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9 de março de 2026

Dentro & Fora

Coroa Imperial Amarela
P.J Redouté - Fritillaire Imperiale 
var jaune
 Choix des plus belle fleurs (1827)

Toma lá dá cá, imperial e real

No tempo em que havia reis e rainhas a dar com um pau, havia também imperadores e imperatrizes igualmente em barda ali e acoli. Uns já nasciam com esse carma incrustado na pele. Outros eram importados e exportados a granel

À exceção da França, os impérios coloniais europeus nunca optaram por um imperador a reger os seus destinos em todos os territórios pertencentes aos seus domínios multicontinentais. Limitaram-se a um ou outro rei-imperador provisório. 

Entre nós, os Avis senhores de meio mundo, limitaram-se a exportar duas imperatrizes para o Sacro Império Romano-Germânico, Dona Leonor e Dona Isabel, filhas de Dom Duarte e Dom Manuel I. Todos de Portugal, como único apelido.

Os Braganças foram mais expeditos. Forneceram ao Brasil dois imperadores e garantia de mais, se a os ditames da história assim o determinassem. Dom João VI foi imperador titular por alguns meses, Dom Pedro IV por algum tempo mais.

Caídos os impérios globais, dentro e fora das fronteiras geopolíticas atuais, ficam os presidentes. Sem consortes a tiracolo, sem títulos a perder de vista, sem coroas reais e imperiais de aparato. Que assim seja agora e sempre. Viva a República!

D. Leonor & D. Isabel de Avis - D. João VI & D. Pedro IV de Bragança

17 de novembro de 2025

Olhar idealizado da rainha perfeitíssima olhada à distância por José Malhoa

José Malhoa, Rainha D. Leonor de Lencastre (1926)
[Caldas da Rainha, Museu José Malhoa]

Os 500 anos da rainha das caldas e das misericórdias

Num dia como o de hoje de há precisamente quinhentos anos, a Rainha Dona Leonor de Lencastre exalava o último suspiro. Aquela a quem as didascálias da Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente referiam como a Rainha Velha e que a minha geração se habituou a identificar como Dona Leonor de Lencastre, passou a ser apelidada de Avis, de Viseu ou de Portugal. A Rainha Perfeitíssima foi espoliada no universo mediático do nome da Rainha da Boa Memória.

Nas Caldas da Rainha tudo evoca/evocava a sua insigne padroeira, a consorte de Dom João II, duas vezes herdeira da coroa portuguesa, a bisneta mais ilustre de Dona Filipa de Lencastre, a matriarca da Ínclita Geração. O Hospital Termal por si fundado em 1485 continua a lembrá-la em cada recanto que o nosso olhar alcance e os guias turísticos nos conduzam. O mesmo se não poderá dizer do parque fronteiro ao complexo termal, agora rebatizado de Dom Carlos I.

No centro desse espaço ajardinado ao gosto romântico, fica o Museu Malhoa, que possui no seu espólio um retrato póstumo da Rainha Dona Leonor (1926), uma tela a óleo pintada pelo grande mestre caldense e doado à instituição aquando da sua criação em 1933. Ali se mantém imponente até hoje, numa sala condigna da sua grandeza régia, depois de ter esperado provisoriamente na Casa dos Barcos pela inauguração oficial do edifício definitivo no ano seguinte.

O olhar idealizado rainha perfeitíssima olhado à distância por José Malhoa representa-a na flor da idade, pouco depois de ter subido ao trono. A paleta do pintor naturalista não a tingiu com as cores sombrias dum amanhã ainda distante, a mãe enlutada pela perda do filho adolescente e a viúva amargurada sem vontade de sorrir para quem se deixasse olhar. Imagem ainda inacabada duma princesa real com tanta vida ainda para viver e tantas histórias por contar.

Armas da Rainha D. Leonor de Lencastre
Jean du Cros, Livro da Perfeição das Armas (1509)
[Lisboa, BNP]

5 de outubro de 2025

Majestades fidelíssimas desconstruídas

Altezas reais & majestades fidelíssimas caídas

O cardeal Dom Henrique recusou o tratamento de Sua Majestade, quando imprevistamente subiu ao trono, por morte do sobrinho-neto em Alcácer-Quibir. A seu ver, o título era demasiado imponente para ser usado por um mero mortal. Manteve, assim, a designação de Sua Alteza Real no curto período de tempo em que pela Graça de Deus foi Rei de Portugal e dos Algarves (1578-1580).

Dom Sebastião foi o único membro da Casa de Avis a usufruir dessa honraria, que lhe foi outorgada por Filipe II de Castela. Fê-lo na entrevista de Guadalupe (1577), dado o sobrinho ter acalentado o desejo de juntar aos reinos, senhorios e domínios lusitanos a conquista de África. O resultado dessa aventura está bem à vista, com a perda da vida na Batalha dos Três Reis (1578).

Os Braganças seguiram o exemplo dos Áustrias e mantiveram a titularia, estilos e honras como fórmulas de endereçamento real já usuais por todo o lado. Não descansaram, porém, até terem um estatuto similar à Sa Majesté Très Chrétienne gaulesa e Su Majestad Católica hispânicaDom João V conseguiu-o finalmente da Santa Sé, ao obter o epíteto de Sua Majestade Fidelíssima (1748).

A grandiosidade, imponência e excelência majestática e fidelíssima há muito ruíram sem deixar saudade ou rasto visível.. Cavaram à sua volta uma realeza destituída, exilada, caída. Os ventos republicanos varreram-na de vez do nosso horizonte de eventos. A ostentação parasitária monárquica persiste na memória anquilosada de alguns à espera duma bastilha redentora que há muito tarda.

5 de outubro de 2024

A esfera emblemática do rei afortunado

Brasão Real e Emblema Pessoal de Dom Manuel I
Livro Carmesim (1502)
[Arquivo Municipal de Lisboa]

Num dia como o de hoje de 1910, implantava-se a República entre nós, a tal que ultrapassado um centenário, uma década e quatro anos bem contados, está a contar-nos de sua justiça. Este evento celebrado desde então com maior ou menor pompa e circunstância dum feriado nacional é do conhecimento geral de todos. Os reis e rainhas e demais corte palatina foram à sua vida para outras paragens e em boa hora levaram consigo muita da parafernália acumulada ao longo do devir histórico em que vigorou. 

Com o advento do novo regime, os acordes do Hino da Carta foram substituídos pelos d'A Portuguesa, a coroa real saiu de vez das insígnias oficiais do país, o azul-e-branco foi trocado pelo verde-rubro da bandeira e a esfera armilar impôs-se como a peça central dos novos símbolos nacionais. Ficaram porém de pedra e cal as medievas cinco quinas e sete castelos no brasão heráldico, com os atributos factuais ou fantasiosos que as diversas épocas que os viram surgir, crescer e fixar lhe quiseram outorgar.

O emblema manuelino foi o último elemento inserido no escudo português, após a sua inclusão efémera no armorial do triplo Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Atributo ancestral do saber universal, passou a representar a universalidade do poder régio dos Avis e imperial dos Bragança. Associado à expansão ultramarina lusitana, a esfera emblemática do rei afortunado converteu-se na vocação universal da diáspora portuguesa. O poder monárquico a adotou o poder republicano a fixou.

Esfera Armilar 1503

3 de março de 2024

A eleição revolucionária dum rei plebeu

Anónimo, Retrato de Dom João I de Portugal (c. 1435)

[Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga]

Filho bastardo da arraia-miúda e digno de boa memória

A 3 de março de 1385, Dom João Mestre de Avis dava entrada na cidade de Coimbra para participar nas Cortes que ali se iriam realizar nos Paços d'el-Rei, perante os delegados dos três braços do Estado, o clero, a nobreza e o povo. Compareceu solenemente nessa reunião magna na qualidade de Defensor e Regedor do Reino, foi eleito Rei de Portugal e Algarve alguns dias depois, ao que parece entre 11 e 16 desse mesmo mês e ano, tendo sido aclamado com toda a honra e circunstância exigida pela tradição a 6 de abril seguinte. A dinastia de Borgonha saía de cena e cedia passo à regida pela Casa de Avis.

Ao optar por uma solução eletiva de cariz revolucionário, abriu-se uma singularidade insólita na monarquia secular lusitana, até então fiel ao princípio hereditário de sucessão régia. Uma tal anomalia deveu-se ao facto do rei Formoso ter falecido sem deixar um filho varão para o render no trono. Ao invés, gerara uma filha que a sua inabilidade política casara com o poderoso rei de Castela e Leão, pondo em risco a efetiva autonomia e independência do destino nacional português. Entrava-se assim no Interregno de 1383-85, o período conturbado marcado pela ausência dum soberano reconhecido por todos.

Nesses tempos de medievalidades longínquas, as rédeas do poder alcançavam-se no campo de batalha, através da derrota efetiva dos rivais vindos de dentro e fora dos territórios a conquistar. Depois desse período decisivo, a tarefa do Doutor João das Regras não terá tido grande dificuldade em escolher o filho natural de Dom Pedro I e de Teresa Lourenço como candidato ideal, por ter sido o único que nunca se exilara ou terçara armas contra Portugal. O governo provisório instalado em nome da rainha Dona Beatriz é ilegalizado e o revolucionário de Dom João I é legitimado com caráter definitivo.

A 525 anos da Implantação da República, o mais plebeu monarca português, o descendente duma filha da arraia-miúda é eleito rei dum país da periferia europeia prestes a tornar-se numa potência imperial à escala global. Dizem as crónicas régias que a memória regista ter passado à história como O da Boa Memória, epíteto de que poucos governantes se podem gabar. O pai da Ínclita Geração provou dessarte a pouca valia que a Sequência C dos casamentos da realeza (consentimento-contrato-consumação-consanguinidade) tem num governo feito em nome da res publica, a coisa do povo.

REAIS DE PRATA
D. Beatriz & D. João I

22 de novembro de 2023

As rainhas proscritas

  Beatriz de Borgonha & Joana de Trastâmara  
António de Holanda

A história oficial dos países é sempre contada pelos vencedores e quando, a posteriori, se aplicam os ditames do politicamente correto, tendemos a cair nos trilhos movediços do cronologicamente errado. Assim aconteceu com o destino dinástico de Beatriz de Borgonha e de Joana de Trastâmara, legítimas herdeiras de Fernando I de Portugal e Algarve e de Henrique IV de Castela e Leão. A seu tempo aclamadas, destronadas, proscritas, vencidas, banidas. Reduzidas de rainhas soberanas do país de origem a rainhas consortes do país vizinho.

À distância de três únicas gerações, as filhas reconhecidas do rei Formoso e do rei Impotente foram privadas do direito monárquico que as assistia de reinar. A ausência da apresentação dum conjunto de formalidades legais comprovadas cometidas por ambas foi substituída nos dois casos por hipotéticas acusações da infidelidade das mães, Leonor Teles e Joana de Avis, a Aleivosa e a Leviana. Um recurso eficaz seguido pelas mais altas esferas das duas cortes ibéricas em tempos agitados de guerra civil e de agitação política.

Nesta muito oportuna versão coroada de pecado original torna-se particularmente difícil encontrar um pai alternativo para a infanta portuguesa casada aos dez anos com o rei João I de Castela e Leão, remota que é a ideia de a atribuir ao conde galego João Fernandes Andeiro. Ficou assim privada dum epíteto aviltante idêntico ao da sua prima em terceiro grau, a Beltraneja, depois transformado num outro de cariz elogioso, a Excelente Senhora, ao tornar-se na consorte real do tio D. Afonso V de Portugal e Algarve.

Os reinados de facto e de jure de Beatriz de Borgonha e de Joana de Trastâmara nos seus torrões de berço terminam de vez após as batalhas de Aljubarrota (14.08.1385) e do Toro (6.04.1474), quando os respetivos cônjuges e reis titulares são vencidos pelos novos soberanos efetivos das duas coroas peninsulares, o Mestre de Avis do lado de cá da fronteira e Isabel-a-Católica do lado de lá. A longa agonia das rainhas consortes de jure uxoris começava então até ao seu desaparecimento final sem honra nem glória dignos de memória.

Num ato de reparação tardia, alguns catálogos reais começaram a incluir nas suas listagens de monarcas o Prior do Crato, teimando a omitir a sobrinha do rei da Boa Memória. É o que acontece, v.g., na Cronologia dos Reis de Portugal, publicada pela Casa Real Portuguesa na sua página oficial da Net. Ostracismo permanente que continua a marginalizar a última rainha aclamada, jurada e com moeda cunhada da primeira dinastia. Mistério insondável que o sangue azul dos Bragança saberá explicar, se estiver para  virado.

PENDÕES REAIS DE CASTELA-PORTUGAL & DE PORTUGAL-CASTELA
Juan I de Castilla y Beatriz de Portugal  |  Afonso V de Portugal e Joana de Castela

25 de agosto de 2023

Olhares dos Avis-Áustria, olhados por Sánchez Coello e Cristóvão de Morais

Don Carlos (1564) & Dom Sebastião (1565)

Alonso Sánchez Coello e Cristóvão de Morais

Os dois primos de Avis-Áustria parece que se olham sem nunca se terem olhado olhos nos olhos. Nem na vida real nem na versão pintada. O olhar do Príncipe Don Carlos das Astúrias foi captado pelo olhar de Alonso Sánchez Coelho em Madrid. O olhar d'el-Rei Dom Sebastião de Portugal foi captado por Cristóvão de Morais em Lisboa. Os retratos dos netos de Carlos V e de Dom João III estão dispostos para quem os quer olhar a uma distância ainda maior. O filho de Filipe II e de Maria Manuel na capital austríaca e o filho de Juana de Áustria e de Dom João Manuel na capital espanhola.

Colocados lado a lado na disposição virtual de circunstância, num face a face evitado pelo olhar dos dois pintores régios quinhentistas das coroas ibéricas, os dois retratos são o produto das alianças matrimoniais multigeracionais estabelecidas entre primos e primas direitos e por partida dupla. O resultado está à vista de quem quiser olhar com olhar de quem olha estes dois bisnetos de Dom Manuel I de Portugal e Algarves e de Maria de Aragão e Castela. Um olhar atento não deixa escapar alguns dos traços fisionómicos que os retratistas não deixaram de fixar com o seu olhar de artistas.

Don Carlos (1545-1568) morreu encarcerado nos seus aposentos pessoais do Real Alcázar de Madrid, por insanidade mental, traição e tentativa de parricídio. Tinha então 23 anos e não chegou a lançar um olhar soberano sobre os domínios do pai, os tais onde o sol nunca se punha. Dom Sebastião (1554-1578), altivo, mimado e louco como o primo, morreu aos 24 anos no campo de batalha de Alcácer-Quibir, longe de poder olhar para o seu almejado império de além-mar em África. Triste fim para os herdeiros de príncipes, reis e imperadores das estirpes dos Habsburgo hispânicos e dos Avis lusitanos.

O Príncipe das Astúrias e o Rei de Portugal mais do que se olharem como primos-irmãos, bem podiam olhar-se como meios-irmãos, que detinham cerca de 50% de genes familiares em comum, fruto de fusões consanguíneas a perder de vista na árvore genealógica a que o seu olhar pudesse enxergar. Partiram os dois sem deixar descendência, assim como sucederia aos seus sobrinhos-netos, bisnetos, trinetos, tetranetos ou primos afastados de Carlos II de Espanha e Afonso VI de Portugal. Olhar distante duma parentalidade ancestral, há muito tempo malquista, malvista ou mal-olhada.

12 de dezembro de 2022

Os banhos reais da rainha perfeitíssima

Rainha Dona Leonor de Lencastre
[Lisboa, Museu Nacional do Azulejo, 1517]

Hospital, s. Do lat. hospitāle- (domus) «casa) de hóspedes», pelo fr. hôpital, já documentado no séc. xii. | Termas, s. Do gr. thermá, no pl. «termas, banhos quentes», pelo lat, thermas, mesmo sentido. | Caldas, De caldo, adj., «quente», subentende-se «águas».
José Pedro Machado, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa
[Lisboa: Horizonte, 1977 (3.ª ed.). III, 244b; V, 293a; II, 33b.]

Contam as crónicas de tempos idos ter a Rainha Dona Leonor de Lencastre avistado um bando de pessoas imersas num charco fumegante de águas sulfurosas, quando nos idos de 1484 se deslocava de Óbidos para a Batalha. Informada do teor terapêutico dos banhos, acrescentam as memórias coevas de transmissão oral convertidas num diz que diz tornado lenda ter resolvido mandar erigir ali em 1485 um balneário, transformado nos anos seguintes num hospital que a própria soberana terá frequentado.

Numa passagem rápida pelas Caldas da Rainha, quis visitar o complexo hospitalar mais antigo do mundo. Dizem. Encontrei a antiga Caza Real convertida no núcleo museológico das termas estremenhas de portas abertas mas de visita limitada. Um problema nas instalações elétricas impediu-me de aceder ao piso superior do edifício, também conhecido por Paço ou Palácio Real. Terei de aproveitar uma nova vinda à cidade da rainha para rever o espólio ali confiado para memórias futuras de vivências passadas.

Compensei de certo modo esse revés com um salto muito rápido ao tanque onde a rainha fundadora das caldas que levam o seu nome terá procurado a cura para as suas reais mazelas. Voltaram-me à lembrança os odores sulfúricos que ali inalei na infância. Poucas diferenças encontrei neste espaço vetusto com mais de cinco séculos de existência. Notei a falta de utentes, deslocados para um anexo termal mais adequado ao terceiro milénio. Quando por aqui voltar a passar, vou fazer-lhes uma visita. A ver vamos...

Gravura do primitivo Hospital Termal, 1747

18 de maio de 2022

Construções emblemáticas

[Bruxelles, KBR, Ms. 10308, fol. 1]

         Autre Nauray –  Tant Que Je Vive           

Rezam as divisas registadas em francês na emblemática ducal de Dijon que Philippe le Bon (1396-1467) teria como lema pessoal Aultre naray (port. «não terei outra»), ao que Isabel de Portugal (1397-1471) lhe respondia com Tant que je vive (port. «enquanto eu viver»). Ela é nem mais nem menos do que o único membro feminino da Ínclita Geração de Altos Infantes, ele é o todo poderoso representante do ramo borguinhão da Casa Capetíngia de Valois.

Esta declaração de amor eterno e originalidade duvidosa terá sido dita noutras ocasiões por outras entidades de sangue azulado, o que não impediu o autoproclamado Grand duc d'Occident de a dedicar à sua terceira e derradeira consorte, a única filha de Dom João I de Avis e Dona Filipa de Lencastre, que terá correspondido como era espectável. A aliança resumida no monograma PY ficava assim garantida para a eternidade, a provar que a noblesse oblige.

A Duquesa Portuguesa sobreviveu ao Duque Borgonhês quatro anos. Protegida pela paliçada do corpo da divisa, ignorou os devaneios extraconjugais sofridos e os diz-que-diz das más-línguas que a cercavam. Desdenhou o facto do Tosão de Ouro criado em sua honra que trazia ao pescoço moreno fizesse lembrar ao marido os caracóis louros da amante flamenga. Deitou tudo às ortigas e seguiu em frente como uma Avis-Lencastre de gema que era e se gabava de ser.

[Bibliothèque royale de Belgique, ms. 9242]

6 de dezembro de 2021

O regresso das máscaras

Máscaras portuguesas da Madeira, Ílhavo e Grijó de Parada
Museus de Arte Popular e Nacional de Etnologia

más·ca·ra
(italiano maschera)
Objeto de cartão, pano, cera, madeira ou outros materiais, que repre-senta uma cara ou parte dela, destinado a cobrir o rosto, para disfar-çar as pessoas que o põem. = CARAÇA
Objeto ou equipamento, geralmente em material maleável, usado so-bre o rosto, em especial sobre o nariz e a boca, para filtrar o ar ou como barreira protetora. = CIRÚRGICA
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Durante toda a minha meninice, a máscara mais não era do que uma mera caraça que servia de disfarce maior nos três dias de carnaval. De cartão pintada com cores berrantes, emprestava-nos uma feição fugaz de fictícia personalidade, feita à medida exata da mais curta quadra festiva do ano.

Mais crescidinho, rendi-me à mascarilha nas brincadeiras infantis aos índios e cowboys, inspirado na série televisiva das tardes de domingo do Zorro e do cavalo Silver. A fantasia rematava com um chapéu de feltro, umas calças de ganga e uma pistola de fulminantes no coldre do cinturão de couro.

com um assente nas letras, aprendi que o uso da máscara pelos atores teria sido introduzido no teatro por Théspis, o inventor lendário do drama ático, aplicado primeiro na tragédia e depois na comédia. O rosto abatido/sorridente de quem finge ser aquilo que não é fazia a diferença.

Entrado na terceira idade, fui surpreendido com a máscara cirúrgica ou antimáscara, pois tapa tudo menos os olhos. Magoa as orelhas, dificulta a respiração, embacia os óculos, mas aquece o nariz dos frios invernais e afasta o SARS-CoV-2 - COVID-19, aquele que, tal como o Toyota, veio para ficar.