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19 de junho de 2025

Férias pequenas, grandes e plenas

Bonnevacance!
férias
Nome feminino plural de féria (fé.ri.a | ˈfɛrjɐ), do latim ferĭa-, «dia de festa».

Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa

A capacidade de olhar à distância levam-me a vislumbrar um tempo idílico de infância, em que as férias não eram nem pequenas nem grandes, eram plenas. Começavam quando o solstício de verão se aproximava e os dias se tornavam maiores e mais quentes. Acabavam nas vésperas do equinócio do outono, quando as vindimas estavam no seu auge e as festividades das estações frias despontavam.

Em sentido contrário, dirijo o olhar para as férias que aí vêm e que voltarão a ter a dimensão dos dias de festa dos tempos pré-escolares. Estas agora só não são plenas porque entre os primeiros dias do inverno e os finais da primavera outras tarefas se foram impondo para preencher os longos dias duma reforma, aposentação ou jubilação obtida após a travessia da etapa ativa adulta pela vida.

Nas vésperas dos dias de festa do descanso maior, interrompi as caminhadas de domingo mas mantive as sessões bissemanais de yoga, abrandei os ensaios dos grupos corais e ultimei as aulas pro bono na academia sénior. Comecei a contar os dias que me separam do sol e sombra, das leituras e escritas, da companhia mais assídua dos livros de proveito e deleite, de ensino e diversão.

arrumei as calças, camisolas e casacos; estreei as t-shirts, bermudas e havaianas; já apartei as toalhas de praia, os fatos de banho e a cadeira de lona. Os chapéus de sol, os para-ventos de prevenção e os panamás de pano já foram postos de lado. Os giros à beira-mar, à beira-ria e à beira-dunas já se avistam no horizonte. E aí vou eu em pensamento ávido de lá chegar de corpo e alma.

5 de outubro de 2022

Julianos & Gregorianos

     MEDIEVAL CELESTIAL WOODCUT     
Católicos & Ortodoxos
Se a conjugação astral do Sol e da Lua se voltasse a repetir como há 440 anos, é bem provável que na data de hoje a contagem das rotações anuais da Terra fosse atualizada, passando-se da noite para o dia do 5 de outubro esperado para o 15 de outubro antecipado. A supressão desses dez dias anuais foi decretada pelo Papa Gregório XIII na bula Inter gravissima, assinada a 24 de fevereiro de 1582. A substituição do calendário juliano pelo gregoriano tinha em vista corrigir a discrepância multissecular cavada desde 46 AEC entre a duração dos ciclos solar e lunar.

A revolução papal não foi seguida de imediato em todo o lado. Levou o seu tempo a concretizar-se. As rivalidades ancestrais entre Católicos e Ortodoxos não se fizeram esperar. As datas das grandes festividades do cristianismo latino e grego continuam a manter as suas divergências até aos nossos dias. Só assim se entende que o natal de inspiração romana ocidental se celebre em dezembro e o de tradição grega oriental em janeiro. Razão também para que a revolução russa dita de outubro se festeje atualmente em novembro. Bizantinices, em suma.

As repercussões em Portugal neste 5/15 de outubro seria mínima, apesar de perdermos de imediato um feriado sem ser tempo da Troika de triste memória. A implantação da República e, por arrastamento, da conferência de Zamora ficariam este ano privadas de ser evocadas na data exata em que ocorreram ou seriam transferidas para uma outra altura mais adequada, motivo suficiente para alvoroçar os defensores/detratores das datas oficiais da fundação/queda da Monarquia. Por bem fazer mal haver, como sói  acontecer em momentos revolucionários.

ECLIPSIS SOLIS & LUNE
Hartmann Schedel, Liber Chronicarum, Nürnberg, 1493
[Woodcut, Nuremberg Chronicle]

22 de setembro de 2022

O réveillon republicano do sansculottide

Calendrier républicain de l'an III
Dessin de Philibert-Louis Debucourt, 1794 
[Bibliothèque national de France]

A partir do equinócio do outono de 1792, os anos passaram a ser contados de modo diferente e os meses, dias e horas cederam ao sistema decimal e adotaram novas formas para se nomearem. Uma revolução completa que conseguiu resistir uma parca dúzia de órbitas solares à calendarização tradicional do tempo.

Se a nova terminologia tivesse resistido ao período revolucionário francês, a data de hoje corresponderia ao quintidi sansculottide de l'an ccxxx, o vigésimo segundo dia de setembro de 2022 ter-se-ia tornado no quinto dia epagonal, sextavado ou intercalar de 230, apelidado le jour de la recompense. Curioso mas obscuro.

Mais bizarro será atender que o calendrier républicain festejaria essa noite a véspera do jour de l'an ou do réveillon. Tal insólito resulta dos meses de 3 décadas e do não-mês suplemente de 5 e 6 sansculottides ou dos sans-culottes, situados nos anos normais e bissextos, na passagem do fructidor para o vendémiaire.

           Sans-culottes en armes           
Jean-Baptiste Lesueur (1793-1794)
[Musée Carnavalet - Histoire de Paris]

No final desta quinta-feira, não se beberá uma taça de champagne ou comerão os 24 bagos de uva passa ao toque das badaladas da 1/2 noite. O São Silvestre não será trocado por um ignoto São Culotide. Suspirar-se-á pelo fim duma semana gregoriano de 7 dias, bem mais agradável que a de 10 da versão revolucionária.

1 de agosto de 2022

Agosto dos feitos do divino Augusto

MENSIS AVGVSTVS
[Alegoria dos meses - Anónimo, c. 1650]
Augusto, m. Do lat. Augustus, epíteto atribuído em 27 a.C. pelo Senado Romano a Octávio (63 a.C-14 d.C.); do adj. augustus, «santo, consagrado; majestoso, venerável; depois título dos imperadores».
J. P. Machado, Dicionário etimológico da língua portuguesa
(Lisboa: Horizonte, 1977; Ⅰ, 186b.)
[Augusto] (R)estabeleceu, no calendário, a ordem que o divino Júlio nele introduzira, e que se achava subvertida graças à negligência dos pontífices; aproveitou a ocasião para dar o seu próprio nome ao mês de Sextilis, e não ao de Setembro, mês em que nascera, porque em Sextilis obtivera o seu primeiro consulado e as suas grandes vitórias.*
Suetónio, Os doze Césares (121EC, Ⅱ, ⅹⅹⅹⅰ)
(Lisboa: Presença, 1979; 70-71)

Agosto deve o seu nome ao divino Caio Otávio Augusto, fundador do Império Romano e Primeiro Cidadão do Estado, o Princeps Civitates ou Imperator Caesar Divi Filius. Dizem as más línguas que quando em 8 AEC o Senado confirmou essa distinção para solenizar os feitos vitoriosos que obtivera nesse mês, terá garantido que o mensis Augustus tivesse os mesmos 31 dias do Iulius mensis do seu tio-avó e pai adotivo Júlio César. Diz que diz infundado, dado que à data da mudança o até então designado mensis Sextilis já dispunha desse número de dias desde a reforma do calendário juliano.

Após a morte dos dois primeiros Césares, nenhum dos seus herdeiros dinásticos mereceu a honra de nomear os restantes meses do ano. Os oito iniciais mantiveram as suas designações olímpicas ou divinizadas. Os quatro restantes limitaram-se a indicar a sua ordem numérica arcaica no já desfasado sistema de divisão do tempo romano. Dá para perguntar que feitos teriam sido exigidos a Tibério, Calígula, Cláudio, Nero, Galba, Otão, Vitélio, Vespasiano, Tito e Domiciano para igualarem os seus antepassados imperiais. A resposta é fácil de dar, muito embora fique por concretizar.

DIVUS AUGUSTUS PATER
[Curia del foro de Ituci - Baena]
NOTA
* Annum a Divo Iulio ordinatum, sed postea neglegentia conturbatum atque confusum, rursus ad pristinam ra-tionem redegit; in cuius ordinatione Sextilem mensem e suo cognomine nuncupavit magis quam Septembrem quo erat natus, quod hoc sibi et primus consulatus et insignes victoriae optigissent.
Suetonius, De Vita Cæsarum, 121; II, xxxi

1 de julho de 2022

Julho, o mês natal do divino Júlio

Julius Caesar

Workshop of Colin Nouailher (c. 1541)
IULO. (Iulus.) Iulo (em latim Iulus) é outro nome do filho de Eneias, Ascânio. É a ele que se vai buscar a origem do nome da família dos Iulii, à qual pertenciam César e, por adoção, Augusto. Iulo fundou no Lácio a cidade de Alba, a metrópole de Roma.
Pierre Grimal, Dicionário da mitologia grega e romana (Lx: Difel, 1992, 255b)

Tal como el-rei D. Dinis, Caio Júlio César (100-44AEC) fez tudo quanto quis. Tudo ou quase tudo. Nasceu patrício, foi militar e morreu político. Fez-se general, ditador e cônsul. Conquistou, governou, subornou. Foi tribuno militar, pontífice máximo e primeiro triúnviro. Contribuiu para converter a República em Império. Só lhe escapou ‒ como desejaria ‒ a coroa real e a imperial. Foi impedido de as usar por um grupo de senadores que o assassinaram nos idos de março, na cúria pompeia do Campo de Marte. A César o que é de César a Roma o que é de Roma.

O membro da Gens Júlia, alegado descendente de Vénus, Eneias e Ascânio, esposo de Cornélia Cinila e amante de Cleópatra Filopátor, tio-avô e pai adotivo de Otávio Augusto, obteve após a morte o título de Divino Júlio com direito a um templo no fórum romano. Fundador da dinastia Júlio-Claudiana ou dos Doze Césares, influenciou ainda os senhores absolutos dos impérios europeus modernos, pretensos herdeiros legítimos do antigo Império Romano que tentaram imitar, tais como o Kaiser germânico e o Czar russo, evoluções fonéticas claras do Cæsare latino.

As vitórias bélicas alcançadas na Gália e na Britânia estenderam-se a outros campos de batalha. Apoiou a reforma do calendário romano tradicional organizada pelo astrónomo Sosígenes de Alexandria e usou depois o seu próprio nome para o batizar de calendário juliano. NaturalmenteTambém aqui veio, viu e venceu. O Qvintilis Mensis lunissolar transformou-se no Iulius Mensis de 365 dias e seis horas do ciclo anual solar. Julho passou a ser o sétimo mês do ano, aquele em que o senhor absoluto de Roma viera ao mundo para o dominar a seu belo prazer.


DICT PERPETVO CÆSAR
[Antiqua Roma Denarius, c. 44 AEC]

1 de junho de 2022

Junho das romãzeiras, dos lírios, das perpétuas e do olhar atento do pavão

                  PENA  DE  PAVÃO                  
[O olhar vigilante de Argos]
«O atributo vulgar de Hera é o pavão cuja plumagem se dizia ser a imagem dos olhos de Argos, o "vigilante" que a deusa colocara junto de Io. As suas plantas eram o helicriso, a romãzeira, o lírio. | Em Roma foi identificada com Juno.»
Pierre Grimal, Dicionário da mitologia grega e romana (Lx: Difel, 1992, 205a)

O quarto mês do calendário romano primitivo pré-juliano estava dedicado a Juno, a nem sempre bem-amada irmã e mulher de Júpiter. As aventuras extraconjugais continuadas do rei dos deuses e dos homens levaram-na a ser conhecida como a mais ciumenta, violenta e vingativa moradora celestial do Monte Olimpo. Por essa razão também, a majestosa e solene filha de Crono e Reia converteu-se na todo-poderosa protetora das casadas, símbolo mítico da fecundidade e patrona da fidelidade conjugal.

Para idear esses atributos divinos da Iuno Lucia, aquela que preside desde o Esquilino ao nascimento das crianças, passou a estar associada à fertilidade das bagas vermelhas da romãzeira, à pureza imaculada do lírio branco e à perenidade dourada do helicriso solar. A Iuno Moneta, aquela que a partir das alturas do Quirinal e do Capitólio nos adverte e faz lembrar dos perigos latentes, socorria-se ainda do olhar atento e penetrante de Argos-o-Vigilante, espelhado na plumagem luxuriante do pavão.

Nestes dias tão cheios de surtos pandémicos e conflitos bélicos, não seria pedir muito a Iuno Deæ Diæ Virtus o mediar junto das mais altas esferas celestiais o retorno da ordem aos seus domínios terrestres. Depois lembramo-nos ser a esposa do Senhor dos Raios e Trovões a mãe de Marte, Éris e Vulcano, os deuses da Guerra, Discórdia e Fogo e pensamos que o melhor é deixar deuses entretidos entre si e obrigar os homens a resolverem por si sós as suas querelas multisseculares. Sic fiat semper!

Ana Hatherly, Romã (1971); Sydenham Edwards, Iris florentina (1803);
Antonio Šiber, Helichrysum italicum (2017)

1 de maio de 2022

Maio dos Maios e das Maias

Maia & Flora
em formato sorvete
Não hâ para que me detenha no modo de vestirse; vistase conforme sua idade, mudese com ella. Temse nisto respeito aos filhos, á saude, ao gosto, à presença, ou ausencia do marido, e tambem a idade delle. Se o ouvessemos de regular parece que atè os tres filhos, e atè os vinte e cinco annos se permite toda a gala. E ainda nesse mesmo tẽpo tenha suas crecentes, e minguantes; que nos mesmos altares de Deos se mudão as cores, e adornos, e vez em que se mostraõ tristes. Avorrecẽme hũas maias muito enfeitadas, sempre de bordados, e joias, que parecem Fama de procissão, ou Raìnha Moura de comedias. Seja mais confiada em sì a fermosura, se saõ fermosas; e mais reportada a fealdade, se saõ feas.
Dizem os mitos e lendas helénicas de tempos perdidos na memória das gentes ser Maia filha de Atlas e Plêione, amante de Zeus, mãe de Hermes e ama de Árcade após a morte de Calisto. Diz-se ainda, sem grande convicção, ter sido gerada por Estérope. E pouco mais se acrescenta ao perfil biográfico algo escasso da ninfa do monte Cilene, na Arcádia, uma das sete irmãs divinizadas e convertidas na constelação das  Plêiades.

Os mitos e lendas itálicas diluídas na espuma dos dias imaginaram outrossim uma divindade chamada Maia Maiestas. Associaram-na à fecundidade e energia vital, ao despertar da natureza na passagem do período das chuvas para o da calidez juvenil. Teria sido mentora de Vulcano, o deus do fogo, e genitora de Mercúrio, o arauto de Júpiter e servidor da deidade maior do panteão romano nas suas muitas aventuras amorosas.

Com a chegada do helenismo, os mitos e as lendas greco-latinas confundiram-se umas com as outras, e as Maias das duas culturas-civilizações mediterrânicas passaram a simbolizar com um único nome o renascer cíclico anual das flores, o despertar do primeiro verão a anunciar a vinda do estio pleno. A mãe de Hefesto-Mercúrio uniu-se à deusa Flora celebrada em abril e deu origem ao mês de maio que lhe foi consagrado.

Quem atravessa a EN 125 no concelho de Olhão pode observar os Maios e Maias de flores silvestres rejuvenescidas cada primavera. A lembrança distante do poder da deusa da terra e das plantas em crescimento continua viva nesta tradição popular de matriz rural. Ecos audíveis ainda hoje de numes sem idade registada nos anais históricos, com um sabor regional adaptado aos usos e costumes ainda em vigor nos nossos dias.

MAÏA ET MERCURE
Trésor de Berthouville, séc. Ⅱ EC
[Cabinet des médailles - BnF - Paris]

1 de abril de 2022

Abril do nascer e do renascer

AVRIL
Très riches heures du duc de Berry (séc. xv)

[Musée Condé - Château de Chantilly]

Abril, cron. O 4.º mês do nosso calendário. Do lat. Aprīle-, o 2.º mês do ant. ano roma-no, sem dúvida adj. substantivado; a origem do voc. no entanto, continua obscura. A re-lação entre o lat. Aprīle- e o v. aperīre, «abrir», não se justifica; não se esqueça que a existência de aperilis como der. do mesmo v. não se comprova, pois não passa de cria-ção de gramáticos, depois usada por outros autores, para explicar precisamente o nome do mês Aprilio...
 J. P. Machado, Dicionário onomástico etimológico da língua portuguesa 
 (Lisboa: Horizonte, 1984; Ⅰ, 34b.)

Abril não deve o nome a nenhuma divindade conhecida, imperador ou político de relevo. Tão pouco anda associado a um número de ordem especial. É o quarto dos doze meses existentes e é tudo. Tem uma origem obscura mas todos o ligamos ao ato de abrir (latapĕrīre). Não dum novo do ciclo anual, já dado pelo mais antigo antigo calendário romano a março e pelo mais recente a janeiro, mas à chegada triunfante da primavera e, com ela, da pureza e da renovação.

As hesitações etimológicas ora defendem que o mensis aprilis estaria associado à germinação das frutas e das flores, ao separar das águas e das terras, ao renascer da vida em geral; ora poderia referir-se a Aprodita etrusca ou à Afrodite helénica, a Vénus do panteão romano; ora à própria espuma do mar (gr. αφρός) da qual a deusa do amor e da beleza teria nascido. Aqui como em qualquer situação de dúvida, pode bem dizer-se que a cada cabeça sua sentença.

Se de facto o mês de abril não carrega ainda em si o sentido pleno de abertura, que passe a fazê-lo. Que abra de vez as mentes a quem teima em mantê-las fechadas para a vida e para o amor. Que o faça sob a égide de Άφροδίτη-Venus, a mediadora greco-itálica da oração, o génio protetor da vegetação e dos jardins. Que troque a guerra pela paz e promova a união na terra europeia, filha dileta dos deuses e dos homens, e nos traga a primavera cabal dos novos tempos.

Sandro Botticelli, Nascita di Venere (1485)
[Firenze, Le Gallerie degli Uffizi]

1 de março de 2022

Março das sementeiras e da juventude

ARÈS (Mars)
Sans être nécessairement un dieu de la végétation, Arès est aussi un protecteur des mois-sons, ce qui est une des missions du guerrier. S’Il est salué du titre de dieu du printemps, ce n’est pas toutefois parce qu’il favorise la poussée de la sève, mais parce que le mois inaugure la saison où les princes vont en guerre. Il est aussi le dieu de la jeunesse : il guide en particulier les jeunes gens, qui émigrent pour fonder de nouvelles villes. Romulus et Remus seraient ses deux fils jumeaux. On voit souvent dans les œuvres d’art les émigrants accompagnés du pic vert ou du loup, qui sont des animaux consacrés à Arès ; c’est une louve qui allaita les deux jumeaux, dans une grotte du futur Palatin.
Chevalier-Cheerbrant, Dictionnaire des symboles. Paris: Laffont/Jupiter,1982,74-75

Quando março era o primeiro mês do ano (latmartius), Marte, o deus romano da guerra (Mārtis), tomava a seu cargo a proteção tutelar dos cidadãos que consigo iniciavam um novo ciclo sazonal e dava as boas-vindas à primavera, despedindo-se definitivamente das agruras do inverno. Aquele que também se identificava com Marte (lat. Mars), o planeta vermelho da cor do sangue, era por razões ditadas pelo calendário natural e pela sabedoria milenar dos povos, o arauto por excelência da juventude e protetor especial das atividades juvenis.

Enquanto divindade tutelar das culturas, seria bom que o deus Marte providenciasse umas boas chuvadas de dia ou de noite, para assim garantir colheitas fecundas a contento de todos. Pedir-se-ia ainda ao pai de Rómulo e Remo, os protegidos da loba capitolina e fundadores de Roma, que trocasse o poder bélico das armas pela serenidade das palavras no conflito atualmente em curso na raia levantina da Europa, a bem-amada de Zeus Olímpico, trocando assim de vez a guerra em paz. Para um deus tão poderoso não é exigir muito. Parece-me!

Lupa Capitolina
(Sécs. ⅩⅢ-ⅩⅣ)
[Musei Capitolini - Roma]