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17 de outubro de 2023

Que fazer com estes livros...

Maria Helena Vieira da Silva
La bibliothèque - 1966

[Centre Pompidou, Paris - 
Musée des Beaux-Arts, Nantes]
«A biblioteca que em duas salas, amplas e claras como praças, forrava as pare-des, inteiramente, desde os tapetes de Caramânia até ao teto de onde, alternada-mente, através de cristais, o sol e a eletricidade vertiam uma luz estudiosa e cal-ma  continha vinte e cinco mil volumes, instalados em ébano, magnificamente revestidos de marroquim escarlate. sistemas filosóficos (e com justa prudên-cia, para poupar espaço, o bibliotecário apenas colecionara os que irreconcilia-velmente se contradizem) havia mil oitocentos e dezessete! 
   Uma tarde que eu desejava copiar um ditame de Adam Smith, percorri, bus-cando este economista ao longo das estantes, oito metros de economia política! Assim se achava formidavelmente abastecido o meu amigo Jacinto de todas as obras essenciais da inteligência  e mesmo da estupidez. E o único inconvenien-te desse monumental armazém do saber era que todo aquele que penetrava, inevitavelmente adormecia, por causa das poltronas, que, providas de finas pranchas móveis para sustentar o livro, o charuto, o lápis das notas, a taça de ca-fé, ofereciam ainda uma combinação oscilante e flácida de almofadas, onde o corpo encontrava logo, para mal do espírito, a doçura, a profundidade e a paz estirada dum leito.»
Eça de Queiroz, Civilização (1892)
Livros, livros, livros...
Toda a vida juntei livros. Nunca me desfiz de motu proprio de nenhum. Dia após dia, ano após ano, década após década, alojei-os nas estantes da sala, na mesa de cabeceira, nas prateleiras das marquises, no móvel do portátil, no armário da casa de banho, em gavetas soltas, junto aos sofás, por cima das cadeiras, debaixo da cama, em todos os recantos escusos da casa.

Pouco a pouco, passo a passo ante pé, os livros vão-se reunindo em surdina nos locais mais díspares onde ainda vão cabendo, em fila de espera para serem lidos e arrumados, lado a lado, por tamanhos e temáticas, uns à frente outros atrás, uns por cima outros por baixo, uns de pé outros deitados, até empilhados pelo chão a aguardar impacientes um alojamento adequado e à medida.

Livros comprados, dados, herdados, editados, repetidos, compostos em vários idiomas. Livros pedagógicos que insisto em manter não sei muito bem porquê ou para quê. Livros lidos e relidos, recebidos por legado direto/indireto de amigos que começaram a desfazer-se das suas bibliotecas pessoais ao sentirem chegar o momento de dizer adeusUma vida a reuni-los, uma morte a separá-los.

Olho para os livros que me olham de onde estão para onde estou e pergunto-me o que fazer/farão com todos eles. Sem soltar uma palavra audível, respondem-me que os abra, leia e releia, se for caso disso, que um livro fechado morre lentamente se não o abrirmos de vez em vez por quem os escolheu, anotou, comentou, sublinhou, manteve ao longo dos tempos. É isso mesmo que faço.

16 de março de 2022

Jogos de tabuleiro a preto e branco

Maria Helena Vieira da Silva
La partie d'echecs | A partida de xadrez
[Paris - Centre Pompidou - 1943]
«Um bom jogador de xadrez está sinceramente convencido de que a sua derrota decorre dum erro seu e então procura esse erro no início do jogo, mas esque-ce que a cada etapa, ao longo de toda a partida, houve erros semelhantes e que nenhum dos seus lances foi perfeito. O erro ao qual o jogador dirige a sua aten-ção lhe parece mais saliente porque o adversário tirou proveito dele. Bem mais complexo que isso é o jogo da guerra, que se passa em condições de tempo determinadas e onde não uma vontade única que governa mecanismos inani-mados, mas, ao contrário, tudo decorre de um conflito incalculável de vontades distintas
Leão Tolstói, Guerra e Paz (1865)
 Jogos de Xadrez  Guerra Paz 

Quem invade um país rival acaba sempre derrotado. Mais tarde ou mais cedo, duma maneira ou de outra. Às vezes uma reviravolta geoestratégica nos jogos de guerra e paz dura menos tempo do que uma partida de xadrez. Os ditadores acabam muitas vezes por ter um final bem mais dramático do que o sofrido pelo rei adversário após o xeque-mate num jogo de tabuleiro pintado a preto e branco.

Napoleão foi derrotado pelo General Inverno na Rússia czarista e acabou exilado em Santa Helena, ao que parece envenenado. Hitler foi derrotado em Estalinegrado na Rússia soviética e acabou por se suicidar num bunker duma Berlim arrasada pelos exércitos aliados. As invasões dos exércitos francês e germânico aos países vizinhos acabaram mal haviam começado. Só deixaram a morte atrás de si.

As lições da História deveriam calar fundo nos países que alguma vez se viram invadidos, impedindo-os de cometer os mesmos erros. A derrota dos exércitos invasores da URSS ao Afeganistão deveriam ter servido de exemplo às agora forças invasoras da Federação Russa à Ucrânia. Parece que as megalomanias napoleónicas e hitlerianas passadas de pouco terão servido às putinadas atualmente em curso.

Nos duelos de David e Golias os anões podem vencer os gigantes. A funda certeira do futuro rei de Israel lançou por terra o soldado filisteu. Uns cocktail molotov bem direcionados pela resistência finlandesa acabou numa centena de dias com as forças invasoras de Stalin no inverno de 1939-1940. As hordas invasoras do novo inquilino do Kremlin que se cuidem. A resistência dos povos move montanhas.

6 de março de 2021

Uma saída luminosa

MARIA HELENA VIEIRA DA SILVA
L’issue lumineuse (1983-1986)
[Collection privée, Paris]


... une ouverture vers l'extérieur, une sortie, une issue...

« Un paysage abstrait : au centre supérieur de cette composition, faite d’un empilement de rectangles rouges et ocre sur la gauche, plus blancs et irréguliers à mesure qu’on va vers le centre et la droite du tableau, l’œil est attiré par un espace blanc, une sorte de fenêtre carrée, qui s’ouvrirait vers un autre espace, extérieur, lumineux, un volume en forme de cube. Cette impression première correspond au titre du tableau de Maria Helena Vieira da Silva intitulé L’Issue lumineuse. Que ce carré ou ce cube blanc évoque un fenêtre, ou une ouverture vers l'extérieur, une sortie, une " issue ", comme le suggère le titre, suppose que ces strates colorées soient une architecture intérieure, mur ou panneau rayonnages de livres entassés, par exemple. La haute colonne lumineuse, à droite du carré, de même que les petits rectangles verticaux, à l’extrême droite, ouvertures ou pavés de verre, confirment cette référence à l’architecture : Le peintre, faisant alterner des volumes clairs et des masses sombres, définit plusieurs espaces dans le tableau, particulièrement en son centre dont la perspective nous introduit à un au-delà de la toile. C’est donc une idée de seuil, de passage d’un espace à un autre, qui domine cette peinture à l’huile, exécutée entre 1983 et 1986 sur une toile rectangulaire d’assez grande dimension (10 cm de hauteur et 97 cm de largeur), dont la verticalité est rythmée par cinq colonnes, verticales elles aussi, mais irrégulières, remplies de strates parallélépipédiques horizontales : la diversité des couleurs et du monde d’intrication des formes donne une sensation de désordre organisé, mais peut-être surtout de liberté. La partie centrale du tableau, sur toute la largeur, est plus irrégulièrement disposée, autour du carré lumineux, puisque les rectangles horizontaux, qui apparaissent au centre et soulignent l’arrête inférieure du carré, rencontrent les hauts rectangles verticaux qui en marquent les arrêtes latérales et sont prolongés par des stratifications plus irrégulières. La structuration de cette diversité formelle se fait plutôt par la couleur, et l’opposition entre des masses contrastées, sombres à gauche, claires à droite»

Agnès Verlet, « L'issue lumineuse de Maria Elena Vieira da Silva » (frag.), IN Pierre Péju, La petite Chartreuse (Paris: Gallimard, 2002, 2006, pp. 159-160)

Obs.:
Ekphrasis duma tela luminosa de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992), no dia em que se cumprem 29 anos da sua entrada na imortalidade... 

16 de fevereiro de 2021

O entrudo ficou em casa num dia assim

MARIA HELENA VIEIRA DA SILVA
Ballet ou Les Arlequins
(1946)

Pierrot, Colombina & Arlequim

Segundo se julga saber, a palavra Carnaval provém da expressão latina carne, vale!, pelo italiano carnevale, com o sentido de «adeus, carne!», i.e., representava a última terça-feira do período litúrgico que mediava o Dia de Reis e a Quaresma. A abstinência começava na quarta-feira de Cinzas seguinte, substituindo as grandes festividades pagãs de despedida aos excessos da véspera e prolongar-se-ia por mais quarenta dias (quadragesima dies) até ao domingo de Páscoa. Também é conhecido por Entrudo, designação derivada da palavra latina introitus, a simbolizar a preparação para a mais importante celebração do calendário cristão.

Com raízes na antiga tradição ática dos hinos a Dioniso-Baco e do Canto de Aldeia, os folguedos, farras, festins, folias e pândegas mil andaram sempre ligados aos mais diversos disfarces, na tentativa de se fingir ser aquilo que não se é ou se tem pudor de assumir no resto do ano. Nos cortejos de rua multiplicam-se os mascarados, munidos duma caraça, máscara ou mascarilha de cartão ou com a cara profusamente pintada, caraterizada ou maquillée. As crianças apreciam especialmente transformarem-se por um só dia que seja nas mais diversificadas personagens de fantasia a enriquecer o seu imaginário infantil de faz de conta.

No Renascimento italiano, a camada menos instruída da população, desconhecedora da língua tida na época como universal, substituiu o latim da comédia erudita pelo vulgar italiano da Commedia dell'Arte também chamada Commedia all'Improviso e Commedia a Sogetto. As companhias familiares praticavam a itinerância de cidade em cidade. Deslocavam-se de carroça, tal como o fizera Téspis na Ática do séc.  AEC, representavam em pequenos palcos rudimentares instalados nas ruas e praças públicas, interagiam com o público exercendo a arte do improviso, limitando-se a seguir as linhas gerais dum roteiro simplificado. 

A criançada apropriou-se ao longo dos tempos de algumas das figuras-tipo dessa representação dramática. A riqueza cromática do seu vestuário e dos motivos que lhe dão forma estará na origem dessa preferência multissecular. Entre essas caricaturas da vida humana, foi-se destacando o triângulo amoroso constituído por Colombina, enamorada de Arlequim e amada por Pierrot. A vingança deste último sobre o rival está-se a manifestar sem dó nem piedade esta terça-feira gorda de jejum. Roubou-lhe o Carnaval pelo segundo ano consecutivo, depois de este lhe ter roubado a musa da sua paixão. Cá se fazem cá se pagam.      

15 de março de 2016

Retratos pintados e contados

ARPAD SZENES, Marie-Hélène X, 1942

(Arpad Szenes pinta Vieira da Silva pintando Arpad a pintar...)
[Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva]

Je dérange ?

Lembrava-me por exemplo de partilhar a opinião bastante difundida de que Arpad era vítima da excessiva proximidade de Vieira, como o seu ar inofensivo de bicho, Ma Femme Chamada Bicho. Madame Bicho ia visitar o marido a um ateliê que ele tinha construído no jardim, para se livrar de Madame.

Ao contrário de mim ele era um homem suave, demasiado suave para impor quaisquer regras e exigir que fossem cumpridas. Não ousava enfrentá-la e impedi-la de entrar quando ela, uma vez por outra, abria a porta sem bater e perguntava:

«Je dérange?», já depois de ter entrado.

Ela tinha uma espécie de estratégia eficaz: afastava-se e deixava-o em paz por algum tempo, e quando achava que fora tempo suficiente e ele tinha a obrigação de já ter realizado algo que valesse a pena, ali estava ela à sua porta, com ar tímido e curioso de discípula admirativa, que vem visitar o mestre.

«Je dérange?» perguntava com voz humilde, cheia de doçura.

E quando ele cedia, por fraqueza, em vez de fechar a porta à chave ou de gritar com todas as forças:

«Oui, tu déranges!»

ela deitava em volta um olhar voraz, via tudo no mesmo segundo em que entrava, e já saía de novo porta fora, levando a inspiração que procurava.

Dentro de dias aí estavam as ideias dele, transformadas, ampliadas, metamorfoseadas em ideias dela. Imensamente fortes, evidentes, como se tivessem sido dela desde sempre.

Então ele deitava fora os estudos e os esboços em que timidamente experimentava algo de novo, que ela depois desenvolvia e pelo que recebia créditos e admiração do mundo.

Teolinda Gersão, A cidade de Ulisses (2011: 116-117)

20 de abril de 2015

Histórias trágico-marítimas

Maria Helena Vieira da Silva, História trágico-marítima ou O naufrágio, 1944

Naufrágios

Continuam a naufragar argonautas anónimos dos nossos dias nas águas tépidas do mar Mediterrâneo, o Mare Nostrum latino, o maior mar interior de águas salgadas do mundo, um mar entre terras, berço de culturas e civilizações milenares, espaço privilegiado de contacto de povos oriundos de três continentes.

Os imigrantes clandestinos dos nossos dias naufragados nas rotas da morte abrem telejornais e preenchem as primeiras páginas dos jornais, com imagens em movimento dinâmico de filme ou estático de foto, testemunho mudo de dramas alheios, de flashes de desespero, de fugas massivas à guerra, à miséria, ao caos.

Os comentadores dos mass media falam em desastre, genocídio, tragédia, causados por traficantes, terroristas, esclavagistas, palavras muito fortes com um poder muito fraco para explicar os 700 vítimas dum só dia, a juntar à 900 do primeiro trimestre do ano ou dos 300 das últimas notícias ao minuto da NET.

Os números são assustadores e deixam a perder de vista as histórias trágico-marítimas dos naufrágios cantados nas páginas das epopeias de helenos, latinos e lusitanos, heróis com nome registado na memória das gentes e direito a panteão nacional, arautos duma gesta pretérita que não admite concorrências no porvir...

3 de março de 2015

O labirinto de letras das bibliotecas

Maria Helena Vieira da Silva, Biblioteca 
[óleo sobre tela, 1949]
También sabemos de otra superstición de aquel tiempo: la del Hombre del Libro. En algún anaquel de algún hexágono (razonaron los hombres) debe existir un libro que sea la cifra y el compendio perfecto de todos los demás: algún bibliotecario lo ha recorrido y es análogo a un diós.
Jorge Luis Borges, La biblioteca de Babel (1941)
Os mass media da aldeia global alimentaram avidamente os noticiários impressos, radiofónicos e televisivos com a informação à la une de que o pretenso Estado Islâmico incendiara a biblioteca pública de Mossul, no Iraque, queimando milhares de livros, entre os quais se contavam oito mil manuscritos raros e obras antigas de valor inestimável. A ação extremista estendeu-se ainda à biblioteca universitária, a uma igreja e ao teatro locais. Barafustou-se muito nesse dia sobre esse atentado à cultura, enquanto o cheiro a papel queimado se foi adivinhando no ar. Depois o assunto caiu no silêncio dos deuses.

O episódio mediático de barbárie fundamentalista fez-me recordar outros momentos da história, em que a força destruidora das chamas reduzira irremediavelmente a cinzas grande parte da criação poética dos povos. O incêndio da antiga biblioteca de Alexandria terá sido, porventura, o mais calamitoso de todos aqueles que a memória dos homens regista nos seus anais. Quantos testemunhos únicos da antiguidade, registados em cerca de setecentos mil rolos de papiro e pergaminho preciosos, se terão perdido para sempre nesse ano fatídico de 48 AEC é a questão que fica no ar sem resposta satisfatória a dar.

A perda então sofrida foi de tal grandeza, que ainda hoje procuramos recuperar algumas migalhas desse imenso património drasticamente desaparecido, por todos os meios postos à nossa disposição. décadas que tentamos decifrar, com os mais sofisticados meios tecnológicos postos à nossa disposição, os segredos guardados nos volumes calcinados pelas lavas vulcânicas do Vesúvio das bibliotecas privadas dos patrícios romanos das cidades de Pompeia e Herculano, varridas do mapa em 79 da EC e mantidas sepultadas da curiosidade dos leitores por mais de 1600 anos feitos da poeira dos dias que passam.

Umberto Eco impacientou-se com a espera e imaginou uma biblio-teca de fantasia perdida no coração duma abadia medieval italiana, minuciosamente descrita nas páginas d'O nome da rosa (1980). Por instantes, chegamos a acreditar que o segundo livro da Poética de Aristóteles se encontrava preservado naquele refúgio labiríntico idealizado pelo espírito religioso da época. A ilusão é de curta duração. Quem leu o romance ou viu o filme sabe bem que, no final da fábula, todo o edifício é engolido pelas labaredas providenciais dum incêndio purificador, levando consigo a mais chorada obra perdida da literatura ocidental.

nos resta confiar na de Jorge Luis Borges ficcionada nas pági-nas visionárias de La biblioteca de Babel (1941). Admitir a existência no universo dum livro total que é a cifra perfeita de todos os demais. A arte combinatória dos números aceita como provável essa arte combinatória das letras. O guardião dessa biblioteca recuperada dá pelo nome de Homem do Livro. Vive em qualquer lugar remoto do nosso mundo possível a que chamamos imaginação. É através da utopia que em nós habita que a centelha divina da criação se manifesta a cada momento que passa, depois de termos absorvido as imagens e as semelhança de deus.

11 de janeiro de 2015

Poema Inédito

Vieira da Silva, A poesia está na rua I & II (1975)
[Fundação Calouste Gulbenkian]


POEMA UM DIA
Um dia, os rapazes serão louvados. Hão de passar entre multidões floridas. Levarão riso na boca e os braços levantados.
Um dia os rapazes hão de ser punidos. Pelos males que hão de vir dos quatro pontos cardeais. Terão latrinas derramadas nos portais.
Um dia esses heróis serão esquecidos. Os seus nomes alinhados entre conchas e espinhas. Hão de constar de uns livros nunca lidos.
Mas um dia, este dia, será o dia do idílio. Os rapazes ainda não desistiram de soltar os braços dos escravos. E os escravos ainda não renegaram a cor dos cravos. Ainda estamos no princípio desse dia.
Lídia Jorge, Os memoráveis (2014: 283-284) 

26 de setembro de 2014

Pátio de Letras & Espaço de Memórias

Maria Helena Vieira da Silva
Bibliothèque en Feu (1974)
CAM - FCG - LISBOA

Siempre imaginé que el paraíso sería algún tipo de biblioteca.
Jorge Luís Borges

Uma cidade sem uma livraria não é uma cidade a sério. Uma cidade que é incapaz de manter as que tem não merece o direito de existir. No decorrer duma escassa geração, vi desaparecer uma dezena delas ao meu redor. Em seu lugar, vi surgir uma sapataria, uma farmácia, uma cervejaria, um salão de cabeleireiro, uma loja de peúgas, uma butique, uma garrafeira, uma bijutaria, um café. Podia ser pior. Ficarem os espaços ao abandono, encerrados e entaipados, como se vê tanto por aí. E lá vão desaparecendo também por contágio estações de caminho de ferro, escolas primárias, maternidades, cinemas, tribunais e o diabo a sete. Os exemplos são mais que muitos. Uma cidade que priva os seus moradores dos bens essenciais ou os expulsa para a periferia, uma cidade que cria o deserto no seu interior, essa cidade qualquer dia destes desaparece e ninguém dá por isso.

A mais recente livraria a fechar portas na cidade onde moro ainda não teve tempo de se transformar em coisa nenhuma. Vive a paredes meias com um bar, aquele a que esteve associada enquanto subsistiu e que lhe conseguiu sobreviver. In vinus veritas. Estarei certamente a exagerar um pouco. Os livros vendem-se agora nos supermercados. Nas pequenas e grandes superfícies. São transportados para casa no meio dos detergentes, mercearias e enlatados. Começam a ver-se cada vez mais nas estações de correios que ainda não fecharam definitivamente as portas aos utentes, também eles em via de extinção. Em vez de selos para as cartas que ninguém escreve adquire-se um bestseller de tiragem global, de preferência light, traduzido para português. É a chamada banalização da cultura ou apagamento dum país.

O Pátio de Letras durou seis anos. Entre 12 de julho de 2008 e 30 de agosto de 2014, ambicionou ser um espaço de memórias onde o espírito crítico se sentisse em casa; um espaço de encontro de pessoas e ideias, onde a cultura fluísse com a naturalidade com que se respira e conversa com os amigos. Estas palavras foram trazidas da nota de despedida composta pela autora do projeto na hora de fechar as portas e arrumar a casa. Fi-lo quase ipsis verbis e sem ter formulado um pedido formal de autorização. Fi-lo enquanto frequentador habitual desse espaço de reflexões pessoais e emo-ções partilhadas. Fi-lo porque me vi privado dum cantinho especial onde eu e os livros nos tratávamos por tu. As aspirações acalen-tadas pela criadora do conceito cumpriram-se na totalidade. O direito a ser diferente vingou enquanto pôde ser diferente. Depois acabou.

Durante cinco anos contribui com algumas palavras para o blogue da livraria. Entre 23 de setembro de 2009 e 31 de agosto de 2014, postei 55 textos compostos depois de lidos os livros no Leya no Pátio. Estão todos agrupados numa etiqueta pessoal que tomei de empréstimo. Continuam em liberdade no ciberespaço, confiantes que o universo virtual seja mais compreensivo com as palavras do que o real costuma ser e as deixe andar por aí à espera de navegantesComecei com o João Aguiar e terminei com o Gabriel García Márquez. O prazer da leitura associou-se ao prazer da escrita. Um dia destes porei o Arthur d’Algarbe a revisitar as histórias do Arthur Erre Guê e pô-las em linha mais uma vez. Quem sabe para que lado os fados nos levarão...