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5 de agosto de 2025

Julian Barnes e o papagaio de Flaubert numa viagem pela república das letras

“Life… is a bit like reading. … If all your responses to a book have already been duplicated and expanded upon by a professional critic, then what point is there to your reading? Only that it’s yours. Similarly, why live your life? Because it’s yours. But what if such an answer gradually becomes less and less convincing?”
Julian Barnes, Flaubert’s Parrot (1984)

Quais as fronteiras do Romance, o único grande género poético que não mereceu a atenção teórica de gregos e latinos, na sua ânsia pedagógica de definir os universos da literatura. É que para uns e outros, uma narrativa em prosa estaria a anos-luz de distância duma narrativa em verso ou Epopeia. Mesmo assim, a verdade é que à medida que a popularidade dos relatos versificados se diluiu com a passagem do tempo, os prosificados acabaram por se tornar nos preferidos dos leitores atuais. Julian Barnes demonstra n'O Papagaio de Flaubert (1984) que a miríade de formas usadas à exaustão há mais de dois mil anos podem, muito bem, ser sucedidas/completadas por outras pessoais duma pós-modernidade transversal elaborada na passagem do segundo para o terceiro milénio.

Confidencia-nos o autor n' «O papagaio aos 40» ‒ Prefácio inserido na edição especial comemorativa do quadragésimo aniversário do lançamento da sua magnum opum ‒, ter sido finalista do Brooker Prize desse ano, galardão que acabaria por ver fugir para outras mãos, à partida mais merecedoras de o receber que as suas. Recebera a notícia da nomeação quando se encontrava com a mulher a passar duas semanas em Cantal, a que então se poderia chamar La France profonde. Embalado por esse impulso de revelar factos vividos no início duma carreira literária brilhante, tece uma série de comentários sobre as relações imprevisíveis estabelecidas entre o escritor e o leitor, bem como do sucesso que poderia ou não vir a granjear no futuro, mormente na escolha do título a dar aos livros por si gizados, neste caso resultante da associação do nome duma personalidade célebre com um item pouco óbvio.

O ponto de partida para a composição deste exercício de escrita criativa situa-se, pois, na figura dum dos vultos maiores da cultura literária gaulesa oitocentista e numa das mais exóticas aves que povoam a nossa imaginação, apresentados em imagens coloridas e em letras gordas na capa do volume que, à partida, revelará essa associação algo insólita. Tal tarefa, todavia, será confiada ao fictício Geoffrey Braithwaite, narrador central do relato, que muito de vez em quando, se fará substituir por outras entidades reais/inventadas diversificadas, conferindo assim ao texto uma visão multifacetada dos factos trazidos à colação, perfeitamente adequada para tecer as fases mais significativas da vida de alguém, como se fora um conjunto de buracos ligados por um fio, como se fosse uma rede de pesca. Por muito peixe que se apanhe, há sempre muito mais que fica por filar.

Descobrir o paradeiro do papagaio empalhado que terá inspirado Gustav Flaubert a desenhar com palavras Un cœur simple (1877), o mais conhecido conto que legou à posteridade, amplamente citado, resumido e comentado ao longo desta digressão da criação/crítica literárias. Lido este livro de ensaio biográfico de feição romanesca, fica no ar a vontade imperiosa de revisitar com outros olhos as páginas tantas vezes aludidas da Madame Bovary e de L'Éducation sentimentale, há tanto tempo deixadas em repouso numa estante de livros da minha biblioteca pessoal, e estrear-me na descoberta da Salambô e, inevitavelmente, nos Trois contes que albergam a tal história curiosa de Loulou, o papagaio de corpo verde, com a ponta das asas cor-de-rosa, a cabeça azul e a garganta dourada. 

EPÍGRAFE
«A vida… é um pouco como ler. … Se todas as suas respostas a um livro já foram duplicadas e ampliadas por um crítico profissional, então qual o sentido da sua leitura? Apenas que ela é sua. Da mesma forma, porquê viver a sua vida? Porque ela é sua. Mas e se essa resposta se tornar cada vez menos convincente?»

10 de junho de 2025

Isabel Rio Novo, fortuna, caso, tempo e sorte no quinto centenário de Camões

«Luís de Camões nasceu décadas antes de os registos paroquiais, averbando os batismos, os casamentos e os óbitos, se tornaram habituais, logo a seguir ao Concílio de Trento [...] Se dependêssemos das palavras do Poeta, ainda hoje não saberíamos quando ou onde nasceu.»
Isabel Rio Novo, Fortuna, caso, tempo e sorte (2024)

Se o vulto maior das letras portuguesas, que hoje se celebra com um feriado nacional, faleceu neste mesmo dia de 1579/80 do calendário juliano então vigente, ou a 20 de junho do calendário gregoriano atual, faria por estas datas 445/6 anos de idade. Número pouco redondo para assinalar, segundo os padrões usuais nestas ocasiões, a morte de alguém, máxime se se refere a Luís Vaz de Camões, nascido em 1524/5, i.e., há cerca de meio milénio completo ou a completar. No que ao poeta lírico, épico e dramático cabe, a incerteza de destacar uma efeméride precisa do seu percurso pela vida é uma tarefa difícil de fixar, cada vez mais votada ao fracasso. Tudo se resume, pois, a meras suposições, conjeturas, suspeitas, deduções, pressupostos nunca comprovados na sua plenitude.

As dificuldades de trazer à luz do dia os momentos mais obscuros do percurso existencial do nosso Príncipe dos Poetas têm sido incapazes de travar o esforço hercúleo de alguns investigadores de ultrapassar essa lacuna multissecular, de resgatar das trevas mais profundas esses segredos há muito perseguidos e nunca revelados. Isabel Rio Novo encontra-se arrolada nessa longa lista, sobretudo através da monumental Fortuna, caso, tempo e sorte Biografia de Luís Vaz de Camões (2024). Lidas as setecentas e tantas páginas do livro, fica-se com a sensação da pertinência de anteceder muitas das afirmações proferidas com um asterisco (*), entendidas como meras hipóteses, bebidas no vasto acervo de fontes documentais consultadas, resultando numa acabada reconstituição do contexto histórico-cultural contemporâneo do biografado.

Guardadas as devidas distâncias, a sina de Camões parece seguir de muito perto a obtida por Homero. Para além do nome, e da cegueira parcelar ou total dos dois, pouco se sabe a seu respeito, salvo a circunstância de ambos ocuparem um lugar cimeiro no panorama literário dos povos que os consideram como seus. Os gregos para o alegado aedo dos Aqueus na Ilíada e na Odisseia, e os portugueses para o legítimo arauto dos barões assinalados cantados n'Os Lusíadas. Só que, na dupla epopeia helénica, os heróis lendários são tidos como históricos, e, no poema épico lusitano, os heróis históricos se converteram em lendas vivas na memória das gentes. Até hoje.

No ano em que mal se lembrou o quinto centenário do nascimento daquele a quem chamaram Trinca-Fortes, autor confessado dos erros meus, má fortuna e amor ardente, quiçá se evoque na alegada data da morte a efeméride, mais por dever que por prazer. É que ao vir ao mundo ainda está tudo por dizer e ao ir desta para melhor já não há nada a aditar. Uma desculpa de mau pagador, em nada impeditiva de continuarmos a ler nas linhas e entrelinhas a mensagem de quem veio não se sabe donde, que andou dum lado para o outro como a fortuna, caso, tempo e sorte lhe permitiram, que foi lançado numa cova comum quando assim adveio e que hoje dizem jazer no túmulo neomanuelino nos Jerónimos e deter um cenotáfio em Santa Engrácia. Os amores, naufrágios, aventuras, desterros e prisões dispersos no rincão pátrio, pelos Algarves d'aquém e além-mar em África, pelas Etiópias, Pérsias e Índias, não têm parado de animar os rastreadores encartados ou por encartar de tentar apurar os mistérios camonianos agentes de mil e uma fantasia lançados aos quatro ventosDessarte, o aporte de Isabel Rio Novo torna-se crucial para desfazer muitos desses mitos e obter uma dimensão mais precisa do século de ouro da nossa cultura cada vez mais afastada do nosso horizonte de eventos. O repto fica feito.

8 de fevereiro de 2024

André Belo, histórias de Marco Tulio Catizone, o rei Sebastião de Veneza

« Pour qui a grandi dans le " roman national " portugais, le roi Sébastien est un des monarques les plus connus d'une longue lignée. C'est un personnage d'envergure proverbiale, présent dans des romans, des chansons ou des histoires tentées d'ironie, comme celle qui évoque son retour à Lisbonne par un matin brumeux sur l'estuaire du Tage. Cette intimité collective avec le nom d'un roi ayant régné il y a quatre-cent cinquante ans vient du rôle historique de celui-ci dans la fin de la dynastie des Avis mais, surtout, de l'investissement mythique dont il a été l'objet au fil des siècles. »
André Belo, Le roi Sébastien de Venise (2023)

El-Rei Dom Sebastião (1574-1578) é de longe um dos mais populares monarcas portugueses. Nasceu órfão de pai e foi abandonado pela mãe aos quatro meses de vida. Subiu formalmente ao trono com três anos de idade e tomou as rédeas do poder aos catorze. Morreu sem honra nem glória com vinte e quatro em Alcácer-Quibir, para onde partira solteiro e sem descendentes declarados que o substituíssem à frente dos destinos do reino que queria universal e acabaria absorvido pelo império castelhano do tio. Esta a história que contam os manuais de história oficiais. A versão tradicional que seguiu o seu destino trágico no Norte de África trilhou todavia os sendeiros que propiciariam a gestação do mais consistente e duradouro mito/contramito da cultura nacional, o Sebastianismo. Aquele que fora apelidado o Desejado, passou a ser designado o Encoberto. O malogrado neto de Dom João III e Carlos V, o sobrinho de Filipe II, teria sobrevivido ao desastre marroquino e andaria por aí perdido à espera do melhor momento para se revelar como o senhor legítimo dos desígnios lusitanos.

A desdita do último cavaleiro cruzado com vocação messiânica dos tempos modernos atravessou fronteiras e conquistou os principais géneros/subgéneros da criação artística e ensaística. Foi cantado e representado nos palcos líricos e dramáticos, lido e recitado nas epopeias em verso e em prosa, foi estudado comentado um pouco por todo o lado à escala local e global. Por mais duma vez, as andanças académicas, os impulsos da curiosidade ou os apelos do puro lazer levaram-me a privar com uma ou outra dessas obras. A última a chegar à minha presença foi-me enviada de Rennes por uma amiga de longa data, que a viu exposta com grande destaque numa livraria central da capital da Bretanha. Trata-se da versão francesa da tese de André Belo, Morte e ficção do Rei Dom Sebastião (2021), publicado pelas Éditions Chandeigne, com o título bem mais sugestivo de Le roi Sébastien de Venise, histoire d'une rumeur (2023). Li-o de cabo a rabo com o espanto sempre estampado no rosto à medida que ia tomando conhecimento desses tais rumores desenvolvidos nas três centenas de páginas do livro. À distância de quatro séculos e meio de devir histórico, torna-se particularmente difícil entender o modo como as pretensões do «Rei de Veneza» acolhessem tantos partidários, apesar da manifesta fragilidade dos argumentos apresentados em sua defesa.

A recusa de aceitar a morte do jovem paladino da cristã em terra de mouros, o filho de príncipes e neto de reis e imperadores, levou os súbditos fiéis a acalentarem a tese que estaria vivo e se refugiara num local seguro, de onde galoparia num cavalo branco, numa manhã de nevoeiro, para recuperar o reino que lhe fora arrebatado. De pouco serviu aos incrédulos o reconhecimento do corpo do soberano logo após a batalha e a sua trasladação de Alcácer-Quibir para Ceuta (1578) e Lisboa (1582), onde ainda hoje repousa num mausoléu monumental erigido no Mosteiro dos Jerónimos (1682). A lenda do Adormecido começa a ganhar forma, encorajando os mais audazes a darem asas à imaginação e a converterem-se num ápice no providencial messias salvador que regressava aos seus domínios europeus e resgatar para a Casa de Avis trono arrebatado pelos Áustrias Castelhanos. A História regista as pretensões de quatro desses aventureiros, conhecidos por Rei de Penamacor (1584), Rei da Ericeira (1585), Rei do Madrigal (1590) e Rei de Veneza (1598-1603). É deste último, precisamente, que trata o volume agora dado à estampa e aqui trazido à baila.

Marco Tullio Catizone, o legítimo nome do falsário calabrês, sustentou a sua pretensão durante cinco longos anos. Os primeiros rumores começaram a surgir nas vésperas da morte de Filipe II de Castela e conheceram o seu desfecho espectável um quarto de século após o insucesso trágico da Batalha dos Três Reis. De fantasia em fantasia, de prisão em prisão, de processo em processo, a confissão obtida sob tortura confirma a acusação do crime de lesa-majestade, cometido por usurpação de identidade, falsificação de assinatura e insígnias reais, ditando a amputação da mão direita, a execução na forca, o esquartejamento e a exposição pública da cabeça e do membro decepado. Mais uma vez e após a leitura exaustiva de todas as peripécias aliadas à fraude sebástica, torna-se particularmente difícil de entender que as diferenças físicas detetadas, a incompetência linguística do português e a ausência duma memória credível tenha tido tão pouco peso no desmascaramento imediato do embusteiro. Outros tempos, outras vontades, outros interesses políticos jogados à escala das potências hegemónicas de então. Os pormenores mais recônditos deste episódio insólito vivido na passagem da centúria de quinhentos para a de seiscentos são minuciosamente dissecados pelo espírito académico de André Belo, cujos resultados registados em livro poderão ser consultados em dois idiomas recentemente publicados. Aproveitemo-los se, de facto, a matéria tratada continuar a povoar o nossos imaginário individual e coletivo.

Marco Tullio Catizone
[Madrid - Museo del Prado]

« Le faux Sébastien était un homme originaire de Calabre, identifié à partir du procès de Naples sous le nom de Marco Tullio Catizone; s'il a avoué son nom devant le vice-roi de Naples et lors du procès de Sanlúcar, il est à chaque fois revenu sur ses aveux. Pourtant, il ne ressemblait pas au roi Sébastien, sa mémoire était lacunaire et il maitrisait très mal la langure portugaise.»
André Belo, Le roi Sébastien de Venise (2023)

11 de janeiro de 2024

Amin Maalouf, as cruzadas ocidentais à Palestina vistas pelo olhar oriental árabe

« Ce livre part d'une idée simple : raconter l'histoire des croisades telles qu'elles ont été vues, vécues et relatées dans " l'autre camp ", c'est-à-dire du côté arabe. Son contenu repose, à peu près exclusivement, sur les témoignages des histo-riens et chroniqueurs arabes de l'époque. Ces derniers ne parlent pas de croisa-des, mais de guerres ou d'invasions franques. Le mot qui désigne les Francs est transcrit différemment selon les régions, les auteurs et les périodes: Faranj, Faranjat, Ifranj, Ifranja... Pour unifier, nous avons choisi la forme la plus conci-se, celle surtout qui sert aujourd'hui encore dans le parler populaire à nommer les Occidentaux, et plus particulièrement les Français : Franj»
Amin Maalou, Les croisades vues par les Arabes (1983)

Descobri a escrita luminosa de Amin Maalouf no Léon l'African (1986), o seu romance de estreia, logo seguido de Les Croisades vues par les Arabes (1983), o ensaio com que se lançara na república das letras e que agora voltei a visitar. À data da edição original francesa da biografia ficcionada de Hassan el-Wazzan (comerciante, diplomata, escritor e geógrafo árabo-andaluz conhecido por Leão-o-Africano), acompanhei com olhar atento o confronto que então se fez sobre a verdade histórica patente num e noutro relato, assentes em eventos acontecidos trazidos ao convívio dos leitores imersos nas veredas criativas do imaginário. Risco em boa hora assumido pelo autor desde o prefácio a estas cruzadas ocidentais à Palestina vistas pelo olhar oriental árabe até aos nossos dias referidos no epílogo. Plano ousado de sucesso garantido que o conduziria à vigésima nona poltrona da Académie française  pouco mais duma dúzia de anos (2011) e mais recentemente a seu secretário perpétuo (2023).

Seguindo de muito perto a tradição trilhada pelos cronistas islâmicos coevos, a referência e numeração das sucessivas cruzadas adotadas pela historiografia oficial cristã são substituídas pela identificação das fases que marcaram os cento e noventa e cinco anos de presença efetiva dos Roum (bizantinos) e Franj (francos) na Palestina: Invasão (1096-1100), Ocupação (1100-1128), Reação (1128-1146), Vitória (1146-1187), Adiamento (1187-1244) e Expulsão (1244-1291). Converte-os nas seis partes da resenha, agrega-lhes catorze capítulos expostos pela ordem em que se foram dando, enquadrando a sequência obtida por um prólogo e um epílogo breves, bem como por um conjunto de complementos contextuais facilitadores da tarefa interpretativa dos leitores atuais. A estrutura discursiva estava preparada para contrapor à versão europeia vigente a visão alternativa árabe anunciada no título destes anais modernos, compostos por um libanês semita de criação católica estabelecido em França.

Todas as histórias têm personagens que lhes dão vida num espaço e num tempo determinados. Estas Cruzadas não fogem à regra, só que os heróis/anti-heróis que as povoam e os adjuvantes/oponentes que lhes estão associados nessa Terra Santa de três convicções religiosas monoteístas em plena Idade Média variam segundo os pontos de vista do binómio narrador/narratário. Os bons para os Árabes serão necessariamente os maus para os Franj (e vice-versa), numa disputa actancial sangrenta entre os diversos sujeitos/objetos da contenda. Dada a multiplicidade-variabilidade dos eixos geradores do saber-poder-querer convocados, torna-se pouco viável identificar aqui com a imparcialidade exigida um nome único para simbolizar um vencedor/vencido em cada uma das partes envolvidas. Digamos que se terá destacado Godofredo de Bulhão, o conquistador de Jerusalém e primeiro soberano do Reino Latino que ali se formou (1099), e Saladino, o sultão do Egito e da Síria que reconquistou a cidade e liderou o final da presença cruzada no Levante (1187).

A Terra Prometida pelo deus de Abrão ao Povo Eleito transformou-se ao longo dos tempos na terra disputada pelas sucessivas civilizações que se adonaram da região. No período compreendido nesta sinopse histórica, o protagonismo foi jogado pelos adeptos ocidentais do Nazareno e os seguidores orientais do Profeta. Nos dias de hoje, todo esse torrão sagrado dos fiéis do Livro é disputado pelos crentes muçulmanos do Crescente de Maomé e os hebreus da Estrela de David, com o olhar atento dos antigos acólitos católicos da Cruz de Cristo. A posse definitiva da Palestina continua relegada para as calendas gregas, como nos dizem dia a dia os mass media globais. Paradoxo pertinaz no nosso horizonte de eventos que o deus único bíblico-corânico se incapaz de sanar. Na ausência dum desfecho previsível, fiquemo-nos com a memória da violência dos saques, carnificina, pilhagens, chacinas, massacres cometidos por basileus, imperadores, reis, sultões, califas e emires de então, a par dos atuais senhores do poder, sejam eles judeus, chiitas, sunitas, católicos ou ortodoxos, todos eles, em suma, farinha do mesmo saco.

23 de junho de 2023

Somerset Maugham, exame de consciência do real e da ficção

“This is not an autobiography nor is it a book of recollec-tions. In one way and another I have used in my writings whatever has happened to me in the course of my life. Sometimes an experience I have had has served as a theme and I have invented a series of incidents to illustrate it; more often I have taken persons with whom I have been slightly or intimately acquainted and used them as the foundation for characters of my invention. Fact and fiction are so intermin-gled in my work that now, looking back on it, I can hardly distinguish one from the other. It would not interest me to record the facts, even if I could remember them, of which I have already made a better use.”

Ao dobrar a casa dos 60 anos de idade, Somerset Maugham parou para fazer um breve balanço do seu percurso literário já traçado, pô-la por escrito, publicou-o em forma de livro e deu-lhe o nome de Exame de consciência (1938), tentando assim libertar a alma de certas noções que vinham pairando sobre ela com prejuízo do seu sossego pessoal, sem todavia se deixar cair nos escolhos lúbricos da autobiografia pura. Li-o duas únicas vezes ao longo do meu viajar pelo mundo das letras. A primeira nas vésperas de atingir a maioridade, a segunda passado justamente meio século de pleno amadurecimento. Entre o então e o agora, repousou tranquilamente numa estante da minha biblioteca caseira, à espera do momento mais adequado para voltar a fazer sentir o fascínio da sua presença.

Na fase final da guerra civil espanhola e na vizinhança da mundial, o já famoso dramaturgo, romancista e contista, veste ao traje de ensaísta e resolve pôr a nu o seu sucesso estrondoso nas áreas do teatro e da ficção longa e curta, pretexto também para abordar os mais diversos assuntos associados a esses atos criativos que mais o haviam interessado ao longo da vida. Em setenta e sete capítulos de escrita breve e fluida, traça-nos um perfil preciso do seu pensamento crítico e das aprendizagens que entretanto fora acumulando em termos da sua vivência real e ficcionada. Confessa ter um horror visceral à obscuridade discursiva, tendo optado sempre pela clareza e simplicidade na hora de expor as ideias. Revela ter manifestado pouca apetência emocional pela lírica, tendo concentrando a sua preferência expressiva na prosa, muito embora não deixe de admitir que o sentido dramático que há em si teria sido mais bem sucedido se tivesse enveredado pelas formas versificadas.

Depois de ter procedido a uma autópsia à sua caminhada triunfal de contador de histórias representadas numa sala de espetáculos ou lidas nas páginas dum livro, de o ter feito com a minúcia expedita dum aprendiz de medicina que foi, o artista/artífice, o autor/ator, o encenador/fotógrafo de imagens reveladas com palavras ditas à boca de cena ou saídas impressa num prelo tipográfico, dedica os derradeiras parágrafos deste exame de consciência à filosofia, à religião e à significação e utilidade da vida. Confessa-se um agnóstico persistente, o que, a seu ver, é uma caraterística de todos aqueles que agem como se deus não existisse. A redução ao absurdo de todos os argumentos que têm tentado provar à exaustão a sua existência/inexistência e se têm revelado perfeitamente ineficazes e carentes de sentido. Conclusão drástica que marcou profundamente os meus quase 20 anos de idade e cuja acuidade continua a ecoar dentro de mim na sua máxima potência até aos dias de hoje.

No cotejo dos trechos, parágrafos e excertos sublinhados cinco décadas, sobressaem todos aqueles que dum modo direto/indireto se referem à génese e sentido da Servidão humana ou a todos os temas, tópicos ou pontos a ela relacionados. Por alguma razão, tenho vindo a considerá-la durante todo este tempo como uma das obras mais significativas da minha vida, aquela que dum modo mais visível me ajudaram a crescer. Os problemas metafísicos do bem e do mal, da verdade e da mentira, da vida e da morte, da bondade e da beleza, da crença/descrença-apatia na eternidade consciente/inconsciente do ser humano. Tal como o episódio do pé-boto/gaguez plasmado no romance/ensaio conduzira os seus protagonistas à perda de fé no poder curativo da oração, também eu ‒ enquanto jovem leitor que então era ‒ ganhei coragem para deitar para trás das costas todas as hesitações que até aí nutria face ao transcendente e me senti plenamente livre dos dogmas insanos da infância. Definitivamente. A realidade e a ficção deram-se as mãos e ofereceram-me a carta de alforria desses tempos de trevas supersticiosas que até à data habitavam em mim e a luz surgiu radiosa no horizonte.