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17 de maio de 2026

Grande gabador, pequeno fazedor...

Sou tão incrível, sou tão incrível, e por perto há gemidos, tormentos, gritos...
Sergey V. (colagem)
Megalomanias                                                        

«O campo na cidade foi moda para durar, inspirada pela megalomania demencial de Nero Cláudio Eneobardo. Cópias contrafeitas e comparativamente diminutas da soberba mansão dourada ergueram-se outrora até aos confins do Império, mesmo depois de não restarem vestígios das edificações do matricida. Desmesurados jardins, pavilhões de fantasia, lagoas artificiais, ninfas de pedra a espreitar por detrás dos arbustos exóticos, assim fora a casa urbana de Máximo Cantaber erigida por um seu antepassado e muitas vezes remodelada depois...»

Mário de Carvalho, Um deus passeando pela brisa da tarde (1994)

Assim começa o Cap. VIII dum dos mais conseguidos romances dados à estampa entre nós nos finais do derradeiro século e milénio. A megalomania toma conta do relato para relatar a antiga mansão familiar dum dos interveniente centrais da ficção. Tudo se passa aos 213 anos da era de Augusto, 928 da fundação da Urbe, i.e., por volta de 175 EC, na imaginária cidade de Tarcisis, da muito real província romana da Lusitânia, imperava então Marco Aurélio Antonino, o Filósofo.

Muita água passou entretanto debaixo das pontes deste mundo, mas os delírios megalómanos de alguns senhores do mundo nunca deixaram de se manifestar e seria demasiado exaustivo arrolá-los um atrás doutro. Mansões desmedidas, palácios deslumbrantes, castelos descomunais, metrópoles colossais, impérios globais, verdadeiras feiras de vaidades a concorrerem em grandeza faraónica uns com os outros, a erigirem-se e a caírem, quais gigantes com cabeça de ouro e pés de barro.

O Führer nazi do bigode de piaçaba queria construir um império de 1000 anos que caiu ao fim de 12 antes de erigir uma mega cidade capital do mundo. A nova Germânia projetada não chegou a sair do papel e a velha Berlim teve de ser reerguida dos escombros no final da guerra. Desfez-se em fumo sem ter visto a cúpula do Salão do Povo, capaz de reter a respiração da multidão e criar nuvens e chuva no seu interior, nem ver o Arco do Triunfo a superar em altura o napoleónico de Paris.

Duce fascista com pose de forcado de caras não se satisfez com um único arco triunfal. A cidade eterna já tinha um número q.b. dessas estruturas monumentais herdadas do período imperial. Ao invés, promoveu a construção do Palazzo della Civilità Italiana, ou Coliseu Quadrado, símbolo da nova Roma. Teria 54 arcos por fachada, 9 em linha e 6 em coluna, num total de 216. Ainda hoje pode ser visto, adaptado agora aos novos tempos que os antigos legaram aos recentes.   

O Trumpoleon yankee, o Sweet Potato Hitler e Mango Mussolini, não se fica por menos. Entre muitas minudências, mandou demolir parte da Casa Branca para construir o maior salão de baile jamais visto, pretende erguer em Washington um Arco do Triunfo digno da sua galática grandeza e juntar um busto seu no Monte Rushmore, o padrão evocativo dos fundadores da terra do Tio Sam. Megalomanias do T.A.C.O., o Trump Always Chickens Out, ou grande gabador, pequeno fazedor.

Na saga do Harry Potter, J. K. Rowling refere o abjeto Lord Voldemort, cujo nome não se pode dizer. No mundo real, o jeito a tomar com alguns figurões devia ser exatamente o mesmo, de modo a mitigar a visibilidade que os mass media lhes aferem dia a dia. Resta-nos esperar que a queda do atual manda-chuva global seja breve e eficaz, sem recorrer para tal ao suicídio, linchamento ou exílio dos seus modelos. A destituição seria suficiente para acenar com um bye-bye e um farewell sentidos.

23 de abril de 2026

A loucura que acaba cedo é a melhor

Gustave Courbet, Le Désespéré (c.1844-1845)
[
Collection Qatar Museums - Musée d’Orsay]
FALA A LOUCURA
I - Os vulgares mortais dizem mal de mim; mas não sou tão néscia como os tolos me julgam, pois ninguém é capaz como eu de divertir tanto os homens e até os deuses. [...] III - Não considero sapientes aqueles que julgam estultíssimo o elogio próprio. Se isto é estulto, é o que me convém. Não quadra tão bem à Loucura como soprar na trombeta da fama e autoelogiar-se. Quem é que pode exprimir-se melhor do que eu mesma? [...] «Já que ninguém me gaba, gabo-me eu a mim mesma».
Erasmo de Roterdão, Elogio da Loucura (1511)

Trampomanias, Trampolinices & Trampopitecas...                      

Abro a rádio e a telefonia logo pela manhã e os ruídos estridentes dos conflitos bélicos ecoam sem descanso em todos os canais noticiosos. A loucura instalou-se de vez à nossa volta por pensamentos, palavras e atos. Veio com armas e bagagens para ficar e sem levantar arraiais. Os senhores do mundo não dão tréguas aos vassalos submissos. A lei do mais forte impera. É um fartar vilanagem. Os novos imperadores, czares, basileus, pretensos reis dos reis, crescem como cogumelos em terreno baldio, estação após estação, sem apelo nem agravo.

Suetónio traça n'A Vida dos doze Césares (121EC) as excentricidades, vícios e loucuras de cada um até à derrocada final. Calígula nomeou o cavalo Incitatus como cônsul e declarou-se um deus vivo com direito a adoração. Nero terá cantado e tocado lira enquanto a cidade de Roma ardia, mandada incendiar a fim de nela construir um mega palácio à sua dimensão imperial. Um foi assassinado por um tribuno da guarda pretoriana, o outro foi obrigado a suicidar-se com a ajuda do secretário para fugir a um soldado romano que se aproximava.

As monarquias europeias não necessitaram de meios tão drásticos para afastar os seus soberanos atacados com surtos de insanidade mental. Limitaram-se a substitui-los no poder por uma regência adequada. Assim o fizeram os reis cristianíssimos com Carlos VI de França, os católicos com Joana-a-Louca de Castela, os fidelíssimos com D. Maria I de Portugal, Algarves e Brasil, os britânicos com Jorge III do Reino Unido ou os germânicos com Luís II da Baviera. Deram-lhes um exílio mais ou menos dourado e lavaram as mãos.

O bota-fora dos presidentes narcisistas, paranoicos e megalómanos agilizou-seFindo o mandato, toda a psicose autoritária, arrogante e criminosa é lançada às ortigas. Por vezes sente-se a necessidade de antecipar a retirada dos tiranetes maquiavélicos o mais rápido possível. É que, como se diz, a loucura que acaba cedo é a melhor. Assim se faça com o pretenso xerife do mundo. As fanfarronices, trampomaníacas, trampolinieiras e trampolitecas já excederam há muito todos os limites viáveis. Xô-xô, vade-retro para nunca mais!

4 de janeiro de 2026

Cíclicas

GLOBE TERRESTRE
Andreas Cellarius, Atlas cœlestis seu Harmonia Macrocosmica, 1708

Ano velho, ano novo e de meia idade...

Não há Ano Velho sem Ano Novo, nem ano de meia idade entre um e outro. Tudo começa no primeiro dia do ano e no segundo ninguém se lembra do que que disse na véspera, muito menos no terceiro e em todos aqueles que se lhe seguirem. Os dias, as semanas e os meses revezam-se uns aos outros sem pausas, iguais/diferentes a todos os demais que os precederam e sucederão. Ilusões de quem concentra num só ponto todos os pontos dum círculo, roda ou espiral cíclicos.

Este ano como nos já idos e por vir, o Carnaval será à terça, a Páscoa ao Domingo e o Natal em dezembro ou quando um homem quiser. Depois, não há dia de Ano Bom sem a difusão do concerto de Ano Novo executado pela Filarmónica de Viena de Áustria, nem a bênção papal urbi et orbi difundida da Basílica de São Pedro em Roma. Também se comerá uma fatia de bolo-rei/rainha no Dia de Reis, apesar de vivermos numa república há muito tempo assente.

Diz a sabedoria popular não haver sábado sem sol, nem domingo sem missa, nem segunda sem preguiça. Sem sol, se não houver nuvens e não chover; com missa, se houver fiéis e alguém para a celebrar; com/sem preguiça, se houver trabalho e a insónia não reinar. Nascem e morrem pessoas todos os dias do ano, seja ele novo, velho ou de meia idade. É que o sol quando nasce/põe é para todos em qualquer altura do ano. Comum, como o atual, que nem sequer é bissexto.

6 de novembro de 2025

A tertúlia das musas parnasianas…

Raffaello Sanzio, Parnaso (c. 1510-1511)
[Pallazzo Apostolico, Stanza della Segnatura, Vaticano]

Tertúlia - Tália - Parnaso

Ao entrar nos pretéritos anos 60 na Rua das Montras rumo à Praça da Fruta, deparávamo-nos com três pequenas livrarias, cujos nomes nos sugeriam de imediato alguns dos mitos e lendas ancestrais mais conhecidos da cultura helénica clássica: Tertúlia, Tália e Parnaso. Estava concentrado naquela via central da Caldas da Rainha um grupo de seres divinos e heroicos evocados amiúde pelas letras e artes. Olhando para os frescos renascentistas de Rafael no Vaticano, encontramos ali representados muitos deles a duas dimensões, sobretudo os ligados ao deus Apolo e às nove Musas, reunidos na ΄Ορος Παρνασσός, próximos de Delfos, a cantar e dançar em coro ao som da lira e dos versos dos poetas imortais antigos e modernos.

A Tertúlia de Artes e Letras ficava à entrada daquela correnteza de lojas variadas. Estava sediada no primeiro andar dum prédio idêntico a tantos outros ali residentes, mas com um recheio de livros, discos, gravuras, peças de arte, permitindo o convívio com muitos criadores dos heróis da imaginação elevados às alturas da imortalidade. Ali se reuniram no escasso par de anos da sua vida vultos conhecidos da nossa cultura, em tertúlias literárias e artísticas da παιδεία lusitana, resistente às diatribes usuais nos tempos da outra senhora de má memória para os amantes do livre-pensamento. Subi os degraus daquela escadaria uma meia dúzia de vezes e encontrei sempre ao meu dispor tudo aquilo que procurara em vão noutros locais.

Um pouco mais à frente, no outro lado da rua ainda aberta ao tráfego automóvel ficava a Tália, a mais ampla e concorrida do trio, talvez por funcionar também como papelaria, discoteca, ludoteca e outras ofertas mais para quem a visitava por hábito ao longo do dia. A musa da Comédia ‒ a tal que inspirara o nome da loja ‒ lá estava em sintonia fraterna na companhia das demais protegidas de Apolo, a guiar os potenciais amantes mortais da poesia, drama, história, dança e beleza em geral, para levarem para casa um pouco da criação artística e científica produzidas com a sua inspiração divina. Por ali passei vezes sem conta. Ali folheei revistas, ouvi discos e cirandei sem destino certo, como muitas vezes convém.

A terminar o circuito triangular e após uma nova travessia do itinerário comercial a céu aberto da cidade da rainha, deparámo-nos com a Livraria Parnaso, a mais pequena de todas mas também a mais longeva, a única que tem conseguiu resistir até aos nossos dias à voragem inexorável do tempo. A minha memória visual guarda a imagem precisa do espaço exíguo onde os livros se viam por toda a parte protegidos pela vitrine da montra virada para os passeantes e pelo balcão protetor de atendimento dos clientes. Tocávamos-lhes à distância com os olhos arregalados e cheirávamo-los com ambas as narinas bem abertas. Depois da compra, saíamos com os sentidos bem despertos para a aventura da escrita que nunca falhava.

Livrarias surgem, livrarias partem, mas, no admirável mundo novo em que vivemos, são mais as que fecham as portas até um nunca mais do que aquelas que as abrem para os amantes de livros físicos novinhos em folha. O contacto com a escrita faz-se cada vez mais à distância. O virtual condenou as sinestesias da leitura à tirania insípida do digital. Tudo se resume ao matraquear do teclado dum PC ligado à Net e à visualização do texto desejado no respetivo ecrã. Livrámo-nos de vez das poeiras e odores a mofo das edições antigas, mas fomos igualmente impedidos de acariciar as palavras impressas a tinta numa folha de papel. Por outras palavras, deitou-se o bebé fora junto com a água do banho. Nem mais nem menos.

22 de outubro de 2025

Pelo toque das castanholas...

                                    CHAROLEIRAS DE ESTOI                                    

Más contento que unas castañuelas...

Se se quiser dar um toque andaluz a um canto espanhol, junte-se-lhe um par de castanholas. Para lhe imprimir ainda um pouco de salero, que seja cantada/dançada por uma bailaora/cantante com uma bata de cola flamenca, uma peineta y mantilla e um clavel rojo en la oreja. O look ideal estará criado, o ambiente de feria de abril está criada. Depois a originalidade do todo obtido pouca importância tem, quando acompanhada pelo repique de palillos de las castañuelas.

Regista a memória dos povos que as castanholas eram conhecidas dos fenícios 3000 anos. Depois ter-se-ão espalhado um pouco por toda a parte no mundo antigo e moderno, continuando populares nas culturas ibéricas, magrebinas, sefarditas, otomanas e ciganas. Em termos meramente portugueses, as iluminuras do Cancioneiro da Ajuda documentam a sua forte presença nas mãos das cantadeiras e bailadeiras das cantigas trovadorescas galaico-lusitanos.

Pelo toque das castanholas, também se chega à tradição popular algarvia de cantar as charolas em grupo e de casa em casa, no dia de Ano Novo e nos seguintes até aos Reis, a celebrar o nascimento do Deus-Menino. As castanholas são obrigatórias nestas ocasiões festivas e comunitárias, para acentuar o ritmo das canções e versos alusivos interpretados. Ouvem-se sobretudo nos meios rurais mas também em festivais urbanos em toda a época natalícia. Viva! 

Estou a poucos dias de participar em Jerez de la Frontera num encontro internacional de coros. O Ossónoba leva na bagagem  o «El vito», um baile, canto e música popular andaluza que aguenta muito bem o toque das castanholas. Fá-lo-emos à moda portuguesa, com as conchas de madeira ornadas com fitas coloridas e seguras pelos quatro dedos maiores das mãos, que também as farão vibrar e levar o público a gritar no final os olés e vivas merecidos. ¡Vale!

Cancioneiro da Ajuda
Trovadores nobres - Bailadeiras com castanholas - Jograis com saltérios

6 de setembro de 2025

Silêncios em contracorrente

Joseph Ducreux, Le silence (1790)
[Nationalmuseum, Stockholm]

O n . z e . n á . r i . O

A palavra é de prata, o silêncio é de ouro...

Grito em silêncio histórias discretas para serem ouvidas no mais absoluto sossego por um ouvinte avaro de frases ditas ou escritas.  

Registo pausas entre notas musicais para serem sentidas em silêncio nas entrelinhas duma partitura composta num qualquer andamento.

Persigo os claro-escuros barrocos das palavras lidas ou olhadas em silêncio no jogo dinâmico das sombras e luzes que lhes dão vida.

Desenho com abertos e fechados a rede infinda numa constante magia tecida em silêncio na divisa indelével entre o tudo e o nada.

Digitalizo no intervalo dos dias e das noites um anuário contido de mutismos vozeados e calados em contracorrente até ao silêncio final.

Joseph Ducreux, Le discret, 1790

4 de julho de 2025

Memórias distantes de dejejuns infantis

«Com papas e bolos se enganam meninos e tolos.»

No arquivo das minhas memórias de menino e moço, lembro-me muito bem dos pequenos-almoços de farinha torrada preparados pela minha avó, mas absolutamente nada de alguma vez ter tido aos dejejuns um prato de corn flakes. Não é que na altura não existissem já esses flocos de milho, mas não entravam de certeza na mesas de toda a gente como primeira refeição do dia, sobretudo numa época em que a televisão começava a dar os primeiros passos entre nós, privando-nos assim da publicidade dos produtos importados transmitida do nascer ao pôr do sol.

Em meados do século passado, a Rádio continuava a ser a rainha da comunicação à distância. Os slogans repetidos a cada instante ficavam logo no ouvido de quem os ouvia. O «É trigo limpo, farinha Amparo» e o «Saiu-te na farinha Amparo» garantia-nos ser fácil e rápida de fazer, bastando para tal juntar um pouco de leite, mel e uma casca de limão a gosto. A Farinha Predileta criou com a popular «É para a avó e para a neta e também para o atleta», a que a Farinha 33 terá replicado também à sua maneira, mas que o tempo apagou de vez do meu registo mental.

Com o advento das pequenas, médias e grandes superfícies de livre-serviço, as papas matinais mais sofisticadas ganharam um lugar de destaque nas prateleiras desses novos hiper-e-supermercados multinacionais que pululam um pouco por todo o lado. O preto e branco mais ou menos cinzento rendeu-se ao colorido apelativo das embalagens da Nestlé, Kellogs & afins. Rendi-me por um período um tanto ou quanto longo às variedades oferecidas pela Nestum de cereais integrais, frutos secos e mel. Depois fartei-me, porque o sabor demasiado adocicado nunca me cativou.

Uma dieta rigorosa surta de supetão levou-me a mudar drasticamente de regime alimentar a todas os repastos. Durante uma temporada, rendi-me ao sabor peculiar da Maizena, logo substituído pelo cunho bem mais exótico da tapioca. Os sabores há muito esquecidos da infância voltaram a visitar-me logo pela manhã, repetidos por vezes a meio da tarde, por fim saídos de cena para dar lugar aos flocos de aveia. Partilho-os amiúde com o meu neto, que, tal como lá dizia o slogan da farinha acima referida, passou a ser o nosso dejejum ou pequeno-almoço predileto. Também rima e bate certo.

4 de junho de 2025

Olhar & Observar

                        IL SOFFITO DELLA CAPELLA SISTINA IN VATICANO                        
Quando sei a Roma, fai come i romani...

Quando passei de corrida por Roma, não entrei no Coliseu, não vi o Papa, e não visitei a Capela Sistina. Desisti de integrar a fila compacta que me separava cerca de 1,5km dos museus vaticanos e não sei quantas horas para concretizar o ingresso. Depois, não senti um apelo urgente para ver o Sumo Pontífice numa janelinha minúscula da Praça de São Pedro ou para entrar no Anfiteatro Flaviano dos combates de gladiadores, escravos e criminosos mil.  

A falta de tempo para visitar a totalidade dos monumentos papais e imperiais levou-me a selecionar apenas alguns e a virar-me em contrapartida para os exteriores. Deambulei pelos recintos abertos ao público do Vaticano, o mais pequeno estado do mundo; entrei na Basílica de São Pedro e admirei tudo aquilo que havia para ver; Percorri as ruas e ruelas da cidade das sete colinas ou talvez mais. Fui romano entre os romanos. Ecco in poche parole la situazione!

Para olhar e observar devidamente as histórias pintadas por Miguel Ângelo na abóbada e altar da Capela Sistina duas maneiras possíveis. Uma resulta desde logo inviável de realizar, por pressupor esvaziar o recinto das multidões de turistas que o visitam dia a dia e ter os meios necessários para vencer a distância que separa o nosso olhar dos frescos a observar. A outra, mais pragmática, sugere-nos recorrer à ajuda duma boa edição impressa da obra. Foi o que eu fiz.

Com uma edição da Taschen entre mãos, afiro a vantagem de olhar e observar as inúmeras cenas bíblicas, separadas do imenso painel central, lunetas laterais e cantos de esquina ali reunidas a não sei quantos metros do chão ou do monumental Juízo Final colocado ali à frente do nosso raio de visão. Destacar qualquer uma delas seria uma missão votada ao fracasso, máxime porque todas as demais sairiam injustiçadas e, lá diz o ditado, la vita è breve e l'arte è lunga.

29 de maio de 2025

Original & Imitação

Um peixinho dourado com barbatana dorsal de tubarão

Não queiras sapateiro tocar rabecão…

Qualidade & Quantidade

Quando os complexos de inferioridade se transformam em complexos de superioridade, a mania das grandezas manifesta-se em toda a sua extensão. Desmesuradamente. A originalidade evapora-se e a imitação explode. Os exemplos não faltam. Pequenos e grandes, antigos e recentes, imprevisíveis e expectáveis. Deixemos os de menor calibre de fora e convoquemos alguns dos mais visíveis. Nascidos numa etapa civilizacional longínqua, desenvolvidos num fluxo civilizacional contínuo e prenúncio duma evolução civilizacional vigente, perdida num horizonte de eventos ignotos, mas cada vez mais próximos do nosso ângulo de visão.

Começando com os Sumérios, não se sabe ao certo de onde vieram nem para onde foram. Provavelmente, quando inventaram a escrita, já teriam esquecido a sua proveniência e acabaram por se diluir no seio dos Acádios semitas. Nem uns nem outros se encarregaram de registar em nenhuma placa cuneiforme estes dados que em nada lhes interessaria documentar. As lendas do rei sumério de Uruk uniram-se na epopeia acádia de Gilgamesh. Estes aproveitaram-se da matéria-prima original, ampliaram-na a seu belo prazer e criaram um género novo que muitos outros depois imitaram, com Homero, Virgílio e Camões à cabeça de todos eles.

Na Idade dos Heróis épicos, Troia foi tomada, saqueada e incendiada pelos Aqueus, após um cerco de dez anos. Eneias consegue fugir e protagonizar um sem número de aventuras por terra e por mar até chegar à anelada península italiana. Aí, estará na origem da fundação lendária de Roma, cidade imperial que posteriormente conquistará toda o Mare Nostrum mediterrânico, incluindo os antigos territórios gregos. Com esta anexação punitiva, a nova senhora incontestável do mundo conhecido tenta demonstrar a alegada superioridade bélica latina sobre a invejada superioridade cultural helénica. Exageros à parte, cá se fazem cá se pagam.

Os eixos do poder mudaram-se para o novo mundo, levando consigo a secular matriz do velho continente. Para a ereção da capital, os seus arquitetos associaram as colunas e pilastras gregas aos arcos e cúpulas romanas. A acumulação desregrada de originais alheios imitados à exaustão encontra o expoente máximo no Capitólio, um misto de templos helénicos e de basílica latina ou dum bolo de noiva com vários andares. A sujeição da qualidade à quantidade, feita à medida do atual inquilino da Casa Branca, a alimentara-lhe o ego e a transformá-lo num lídimo César global, a vencer aos pontos a loucura de Nero, Calígula ou Caracala.

WASHINGTON, THE CAPITOL. (US-D.C.(1891) 

17 de maio de 2025

Habladuras quevedescas

Francisco de Quevedo. Medallón en la Plaza de España de Sevilla

Nadie ofrece tanto como el que no va a cumplir...

Procurei a origem da frase/sentença de Don Francisco de Quevedo y Villegas, mas não a encontrei na Poesia Completa, no Buscón ou nos Sueños. Terá sido registada num outro escrito menos conhecido ou formulado por outras palavras. É bem provável que assim seja ou que a minha pesquisa não tenha sido suficientemente eficaz para a achar.

Tendo em atenção o espírito satírico particularmente apurado d' El Juvenal Español, não ponho grandes reservas à sua autenticidade. Depois, como os ensinamentos que os dias de hoje nos vão dando, considero a pertinência do dito/anexim perfeitamente atual. Pena que assim seja, mas, como sói dizer-se em bom português, contra factos não há argumentos.

29 de abril de 2025

Sófocles, a cegueira e a clarividência trágicas do rei Édipo de Tebas

Jean-Auguste-Dominique Ingres
Œdipe explique l'énigme du sphinx - 1808
ΟΙΔΙΠΟΥΣ
Τέκνα του Κάδμου του παλιού γενεά νέα, τι συναγμένοι κάθεσθε σ’ αυτούς τους τόπους, με τα κλαδιά της ικεσίας στεφανωμένοι; Και η πόλις είν’ από θυμιάματα γεμάτη, και αντιλαλεί από στεναγμούς κι από παιάνας; Αυτά εγώ απ’ το στόμα να μάθω θέλοντας, κι όχι απ’ το στόμα των μαντατοφόρων ο πολυφήμιστος ήλθα εδώ πέρα Οιδίπους. Λέγε μου ωστόσο γέροντα που σου ταιριάζει πρώτα απ’ τους άλλους να μιλής: η αιτία ποια να ’νε που ήλθατ’ εδώ στεφανωτοί με δάφνης κλώνους; Για ένα κακό που πάθατε ή μήπως γι’ άλλο που προσδοκάτε; πρόθυμος να σας βοηθήσω. Γιατί θενά ήμουν άσπλαχνος αν δεν λυπούμουν αξιολύπητους όπως εσάς ικέτας.

Repete a sabedoria popular milenar que Édipo matou o pai e casou com a mãe. Assimnem mais nem menos, sem esclarecer muito bem a razão de tal insólito. Sigmund Freud encargou-se de clarificar essa dupla singularidade com a formulação do popular complexo centrado na figura do rei/tirano de Tebas, protagonista da tradição lendária grega antiga. Mais abrangente seria o saber do público ateniense contemporâneo dessas histórias pretéritas do que a dominada pelos espetadores/leitores atuais, a ponto de dispensar a menção a alguns eventos significativos ocorridos em data anterior aos representados no drama. Sabia, v.g., ter Laio raptado Crísipo, tendo por isso sido maldito por Pélops e punido por Zeus. O castigo seria executado pelo próprio filho do violador das leis da hospitalidade, que lhe tiraria acidentalmente a vida e desposaria a viúva. Todos os antecedentes causadores do desenlace funesto são de seguida revelados pelas falas ditas pelas vozes em cena no Prólogo, Párodo, Episódios, Estásimos e Êxodo, compostos por Sófocles no Rei Édipo (415 AEC), certamente a mais famosa tragédia ática que até nós chegou.

Às omissões já referidas, haverá que acrescentar os episódios que levaram à morte do velho tirano de Tebas e ao entronamento do novo, tal como do seu passado remoto e enlace com a rainha viúva. É que tanto o público dos festivais dionisíacos urbanos da primavera e dos leneus rurais de inverno, como das Paneteneias quadrienais, sabia perfeitamente que o protagonista havia sido abandonado à nascença, adotado pelos reis de Corinto e tirado fortuitamente a vida ao pai biológico numa rixa travada num cruzamento de caminhos estreitos da Beócia. A tragédia de Sófocles centra-se, precisamente, no processo de autognose de Édipo, determinado em esclarecer a razão da animosidade dos deuses para com a cidade que o escolhera como soberano, por ter decifrado o enigma da Esfinge e livrado a pólis de males maiores, e para as causas que haviam provocado a morte do seu antecessor por um malfeitor desconhecido.

A chave de todo o drama baseia-se na convicção helénica de que ninguém pode fugir à sua sorte. Nem sequer os deuses teriam a faculdade de exercer o livre-arbítrio, de fugir à inevitabilidade ditada pela ananke, a necessidade, força, compulsão, coação ou ordem natural, levada ao extremo da arrogância. O oráculo de Delfos, ao prever o destino do herói/anti-herói que empresta o nome ao drama, guiou em vão os verdadeiros pais a mandá-lo matar. Contra a sua vontade e à de todos os intervenientes na representação cénica dos factos acontecidos, o corifeu e coreutas na orquestra e os atores no proscénio, a liha de vida traçada mesmo antes de nascer acabaria por se cumprir em todos os seus pormenores. O parricídio seguido do incesto, ainda que inconscientes, teriam de seguir o seu trajeto tal e qual estavam predestinados desde a origem dos tempos.

ironia trágica definidora do género distribui-se pela circunstância, algo absurda nos nossos dias, de serem os filhos a expiar os erros dos pais, de tomarem sobre os seus ombros a hybris pretérita dos genitores, propiciando, assim, a catarse purificadora de soberbas mil, descomedimentos e insolências de outrem. Édipo, o todo poderoso pés-furados de Tebas, submete-se às suas próprias leis, vazando os olhos que não tinham visto a realidade enquanto sãos e renunciando ao trono que lhe cabia por herança. Clarividência sábia difícil de repetir desde pelos detentores do poder. Nem sequer em sentido figurado. Estes ouvem os rumores sem fundamento documentado, comutam as dúvidas em certezas e derrubam os caídos em desgraça sem apelo nem agravo. Ignoram o exemplo do descendente de Laio e Jocasta, quando as suspeitas de favorecimentos alheios recaem sobre os seus ombros, demonstrando ser a inocência encarada de modos muito distintos, consoante as molduras conjunturais envolventes, a da honestidade ou a da prepotência. É que de facto, como diz a sabedoria popular, o pior cego é aquele que não quer ver.

ÉDIPO
Meus filhos, nova geração do antigo. Cadmo nascida, que quereis sentados neste lugar, com ramos de suplicantes adornados? A cidade está, a um tempo, repleta de incenso, de peanes e de gemidos. O que entendi  não bastar conhecer pela boca dos mensageiros, vim sabê-lo em pessoa, filhos, eu, nome Édipo, para todos glorioso. Mas vamos, ancião, fala, pois a ti compete falar por eles: em que disposição vieste, por que medos ou anseios? Pois é meu desejo em tudo vos ajudar. Insensível eu seria, se me não apiedasse perante esta vossa atitude. 
Sófocles, Rei Édipo (415 AEC; Prólogo 1-14)