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16 de março de 2026

Lídia Jorge, tempos de resistência do homem-estátua no jardim sem limites

«Leonardo já tinha subido, já tinha o olho vidrado, já se tinha colocado junto à linha da sombra, já viajava entre as cabeças das pessoas e as cristas dos monumentos da Baixa, metido na sua bolha de ar, sustentado pela reprodução mental da música. “Hôôooop! Yeah! Aqui vai o Static Man, admiravelmente sozinho…” – dizia para si. Agora pouco se importava, fosse pelo que fosse. Iria estar lá, já estava lá, planando diante de todos, viajando por dentro como se fosse por fora, fazendo parte de um todo e desfazendo-se no todo, mostrando a sua habilidade, ganhando o seu dinheiro na rua Augusta, até ouvir sete ou então até ouvir oito badaladas, não mais.»
Lídia Jorge, O jardim sem limites (1995)

Em quatro décadas e meia já cumpridas de escrita, a minha autora preferida publicou uma boa trintena de títulos distribuídos pelo romance, conto, poesia, teatro, crónica e ensaio, que lhe valeram várias mãos-cheias de prémios literários aquém/além das nossas fronteiras. Continua a faltar-lhe, todavia, o mais significativo galardão concedido pela comunidade de países lusófonos, o Camões, há muito devido, para já não falar do Nobel outorgado pela Academia Sueca, muito pouco sensível à ficção produzida em português. Considerandos à parte, estou a referir-me a Lídia Jorge, motivado pela leitura num dos suas criações romanescas mais significativas, O jardim sem limites (1995), que retirei da estante de livros que lhe é dedicada. Estou a fazê-lo pela terceira ou quarta vez, enquanto espero com impaciência o lançamento de mais um conjunto de histórias impressas da sua lavra imaginativa.

Um dos rasgos mais relevantes da releitura da obra completa duma determinada entidade efabulativa assenta na possibilidade acrescida de confirmarmos as linhas mestras que a distinguem dos demais companheiros de percurso. Neste caso concreto, os microcosmos novelescos que emprestam a unidade necessária aos factos narrados poderão estar ancorados numa aldeia prodigiosa ou cidade silvestre, num hotel de férias ou de murmúrios, numa casa de família, de terceira idade ou de hóspedes. A tessitura narrativa desenvolve-se ao ritmo do dia a dia num cenário regional algarvio, no urbano lisboeta, no colonial africano ou no global migratório, ocupado este último pelos descendentes dum povo que depois de dar muitas terras ao mundo se encarregou de o ocupar por uma questão de sobrevivência.

Passando das generalidades para as particularidades deste jardim ilimitado plantado nas páginas dum livro, tudo gira em torno duma dúzia de jovens na faixa etária dos vinte anos alojada na Casa da Arara, um edifício setecentista devoluto, revestido de azulejos e transformado numa hospedaria alfacinha, sita na rua da Tabaqueira, em Marvila. A ação desloca-se depois para a Baixa Pombalina, nas imediações do Arco triunfal da rua Augusta, regido pela inscrição latina VIRTVTIBVS MAIORVM, talhada em pedra para honrar a memória dos mortos e antepassados. É aí que o Static Men, suspenso no centro duma «esfera», metido na sua maravilhosa «bolha de ar» e admiravelmente sozinho, executa as suas exibições de perfeita imobilidade voluntária, corria então o verão de 88.

No horizonte pairava a ideia de bater as 15 horas obtidas por um indonésio e registar o feito no Guinness Book of Records. As etapas de superação individual vão-se sucedendo ao longo dos dias e noites, sendo a meta anelada atingida a 17 de agosto, na 27.ª jornada. A satisfação estende-se a amigos, transeuntes e patronos, perante o júbilo do resistente individual da prova. Desiste da sua homologação e continua a acalentar o desejo de ser admirado por Paolo Buggiani na Manhattan nova-iorquina. Continua as sessões de imobilidade e acaba por sucumbir, sem honra nem glória na 34.ª jornada, decorria então o rescaldo do incêndio que assolara o Chiado a 25 de agosto. Tal como na story-board escrita por um dos inquilinos do casarão comunitário, Leonardo, o performer, caiu sem honra nem glória do plinto abaixo, inanimado, sem vida, imóvel. Ironia trágica perfeita, consubstanciada na morte do protagonista no momento de alcançar a vitória, morrer jovem como os heróis helénicos e ser lembrado para sempre como digno representante do mito da eterna juventude.

A imobilidade voluntária praticada pelo homem-estátua contrasta com a imobilidade estagnada patente da cidade que o viu nascer, crescer e fenecer, o tal jardim sem limites que serve de título a uma história dos nossos dias. Move-se numa roda-viva aparente mas nunca sai do mesmo lugar. Os valores e princípios que a animam recusam-se a ceder o passo a uma realidade pautada pela mudança. O bando de filhos de boas famílias em deriva existencial representa uma geração pós-revolução em busca duma identidade que não chega a alcançar. A resistência individual ensaiada por cada um deles não logra varar as estremas do 1.º piso daquele casarão arruinado onde dia após dia planeiam uma visão pessoal do seu próprio destino fotográfico, artístico e literário. A voz da narradora sem nome martela na sua Remington o que vai observando. Fá-lo com fragmentos dispersos que a autora se incumbiu depois de completar e oferecer aos leitores. Começou a fazê-lo há trinta anos e continua a fazê-lo hoje, sempre que alguém como eu reabra o livro e as faz renascer para a vida.

15 de agosto de 2025

Zapping

Sandra Palhares
g
zapping | záping
(nome masculino)
Prática do telespetador que muda frequentemente de canal por meio do telecomando.
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

Numa noite normalíssima de verão, liguei a televisão para seguir as notícias do dia. Antes da designada hora certa, os canais privados tinham começado a despejar imagens de florestas a arder e de terras assoladas pelas chamas. Os vermelhos alaranjados com tonalidades amarelas esbranquiçadas a oscilarem com os cinzentos enegrecidos da terra queimada tentavam colar o público ao ecrã em detrimento das rivais de sinal aberto ou fechado, como se os relatos informativos selecionados diferissem muito uns dos outros. De facto, as danças e contradanças das labaredas, lumes e fogos transmitidos em direto invadiram outrossim o plasma televisivo de estação pública com uma grandeza trágica tão incendiária como a difundida pela concorrência.

Altura mais que indicada para mudar dos canais generalistas para os temáticos. Em menos dum ai, caí nas malhas do reality show mais longevo da rede televisiva portuguesa, o Big Brother, estreado entre nós um quarto de século. Aparentemente o formato continua a jogar com o mesmo agrado/desagrado dos espetadores, apesar das variantes ensaiadas ao longo dum número astronómico de edições batizadas de BB-qualquer-coisa de Secret Storys de pacotilha ou de Desafios Finais dos Famosos não se sabe bem de quê do reino do império minuto, à imagem das estrelas cintilantes das canções pop-swing descritas por Lídia Jorge n'A noite das mulheres cantoras, que aqui nenhuma celebridade canta duas notas musicais seguidas.

Deixei a casa mais vigiado do país do Grande Irmão ficcionado por George Orwell no Nineteen eighty-four e que nenhum dos inquilinos atuais alguma vez terá ouvido falar ou lido. Nos telejornais da noite, os incêndios continuavam a lavrar em todos eles com a mesma intensidade. Nessa meia hora já a Euronews tinha difundido duas séries completas de notícias de todo o mundo. Encetei uma nova tentativa pelas cadeias alternativas da Nos e deparei-me com tudo na mesma no Reino da Dinamarca. Passei à frente dos crimes atrás de crimes, como se os da CMTV não bastassem q.b., recusei as histórias natalícias e da carochinha do tempo da maria cachucha, transmitidos a toda a hora, num vira o disco e toca o mesmo atroz.

Zapping atrás de zapping, voltei à RTP, SIC e TVI. Três quartos de hora volvidos, travavam uma guerra pelas audiências, centrada no sobe-e-desce das tarifas do tresloucado americano, no chacina sem fim à vista das gentes de Gaza do genocida israelita, no assalto sem quartel à Ucrânia pelo tiranete do Kremlin. Um fartar vilanagem sem tréguas perpetradas pelo novo eixo do mal, apelidada de nova ordem internacional, neste Brave New Word despudorado que nem Aldous Huxley teve a coragem de descrever ou prever. Fartei-me do ruído das cantilenas da banha da cobra das instâncias populistas pró-nazis agora no poleiro, fechei a televisão, escolhi um vídeo no YouTube, abri um livro e viajei tranquilamente para outras paragens.

29 de outubro de 2024

Lídia Jorge, o vale da paixão e a manta do soldado desenhador de pássaros

«‒ “Ah, o que não te terão contado! Ele ria, estava quase sempre a rir  Aposto que te falaram dum estroina com a alcunha de soldado e duma manta que usava por colchão para desenhar os pássaros. O que não te terão dito sobre essa manta que usava por colchão para desenhar pássaros. O que não te terão dito sobre essa manta e sobre esses pássaros... Falaram-te de mim como um trafulha, um trotamundos, um atravessa-mares. Aposto que te envenenaram. O que sabes tu sobre isso?” Por momentos, a sua cara perdia a alegria e era tomado por uma espécie de ira que o toldava, fazendo-lhe os olhos brancos “Diz-me, repete o que te disseram eles. Diz-me a verdade...”»
Lídia Jorge, O vale da paixão (1998)

Muito de vez em quando, regresso à companhia dos livros que numa primeira leitura me deixaram uma marca indelével. Esse impulso pouco habitual tem-me acontecido com a escrita de Lídia Jorge. Sempre que o faço, fico com a sensação de se tratar da sua melhor obra e, por via das dúvidas, resgato da estante que lhe é dedicada em casa um outro título seu. Nunca me decidi qual deles ocupa o topo da lista como vencedor absoluto. São todos bons e difíceis de serem suplantados pelos demais frutos colhidos no mesmo pomar. Só fico espantado pelo facto dos diversos jurados do Prémio Camões a ignorarem sistematicamente, ano após ano, das suas escolhas, ao invés de outros areópagos literários situados dentro e fora das nossas fronteiras nacionais e linguísticas. Alguma razão obscura haverá que urge desfazer sem grandes delongas de permeio.

A última releitura que encetei do corpus novelesco de Lídia Jorge foi dada à luz entre nós com a denominação insinuante de O vale da paixão (1998), crismado depois noutras paragens editoriais com as designações alternativas de A manta do soldado ou de O pintor de pássaros, criando uma etiquetagem perfeita e lapidar para sintetizar em poucas palavras o argumento do romance, também consignada na epígrafe acima registada. A listagem poderia ainda ser ampliada se se tivesse seguido o titulamento dado pela filha ilegítima e sobrinha oficial do trafulha, trotamundos e atravessa-mares, às três narrativas fantasiosas, agrestes e abomináveis que compusera e oferecera ao genitor encoberto como vingança, estabelecido então em Buenos Aires como proprietário do Bar Los Pájaros, com todo o simbolismo contido nas fusões lexicais de O pintador de pássaros, A charrete do diabo e O soldadinho fornicador. Mas o leitor terá de saltar porém da capa do livro para a etapa final do relato para os ver inscritos em letra de forma.

Com ação centrada na fictícia aldeia algarvia de São Sebastião de Valmares, os cem fragmentos que compõem a história duma estirpe de pequenos proprietários rurais, formada por seis filhos e três noras, uma filha e um genro, três netos e uma neta do patriarca do clã, ganha o molde genérico duma saga tradicional. Entre os longínquos anos da década de 30 e os recentes de 80, a casa inicialmente plena de gente vai-se esvaziando, à medida que parte das gerações mais jovens se vão deslocando como emigrantes para as duas américas, a do norte e a do sul, e o pai, sogro e avô de todos eles é deixado para sempre à espera nunca efetivada do seu regresso ao torrão natal. Terá a companhia do primogénito deficiente, da mulher e da filha/sobrinha, a tal que narrará o destino coletivo de todos, com um destaque especial naquele que a gerara num ato único, consumado numa manta de soldado da Índia, a servir de colchão numa charrete, desenhador de pássaros, pinga-amor, troca-tintas e trota-mundos dos quatro recantos da terra, o legítimo herói/anti-herói dos eventos convocados pela fábula.

Esclarecida a titulação disjuntiva referida, focada por inteiro no tio/pai da voz enunciadora interna, cumpre juntar os sentidos possíveis da opção original, imersa no universo espacial da residência familiar. Erigida num local de paixões fortuitas, experienciadas nas campinas meridionais do país, entre o mar e a serra, i.e., os val(es) e os mares vizinhos, aglutinados na Casa de Valmares. Rótulos formais à parte, perfilhados por editores e tradutores, este testemunho oscilante de primeira/terceira pessoa, proferido por alguém que estando presente age amiúde como se estivesse ausente e não fizesse parte da história em que desempenha sem pausas nem hesitações o duplo papel de protagonista/narradora dos eventos havidos ou imaginados. Neste sentido, a saga, gesta ou fado da família, materializada na dissolução da vida rural tradicional, impressa em forma de letra nas páginas dum romance, que nos a remete para uma realidade de silêncios e ausências vigentes num período histórico recente, do qual persistem ecos ainda audíveis entre nós. Basta estar atento aos tempos de migrações, conflitos e perigos, locais e globais, a flagelar-nos no nosso dia a dia imediato. Aqui, agora e sempre.

12 de julho de 2024

Virginia Woolf e as singularidades biográficas de Lord/Lady Orlando

“Memory is the seamstress, and a capricious one at that. Memory runs her needle in and out, up and down, hither and thither. We know not what comes next, or what follows after. Thus, the most ordinary movement in the world, such as sitting down at a table and pulling the inkstand towards one, may agitate a thousand odd, disconnected fragments, now bright, now dim, hanging and bobbing and dipping and flaunting, like the underlinen of a family of fourteen on a line in a gale of wind.”

Entrei no universo imagético de Virgínia Woolf duas décadas e de modo indireto. Fi-lo através das longas e iteradas alusões ao Orlando: uma biografia (1928), traçadas nas seis dezenas e meia de páginas dum conto de Lídia Jorge sobre o desejo, cujo nome partilha com a antologia que o aloja, «O Belo Adormecido» (2004). Deste primeiro contacto com o icónico romance da ficcionista britânica, vieram-me de imediato à mente ecos remotos doutros relatos igualmente centrados num insólito virado para a esfera explícita do maravilhoso puro, com um destaque especial para os cenários sobrenaturais pintados por Oscar Wilde no Retrato de Dorian Gray. Um encontro fortuito com uma edição de bolso dum dos textos pioneiros da pós-modernidade europeia permitiu-me conhecer a história singular desse/a lord/lady sui generis, nascido/a nos finais da era isabelina e ainda vivo/a e de boa saúde à data da publicação do livro. Tinha então 36 anos de idade e testemunhara a substituição dinástica dos Tudor pelos Stuart, na passagem da centúria de quinhentos para a de seiscentos, e ter atravessado como se nada fosse a república efémera instituída pelo Protetorado Britânico e os sucessivos reinados dos Hanôver, Saxe-Coburgo-Gota e Windsor.

O caráter prodigioso no trajeto existencial do biografado capaz de impressionar os leitores está, pois, ancorado em dois polos axiais que percorrem os seis capítulos da crónica: a mudança enigmática de sexo do aristocrata inglês e a sua misteriosa longevidade de mais de 300 anos bem contados. Tudo acontece dum modo inesperado e sem obedecer a uma regra espectável de causa-efeito. As varinhas de condão dos contos tradicionais estão ausentes na totalidade da sua tessitura textual. Tudo se passa com a maior tranquilidade. A barreira racional entre o natural e o sobrenatural só se verifica fora da mancha gráfica do livro. No seu interior tudo é possível e aceite sem reboliços. A beleza e graciosidade masculina/feminina não é retratada numa tela como o fez o dramaturgo e romancista irlandês já referido. Tão pouco recorre a uma pele de onagro para satisfação dos desejos do seu proprietário, como Balzac idealizou em La peau de chagrin (1831), ou duma campainha mágica capaz de eliminar à distância um riquíssimo funcionário chinês, como Eça de Queiroz gizou n'O Mandarim (1880). As palavras escritas são mais do que suficientes para a criadora inglesa em apreço. A alotopia instala-se lentamente na fábula e mantém-se de pedra e cal até ao seu derradeiro ponto final.

O mundo alternativo plasmado nesta resenha memorialista, aquele que nos permite aceitar que a nossa condição de seres viventes é diferente daquilo que é, ou seja, que se pode passar por artes de berliques e berloques desconhecidos da condição de homem para a de mulher, sem recorrer a nenhuma intervenção cirúrgica e terapia hormonal, ou de manter uma eterna juventude, sem se submeter à voragem insaciável dos dias, semanas, meses, anos e séculos. O senso comum obriga-nos a separar os eventos trazidos à colação num duplo fluxo temporal da realidade factual e do imaginário fictício. Os sucessivos espíritos de época sucedem-se paulatinamente uns aos outros, modelando simultaneamente o perfil do protagonista na dimensão cronotópica desenhada pela História e pela Literatura. A verdade, a franqueza e a honestidade, o vício, o crime e a miséria, o amor, nascimento e morte tidos pelas pessoas anónimas/nomeadas coetâneas dos reis e rainhas, nobres e plebeus, amos e serviçais, funcionam como autênticos mestres da personagem desenhada com engenho e arte pela entidade demiúrgica que lhe deu vida nas laudas impressas duma efabulação de faz-de-conta.

As aventuras e desventuras, as conquistas e derrotas, as viagens e pousadas, recebidas, descritas e vividas em ambientes urbanos e rurais, constituem as peças-chave com que se vai erigindo o percurso labiríntico do/a herói/heroína da trama. Jornal fingido de múltiplas leituras, nem sempre claras, é considerado pelos seus exegetas como o produto diegético mais acessível composto pela sua artífice. Avaliação difícil de confirmar por quem não conhece a totalidade da sua obra, como é o meu caso. Não descarto a hipótese de preencher esta lacuna, caso detete algum título seu numa próxima visita a uma livraria. A ver vamos. Entretanto, não me coíbo de expressar a minha vontade de ver a performance de Tilda Swinton no écran (1992), gorada que está, a possibilidade de ver a de Isabelle Huppert no palco (1993), atrizes aludidas por Lídia Jorge na mise en abyme literária referida. As intenções estão tomadas. Assim os fados que nos dizem dirigir os passos me permitam concretizá-los quando para aí estiverem voltados.

20 de junho de 2024

O Orlando de Virginia Woolf visto por Lídia Jorge n'O Belo Adormecido

QUANDO A LITERATURA FALA DE LITERATURA...

Começamos a ler um conto e este remete-nos uma e outras vezes para um romance que desconhecíamos e cuja intriga resumida nos convida a visitar o original. Assim se passa das palavras de Lídia Jorge n'O belo adormecido (2004) para a tessitura narrativa de Virgínia Woolf no Orlando (1928).

Acontece na vida dos atores, mesmo aqueles cuja intimidade não se torna matéria universal da intriga dos magazines. Acontece. Tudo isso porque me tinham proposto e eu havia aceitado desempenhar o papel do único personagem colhido da Literatura, que vive durante vários séculos, que a meio do percurso muda de sexo, modos e trejeitos e fatos, meios de transportes e palácios, e procede a todas essas mudanças através de um striptease mental mirabolante, praticado diante de toda a gente. Isto é, eu iria ser Orlando, ele mesmo.

A personagem que eu representava invocava a Grande Geada que se abatera sobre a Inglaterra, na altura em que Orlando era moço. A tirada referia o momento em que a corte inglesa fora para Greenwich e o rio gelado pudera ser varrido com vassouras como se fosse o soalho dum palácio. Sobre o rio patinava uma princesa russa com título Romanovitch, a linda Sacha, da qual eu, jovem ardente me enamorava. Era o início do século dezassete britânico. [...Estava eu, precisamente, a repetir palavras, embrulhada na cama de rede, a decorar a passagem em que a personagem invocava o momento em que o Tamisa, iluminado pelos archotes, mostrava silhuetas dos peixes congelados no interior da sua massa de água solidificada, podendo os príncipes e as princesas de todas as nações patinar por cima, e eu, que não era príncipe mas lorde, encontrava-me precisamente nesse transe de ser jovem lorde patinador, quando me tinha apercebido de que da realidade surgia uma sombra.

Por mim, poderia garantir à pessoa que me esperava no Salão do Ritz, que por aqueles dias o meu melhor divertimento tinha consistido em decorar o meu papel, estando a personagem que me era cara cada vez mais volátil e mais densa, a aproximar-se, de hora a hora, da configuração burlesca para a qual fora concebida, feita de propósito para pulverizar a identidade e a História, e eu pronta para a interpretar. Dez folhas daquelas já eu fora capaz de reproduzir, de olhos fechados, e agora eu abria a janela que dava para o poito de cimento o seu guarda-sol aberto, e prosseguia como se estivesse mudando de sexo, passando de homem a mulher, fora do lugar e do tempo ‒ «Damas, cavalheiros, despertei. Que as trombetas digam a verdade. Verdade, verdade, verdade, estou nu na vossa frente…»

Mal olhava para os papéis, o tempo fazia-se outrora, eu passava a ser um jovem lorde inglês transformado em lady, e decorava o meu papel de mulher recente, agora amante de um homem, tendo de proferir frases retumbantes, a propósito da cerimónia do meu casamento ‒ «Eu chamei por ele, ele chamou por mim, e as nossas palavras subiram e giraram como falcões bravios por entre os campanários…». Diria eu pela minha personagem, tanto ela quanto o meu marido, ambos para sempre e definitivamente ambíguos, pois apenas uma célula, quando muito célula e meia, nos distinguia em matéria de ser e sexo.

Fechei os olhos, entregue à personagem que me levava agora pelas longínquas estradas de gravilha rasgadas ao longo dos prados das Ilhas Britânicas, gares ogivais do fim do século dezanove, automóveis pioneiros do século vinte, estava agarrada  ao soalho, a medir a cintura e a barriga das pernas, estava como deve estar uma profissional de teatro atenta, dominada, cumprindo um programa por objetivos, etapa após etapa. Completamente lúcida.

Eu duvidava, porém, que as palavras que Martim havia recolhido do filme da Tilda para rematar as minhas falas de quatrocentos anos, fossem adequadas para encerrar o século vinte de Orlando. Diria eu, de calção pelo joelho ‒ «Nem senhoras nem senhores. Estou entre a vida e a morte, entre o princípio e o fim. Não sou homem, nem mulher… Já estou começando outro início e ainda nem terminei este fim Estou entre a vida e a morte» [...] Eu preferia que se regressasse, de facto, àquele ano de mil novecentos e vinte e oito, metade da personagem voasse no aeroplano, e a outra metade mostrasse os seios à lua e tivesse um colar de pérolas que ardesse na escuridão, conforme o original, e os dois fossem só um, que por instantes da vida se separavam. Para quê separar o que era de Orlando?

Lídia Jorge, O belo adormecido (Lisboa: Dom Quixote, 2004, pp. 15, 32-33, 40, 56, 63, 68-69)

Tilda Swinton no écran (1992) & Isabelle Huppert no palco (1993)

22 de maio de 2024

Seis autores, seis obras, seis aberturas

SEIS NOMES POR ORDEM ALFABÉTICA
Hélia Correia - João Aguiar - José Saramago - Lídia Jorge - Maria Velho da Costa - Mário de Carvalho

A assinalar o Dia do Autor Português

1. Hélia Correia, Montedemo (1983)

Mais tarde alguns lembraram que tudo começou naquele domingo seco em que a terra tremeu. Coisa sem importância, num instante seco sentida noutro instante acalmada, nem mesmo Irene a tonta pensou que lhe servisse de mote em pregaçãoUm tremor ligeirinho no afrouxar da noite, hora de moribundos e de bêbedos, todos pensando que se balouçavam em líquidos maternos, quentes e protetores. Os outros, muito poucos, que estavam acordados: mulheres suspensas do tossir das crias, velhos apunhalados por insónias, tinham ficado em dúvida se fora realmente o chão que se ondeara numa sacudidela ou se tontura provocada por um sangue de repente engrossado ao de cima dos olhos. O padre chegou mesmo a confessar que achara muito estranho terem tocado os sinos apenas com aquele abanãozico. Mas a manhã nasceu radiosa e gelada, e o próprio mar parecia tão sem peso, tão dançarino e limpo de pecado que o assunto passou ao esquecimento.

2. João Aguiar, Navegador solitário (1996)

Eu hoje faço quinze anos mas era melhor que não os fizesse. Tive um dia lixado e pra começar o meu velho obrigou-me a trabalhar no restaurante a servir os almoços e eu nunca gosto de lá trabalhar mas no dia dos anos é pior que nos outros dias e depois a velha não me deixou sair à noite com o Angelino e a outra malta porque apareceram visitas e no fim de tudo ainda tive de começar a escrever esta merda de diário ou lá como lhe chamam e eu não gosto nada de escrever não me importo de ler porque há a Bola e há os livros de caubóis mas escrever isso é mesmo contra vontade porque é uma chatice e a gente ainda tem de pôr vírgulas mas eu vírgulas não vou nessa não ponho que se lixe.

3. José Saramago, Memorial do convento (1982)

D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou. se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. Que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessária ela fosse, porque abundam no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão vai na praça. Além disso, quem se extenua a implorar ao céu um filho não é o rei, mas a rainha, e também por duas razões. A primeira razão é que um rei, e ainda mais se de Portugal for, não pede o que unicamente está em seu poder dar, a segunda razão porque sendo a mulher, naturalmente, vaso de receber, há de ser naturalmente suplicante, tanto em novenas organizadas como em orações ocasionais. Mas nem a persistência do rei, que, salvo dificultação canónica ou impedimento fisiológico, duas vezes por semana cumpre vigorosamente o seu dever real e conjugal, nem a paciência e humildade da rainha que, a mais das preces, se sacrifica a uma imobilidade total. depois de retirar-se de si e da cama o esposo, para que se não perturbem em seu gerativo acomodamento os líquidos comuns, escassos os seus por falta de estímulo e tempo, e cristianíssima retenção moral, pródigos os do soberano, como se espera de um homem que ainda não fez vinte e dois anos, nem isto nem aquilo fizeram inchar até hoje a barriga de D. Maria Ana. Mas Deus é grande.

4. Lídia Jorge, O dia dos prodígios (1980)

Um personagem levantou-se e disse. Isto é uma história. E eu disse. Sim. É uma história. Por isso podem ficar tranquilos nos seus postos. A todos atribuirei os eventos previstos, sem que nada sobrevenha de definitivamente grave. Outro ainda disse. E falamos todos ao mesmo tempo. E eu disse. Seria bom para que ficasse bem claro o desentendimento. Mas será mais eloquente. Para os que creem nas palavras. Que se entenda o que cada um diz. Entrem devagar. Enquanto um pensa, fala e se move, aguardem os outros a sua vez. O breve tempo de uma demonstração.

5. Maria Velho da Costa, Casas pardas (1977) 

Que lindo dia, que lindo dia, margaridinhas de olho de oiro palmeirando mínimas os canteiros na berma da rua, tráfego, gentes, tudo vestido de roupa lavada, do bruto azul das nove, pressa limpa, pressa boa, deixai-me em paz e ao meu passo manso, cabeça azoada de vozes de toda a noite fechada a ver se aprendo, leixai toda a esperança de onde vos tendes lavado e para onde ides, fugidos, correntes e determinados, ganhá-lo, ganhá-lo, ‒ ganho, se o houver para mim, será aqui nesta clareza do não cegado de saltos de retina entre as noites cerradas, || Era já noite cerrada dizia o filho p’ra mãe debaixo daquela arcada passava-se a noite bem, Canta o resto, canta Lala, Agora, Zizinha, deixe-me as fitas do avental, credo, que seca, olhe a sua mãezinha que vem lá, O pai deixa, || E esta ovação clara do dia passar passando, passo leve e ar já quente, rudo tão recorte contra azul, o peito aliviado, a vista ardente a ver exatíssimo contorno de tudo, prédios, este rosa de tinta esgarçada com varandas, verde aquele pintado agora, e os elétricos que são a cor da cidade que agride, amarela a tinir a esta minha hora visionária do visível, carregadora ambulante do sétimo sentido que é o ouvido-dizer, Há num carro de bois que atravessa a cidade com hortaliça todas as madrugadas, há, disse o Amigo.

6. Mário de Carvalho, «Ignotus Deus» IN A inaudita guerra da avenida Gago Coutinho (1983)

Na semana de Pentecostes, faleceu quase toda a irmandade, de uma morte serena, mui natural. Os mais dos frades deixaram a vida com um sorriso suave, o corpo tranquilo expelindo fragrâncias olorosas. Aos dois sobreviventes, Frei Abel e Frei Domingos, nem roçou suspeita de epidemia, perante uma morte assim tão simples, tão sem sofrer. Fora servido o Senhor chamar a si os seus servos, e com brandura o fez, concedendo-lhes um trespasse em santidade, sem convulsões e sofrimentos das carnes e das almas, que cilícios e penitências e disciplinas haviam já macerado avonde.