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8 de março de 2024

Somerset Maugham e as paixões teatrais da divina Julia Lambert

“You don't know the difference between truth and make-believe. You never stop acting. It's second nature to you. You act when there's a party here. You act to the servants, you act to father, you act to me. To me you act the part of the fond, indulgent, celebrated mother. You don't exist, you're only the innumerable parts you've played. I've often wondered if there was ever a you or if you were never anything more than a vehicle for all these other people that you've preten-ded to be. When I've seen you go into an empty room I've sometimes wanted to open the door suddenly, but I've been afraid to in case I found nobody there.”

W. Somerset Maugham era ainda um autor muito conhecido entre nós na viragem dos anos 60 para os 70, décadas em que o li pela primeira vez. Agora, entrados num novo século e milénio, raramente se um texto seu disponível numa livraria, nem sequer os mais populares, aqueles que lhe valeram um renome global, traduzidos em dezenas de línguas, adaptados amiúdas vezes ao cinema e representados nos mais reputados palcos teatrais do mundo. Encontrei As paixões de Júlia (1937) por mero acaso e sem recorrer à compra on-line, aquela que me impede de folhear o volume desejado in loco e enebriar-me com o cheiro da tinta acabada de imprimir. Estavam meio escondidas no meio doutros títulos completamente desconhecidos. Retirei-o de imediato do reduto onde se alojara e trouxe-o para casa. De quando em quando há surpresas que convém aproveitar antes a que se desfaçam sem pedir licença a ninguém.

A leitura prévia da sinopse patente na contracapa do tomo resgatado duma estante livreira revela-nos tratar-se da história da maior atriz inglesa do seu tempo, que estaria então no auge de sucesso da sua carreira. Diz-nos, ainda, estar cansada do marido e se ter deixado envolver pelas atenções dispensadas por um jovem admirador. Um vulgar ménage à trois que terá causado uma reviravolta irreversível na sua vida até então perfeita e imperturbável. Atrevi-me a resumir aqui a obra, baseado nos dados facultados pelas próprias entidades editoras, a Leya-Asa, que a trouxeram ao convívio dos recetores atuais, há muito afastados dos tempos complexos que mediaram as duas grandes guerras mundiais que abalaram a primeira metade do século passado. A banalidade dum tal enredo quase dispensaria, à partida, a incursão pelas quase três centenas de páginas do relato, caso não tivessem sido escritas por quem foram e que tantas horas de perfeito prazer estético tem vindo a oferecer a quem dele o tem ouvido por palavras escritas e ouvidas.

Por alguma razão desconhecida, o autor britânico, nascido em Paris e falecido em Nice, destacou-se com igual acerto poético na tessitura de dramas, romances, contos e ensaios, patenteando uma facilidade exímia no manejo das técnicas específicas dos discursos direto e relatado. Essa perícia rara de conjugar diálogos, monólogos interiores ou correntes de pensamento encontra-se bem demonstrada neste caso concreto, em que as diversas modalidades literárias referidas se cruzam a cada momento, como se se tratasse juntamente duma peça de teatro representada nas laudas dum romance. A escolha do título original inglês acerca-se, assim, muito mais ao efeito visado de captar a atenção do leitor/espetador, do que as variantes usadas em algumas versões traduzidas ou na sua adaptação à sétima arte.

Pegando precisamente na versão filmada de István Szabó, o Being Julia (2004), apercebemo-nos que a temática catalizadora da trama recai no nome próprio da protagonista, a força dramática que anima a narrativa levada para o grande ecrã. Uma Annette Bening real a dar corpo e voz à Julia Lambert da ficção, cujas sonoridades fonéticas me trouxeram à lembrança as imagens dispersas duma fita que, em tempos, vira num qualquer canal televisivo. Apraz-me imaginar o quanto Somerset Maugham gostaria de saber que um texto seu quase secular continua a dar cartas a quem o quiser visitar nas folhas dum livro ou nas imagens projetadas numa tela de cinema, faculdade que as obras maiores da criatividade humana logram atingir. Talvez o segredo se situe na arte de contar factos ocorridos no já longínquo ambiente teatral londrino dos anos 20/30 novecentistas, recorrendo, para tal, a uma ironia-sarcasmo-cinismo ímpar que lhe granjearam essa tal reputação intemporal reservada a pouquíssimos. Até pode ser, se o deleite sentido pela leitura se mantiver alojado entre nós agora e sempre que o quisermos fruir em toda a sua plenitude.

20 de fevereiro de 2024

Crónica das crónicas em pedra grés

«Numa das minhas tentativas de comer um hambúrguer no pão com elegância social, numa hamburgueria junto ao Campus da Penha da Universidade do Algarve, tive a companhia de um colega com o qual almoço regularmente. A nossa conversa fluía, enquanto elegantemente tragávamos os hambúrgueres, sobre a construção da personalidade e a existência de Deus. O meu amigo revelou como a Servidão humana de W. Somerset Maugham tinha sido essencial na sua rejeição de Deus. Relatou-me com emoção a cena em que o Philip Carey (figura central do romance) reza a Deus, com toda a sua fé, para acordar no dia seguinte curado da deficiência física com que nascera (com um pé boto). Ao confrontar-se com a eternidade das limitações impostas pelo seu corpo, o jovem descobre que a normalidade é a coisa mais rara do mundo e apaixona-se pela arte e pela literatura. Como referia o meu colega, os romances conseguem responder às nossas inquietações, às inquietações de juventude e de idade adulta.»

O meu amigo e colega António Guerreiro lançou este fim de semana na Fnac da Guia as suas Crónicas em pedra grés (2023), uma seleta de cem olhares diferentes do nosso olhar de todos os dias sobre o mundo, publicados no jornal Terra Ruiva de Silves nos últimos vinte anos. Assisti à apresentação acompanhado de um conjunto de companheiros das lides académicas que atualmente só revejo em situações muito especiais como esta. De todos esses reencontros ocasionais, destaco o da Teresa Maló Sequeira, a moderadora da sessão, também ela parceira de práticas letivas que já tivera como aluna duma licenciatura em educação. Faço-o pela forma dinâmica como conduziu a apresentação do autor-obra, como promoveu a partilha de diálogos entre todos os participantes e contribuiu para o sucesso da iniciativa.

Ainda não li com olhos de ler a totalidade de testemunhos de vida vividos aqui coligidos. Fá-lo-ei na devida altura, sem pressas nem sobressaltos. Uma leitura em diagonal pelo índice remeteu-me para alguns temas que na época da escrita havíamos comentado, regra geral à hora de almoço dum qualquer restaurante das imediações do local de trabalho. Não os vou comentar aqui. Ultrapassaria em muito a dimensão duma única folha A4, o tamanho adequado para um texto desta natureza. Abrirei uma excepção para aquela que transcrevi parcialmente na epígrafe, pelo simples facto de ser o protagonista do episódio relatado e trazido ao domínio público.

A «Servidão», assim se chama a tal crónica destacada nesta crónica de crónicas, está repartida por dois momentos tidos a curta distância de espaços e tempos. O primeiro ocorreu na Hamburgueria da Baixa, sito próximo do Campus da Penha. Lembro-me de ter então pedido um Escangalhado, cujo nome já anuncia as dificuldades acrescidas do seu manuseamento, sobretudo para quem alguma dificuldade para lidar com esta sandes super-recheadas de proteínas animais, alguns vegetais avinagrados e uma profusão de molhos coloridos servidos à vontade e apetite do freguês. Uma companheira de repasto elucidou-nos a esse propósito o modo expedito como resolvera o problema, ou seja, com o mero recurso à faca e garfo. Assim o fizemos também nós os dois e saiu-nos às mil maravilhas. Uma originalidade banal, mas elegante e eficiente.

A segunda parte foi representada a dois num café local que servia uns pratos simples à hora do almoço e cujo verdadeiro nome me escapou completamente. Conhecíamo-lo pelo Vermelhinho, a cor dominante naquele espaço simpático e ambiente familiar que a austeridade de memória da troika fechou e o confinamento imposto pelo covid-19 impediu de reabrir. A temática da personalidade e existência de deus ter-nos-á surgido por um qualquer motivo que agora me escapa. Em contrapartida, a alusão à Servidão humana de Somerset Maugham é fácil de apontar pela parte que me toca. Trata-se, aliás, dum dos livros da minha vida, como  referi várias vezes aqui neste espaço e me escuso de repetir. Sem me querer alongar muito no assunto, direi que passados os verdes anos e instalado na geração grisalha, mantenho as opiniões então proferidas. De facto, certos juízos que quando se traçam são difíceis de alterar ou impossíveis de afastar.     

6 de setembro de 2023

Rotinas em contracorrente

Pam Wenger, Morning Routine (2020)
[Wall Art ‒ fineartamerica]

                   Noves fora nada...                    

Sometimes the writer must ask himself whether what he has written has any value except to himself...

Voltei às minhas rotinas em contracorrente do pós-férias de verão em tempos ditas grandes. Retomei o cantar & ouvir com horário fixo e mantive o ler & escrever e o blogar & comentar com horário livre.

Deitei para trás das costas os noves fora nada que já leva este espaço de histórias ditas em conta-corrente flexível e prossigo esta caminhada de anuário rumo à primeira década de vida real e virtual.

Peguei na reflexão do W. Somerset Maugham feita em jeito de Exame de Consciência e resolvi compor algumas palavras mais sobre o tudo e coisa nenhuma que vão tendo algum sentido para mim. Até ver.

31 de agosto de 2023

Somerset Maugham, o frágil significado da condição humana no fio da navalha

 

“I have never begun a novel with more misgiving. If I call it a novel it is only because I don't know what else to call it. I have little story to tell and I end nei-ther with a death nor a marriage. Death ends all things and so is the comprehen-sive conclusion of a story, but marriage finishes it very properly too and the so-phisticated are illadvised to sneer at what is by convention termed a happy en-ding. It is a sound instinct of the common people which persuades them that with this all that needs to be said is said. When male and female, after whatever vicissitudes you like, are at last brought together they have fulfilled their biolo-gical function and interest passes to the generation that is to come. But I leave my reader in the air. This book consists of my recollections of a man with whom I was thrown into close contact only at long intervals, and I have little knowled-ge of what happened to him in between. I suppose that by the exercise of inven-tion I could fill the gaps plausibly enough and so make my narrative more cohe-rent; but I have no wish to do that. I only want to set down what I know of my own knowledge.

Nos anos de aprendizagens académicas básicas recebidas na grande cidade, tinha o hábito de ampliar a minha biblioteca pessoal com um ou outro exemplar trazido da feira do livro, a imensa festa anual dos amantes da república das letras que então se realizava na avenida da Liberdade. A bolsa não dispunha de muitos fundos e a escolha foi sempre pacífica e fácil de satisfazer. Já levava os meus autores-títulos engatilhados e Somerset Maugham era um deles. Nesse distante mês de maio de 72, chegara o momento d'O fio da navalha (1944) entrar em cena. Mantém-se comigo desde então e acaba de ser revisitado mais uma vez, sempre com novas leituras a revelar.

A ação central decorre no período histórico compreendido entre as duas guerras mundiais nunca referidas com tal. A bem-dizer, a mais recente é aludida de raspão e a escassíssimos parágrafos do fim, muito embora a sintamos espreitar o horizonte com mais insistência após os efeitos devastadores provocados pela crise da bolsa de Nova York de 1929, sobretudo em algumas das personagens com maior visibilidade na tessitura narrativa sem ocuparem todavia o estatuto de protagonistas. Estes lograram escapar à grande depressão e avivar a atenção do narrador, também participante no relato como cronista ocasional e biógrafo parcelar de todos eles, com especial incidência no ex-aviador norte-americano Laurence Darrell, mergulhado numa vadiagem militante pelo mundo fora em busca dum significado para a existência humana. Este mesmo Larry, como era conhecido e tratado pelos amigos, partilha esse modo de vida errante com o snobismo ferino de Elliot Templeton e o cinismo mordaz de Somerset Maugham, formando com eles uma lídima estrutura triangular particularmente enriquecedora da urdidura efabulativa.

Durante muito tempo tenho resistido à tentação de compor uma top lista com os livros da minha vida. E já estou a considerar um número plural de textos, porque a eleição dum único deles seria uma tarefa perfeitamente impossível de concretizar para não dizer absurda. Ancorei-me sempre ao argumento do meu prazer de leitura continuar muito vivo no meu dia a dia e de acalentar a ideia de mais tarde ou mais cedo encontrar essa tal obra que supere todas aquelas que a haviam precedido. Prosseguindo o périplo pela estante guardiã das minhas viagens pelo universo dos livros efetuadas no início da década de 70, apercebi-me que alguns deles marcaram de facto a minha passagem da fase adolescente para a adulta de modo decisivo. As respostas dadas na Servidão humana, no Exame de consciência e n'O fio da navalha às questões que então me fazia seriam, só por si, suficientes para colocar estes títulos como os três mais significativos dos meus teenage years. Nunca mais, a partir de então, as noções de finito/infinito, de deus-eternidade-absoluto, ou mesmo de bem/mal me voltaram a incomodar do mesmo modo. Ultrapassei-os e com caráter definitivo até hoje. Razão mais do que suficiente para inaugurar essa listagem há tanto tempo adiada.

Lidos e relidos os livros muito depositados numa estante especial da biblioteca de casa, detenho-me na história de vida do andarilho retratado lacunarmente neste romance de seres reais com nomes de fantasia. Foi na Índia da Hatha Yoga que terá encontrado entre os swamis de Ramakrishna a chave que lhe abriria as portas para vislumbrar as três manifestações da Realidade Final, regidas por Brama, o Criador, Vixnu, o Conservador, e Xiva o Destruidor. É também nesse ambiente místico que o narrador-autor, ficionista e dramaturgo britânico se inspirou para dar um título adequado ao relato. Fá-lo a partir dum princípio registado no Katha-Upanisado livro sagrado do hinduísmo, que alerta para o quão difícil é andar sobre o aguçado fio duma navalha, o árduo caminho para atingir a Salvação. As caminhadas da figura maior da crónica chegou a bom porto. O mesmo se diga do cronista que lhe deu corpo e preservou voragem dos dias, meses e anos através da palavra escrita. Até o exemplar impresso que o trouxe até mim resistiu a esse desgaste. A efemeridade do suporte material a ser superada pela perenidade da obra gravada na memória das gentes.