou-se na cadeia sucessória imediata à da filha, a Rainha D. Maria II da Glória, menor de idade, solteira e sem descendência direta.

Ignoro qual o sentido dado pelos atuais pretendentes à dignidade de Rei de Portugal e Duque de Bragança, depois das leis da República terem abolido de vez a Monarquia e toda a titularia nobiliária de privilégios aristocráticos a ela associada. Curiosa será a interpretação que D. Manuel II lhe deu, ao conceber o seu ex-líbris pessoal de bibliófilo consagrado: as Armas Reais e a Esfera Armilar de D. Manuel I associadas às «cordas com nós» e ao «Depois de Vós, Nós». Isto é, após o Venturoso senhor de meio mundo, o Desventuroso senhor de nada e coisa nenhuma. Iguais no nome, diferentes no destino. Divisa-epitáfio dum rei deposto sem sucessor à vista.
Ex-líbris de D. Manuel II

26 de maio de 2016

Do frito e cozido ou do assim e assado...

DIGO QUE FICO!

Benedito Calixto, D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal (1902)

Em tempos correu por aí um slogan publicitário a garantir que «O Toyota veio para ficar». Palavra dada, palavra cumprida. Aí continua a andar e sem vontade de se retirar uma das mais bem-sucedidas marcas japonesas de automóvel. Alexandre O'Neill com o engenho e arte de poeta-publicitário lá foi avisando que «Há mar e mar, há ir e voltar». A frase de prevenção contra o afogamento nas praias vingou e ficou. É agora tida como um legítimo provérbio popular. 

Quando as cortes portuguesas exigiram a D. Pedro de Alcântara que regressasse a Lisboa, este declarou: «Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto! Digam ao povo que fico». Vol-tou alguns anos depois. Para trás deixou a coroa imperial do Brasil e a real de Portugal. Trouxe consigo a que lhe restava de du-que de Bragança. O bom filho à casa volta, dirão uns. Palavras leva-as o vento, dirão outros. Quem muito promete, pouco dá, direi eu.