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4 de fevereiro de 2025

Sinto a dor da tua falta...

Maria Teresa Horta
(20.05.1937 - 4.02.2025)

FALTA

Sinto a dor da tua falta
Agora que terminou
Esta aventura e tumulto

De travessia e viagem
Que a literatura entrançou

E se não sei demorar-te
Manter-te na pressa ávida
Nem pela fresta da faca
Espreitar-te nua ou vestida

Como vou continuar
A perseguir-te, a contar-te
A dar-te luz e fulgor
O resto da minha vida?

 Maria Teresa Horta, Poemas para Leonor (2012)

22 de maio de 2024

Seis autores, seis obras, seis aberturas

SEIS NOMES POR ORDEM ALFABÉTICA
Hélia Correia - João Aguiar - José Saramago - Lídia Jorge - Maria Velho da Costa - Mário de Carvalho

A assinalar o Dia do Autor Português

1. Hélia Correia, Montedemo (1983)

Mais tarde alguns lembraram que tudo começou naquele domingo seco em que a terra tremeu. Coisa sem importância, num instante seco sentida noutro instante acalmada, nem mesmo Irene a tonta pensou que lhe servisse de mote em pregaçãoUm tremor ligeirinho no afrouxar da noite, hora de moribundos e de bêbedos, todos pensando que se balouçavam em líquidos maternos, quentes e protetores. Os outros, muito poucos, que estavam acordados: mulheres suspensas do tossir das crias, velhos apunhalados por insónias, tinham ficado em dúvida se fora realmente o chão que se ondeara numa sacudidela ou se tontura provocada por um sangue de repente engrossado ao de cima dos olhos. O padre chegou mesmo a confessar que achara muito estranho terem tocado os sinos apenas com aquele abanãozico. Mas a manhã nasceu radiosa e gelada, e o próprio mar parecia tão sem peso, tão dançarino e limpo de pecado que o assunto passou ao esquecimento.

2. João Aguiar, Navegador solitário (1996)

Eu hoje faço quinze anos mas era melhor que não os fizesse. Tive um dia lixado e pra começar o meu velho obrigou-me a trabalhar no restaurante a servir os almoços e eu nunca gosto de lá trabalhar mas no dia dos anos é pior que nos outros dias e depois a velha não me deixou sair à noite com o Angelino e a outra malta porque apareceram visitas e no fim de tudo ainda tive de começar a escrever esta merda de diário ou lá como lhe chamam e eu não gosto nada de escrever não me importo de ler porque há a Bola e há os livros de caubóis mas escrever isso é mesmo contra vontade porque é uma chatice e a gente ainda tem de pôr vírgulas mas eu vírgulas não vou nessa não ponho que se lixe.

3. José Saramago, Memorial do convento (1982)

D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou. se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. Que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessária ela fosse, porque abundam no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão vai na praça. Além disso, quem se extenua a implorar ao céu um filho não é o rei, mas a rainha, e também por duas razões. A primeira razão é que um rei, e ainda mais se de Portugal for, não pede o que unicamente está em seu poder dar, a segunda razão porque sendo a mulher, naturalmente, vaso de receber, há de ser naturalmente suplicante, tanto em novenas organizadas como em orações ocasionais. Mas nem a persistência do rei, que, salvo dificultação canónica ou impedimento fisiológico, duas vezes por semana cumpre vigorosamente o seu dever real e conjugal, nem a paciência e humildade da rainha que, a mais das preces, se sacrifica a uma imobilidade total. depois de retirar-se de si e da cama o esposo, para que se não perturbem em seu gerativo acomodamento os líquidos comuns, escassos os seus por falta de estímulo e tempo, e cristianíssima retenção moral, pródigos os do soberano, como se espera de um homem que ainda não fez vinte e dois anos, nem isto nem aquilo fizeram inchar até hoje a barriga de D. Maria Ana. Mas Deus é grande.

4. Lídia Jorge, O dia dos prodígios (1980)

Um personagem levantou-se e disse. Isto é uma história. E eu disse. Sim. É uma história. Por isso podem ficar tranquilos nos seus postos. A todos atribuirei os eventos previstos, sem que nada sobrevenha de definitivamente grave. Outro ainda disse. E falamos todos ao mesmo tempo. E eu disse. Seria bom para que ficasse bem claro o desentendimento. Mas será mais eloquente. Para os que creem nas palavras. Que se entenda o que cada um diz. Entrem devagar. Enquanto um pensa, fala e se move, aguardem os outros a sua vez. O breve tempo de uma demonstração.

5. Maria Velho da Costa, Casas pardas (1977) 

Que lindo dia, que lindo dia, margaridinhas de olho de oiro palmeirando mínimas os canteiros na berma da rua, tráfego, gentes, tudo vestido de roupa lavada, do bruto azul das nove, pressa limpa, pressa boa, deixai-me em paz e ao meu passo manso, cabeça azoada de vozes de toda a noite fechada a ver se aprendo, leixai toda a esperança de onde vos tendes lavado e para onde ides, fugidos, correntes e determinados, ganhá-lo, ganhá-lo, ‒ ganho, se o houver para mim, será aqui nesta clareza do não cegado de saltos de retina entre as noites cerradas, || Era já noite cerrada dizia o filho p’ra mãe debaixo daquela arcada passava-se a noite bem, Canta o resto, canta Lala, Agora, Zizinha, deixe-me as fitas do avental, credo, que seca, olhe a sua mãezinha que vem lá, O pai deixa, || E esta ovação clara do dia passar passando, passo leve e ar já quente, rudo tão recorte contra azul, o peito aliviado, a vista ardente a ver exatíssimo contorno de tudo, prédios, este rosa de tinta esgarçada com varandas, verde aquele pintado agora, e os elétricos que são a cor da cidade que agride, amarela a tinir a esta minha hora visionária do visível, carregadora ambulante do sétimo sentido que é o ouvido-dizer, Há num carro de bois que atravessa a cidade com hortaliça todas as madrugadas, há, disse o Amigo.

6. Mário de Carvalho, «Ignotus Deus» IN A inaudita guerra da avenida Gago Coutinho (1983)

Na semana de Pentecostes, faleceu quase toda a irmandade, de uma morte serena, mui natural. Os mais dos frades deixaram a vida com um sorriso suave, o corpo tranquilo expelindo fragrâncias olorosas. Aos dois sobreviventes, Frei Abel e Frei Domingos, nem roçou suspeita de epidemia, perante uma morte assim tão simples, tão sem sofrer. Fora servido o Senhor chamar a si os seus servos, e com brandura o fez, concedendo-lhes um trespasse em santidade, sem convulsões e sofrimentos das carnes e das almas, que cilícios e penitências e disciplinas haviam já macerado avonde.

18 de dezembro de 2018

Maria Velho da Costa, as histórias peregrinas de Myra & Rambô...

«Não tenhas medo, miúda. Em todas as histórias há sempre uma ponta de paraíso, um véu de clemência que estende uma ponta, fugaz que seja.»
Maria Velho da Costa, Myra (2008)
Maria Velho da Costa nunca foi uma escritora convencional, nunca pactuou com o facilitismo do verbo feito por peso e medida, nunca se curvou ao gosto estereotipado das leituras inócuas e ingénuas. Sempre escreveu sem papas na língua nem meias-tintas, sem rodeios nem paninhos quentes. Disse sempre o que tinha a dizer e não aquilo que os outros gostariam de ouvir. Contra tudo e contra todos. Em nome individual e coletivo. A polémica gerada em torno das Novas Cartas Portuguesas (1972), tecidas em parceria com Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno – com quem formou as Três Marias – não lhe quebrou o ânimo de prosseguir o rumo pessoal por si traçado de se mover no mundo da literatura. Aquele que sempre se regeu pela recusa dos valores tradicionais anquilosados pelo tempo. A condição feminina tem marcado uma presença constante neste percurso de palavras feitas em forma de letra. O exemplo libertário de Mariana Alcoforado, a religiosa de Beja e presuntiva autora das anónimas Lettres portugaises (1619), a inspiradora atestada da continuação moderna referida, que tanta tinta têm feito correr ao longo de quatro centúrias mal contadas, será depois retomado em muitas outras páginas de ficção romanesca e de feição ensaística. As personagens até podem mudar de nome, identificar-se com uma Maina Mendes (1969), viver em Casas Pardas (1977), rescender aos aromas revolucionários da Lucialima (1983) ou frequentar os ritos místicos da Missa in Albis (1988), que o empenho inconformista da mulher se mantém inalterado. Até à vitória final, diriam os panfletos políticos que a autora só registaria como mero exercício de estilo ou testemunho literário duma época.

O último romance de Maria Velho da Costa conta-nos a vida de Myra (2008), uma jovem imigrante russa em terras lusas, que tanto assume ser apelidada de Sónia, Sophia, Helena, Ekaterina, Catarina, Kate, como ser alcunhada de Mula Ruça e Maria-Flor. Quando a vemos pela primeira vez, encontramo-la entregue à mais perfeita solidão e a caminhar em direção ao mar. Depois, descobre a presença de Rambô, um cão de luta, um cão de morte, um pitbull terrier ferido, tão mais infeliz do que ela, e que, por isso mesmo, furta ao maltrato dos donos e passa a chamar por César, Fritz, Piloto, Douro, Ivan. É que, como a própria trama novelesca regista e as vicissitudes do dia a dia se encarregam de confirmar, um nome é um destino. A relação de amizade entre a criança indefesa e o animal feroz e as peregrinações continuadas dos dois pelos sendeiros do infortúnio conduzem-nos, com alguma fatalidade, aos universos de uma certa picaresca feminina que a inventiva dos séculos de ouro peninsular popularizou. A genealogia algo duvidosa da protagonista, os castigos físicos que lhe são infligidos, a fome, o medo, o abandono a que é votada, as mentiras, os disfarces, as falsas identidades, os encontros fortuitos de caminho, os amos e protetores, o convívio com o vício e a marginalidade, a arte e manha da sobrevivência quotidiana não faltam. Só que o humor tão típico do género prima pela ausência. É o horror que prevalece ao longo de toda a tessitura efabulativa. A ironia bem-disposta que convida a uma boa gargalhada é substituída pelo sarcasmo mais despiedado que imaginar se possa, em que não há lugar a um simples sorriso ou esgare nervoso. Escusado será dizer que a instância narrativa lhe nega um final feliz, para a aproximar ainda mais da própria realidade que nos rodeia. A atual, a pós-moderna, a inaugurada com o terceiro milénio.

A escrita de Maria Velho da Costa é tudo menos simples. foi etique-tada de polifónica, labiríntica, fragmentária, caleidoscópica. Myra não foge em muito a este quadro de experimentalismo linguístico. Trata-se dum relato memorialista exposto a várias vozes, na fronteira da pará-bola e da fábula, a poucos passos do realismo mágico da latinidade ibero-americana. O processo de amadurecimento da autora envere-dou para um discurso mais fluido, mais fluente, mais fácil de seguir, talvez por estar centrado na existência duma criança a despertar para a vida, ainda que obrigada a comportar-se como uma adulta a quem negaram o direito à infância e à adolescência. Segundo a lição do texto, expressa pela heroína ao fiel companheiro de adversidade, há sempre mais maus que os maus, Ivan. Mais terríveis do que os terríveis. Amarga consolação para esta nossa inútil passagem pela mundo, esta nossa travessia dum deserto sempre às margens do dano e nas esteiras da dor.

NOTA
Trouxe este texto do Pátio de Letras no Dia Internacional das Migrações|Migrante, proclamado em 2000 pela Assembleia Geral das Nações Unidas e que se celebra desde então em todos os 18 de dezembro do ano.

25 de abril de 2017

A aurora luminosa duma manhã de abril

universos romanescos, um portátil & música de fundo

MADRUGADA

[Lisboa, 25 de abril de 1974]

A noite vai alta e escura. A terra por debaixo da cidade emana um hausto fresco, os parques e os jardins abertos ao ar, húmidos como as narinas de um gato. Tudo está quieto, espesso sob a pelagem da noite sem estrelas, mas tão pouco velada. Ou velada lá tão alto que o resultado é esta quietude da cidade numa treva, um escrínio. Não está frio. Pelas quatro da manhã fez um jorro de vento, um único. Uma pancada de ar marítimo que avançou sobre as ruas baixas e os espaços abertos, cidade acima. A roupa meio seca estalou nas cordas, enfunando corpos, as copas das árvores moveram-se. A maré ia vazia. Empurrados pelo golpe de aragem os detritos estremeceram sobre a babugem suja e brilhante das orlas de cimento e de areia parda.

Um pequeno caranguejo negro desceu em direção às águas, estacou irisado no fervor amarelo da espuma, as duas tenazes sondando a viração do ar. Os grumos de pardais sobre os ramos insuflaram as penas e mudaram de asa as pequenas cabeças, de novo quietos como frutos. Dentro das casas os homens suspiram e mudam a postura por dentro do sono, mudam de sonho, enquanto os cães levantam a cabeça e estiram as orelhas e o olfato para o lado sul e do crepitar das ramas lá fora, deitando depois o focinho sobre as patas, os olhos ainda abertos na melancolia do alarme. Como que coberto de uma película viva, o asfalto reproduz os jorros de luz de um ou outro carro rápido por dentro das ruas desertas, e a dos candeeiros altos, lívida.

Sobretudo nos jardins públicos, praças arborizadas e cemitérios, a quietude é quase medonha. É sempre assim antes que a manhã raie, a menos que a chuva, a esta hora sempre miúda, venha pairar sobre estas formas tão dentro de si mesmas, juntando a este silêncio o seu silêncio, que tem outra leveza.

Há um carro de bois carregado de hortaliça que desce para perto do rio. O chiar do rodízio e o pousar rítmico, claro, dos cascos do animal, que só pode ser visto a esta hora, enchem a noite da sua certeza profunda, que para cada cidade sua noite. Aqui, há uma perenidade abafada. A rocha basáltica absorve os sons e prolonga-os num ronco atemporal, o respirar duma caverna subterrânea que os homens escutam dormindo, a alma negra do porto, da viagem.

Um galo canta, rouco, e outro. É ainda a secreta proliferação das traseiras, pátios, quintais, periferias internas de lixeiras e barracas. No rio há barcas onde um luzeiro hesita por detrás de um pano, ou da oscilação levíssima de um homem que se levanta do casco para comer, para urinar sobre a borda. Grasna um motor que hesita em pegar, crespo da humidade. Num cacilheiro quase vazio, duas mulheres dormitam uma sobre a outra, sem destino, sob aquela luz amarela.

Junto à linha do horizonte, sobre o mar, começa a lumiar um clarão. Vem branco, o sinal da aurora. Há muita névoa.

Maria Velho da Costa, Lucialima (1983: 11-12)

3 de setembro de 2016

A rainha e as três filhas


Fragmento de fragmentos...

A rainha tinha três filhas.
Depois de governar todo o seu reino, estava agora velha, e muito doente.
Sentindo-se morrer, mandou chamar a filha mais velha:
– Vai à floresta negra descobrir a bruxa que me pode curar.
A floresta negra não tinha nome. Era a floresta negra.
A filha, que era cautelosa, respondeu:
– A viagem é perigosa. Se eu não voltar, nem tu nem eu poderemos governar o reino.
A rainha mandou chamar a segunda filha, que era invejosa.
– Porque hei de arriscar-me? – respondeu – Morre uma rainha, outra se segue, a mim tanto se me faz.
A rainha mandou chamar a terceira filha, que era bondosa.
– Irei – respondeu esta – Se morrer, não me importo. Ser terceira filha também não tem grande graça.
– Serás minha herdeira – disse a rainha. E sorriu.
Com a poção da bruxa contava tornar-se eterna.
Tanto tempo se passou que as duas irmãs mais velhas se esqueceram da terceira. Um dia chegou uma carta...
Maria Isabel Barreno, Inventário de Ana (1982)

NOTA:
No dia em que as Três Marias passaram a ser só duas. Maria Isabel Barreno (10.07-1939-3.09.2016) partiu para o país da imaginação, aquele onde o sonho de infinito se torna realidade. 

7 de novembro de 2015

Armando Silva Carvalho & Maria Velho da Costa, o livro do meio ou das ligações perigosas

«Ensaiemos pois, em silêncio, o percurso do nosso dueto, a ouvir o Scarlati.»
Armando Silva Carvalho & Maria Velho da Costa, O livro do meio (2006)
Sempre ouvi dizer que Lisboa é uma grande aldeia, onde todos se conhecem ou fingem ignorar, onde uns e outros cultivam, sem exceção, os seus amores/ódios de estimação. Mais os segundos do que os primeiros, como convém. Os profissionais da escrita não fogem a esta regra de ouro do escárnio e maldizer nacionais. A diferença é que o fazem com uma inequívoca e inexcedível mestria. E nós, pobres mortais, sedentos de palavras bonitas (mesmo quando dizem coisas feias), até aplaudimos. Há séculos que o fazemos impunemente.

Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa recorreram a esse velho hábito que a tradição canonizou. Fizeram uma incursão combinada à meninice, cartearam-se durante alguns meses e alinharam um romance epistolar, a que chamaram O livro do meio (2006). Aquele que se situa no cruzamento de duas escritas estripadas de todo o tipo de preconceito, concebidas ao jeito de uma «marquise de Merteuil» e dum «vicomte de Valmont», personagens novelescas criadas por Pierre de Laclos nas Liaisons dangereuses (1782); ou à imagem e semelhança da experiência que a autora tivera na composição das Novas cartas portuguesas (1972), integrada no grupo das «Três Marias»; ou do autor na tradução da Correspondência a três (2006), que Rilke, Pasternak e Tsvétaïeva terão partilhado no verão de 1926. Títulos frequentemente citados e glosados no decorrer dos diálogos travados à distância e em fragmentos repartidos.

As fontes de inspiração seguidas pelo dueto terão servido de perfeito álibi explicativo de muitas das liberdades tomadas nessas memórias feitas de realidades pretéritas, atualizadas ao sabor do momento, de cumplicidades pressentidas, mas nunca reveladas na sua totalidade. O leitor é confrontado com um discurso entremeado de claros subentendidos e de aparentes evidências que terá de enfrentar do lado de «fora do Livro», com toda a perícia que consiga agilizar para desenlear os fios da meada. A tarefa é árdua, mas os resultados deveras compensatórios. É que a fruição plena do prazer da leitura não tem preço.

As referências às obras de um e de outro são constantes. As apreciações que suscitaram aos críticos encartados do trabalho alheio ou de fazedores de ideias feitas são o pretexto para os mais inspirados jogos de disfarces encenados nas cartas. Os remoques satíricos dirigidos a todos aqueles que alguma vez se lhes tenham atravessado no caminho são impiedosos. É que «um puritano da boca é uma criatura perigosa». Os nomes são substituídos por siglas anódinas e epítetos sonantes, mas a força das descrições fornece-nos a chave das charadas sem grande esforço de descodificação. Que o digam a «Académica», a «Mnemónica» ou a «Embaixatriz».

Resumir essa longa conversa travada entre dois amigos de longa data, esse coloquialismo intimista, seria uma traição que nenhum deles mereceria. A menos que nos limitemos a dizer que se trata dum livro que fala de arte e artistas, de música e compositores, de cinema e cineastas, de livros e autores, que fala, inevitavelmente, da vida e morte das paixões. É um livro que pretende promover uma perigosa colaboração de classes, aquelas que cada um dos signatários das missivas representou nas origens. Ela a emergir duma média burguesia urbana do Bairro Azul e Janelas Verdes, a saltitar entre a Casa dos Gritos e o Palácio das Madres ou das Escravas do Sagrado Coração de Jesus; ele a fugir dum proletariado rural remediado duma aldeia cinzenta do litoral oeste, a saltitar entre a Casa dos Choros e a Escola do Paraíso ou externato pobre para meninos ricos.

No final do percurso retrospetivo às Casas da Infância, o cansaço dos caminhantes é notório. A escrita ressente-se da penosa caminhada. Armando Silva Carvalho despede-se entoando o canto do viandante e das sombras. Maria Velho da Costa convocando o sangue, coalhado e vivo. Pela parte que me toca de mero leitor, de anjo ou demónio desconhecido, com muita saudade de os ter visto acenar o lenço pela última vez, de os ter visto partir e de não continuar a desfrutar do prazer da sua presença. Arrebatadora, inebriante, sublime. Como sempre.

NOTA
De repente apeteceu-me revisitar este exercício dialogado de escárnio e maldizer, trazer para este espaço uma texto publicado há meia dúzia de anos no Pátio de Letras. Dei-lhe uns retoques formais de menor importância e parti à procura na estante de guardar livros deste repositório de memórias gizado em forma de romance epistolar. Vou reler calmamente alguns dos fragmentos mais acutilantes desta escrita feita de cumplicidades partilhadas...

12 de maio de 2015

Maria Teresa Horta, uma galeria de meninas desenhadas ao sabor da pena

«Quando as meninas | fitam o nada | de olhos vagos || Uma brisa cruel | vacila e sussurra | no seu peito || Estão a ver um anjo |  imagino || Mas as mães | desesperam»
Maria Teresa Horta, Meninas (2014) 
Quando soube que Maria Teresa Horta estava prestes a publicar uma coletânea de contos intitulado Meninas (2014), associei-o instantaneamente ao quadro homólogo de Diego Velázquez, Las meninas (1656), obra maior do barroco peninsular seiscentista, onde o pintor sevilhano de origem portuguesa representara, numa tela de grandes dimensões, a família de Filipe IV das Espanhas, já então despojado da coroa dos reinos e senhorios de Portugal. Aí capta, com o olhar atento de quem sabe ver e gosta de o mostrar, a visita informal dos monarcas hispânicos à oficina palatina do artista, centrada na figura radiosa da infanta Margarida de Áustria e das suas açafatas ou meninas. Uma mão cheia de figuras reais eternizadas a óleo e registadas todas elas nos anais oficiais da Casa de Áustria e das suas aliadas europeias.

Após o início da leitura-contemplação do painel desenhado com palavras, o déjà vu muda de rumo e instala-se nas páginas percorridas há trinta anos num texto de Maria Isabel Barreno, Célia e Celina (1985), protagonizado por duas mulheres-meninas que dão corpo e nome à obra. Nas etapas seguintes da viagem, já estou na companhia mais remota ainda de Maria Velho da Costa e das três habitantes das Casas pardas (1977), mulheres que em tempos também foram meninas e nos ajudam a traçar, como as restantes, uma vasta galeria de heroínas de todas as idades, marginalizadas no dia-a-dia e recuperadas para a vida pela arte de contar das «Três Marias». As tais que compuseram em conjunto e no feminino as Novas cartas portuguesas (1979), baseadas no testemunho epistolar seiscentista de sóror Mariana Alcoforado e de muitos outros percursos dramáticos dos nossos e de todos os tempos.

Em entrevista dada recentemente ao Notícias Magazine, a contista revela-nos alguns segredos destas trinta e duas meninas desenhadas em prosa e uma delineada em verso, repartidas por duas secções ou galerias. Na primeira confessa haver posto muito de si mesma nos testemunhos de vidas reinventadas pela ficção e na segunda uma porção significativa da sua própria forma de ser e estar no mundo. Considera-se uma contadora de histórias a que deu inteira liberdade, depois de ter passado por dezassete anos de psicanálise intensiva para fazer a catarse da infância. Nesse período de tempo de purgação planificada, de reencontro com as mulheres tutelares da família, reservou treze desses anos para conversar, à distância de dois séculos e meio, com a Condessa de Oeynhausen, a Alcipe das arcádias literárias, mais conhecida por Marquesa de Alorna, a sedutora de anjos, poetas e heróis, a avó em quinto grau da prosadora-poetisa, que retratou em forma de romance n’As luzes de Leonor (2011). Ecos mais ou menos distantes, mais ou menos próximos duma figura iluminada das letras portuguesas e que, agora, voltamos a encontrar plasmada num ou noutro flash rápido deste conjunto de relatos curtos arrumados segundo os caprichos da memória.

Impossível identificar neste espaço restrito de notas soltas todos os fragmentos narrativos convocados pela colecionadora compulsiva de palavras. Todos eles representam uma situação concreta de amor/ódio, vida/morte, sonhos/pesadelos duma única artífice de coisas feitas com uma multiplicidade de nomes. Míticos, quase todos, distribuídos pelos dois rios matriciais da cultura greco-romana e judaico-cristã. Lilith, Lucinha, Matilde, Beatriz, Mónica, Raquel, Laura, Sara, Branca, Eurídice, Dulce, Cassandra, Carlota, Esther, Lívia, Íngride, Rute, Teresa e muitas mais. Meninas num universo de adultos, formado por homens e mulheres. Maridos, amantes, pais/padrastos, dum lado; irmãs, avós, mães/madrastas, do outro. Um percurso pela mundividências da condição humana nos seus mais íntimos pormenores, balizados entre o vir a ser e o deixar de estar, entre o nascer e o perecer, entre o tudo e o nada. Uma combinação caleidoscópica de imagens captadas ao sabor do momento por uma profusão de vozes gritadas/ciciadas pelos eus e tus do discurso, atualizadas sempre por uma ela/elas singular e plural. Interpretes, todas elas, de um ou outro caso de desobediência, assombro, transformação, resgate, fatalidade, perdição, solidão, abandono. De Inocência perdida e sem culpa. O abismo, a ilha, a cidade, o mar, o calor, o eclipse estão todos reunidos na infância destas meninas-mulheres à espera da companhia dos leitores, ouvintes atentos das histórias de vida que a autora tem para nos contar, com toda a mestria que lhe conhecemos e reconhecemos. Aquela que os artistas põem em tudo aquilo que criam e nos oferecem cada dia. Incondicionalmente.

3 de novembro de 2014

Maria Teresa Horta, As luzes de Leonor, uma sedutora de anjos, poetas & heróis

«Habituei-me a ser criticada | por ler livros, | por falar de ciência, de política e de filosofia, | por saber inglês e latim, | por ter demasiadas Luzes para uma mulher. | Alguns homens mais cultos chegaram a invocar Molière para me ridicularizarem...»
Maria Teresa Horta, As luzes de Leonor (2011)
Quando no início da década de 70, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa publicaram as Novas cartas portuguesas (1972), a polémica instalou-se no reino cadaveroso ou oásis de mediocridade consentida em que o país dos brandos costumes e jardim à beira-mar plantado se havia transformado. As autoras foram levadas à barra dos tribunais, o livro foi proibido pela censura e o processo das Três-Marias foi convertido num caso singular de mediatismo nacional e internacional. As traduções nos mais diversos idiomas proliferaram e as escassas reedições efetuadas após a queda do regime ditatorial têm teimado em manter a obra sistematicamente esgotada. A questão da condição feminina, equacionada nesse texto composto de fragmentos narrativos, parece continuar a amedrontar a política editorial seguida entre nós, afastando o público leitor dum contacto mais estreito com essa réplica coetânea dos amores marginais revelados nas cinco Lettres portugaises (1669). As tais que Mariana Alcoforado, a religiosa do convento da Conceição de Beja, terá composto e endereçado ao Chevalier de Chamilly, o amante francês que a seduzira e abandonara.

O efeito caleidoscópico de testemunhos convocados pela arte de efabular o universo feminino da criação estética volta à ribalta da república das letras, cerca de quarenta anos volvidos, pelas mãos de Maria Teresa Horta em As luzes de Leonor (2011), longo mosaico ficcionado de prosa poética e poesia integral, em que cada frase é um verso e cada parágrafo uma estrofe. A quinta neta da marquesa de Alorna esboça, neste relato polifónico, uma viagem de revisitação à mulher, poetisa, política, sábia e sonhadora que também foi sua avó, personagem multifacetada, imaginada em forma de papel e tinta, para dar corpo a uma personalidade controversa, recriada através de depoimentos autênticos pronunciados a muitas vozes e sentires. As Marianas epistolares, moldadas pelo barroquismo seiscentista vigente durante as guerras de restauração da monarquia lusitana, saem de cena e dão lugar às Leonores novelescas, forjadas por um iluminismo combativo ainda em construção nas antevésperas das guerras peninsulares movidas pelo império napoleónico. 

Os diálogos | monólogos travados à distância de sete gerações são gizados com o recurso constante a documentos oficiais e particulares, feitos e refeitos, repartidos por mil e tantas páginas bem contadas, vinte e cinco capítulos enquadrados por um prólogo e um epílogo, contextualizados por meio século de histórias dentro da história portuguesa e europeia, a promover a passagem do despotismo aristocrático para o liberalismo constitucional. As cartas, diários, cadernos, citações e poemas entrelaçados no romance outorgam um protagonismo estrutural às Raízes | Memórias discursivas, evocadoras de Leonor de Távora, a marquesa executada por ordem do Marquês de Pombal em Belém, ministro plenipotenciário do rei D. José, e de Leonor de Almeida, a condessa expulsa do país por ordem de Pina Manique, intendente-geral da polícia do príncipe-regente D. João. Pelo meio desta escrita neorromântica, tecida de subjetividades dispersas, ficam os lamentos líricos dum misterioso Angelus, ser alado seduzido pela luminosidade etérea de Alcipe, a sedutora de anjos, poetas e heróis. 

A reconstituição-reconstrução da vida de Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre, encetada ao longo de treze anos de escrita por Maria Teresa Horta está incompleta. A moldura escolhida para pintar o retrato impressionista da defensora das Luzes está balizada pelos tempos conturbados que marcaram o Processo dos Távoras e antecederam o Bloqueio Continental. Efemérides datadas com repercussões duradouras dentro e fora das fronteiras nacionais. Desconhecemos se a neta da Condessa de Oeynhausen-Granvensburgo, valida da rainha-louca D. Maria e dama de honor da princesa-regente D. Carlota Joaquina, frequentadora das cortes de Maria Antonieta de França e Maria Teresa de Áustria, animadora dos salões cultos de Viena, Paris, Madrid e Lisboa, retomará a tarefa hercúlea de traçar os passos da avó nos derradeiros tempos da sua existência de exílio forçado em terras estranhas e de retiro escolhido na terra natal. Nada nos impede porém de acreditar que a mão sem peso da poetisa iluminista aflore de novo o cimo do ombro da poetisa iluminada e que as confidências das duas se voltem a ouvir apesar dos dois séculos de silêncios que as separam.

NOTA
Publiquei este texto no Pátio de Letras em março de 2013, depois de me ter feito companhia de leituras durante quase um ano. Dou-lhe uma nova visibilidade neste espaço de histórias com histórias dentro porque nunca é de mais falar-se do que se gosta. Lidos os livros, fiquem os roteiros da viagem à espera de novas etapas de percurso.