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4 de janeiro de 2026

Cíclicas

GLOBE TERRESTRE
Andreas Cellarius, Atlas cœlestis seu Harmonia Macrocosmica, 1708

Ano velho, ano novo e de meia idade...

Não há Ano Velho sem Ano Novo, nem ano de meia idade entre um e outro. Tudo começa no primeiro dia do ano e no segundo ninguém se lembra do que que disse na véspera, muito menos no terceiro e em todos aqueles que se lhe seguirem. Os dias, as semanas e os meses revezam-se uns aos outros sem pausas, iguais/diferentes a todos os demais que os precederam e sucederão. Ilusões de quem concentra num só ponto todos os pontos dum círculo, roda ou espiral cíclicos.

Este ano como nos já idos e por vir, o Carnaval será à terça, a Páscoa ao Domingo e o Natal em dezembro ou quando um homem quiser. Depois, não há dia de Ano Bom sem a difusão do concerto de Ano Novo executado pela Filarmónica de Viena de Áustria, nem a bênção papal urbi et orbi difundida da Basílica de São Pedro em Roma. Também se comerá uma fatia de bolo-rei/rainha no Dia de Reis, apesar de vivermos numa república há muito tempo assente.

Diz a sabedoria popular não haver sábado sem sol, nem domingo sem missa, nem segunda sem preguiça. Sem sol, se não houver nuvens e não chover; com missa, se houver fiéis e alguém para a celebrar; com/sem preguiça, se houver trabalho e a insónia não reinar. Nascem e morrem pessoas todos os dias do ano, seja ele novo, velho ou de meia idade. É que o sol quando nasce/põe é para todos em qualquer altura do ano. Comum, como o atual, que nem sequer é bissexto.

30 de outubro de 2022

Baile mandado das horas

Cadran d'horloge de la Révolution française
[Combiné traditionnel et décimal]

Às duas horas deste último domingo de outubro, voltará a ser uma da manhã em Portugal peninsular e Madeira. A antecipação nos Açores far-se-á à uma hora do novo dia, respeitando a diferença de fuso horário de GMT+0 para GMT-1. Dá-se assim início à hora oficial de inverno, ao que parece aquela que estará mais de acordo com a hora solar aparente ou real, num compromisso medial nem sempre pacífico entre a hora fornecida por um relógio solar (sol verdadeiro) e por um relógio comum (sol fictício).

Se o calendário republicano francês continuasse a marcar a dança das horas, teríamos de esperar pelo 8.º minuto, do 8.º dia, da 1.ª década do mês de Brumário, do ano 221, para recolocar o relógio no início do horário oficial de inverno. Complicado mas curioso para quem está afastado desses modismos revolucionários a seu tempo criados e revogados. Napoleão terá tido em boa hora as suas razões para deixar de vez a hora decimal dos sansculotides e restabelecer a duodecimal dos royalistes. Hèlas !

5 de outubro de 2022

Julianos & Gregorianos

     MEDIEVAL CELESTIAL WOODCUT     
Católicos & Ortodoxos
Se a conjugação astral do Sol e da Lua se voltasse a repetir como há 440 anos, é bem provável que na data de hoje a contagem das rotações anuais da Terra fosse atualizada, passando-se da noite para o dia do 5 de outubro esperado para o 15 de outubro antecipado. A supressão desses dez dias anuais foi decretada pelo Papa Gregório XIII na bula Inter gravissima, assinada a 24 de fevereiro de 1582. A substituição do calendário juliano pelo gregoriano tinha em vista corrigir a discrepância multissecular cavada desde 46 AEC entre a duração dos ciclos solar e lunar.

A revolução papal não foi seguida de imediato em todo o lado. Levou o seu tempo a concretizar-se. As rivalidades ancestrais entre Católicos e Ortodoxos não se fizeram esperar. As datas das grandes festividades do cristianismo latino e grego continuam a manter as suas divergências até aos nossos dias. Só assim se entende que o natal de inspiração romana ocidental se celebre em dezembro e o de tradição grega oriental em janeiro. Razão também para que a revolução russa dita de outubro se festeje atualmente em novembro. Bizantinices, em suma.

As repercussões em Portugal neste 5/15 de outubro seria mínima, apesar de perdermos de imediato um feriado sem ser tempo da Troika de triste memória. A implantação da República e, por arrastamento, da conferência de Zamora ficariam este ano privadas de ser evocadas na data exata em que ocorreram ou seriam transferidas para uma outra altura mais adequada, motivo suficiente para alvoroçar os defensores/detratores das datas oficiais da fundação/queda da Monarquia. Por bem fazer mal haver, como sói  acontecer em momentos revolucionários.

ECLIPSIS SOLIS & LUNE
Hartmann Schedel, Liber Chronicarum, Nürnberg, 1493
[Woodcut, Nuremberg Chronicle]

22 de setembro de 2022

O réveillon republicano do sansculottide

Calendrier républicain de l'an III
Dessin de Philibert-Louis Debucourt, 1794 
[Bibliothèque national de France]

A partir do equinócio do outono de 1792, os anos passaram a ser contados de modo diferente e os meses, dias e horas cederam ao sistema decimal e adotaram novas formas para se nomearem. Uma revolução completa que conseguiu resistir uma parca dúzia de órbitas solares à calendarização tradicional do tempo.

Se a nova terminologia tivesse resistido ao período revolucionário francês, a data de hoje corresponderia ao quintidi sansculottide de l'an ccxxx, o vigésimo segundo dia de setembro de 2022 ter-se-ia tornado no quinto dia epagonal, sextavado ou intercalar de 230, apelidado le jour de la recompense. Curioso mas obscuro.

Mais bizarro será atender que o calendrier républicain festejaria essa noite a véspera do jour de l'an ou do réveillon. Tal insólito resulta dos meses de 3 décadas e do não-mês suplemente de 5 e 6 sansculottides ou dos sans-culottes, situados nos anos normais e bissextos, na passagem do fructidor para o vendémiaire.

           Sans-culottes en armes           
Jean-Baptiste Lesueur (1793-1794)
[Musée Carnavalet - Histoire de Paris]

No final desta quinta-feira, não se beberá uma taça de champagne ou comerão os 24 bagos de uva passa ao toque das badaladas da 1/2 noite. O São Silvestre não será trocado por um ignoto São Culotide. Suspirar-se-á pelo fim duma semana gregoriano de 7 dias, bem mais agradável que a de 10 da versão revolucionária.

1 de julho de 2022

Julho, o mês natal do divino Júlio

Julius Caesar

Workshop of Colin Nouailher (c. 1541)
IULO. (Iulus.) Iulo (em latim Iulus) é outro nome do filho de Eneias, Ascânio. É a ele que se vai buscar a origem do nome da família dos Iulii, à qual pertenciam César e, por adoção, Augusto. Iulo fundou no Lácio a cidade de Alba, a metrópole de Roma.
Pierre Grimal, Dicionário da mitologia grega e romana (Lx: Difel, 1992, 255b)

Tal como el-rei D. Dinis, Caio Júlio César (100-44AEC) fez tudo quanto quis. Tudo ou quase tudo. Nasceu patrício, foi militar e morreu político. Fez-se general, ditador e cônsul. Conquistou, governou, subornou. Foi tribuno militar, pontífice máximo e primeiro triúnviro. Contribuiu para converter a República em Império. Só lhe escapou ‒ como desejaria ‒ a coroa real e a imperial. Foi impedido de as usar por um grupo de senadores que o assassinaram nos idos de março, na cúria pompeia do Campo de Marte. A César o que é de César a Roma o que é de Roma.

O membro da Gens Júlia, alegado descendente de Vénus, Eneias e Ascânio, esposo de Cornélia Cinila e amante de Cleópatra Filopátor, tio-avô e pai adotivo de Otávio Augusto, obteve após a morte o título de Divino Júlio com direito a um templo no fórum romano. Fundador da dinastia Júlio-Claudiana ou dos Doze Césares, influenciou ainda os senhores absolutos dos impérios europeus modernos, pretensos herdeiros legítimos do antigo Império Romano que tentaram imitar, tais como o Kaiser germânico e o Czar russo, evoluções fonéticas claras do Cæsare latino.

As vitórias bélicas alcançadas na Gália e na Britânia estenderam-se a outros campos de batalha. Apoiou a reforma do calendário romano tradicional organizada pelo astrónomo Sosígenes de Alexandria e usou depois o seu próprio nome para o batizar de calendário juliano. NaturalmenteTambém aqui veio, viu e venceu. O Qvintilis Mensis lunissolar transformou-se no Iulius Mensis de 365 dias e seis horas do ciclo anual solar. Julho passou a ser o sétimo mês do ano, aquele em que o senhor absoluto de Roma viera ao mundo para o dominar a seu belo prazer.


DICT PERPETVO CÆSAR
[Antiqua Roma Denarius, c. 44 AEC]

1 de setembro de 2021

O ciclo lunar e o solar dos meses do ano

A primeira grande descoberta foi o tempo, a paisagem da experiência. Só assi-nalando a passagem de meses, semanas e anos, dias e horas, minutos e segun-dos, a humanidade se libertaria da monotonia cíclica da Natureza. O fluir de sombras, areia e água, e do próprio tempo, traduzido no staccato do relógio, tornou-se uma medida útil dos movimentos do homem ao longo do planeta. As descobertas do tempo e do espaço tornar-se-iam uma dimensão contínua. Co-munidades de tempo originariam as primeiras comunidades de conhecimento, vias de compartilhar a descoberta, uma fronteira comum para o desconhecido.
Daniel J. Boorstin, Os descobridores (1983)

TEMPO

O nono mês do ano comum foi o sétimo do mundo romano, daí o sentido de setembro, do latim septem- (sete). O mesmo se diga dos demais meses numerados ainda hoje existentes: outubro, novembro e dezembro, derivados de octo- (oito), nove- (nove) e decem- (10). A medição do tempo fazia-se desde 753 AEC com base no ciclo lunar, gerando uma mobilidade indesejada no cálculo das quatro estações. Numa Pompílio tentou resolver o problema em 713 AEC, inserindo dois meses extra aos dez considerados pelo calendário de Rómulo, para assim o ajustar ao ciclo solar. 

Os reajustes seguintes foram feitos por Sosígenes de Alexandria em 46 AEC, incluídos no calendário juliano, assim nomeado em honra de Júlio César. Era totalmente regido pelo ciclo solar, iniciado com a lua nova seguinte ao solstício de inverno, no começo de janeiro, baseado em Jano, o deus das mudanças, representado com duas faces, uma a olhar para o passado e outra para o futuro. É também introduzido o dia bissexto, de modo a compensar as 24 horas perdidas ao fim de 4 anos. Isto em fevereiro, inspirado em Fébruo, o deus da morte e da purificação do panteão etrusco.

Até à reforma cristã, promovida em 1582 EC pelo papa Gregório XIII, o chamado calendário gregoriano manteve-se intacto até à presente data, retendo os nomes fixados pela tradição romana. O mês de março dedicado a Marte ou Marcório, o deus da guerra e guardião da agricultura, deixou de abrir o ano, mas manteve-se ligado ao início da primavera. Esta estação desabrocharia depois em abril, cuja etimologia tanto poderá derivar do latim aprillis (do verbo aperire = abrir), como do etrusco apros (pelo grego αφρός), aproximando-o assim da deusa do amor Afrodite.

A Bona Dea Maia estará na origem do nome dado a maio, pela sua ligação à abundância, à fertilidade e à energia vital, necessárias ao renascimento sazonal da natureza. A grande mãe romana da terra e dos homens está associada a Juno, a mulher de Maio Júpiter, o pai dos céus e dos deuses. O casal olímpico estará por detrás da designação de junho, a antecipar a entrada do verão boreal, regidos por julho e agosto, as novas etiquetas escolhidas para os antigos quintilius (< quinque = cinco) e sextilius (< sex = seis), dedicados aos divinos césares Júlio & Augusto.

7 de novembro de 2018

As Romas imperiais de Rómulo e Remo, de Constantino Magno e dos Romanov

       MOSCOVIA VRBS METROPOLIS TOTIUS RUSSIÆ ALBÆ      

Georg Braun & Frans Hogenberg - Civitates Orbis Terrarum - Cologne, 1617

ROMA
Rezam as lendas que a Roma Antiga terá sido fundada no Palatino por Rómulo e Remo, os dois irmãos gémeos aleitados por uma loba e descendentes remotos de Eneias, herói troiano que Virgílio cantou na Eneida (séc. I AEC). A data simbólica escolhida por Marco Terêncio Varrão para celebrar o Dias Natali Romæ recaiu a 21 de abril de 753 AEC, por coincidir com as festividades pastoris de Pales. As sete colinas iniciais estenderam rapidamente o seu domínio por toda a bacia mediterrânica, que batizaram de Mare Nostrum. A queda da cidade deu-se a 4 de setembro de 476 EC, quando o imperador Rómulo Augústulo foi destronado por Odoacro em Ravena. O Império Romano do Ocidente dava origem ao Império Romano do Oriente. A Idade Antiga cedia passo à Idade Média. Roma sobreviveria por mais mil anos em Constantinopla, no Corno de Ouro, banhada pelas duas margens do Mar de Mármara.

CONSTANTINOPLA
A Nova Roma, Bizâncio, Constantinopla ou Istambul foi erigida por Constantino-o-Grande em 330 EC. A dimensão desmedida para a época do território aconselhou-o a estabelecer uma segunda capital a Oriente, na confluência da Europa e da Ásia, facilitando-lhe assim o acesso às fronteiras do Danúbio e do Eufrates. A administração e milícia  foram reestruturadas, o latim foi substituído pelo grego e o politeísmo romano cedeu passo à ortodoxia cristã. Os alicerces da România ou Império Bizantino estavam concluídos. Dizem as más línguas que nas vésperas da conquista otomana, em 29 de maio de 1453, os seguidores do Basileu discutiam a quantia que deveriam despender com a defesa da cidade, sem terem chegado a um consenso salvador. Será talvez esta a versão mais apropriada para designar a tal querela centrada na determinação do sexo dos anjos e que a memória dos povos crismou de bizantinice.

MOSCOVO
A Terceira Roma nasceu do prestígio que Roma e Constantinopla exerceram nos senhores de Moscóvia. O título imperial de Cæsar deriva de Júlio César, que passa a ser utilizado no Império Russo para designar o soberano ou Czar. Como se tal não bastasse, a dinastia reinante adotou o nome de Romanov, por se considerar descendente do ditador e general romano, cuja linha genealógica fictícia foi tacitamente traçada e dada como factual. Essa titulação manteve-se até à queda da monarquia e Revolução de Outubro de 1917*. Os herdeiros da tradição latino-bizantina foram destronados e posteriormente executados. Moscovo continua imponente a governar milhões de cidadãos distribuídos pela Eurásia sem ter originado uma Quarta Roma. Os imperadores de antanho são parra que já deu uva e os novíssimos senhores do mundo passaram a exercer o poder por processos tais que nem a Maquiavel lembraria.

NOTA
(*) - Revolução de Outubro: 25 de novembro de 1917 (calendário juliano); 7 de novembro de 2017 (calendário gregoriano). 


23 de abril de 2016

Cervantes & Shakespeare no Dia Mundial do Livro

«Cervantes y Shakespeare: ni se conocieron, ni se copiaron, ni murieron el mismo día...»

Uma rosa por um livro...


Celebra-se hoje o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor. A escolha da data deve-se ao facto insólito de tanto Miguel de Cervantes y Saavedra como William Shakespeare terem morrido alegadamente a 23 de abril de 1616. Há precisamente 400 anos. Um em Madrid, outro em Londres.

Celebra-se também hoje o IV Centenário de Cervantes e de Shakespeare. Estranho hábito este nosso de comemorar a morte dos heróis nacionais em vez de festejar o seu nascimento. Prova-velmente por ser depois da passagem pela vida que têm o condão de ser recordados para sempre.

Celebra-se no dia de hoje por decisão da XXVIII Conferência Geral da Unesco, que ocorreu entre 25 de outubro e 16 de novembro de 1995. Iniciativa louvável esta de juntar na morte os dois génios das letras hispânicas e britânicas aos demais criadores de heróis da imaginação das letras mundiais.

Celebra-se muito bem mas na data errada. O novelista castelhano transpôs as portas do Parnaso a 22 de abril do novo calendário gregoriano e o dramaturgo inglês a 23 de abril do velho calendário juliano. Equívocos provocados por alguma precipitação na análise atenta das coordenadas do tempo.

Celebra-se ainda a 23 de abril a Festa de São Jorge. Na Catalunha nasceu a ideia de oferecer uma rosa por um livro nesse dia. Que a tradição ganhe raízes e se espalhe por toda a parte. Que se associe o símbolo do amor com o símbolo da cultura em nome de todos os habitantes do Parnaso em geral.





NOTA
O calendário juliano foi criado por Júlio César em 46 AEC tendo sido substituído pelo grego-riano em 1582 EC por Gregório XIII. Em 1606 a diferença entre os dois calendários cifrava-se em 10 dias, pelo que 23 de abril corresponde, de facto, a 3 de maio.