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23 de abril de 2026

A loucura que acaba cedo é a melhor

Gustave Courbet, Le Désespéré (c.1844-1845)
[
Collection Qatar Museums - Musée d’Orsay]
FALA A LOUCURA
I - Os vulgares mortais dizem mal de mim; mas não sou tão néscia como os tolos me julgam, pois ninguém é capaz como eu de divertir tanto os homens e até os deuses. [...] III - Não considero sapientes aqueles que julgam estultíssimo o elogio próprio. Se isto é estulto, é o que me convém. Não quadra tão bem à Loucura como soprar na trombeta da fama e autoelogiar-se. Quem é que pode exprimir-se melhor do que eu mesma? [...] «Já que ninguém me gaba, gabo-me eu a mim mesma».
Erasmo de Roterdão, Elogio da Loucura (1511)

Trampomanias, Trampolinices & Trampopitecas...                      

Abro a rádio e a telefonia logo pela manhã e os ruídos estridentes dos conflitos bélicos ecoam sem descanso em todos os canais noticiosos. A loucura instalou-se de vez à nossa volta por pensamentos, palavras e atos. Veio com armas e bagagens para ficar e sem levantar arraiais. Os senhores do mundo não dão tréguas aos vassalos submissos. A lei do mais forte impera. É um fartar vilanagem. Os novos imperadores, czares, basileus, pretensos reis dos reis, crescem como cogumelos em terreno baldio, estação após estação, sem apelo nem agravo.

Suetónio traça n'A Vida dos doze Césares (121EC) as excentricidades, vícios e loucuras de cada um até à derrocada final. Calígula nomeou o cavalo Incitatus como cônsul e declarou-se um deus vivo com direito a adoração. Nero terá cantado e tocado lira enquanto a cidade de Roma ardia, mandada incendiar a fim de nela construir um mega palácio à sua dimensão imperial. Um foi assassinado por um tribuno da guarda pretoriana, o outro foi obrigado a suicidar-se com a ajuda do secretário para fugir a um soldado romano que se aproximava.

As monarquias europeias não necessitaram de meios tão drásticos para afastar os seus soberanos atacados com surtos de insanidade mental. Limitaram-se a substitui-los no poder por uma regência adequada. Assim o fizeram os reis cristianíssimos com Carlos VI de França, os católicos com Joana-a-Louca de Castela, os fidelíssimos com D. Maria I de Portugal, Algarves e Brasil, os britânicos com Jorge III do Reino Unido ou os germânicos com Luís II da Baviera. Deram-lhes um exílio mais ou menos dourado e lavaram as mãos.

O bota-fora dos presidentes narcisistas, paranoicos e megalómanos agilizou-seFindo o mandato, toda a psicose autoritária, arrogante e criminosa é lançada às ortigas. Por vezes sente-se a necessidade de antecipar a retirada dos tiranetes maquiavélicos o mais rápido possível. É que, como se diz, a loucura que acaba cedo é a melhor. Assim se faça com o pretenso xerife do mundo. As fanfarronices, trampomaníacas, trampolinieiras e trampolitecas já excederam há muito todos os limites viáveis. Xô-xô, vade-retro para nunca mais!

1 de abril de 2023

As pedras que ardem de Marco Polo

Caravana de Marco Polo
[Atlas catalão, c. 1375]

TRÊS VERSÕES DUM RELATO INSOLITO DE MARCO POLO
No dia das mentiras uma verdade que parece mentira...

Das pedras que ardem
É verdade que em toda a província do Catai há uma espécie de pedras negras que se tiram das montanhas com abundância e que ardem como cascas e mantêm mais o fogo que a própria lenha. E colocando-se à noite no fogo, se elas se acendem bem. Mantêm o fogo durante toda a noite; e em uma região do Catai não utilizam outra coisa para arder. Embora tenham lenha, estas pedras custam menos e são uma grande economia de lenha. 

De le pietre ch’ardono
Egli è vero che per tutta la provincia del Catai àe una maniera di pietre nere, che si cavano de le montagnecome vena, che ardono come bucce, e tegnono piú lo fuoco che no fanno le legna. E mettendole la sera nel fuoco, se elles’aprendono bene, tutta notte mantengono lo fuoco. E per tutta la contrada del Catai no ardono altro; bene ànno legne, ma queste pietre costan meno, e sono grande risparmio di legna.

Des pierres qui brûlent comme le bois
Par toute la province de Cathay, on tire des pierres noires des montagnes, qui, étant mises au feu, brûlent comme du bois ; et lorsqu’elles sont une fois allumées, elles gardent le feu pendant quelque temps, comme si, par exemple, on les allume le soir, elles durent jusqu’au lendemain. On use beaucoup de ces pierres, surtout dans les endroits où le bois est rare [1].
NOTA
[1] Les pierres noires dont il est ici question ne sont autre chose que la houille, dont il est fait men-tion dans des livres chinois datant d’au moins vingt siècles. La houille est très abondante surtout dans les provinces septentrionales de la Chine, où l’on en fait une grande consommation ménagère.

1 de abril de 2021

A verdade da mentira

 

« Le bugie, ragazzo mio, si riconoscono subito, perchè ve ne sono di due specie: vi sono le bugie che hanno le gambe corte, e le bugie che hanno il naso lungo: la tua per l’appunto è di quelle che hanno il naso lungo.
     Pinocchio, non sapendo più dove nascondersi per la vergogna, si provò a fuggire di camera, ma non gli riuscì. Il suo naso era cresciuto tanto, che non passava più dalla porta.»

Trapaças, petas, burlas, patranhas, tangas, mentiras de abril

O Pinóquio não conseguia mentir sem que o nariz lhe crescesse e foi obrigado a falar sempre verdade para que tal não acontecesse. Nas histórias infantis, as verdades e as mentiras têm uma dimensão que as histórias da vida real desconhecem. Pelo menos através da observação do tamanho maior ou menor do nariz ou de qualquer máquina construída para tal efeito. Os detetores de mentiras infalíveis são uma utopia ainda por inventar.

Nunca o Festival da Canção RTP foi ganho por uma composição tão diferente do habitual como este ano de 2021. Nunca o nosso país se fez representar na Eurovisão com uma composição tão fora das normas tradicionais. Com a verdade me enganas. Vai ser cantada em inglês. Salvador Sobral ganhou esse mesmo festival em 2017 com uma canção cantada em português. A diferença que fez a diferença marcou pontos e venceu.  

Se bem me lembro e não quero mentir, em 1969 o concurso decorreu em Madrid e teve quatro vencedores ex æquo. A Desfolhada da Simone ficou em penúltimo lugar. Escândalo nacional, como era usual naquela época entre nós. Uma das rádios anunciou então na madrugada do 1.º de abril que dado o insólito da situação, o certame se repetiria em Lisboa no Teatro Nacional D. Maria. Uma mentira que a muitos pareceu verdade.

Em contrapartida há verdades que parecem mentiras. Quem diria que um dia José Saramago convenceria a Academia Sueca a outorgar-lhe o Prémio Nobel da Literatura em 1998; que Durão Barroso, o tal que não dizia nada em muitas línguas, seria presidente da Comissão Europeia de 2004 a 2014; que António Guterres seria eleito secretário-geral ONU em 2017 e se prepara para um segundo mandato agora em 2021.

A arte de mentir tem que se lhe diga e cada vez se torna mais difícil de discernir a verdade da mentira neste mundo regido pelos Fake News & Alternative Facts Generators, que os Polígrafos televisivos tentam em vão desmontar. Se estivéssemos no reino das letras falaríamos em Ucronia, efeito que fora da ficção tem o mesmo efeito do nariz do Pinóquio, fica sempre do mesmo tamanho. Há que habituar-nos a separar o trigo do joio.


1 de abril de 2019

April Fools' Day

A Laughing Fool

Jacob Cornelisz. van Oostsanen (ca. 1500)
A verdade da mentira ou a mentira da verdade
Westminster resolveu discutir a petição pública online de revogação do artigo 50 para pôr termo ao Brexit no dia das mentirasApril Fools' Day ou All Fools' Day, dirão os súbditos de Sua MajestadeAté ape-tece rir mas é algo muito sério. É que as fake news fazem pouco ou nenhum sentido no Primeiro de Abril quando andam à solta o ano inteiro sem pedir licença a ninguém.

Enquanto os debates parlamentares decorrem na Lower House neste dia oficial das patranhas, tretas e tangas mil, dá vontade de recordar o Paradoxo do Mentiroso. Se um indivíduo declarar «Estou a mentir», então se for verdade é falso e se for falso é verdadeiro. Deve ser por isso que os políticos da nossa e doutras praças só se permitem dizer «Eu sou a verdade».

As mentiras disfarçadas de verdade invadiram de tal modo esta nossa aldeia global, que continuar a alimentar a ilusão fantasista da conversão do Paraíso perdido num Paraíso recuperado, após a saída libertadora do angélico UK da pérfida UE, é pura perda de tempo. Nesta metamorfose épica pós-Brexit nem John Milton tem poder para valer ao caricato John Bull.

Neste engano de sentidos prometidos a torto e a direito, chamemos com apreço os quatro elementos de Giuseppe Arcimboldo, o grande mestre maneirista dos embustes pintados com arte. Sobre a verdade da mentira ou a mentira da verdade plebiscitada pela imortal Albion, digamos: foi tudo por ÁGUA abaixo, foi um AR que lhe deu, foi um FOGO de palha, foi TERRA mal semeada.
I quattro elementi di Arcimboldo:  Acqua - Aria - Fuoco - Terra  (1566 - 1570)

29 de maio de 2017

De sábio e de louco...

HIERONYMUS BOSCH

«A extração da pedra da loucura»

[Museo del Prado - Madrid - 1475-1480]
«Haverá coisa mais louca, dizem, do que adular o povo com uma candidatura, comprar os votos, conquistar os aplausos de tantos loucos, comprazer-se com as aclamações deles, deixar-se  levar em triunfo como um ídolo, ou estar no fórum como uma estátua? Acrescei a isto a ostentação dos nomes e cognomes. Acrescei as honras divinas prestadas a homúnculos, acrescei as cerimónias públicas em que são celerados tiranos. Tudo coisas louquíssimas, para se rir das quais não bastaria um Demócrito».
Erasmo de Roterdão, Elogio da loucura (1511, xxvii)

Taxa de demência dos grandes do mundo

Adolfo Hitler queria conquistar um império que durasse mil anos. Es-palhou a morte aos milhões durante doze anos e depois suicidou-se numa casamata de Berlim. Napoleão Bonaparte queria conquistar o maior império europeu de todos os tempos. Foi derrotado pelo general inverno e morreu envenenado no exílio Santa Helena. Filipe II foi o primeiro líder dum império global onde o sol nunca se punha. Faleceu entregue às suas mil maleitas no mosteiro-palácio do Escorial e o mundo não tremeu como se temia.

Die Welt ist ein Irrenhaus und hier ist die Zentrale. Le paradis des fous est l'enfer des sages. Cada loco con su tema. De sábio e louco todos temos um pouco, dizemos nós em português, língua familiar ao tio de D. Sebastião, o Desejado, pela Graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. Aquele que queria conquistar o Quinto Império do Mundo e desapareceu em Alcácer-Quibir.

The different sorts of madness are innumerable. Reza em inglês o provérbio árabe que se pode aplicar a todos os tiranetes do mundo, no idioma que mais se identifica hoje em dia com a globalização. Dizem os mass-media planetários que Donald Trump foi eleito o Rei dos Loucos (König der NarrenRoi des fousRey de los locosKing of the Fools) na parada do primeiro de abril deste ano em Nova Iorque. Mentira ou verdade, os incautos que se cuidem, pois a loucura anda por aí à solta, em liberdade.

8 de maio de 2017

Histórias da Terra Australis Incognita

Canguru
[Vector - Ilustração em Aquarela]

MEIAS VERDADES & MENTIRAS INTEIRAS


As redes sociais da galáxia internética são amiúde as últimas a dar as primeiras. São também useiras e vezeiras em repeti-las a cada momento como se se tratasse duma estreia absoluta. Cumpre-se a 23 de maio os 838 anos da emissão do Manifestis Probatum (1179), bula papal onde Alexandre III reconheceu Portugal como Reino. Di-zer que o país nasceu nesse mesmo dia é esquecer que o Primeiro Condado Portucalense (868-1149) foi fundado há 1149 anos, por vontade real de Afonso III das Astúrias. Assim se contam as idades dum país milenar. Meias verdades que se tornam em mentiras intei-ras. Fake news se lhes chama agora. Impunemente.

Corre agora no Facebook que foi encontrado um mapa a provar te-rem sido os navegadores quinhentistas portugueses os autênticos descobridores da Austrália, feito reivindicado por holandeses e ingle-ses. A revelação deve-se às investigações do jornalista Peter Tricket, publicadas no livro Beyond Capricorn (2007) e divulgadas à aldeia global pela agência de notícias Reuters. A empresa dever-se-ia a Cristóvão de Mendonça, que teria navegado pelas costas da Terra Australis Incognita em 1522. Verdade ou mentira pouco importa, já que o verdadeiro descobridor é aquele que a revela ao mundo, sem se escudar em políticas oficiais de secretismo vigentes.

Que se reconheça a descoberta oficial da maior ilha-continente dos mares do sul por James Cook em 1770, por a ter dado a conhecer a todos. Atribua-se-lhe também a divulgação do nome que passou a ser dado ao mais exótico marsupial avistado por ali. Diz-se que o explorador e cartógrafo terá perguntado num inglês pausado a um nativo de que animal se tratava. O interpelado ter-lhe-á respondi-do kangooroo. A palavra estava inventada e até passou a designar a última ilha visitada pelos nautas lusitanos havia 248 anos. Soube-se mais tarde significar simplesmente não sei. -se lá saber ao certo a verdade e a mentira etimológica do vocábulo canguru.

12 de setembro de 2015

O nariz de Pinóquio

Il burattino Pinocchio e il Grillo Parlante

No espantoso mundo encantado do faz-de-conta infantil, os bons são sempre premiados e os maus castigados. Exemplarmente. Abençoado maniqueísmo mágico que até nos chega a convencer que as fadas-madrinhas existem mesmo. Que há um Paraíso para os cumpridores e um Inferno para os prevaricadores.

Carlo Collodi imaginou em Le avventure di Pinocchio: storia di un bu-rattino (1881), o romance dum boneco de madeira que queria ser um menino de carne e osso. Perdidamente. Depois de muito penar conseguiu essa metamorfose, à custa de ter vencido esse vil vício da mentira. Passou a falar verdade e o nariz deixou de lhe crescer.

No vulgar mundo banal do dia a dia adulto, o mentiroso está sempre condenado a mentir. Irrevogavelmente. Mente com quantos dentes têm na boca sem nunca lhe crescer o nariz. Como diria Pessoa, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. Malabarismos da língua de poetas e mentirosos.

Clifford A. Pickover ignorou no The Math Book (2009) o Paradoxo de Epimédides, que nos diz que uma frase falsa tem de ser falsa se for verdadeira e verdadeira se for falsa. Inexoravelmente. A ciência da manipulação dos números preferiu ficar à margem dos labirintos da verdade-mentira. As letras que o façam se quiserem ou souberem.

1 de abril de 2015

Poisson d'avril


Pesquei um peixe deste tamanho!  Afiança o autor da alegada proeza, esticando os braços na sua máxima extensão. A historieta ilustra bem a hipérbole do pescador bafejado pelas graças da fortuna, deixando por esclarecer a sua associação ao Dia das Mentiras, a que os franceses dão o nome de Poisson d'avril.

Informam os linguistas que a expressão seria uma corruptela de Passion de Cristo, celebrada pela Igreja Católica no mês de abril. As deambulações de Jesus de tribunal em tribunal teriam inspirado os povos a mandarem correr de Ceca em Meca todos aqueles que fossem alvo de escárnio ou mal-dizer.

Garantem outros que a escolha do peixe estaria associado ao jejum quaresmal exigido pelo cânone cristão, que proíbe o consumo da carne como penitência. O dito alternativo de manger le poisson d'avril ligar-se-ia a todos aqueles que se recusassem a comê-lo nesse período litúrgico, indiferentes ao pecado da gula.

Há ainda quem faça remontar a tradição ao momento em que o ano passou a iniciar-se em janeiro e não no domingo de Páscoa, como até então ocorrera. A mudança foi entendida como uma mentira esfarrapada, convertendo o primeiro dia de abril na data mais indicado para as cometer impunemente.

Verdade ou mentira, pouco importa até onde nos leva a imaginação mais ou menos fantasiosa para dar sentido aos sem-sentidos da vida. Mito lhe chamaram os gregos. Patranha, peta e tanga diríamos nós. Optar até pelo galicismo blague e afirmar: Je ne ments jamais, c'est toujours la verité qui se trompe.