Mostrar mensagens com a etiqueta Shakespeare. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Shakespeare. Mostrar todas as mensagens

16 de junho de 2026

Sono & Sonhos

Evelyn De Morgan, Nigth and Sleep (1878)
[London - De Morgan Centre]

Morrer, dormir, sonhar, talvez...

INTERRUPTOR

Clica-se a tecla dum interruptor e faz-se luz. Clica-se de novo essa tecla e reavemos o breu inicial. A sucessão do claro/escuro faz-se ao ritmo dum único click. Alternadamente, o tudo e o nada são-nos fornecidos por um dispositivo mecânico que suspende a passagem da corrente elétrica com um simples toque manual. O processo pode repetir-se amiúde até atingir o colapso final do comutador de energia. A eternidade é mais uma vez om produto da imaginação dos homens criadores dos deuses.

Mais fantasista do que os fabricantes de mecanismos atuais, Hesíodo atribuiu a Nyx o poder de dar à luz por partenogénese o incansável Thánatos e o seu irmão gémeo Hypnos, bem como a imensa tribo dos Oneiros. Por outras palavras do dia a dia, a Noite pariu sem fertilização masculina a dócil Morte e o pacífico Sono, o seio divino de todos os Sonhos humanos. Para compor o ramalhete mítico, Ovídio introduz a figura de Morfeu, capaz de dar forma às fantasias noturnas dos meros mortais adormecidos.

A resistência da irmandade pré-rafaelita à gramática renascentista não impediu Evelyn De Morgan de retratar, na Nigth and Sleep (1878), as figuras aladas da Noite e do Sono a pairarem sobre uma paisagem crepuscular, no seu afã imemorial de espalharem às mãos cheias papoilas vermelhas, inspiradoras dos Sonhos e das suas incontáveis fantasias. Nada nos garante que nesse esvoaçar idílico das duas potestades helénicas houvesse o propósito fatídico de privar algum adormecido de voltar a acordar pela manhã.

Para dramatizar um Sono sem Sonhos, com ou sem retorno ao mundo dos seres viventes, teremos de recorrer às palavras versificadas de Shakespeare, no Hamlet (c.1601), em que o ser ou não ser trágico se resume ao morrer, dormir, sonhar talvez. A frieza prosaica do estalido seco do interruptor que liga/desliga, entre Gaia e Thânatos, entre a personificação da Vida e da Morte, divindades primevas da Mãe Terra e do Pai Caos, origem do tudo e do nada, matéria-prima de onde tudo derivou e aonde tudo voltará.

24 de dezembro de 2024

500 anos do nascimento de Luís Vaz de Camões e da morte de Vasco da Gama

Vasco da Gama & Luís de Camões
Medalha do quarto centenário da descoberta o caminho marítimo da Índia

Vasco da Gama morreu na véspera de Natal de 1524, o ano que se convencio-nou aceitar para o nascimento de Camões. As duas vidas tocaram-se (quase).
Frederico Lourenço, Camões. Uma antologia (2024)

Alfa & Ómega

Num dia como hoje, há precisamente 500 anos, morria em Cochim Vasco da Gama (1469-1524), o navegador lusíada que fez a ligação marítima entre Portugal e a Índia (1498), locais onde vira a luz do dia pela primeira e última vez. Jaz no subcoro da igreja do Mosteiro dos Jerónimos em Lisboa, a par de Luís de Camões (1524-1580), em dois monumentais túmulos neomanuelinos criados pelo escultor Costa Mota ali colocados em 1880, o Almirante-Mor dos Mares da Índia no lado norte e o Príncipe dos Poetas Portugueses no lado sul.

Na véspera do Natal, celebra-se uma das festividades litúrgicas mais significativas do catolicismo de raiz ocidental, o nascimento dum pregador religioso judeu que estaria na origem do Cristianismo. Não se sabe de ciência certa o local e data da efeméride, havendo alguns mesmo que duvidam ter tido uma existência real, mas isso são contas doutro rosário. Festeja-se e pronto. Presépios alusivos, pinheiros natalícios, sapatinhos na chaminé, prendas a granel, iluminações citadinas e o diabo a sete às custa do Menino Jesus.

Diz-se por aí que Cervantes e Shakespeare terão morrido a 23 de abril de 1616. Diz-se mas erradamente, dado que, à época, Madrid já se regia pelo novo calendário gregoriano, enquanto Londres se mantinha no velho calendário juliano, separados entre si por 10 dias. Acasos à parte, o alfa de Camões e o ómega de Gama têm uma margem de veracidade maior, dado que se prescinde da indicação dum dia exato e se refere apenas ao ano de 1524, aquele em que o vate terá sido dado à luz do dia e o nauta a viu pela derradeira vez.

Ignoro se existe um plano comemorativo do trespasse do descobridor de rotas oceânicas. Provavelmente será tão envergonhado e insípido como o dedicado ao advento do trovador de cantos épicos. É que tanto um como outro continuam a ser tão ostracizados pelos órgãos da cultura, como se fossem personae non gratae nesta res publica de casos e casinhos efetivos e efabulados pelos artífices de polémicas feitas à medida da clientela política da altura. É pena, porque datas similares só se voltarão a repetir daqui a meio milénio e nenhum de nós estará cá para as testemunhar pessoalmente. É certo e sabido.

27 de janeiro de 2021

Um sono sem sonhos nem pesadelos

Jacques-Louis David 
«La mort de Socrate» 
...To die, to sleep, | No more; and by a sleep to say we end | The heart-ache, and the thousand natural shocks | That flesh is heir to: 'tis a consummation | Devoutly to be wished. To die, to sleep; | To sleep, perchance to dream...

[...Morrer, dormir, | não mais; dizer que rematamos com um sono a angústia | E as mil pelejas naturais herança do homem | Morrer para dormir: é uma consumação | Que bem merece e desejamos com fervor. | Dormir, sonhar talvez...]
William Shakespeare, Hamlet, Prince of Denmark (1599-1602: III, ii, 62-68)

       As sete vidas dos gatos       

Morri sete vezes e ressuscitei outras tantas, mas sempre de modo diferente. Tantas quanto as sete vidas dum gato. Estou a falar em sentido figurado, está bem de ver. Se o fizesse em sentido próprio, a frase transformar-se-ia numa não-frase de sentido vazio ou absurdo. Aliás, em bom rigor e perfeito juízo, nenhuma destas frases teria sido escrita ou sequer pensada. Se tivesse dito adormeci profundamente e despertei sempre duma anestesia geral com sensações diferentes, talvez o risco de insanidade mental desaparecesse, apesar de cair na banalidade de converter o sono num simulacro de morte efémera ou de ressurreição assegurada, o que teria as suas vantagens. Daria para refletir sobre a falência irreversível do livre-arbítrio no que à morte se refere e nas formas possíveis de a antecipar através do suicídio programado ou da eutanásia solicitada, de a imitar através dum anestésico cirúrgico ou da hipnose terapêutica, de a experimentar através do desmaio acidental ou do coma provocado.

A perfeição só acontece uma vez na vida e chega inexoravelmente com a morte. É irrepetível e ninguém escapa. Se tudo já está feito não há mais nada a fazer. E como ato singular e definitivo que é, não penaliza nem premia. Apaga tudo à sua volta para todo o sempre. É que no nosso mundo real a consciência de se estar vivo exclui liminarmente a consciência de se estar morto. Constitui um autêntico absurdo da existência humana, tal como Albert Camus a seu tempo defendeu O mito de Sisifo. Ensaio sobre o absurdo (1942), ter a veleidade de aspirar à experiência da morte depois da vida se ter ido de vez é uma ilusão que nem chega a ser desfeita. Seria perfeitamente infrutuoso. Ao invés do que afirma o protagonista da tragédia de William Shakespeare, Hamlet, Príncipe da Dinamarca (1599-1602), morrer e dormir não são a mesma coisa, afastando assim de vez a hipótese dramática do sonho ligeiro ou do pesadelo tenebroso. Do mal o menos. Nem angústia chega a ser.

A pena de morte foi abolida de Portugal em 1867, tal como a pena de prisão perpétua, ambas ignóbeis, por impedirem a real reabilitação do condenado. A primeira, por substituir a punição merecida por uma benesse imerecida do criminoso dada pela morte que tudo apaga; a segunda, por criar um novo suplício de Tântalo ou de morte em vida do proscrito da sociedade que lhe é vedada para sempre. Ironia trágica e violência sádica aplicadas em nome da justiça, a dar na probidade da sentença, o que nem sempre se verifica. Como a votação final da lei da eutanásia na Assembleia da República foi adiada para depois das eleições presidenciais, teremos ainda de aguardar que o inquilino reeleito do Palácio de Belém proceda com toda a celeridade à promulgação da despenalização da morte medicamente assistida – caso venha a ser aprovada como se espera* –, substituindo duma vez por todas o sofrimento injusto imposto pela matriz judaico-cristã da distanásia e devolver o livre-arbítrio a cada um de nós.

   HYPNOS & THÁNATOS   
Carrying the body of Sarpedon from the battlefield of Troy
Detail from an Attic white-ground lekythos, ca. 440 BC.
[The British Museum - London]
NOTAS
(*) [1] 29.01.2021: Foi aprovada com 136 votos a favor, 4 abstenções e 78 votos contra. || 18.02.2021: O Presi-dente da República enviou para o Tribunal Constitucional o diploma para verificação da sua constitucio-nalidade || 15.03.2021: O Tribunal Constitucional chumbou o diploma com 7 votos contra a sua constituciona-lidade e 6 a favor. || 29.11.2021: O Presidente da República devolveu sem promulgação o decreto da Assem-bleia da República sobre morte medicamente assistida, envolvendo a eutanásia e o suicídio medicamente assistido. || [2] 9.06.2022: A Assembleia da República aprovou pela segunda vez o diploma, posteriormente alvo dum veto político do Presidente da República. || [3] 9.12.2022: A Assembleia da República aprovou pela terceira vez o diploma. || 4.01.2003: O Presidente da República voltou a submeter o decreto do Parlamento que despenaliza a morte medicamente assistida ao Tribunal Constitucional para fiscalização preventiva da sua constitucionalidade. ||  30.01.2023: O Tribunal Constitucional veta nova Lei da Eutanásia e remeteu-a para a Assembleia da República afim de a alterar pela quarta vez.|| [4] 31.04.2023: A Assembleia da República apro-vou mais uma vez a o diploma, após 2 chumbos do Tribunal Constitucional e 3 vetos presidenciais. || 19.04.2023: Veto político do Presidente da República e devolução à Assembleia da República. ||  [5] 12.05.2023: O decreto vetado pelo Presidente da República sobre a morte medicamente assistida foi confir-mado pelo Parlamento, com 129 votos a favor, 81 contra e uma abstenção. || 16.05.2023: O Presidente da Re-pública promulgou o Decreto n.º 43/XV, da Assembleia da República, tal como está obrigado nos termos do artigo 136.º, n.º 2 da Constituição da República Portuguesa.

3 de maio de 2016

Shakespeare's 400th Anniversary

WILLIAM SHAKESPEARE
John Taylor. Retrato de Chandos
[National Portrait Gallery London UK]

To die, to sleep... 

perchance to dream...

To be, or not to be, that is the question:
Whether 'tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them? To die, to sleep,
No more; and by a sleep to say we end
The heart-ache, and the thousand natural shocks
That flesh is heir to: 'tis a consummation
Devoutly to be wished. To die, to sleep;
To sleep, perchance to dream – ay, there's the rub:
For in that sleep of death what dreams may come,
When we have shuffled off this mortal coil,
Must give us pause – there's the respect
That makes calamity of so long life.
For who would bear the whips and scorns of time,
The oppressor's wrong, the proud man's contumely,
The pangs of despised love, the law’s delay,
The insolence of office, and the spurns
That patient merit of the unworthy takes,
When he himself might his quietus make
With a bare bodkin? Who would fardels bear,
To grunt and sweat under a weary life,
But that the dread of something after death,
The undiscovered country from whose bourn
No traveller returns, puzzles the will,
And makes us rather bear those ills we have
Than fly to others that we know not of?
Thus conscience does make cowards of us all,
And thus the native hue of resolution
Is sicklied o'er with the pale cast of thought,
And enterprises of great pith and moment,
With this regard their currents turn awry,
And lose the name of action.
William Shakespeare, Hamlet, Prince of Denmark (1599-1602: III, ii, 56-88)

NOTA
No dia do 4.º Centenário de Shakespeare
(23 de abril de 2016 do calendário juliano | 3 de maio de 2016 do calendário gregoriano)

COMENTÁRIO:
Como podemos nós evocar a morte de alguém, se ele está ainda vivo nos nossos sonhos?

23 de abril de 2016

Cervantes & Shakespeare no Dia Mundial do Livro

«Cervantes y Shakespeare: ni se conocieron, ni se copiaron, ni murieron el mismo día...»

Uma rosa por um livro...


Celebra-se hoje o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor. A escolha da data deve-se ao facto insólito de tanto Miguel de Cervantes y Saavedra como William Shakespeare terem morrido alegadamente a 23 de abril de 1616. Há precisamente 400 anos. Um em Madrid, outro em Londres.

Celebra-se também hoje o IV Centenário de Cervantes e de Shakespeare. Estranho hábito este nosso de comemorar a morte dos heróis nacionais em vez de festejar o seu nascimento. Prova-velmente por ser depois da passagem pela vida que têm o condão de ser recordados para sempre.

Celebra-se no dia de hoje por decisão da XXVIII Conferência Geral da Unesco, que ocorreu entre 25 de outubro e 16 de novembro de 1995. Iniciativa louvável esta de juntar na morte os dois génios das letras hispânicas e britânicas aos demais criadores de heróis da imaginação das letras mundiais.

Celebra-se muito bem mas na data errada. O novelista castelhano transpôs as portas do Parnaso a 22 de abril do novo calendário gregoriano e o dramaturgo inglês a 23 de abril do velho calendário juliano. Equívocos provocados por alguma precipitação na análise atenta das coordenadas do tempo.

Celebra-se ainda a 23 de abril a Festa de São Jorge. Na Catalunha nasceu a ideia de oferecer uma rosa por um livro nesse dia. Que a tradição ganhe raízes e se espalhe por toda a parte. Que se associe o símbolo do amor com o símbolo da cultura em nome de todos os habitantes do Parnaso em geral.





NOTA
O calendário juliano foi criado por Júlio César em 46 AEC tendo sido substituído pelo grego-riano em 1582 EC por Gregório XIII. Em 1606 a diferença entre os dois calendários cifrava-se em 10 dias, pelo que 23 de abril corresponde, de facto, a 3 de maio.