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25 de abril de 2024

Círculos & Espirais

Marie-Pierre Jan, Spirale (2019)
[Artmajeur]
O LIVRO DE MILENE
«Como o próprio tio às vezes dizia, num futuro próximo, a Democracia teria de ser revista.»
Lídia Jorge, O vento assobiando nas gruas (Lx.: Dom Quixote, 2002., xxi, 453)
círculo
Figura plana cuja periferia, circunferência, está toda a igual distância do seu centro.
espiral
Linha curva que, sem se fechar, vai dando voltas em torno de um ponto, afastando-se dele de forma progressiva e regular.
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha]

Deitei-me na noite da viragem de ciclo da ditadura para o da liberdade a ouvir o Rádio Clube Português. Como desliguei o transístor a pilhas  pela 1:00h da manhã, deixei fugir a leitura do primeiro comunicado do MFA às 4:26h, altura em que dormia profundamente o sono dos justos. Nessa mesma noite, passou-me também ao lado a difusão das duas senhas cantadas da revolução: «E depois do adeus», às 22:55h da véspera, pelos Emissores Associados de Lisboa, posto que não costumava sintonizar; e «Grândola, vila morena», às 0:21h da madrugada do 25 de abril, pela Rádio Renascença.

Sobre o que vivenciei nesse dia o relatei aqui. Levantei-me cedo em Campo de Ourique, percorri o Rato e o Príncipe Real a passos largos, atravessei o Bairro Alto de ponta a ponta e adentrei-me em Santa Catarina. Foi aí que as portas se abriram de par em par e me dei conta que a revolução já andava nas ruas em liberdade e de braços abertos. Na madrugada do dia de hoje, ignoro como decorrerá daqui para a frente. Prevejo que algumas vozes dissonantes ecoarão a reclamar por cartilhas antigas que os analistas mediáticos debitarão mesmo de olhos fechados nas próximas semanas.

Uma meia centena de saudosistas empedernidos dos tempos da outra senhora ocuparam vitoriosos as bancadas da Assembleia da República, desejosos de a muito curto prazo restaurarem a antiga Assembleia Nacional de triste memória que tanto custou a derrubar. A alternância dos ciclos políticos são naturais em liberdade, assim a viragem radical de há meio século não corresponda a uma viragem radical de sentido inverso nos nossos dias. Que as sionistrogiras e as dextrogiras periódicas se façam de modo espiralado aberto em tudo contrário ao modo circular fechado e Abril vencerá.

25 de abril de 2023

Nota com pássaro e frutos vermelhos

25.Abril.2019
 
Cuidado com o canto do melro.
O pássaro bicou os frutos vermelhos
– O sol amarelo mudou
de cor.

Desde algum tempo que os meus pensamentos são muitos, mas as minhas letras são poucas. Sobre um papel junto só as palavras essenciais como costumam fazer as crianças quando ainda não sabem construir frases e, no meu caso, daí resultam escritos a que dificilmente alguém, além de mim própria, poderá atribuir um sentido. Deixo escrito nestes papéis soltos imagens vergonhosas. Palavras que parecem versos rimados, sem que eu o deseje. Coisa tosca.

Lídia Jorge, Misericórdia 
[Lisboa: D. Quixote, 2022 (7: 59; 8: 60)]

25 de abril de 2021

O cravo e o elefante de abril

Júlio Pomar
«40 Anos de 25 de Abril» (2014)

Elefante de Abril

A Revolução
teve uma flor
o cravo.
Não teve um animal
e, como tal, 
proponho o elefante
tão paciente e sofredor
durante tanto ano
mas quando a paciência se esgotou
foi coisa de se ver
violento
eficaz
empolgante.
Depois, voltou a ser 
lento
bom rapaz
algo distante.
Mas, atenção
nunca se viu morrer
um elefante!
 Carlos Pinhão, Bichos de Abril, Editorial Caminho, Lisboa, 1977

25 de abril de 2020

Baladas do nosso amargo cancioneiro


«O escritor "pode" considerar a Política como exterior ou indiferente às suas preocupações essenciais. A Política é que não é da mesma opinião e o considerará a ele no interior das "suas" preocupações.»
Eduardo Lourenço
Hoje não vou ouvir de manhã à noite as músicas votivas do dia da liberdade. O ambiente de enfermaria ainda está  muito presente  na minha memória para abraçar de ânimo leve as grandes manifestações de júbilo revolucionário. Também não me parece que vá assistir pela televisão à transmissão das cerimónias oficiais na Assembleia da República, reduzidas ao mínimo e no meio de grandes polémicas dignas das guerras de alecrim e manjerona, de quem se recusa a entender o real significado do ato. Por experimentar terá de ficar igualmente uma Grândola cantada na hora acordada à janela, que a voz ainda não dá para tais habilidades canoras. E com confinamentos e quarentenas em vigor, por via dum COVID-19 indesejado, a saída para viver em 2020 o 25 de Abril de 1974 na rua estava condenada logo à partida.

Hoje vou seguir um roteiro diferente. Vou cantar mentalmente cada uma das cantigas, canções, cantos e contracantos d'O nosso amargo cancioneiro, compilado por José Viale Moutinho em 1972. Uma quase centena de poemas musicados em forma de baladas de intervenção, estimulantes e provocadoras, um libelo de sensibilização política, rascunho de obra de maior esforço, como se refere no prefácio. Poetas, compositores e intérpretes a darem  corpo e voz às palavras das trovas e lendas dos tempos pretéritos e do porvir. Ouvi-as e entoei-as vezes sem conta em convívios académicos ou encontros de amigos, numa semi ou total clandestinidade e nos locais mais insuspeitos de Lisboa. Por vezes na companhia dos cantautores, que se faziam acompanhar por uma ou outra guitarra. José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Fausto, José Jorge Letria, Vitorino, Carlos Alberto Moniz, Ruy Mingas. Artes poéticas próprias e alheias. Alexandre O'Neill, Sophia de Mello Breyner, António Gedeão, Carlos de Oliveira, Hélia Correia, Natália Correia, José Saramago. Sentados no chão, saudávamos os ausentes e entoávamos em coro o Francisco Fanhais, o José Mário Branco, o Manuel Freire, o Sérgio Godinho. E o canto livre à procura doutras liberdades fazia-se assim.

Hoje vou começar com um «Epigrama» de Afonso Duarte e Luís Cília (Há só mar no meu país [...] é ele quem sou) e vou terminar com uma «Canção para uma manhã diferente» de Vieira da Silva (Somos andorinhas negras [...] da manhã nunca encontrada). O alfa e ómega dum amargo cancioneiro que guardo religiosamente há quase meio século. De permeio trautearei em surdina algumas dezenas mais de miniepopeias em verso variado que contam a história dum país em busca de novos rumos. Repetir como as gentes da Beira Baixa:  Viva a malta, trema a terra | Daqui ninguém arredou! | Quem há de tremer na guerra | Sendo homem como eu sou? Testemunho precioso de percursos espinhosos, trilhados por uma geração que olhava em frente como filha da madrugada, que viveu a guerra para conquistar a paz. Livrinho gasto pelo tempo e preservado pelas memórias que cantam a vida que fomos e levamos connosco, dentro de nós, por aí fora.

25 de abril de 2019

Ora esguardae como se fosses presente…

Ora esguardae como se fossees presente…
Fernão Lopes, Crónica de D. João I
Falaria do júbilo, do frenesim, da glória e da coragem do acontecer. Mas calo-me. Antes, olhai. Pois que tudo aconteceu tão pleno, o quê?, ah sim, era ainda Abril, as pessoas sorrindo, mesmo ali, iam e vinham ao longo da rua, seiva no emaranhado das pálpebras, estrépito de muitas emoções rolando corpo inteiro.

E, no entanto, desvelada foi a vigia, como se cada um ainda em seu degrau, e depois os olhos postos no meio da sua marcha. Por outro lado, é verdade também que parecíamos de visita ‑ das serras, da mão direita e da mão esquerda dos rios, dos ribeirões, da campina, das curvas por entre os barrancos, do vento esfarrapado contra os penedos, do bebedouro das aves, dos telheiras e das traseiras onde o crepúsculo amaciava a chuva. Como se chegássemos em cavalo branco, o sol saindo-nos ao caminho, braceletes baloiçando lucilando na Natureza, caminho morno, sim.

Havia um espaço que era o do gesto literário. Eu via-o logo de manhã, os lidares eram o de gente muito mexida, olhávamos para o relógio, que horas, são?, estávamos sempre dentro da tabela, e já nem fazia mal que falássemos alto, nos campos o arado bordava a terra fundo, as lombas e os cabeços preparando-se para o afago de um outra bafo.
Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 1982

25 de abril de 2017

A aurora luminosa duma manhã de abril

universos romanescos, um portátil & música de fundo

MADRUGADA

[Lisboa, 25 de abril de 1974]

A noite vai alta e escura. A terra por debaixo da cidade emana um hausto fresco, os parques e os jardins abertos ao ar, húmidos como as narinas de um gato. Tudo está quieto, espesso sob a pelagem da noite sem estrelas, mas tão pouco velada. Ou velada lá tão alto que o resultado é esta quietude da cidade numa treva, um escrínio. Não está frio. Pelas quatro da manhã fez um jorro de vento, um único. Uma pancada de ar marítimo que avançou sobre as ruas baixas e os espaços abertos, cidade acima. A roupa meio seca estalou nas cordas, enfunando corpos, as copas das árvores moveram-se. A maré ia vazia. Empurrados pelo golpe de aragem os detritos estremeceram sobre a babugem suja e brilhante das orlas de cimento e de areia parda.

Um pequeno caranguejo negro desceu em direção às águas, estacou irisado no fervor amarelo da espuma, as duas tenazes sondando a viração do ar. Os grumos de pardais sobre os ramos insuflaram as penas e mudaram de asa as pequenas cabeças, de novo quietos como frutos. Dentro das casas os homens suspiram e mudam a postura por dentro do sono, mudam de sonho, enquanto os cães levantam a cabeça e estiram as orelhas e o olfato para o lado sul e do crepitar das ramas lá fora, deitando depois o focinho sobre as patas, os olhos ainda abertos na melancolia do alarme. Como que coberto de uma película viva, o asfalto reproduz os jorros de luz de um ou outro carro rápido por dentro das ruas desertas, e a dos candeeiros altos, lívida.

Sobretudo nos jardins públicos, praças arborizadas e cemitérios, a quietude é quase medonha. É sempre assim antes que a manhã raie, a menos que a chuva, a esta hora sempre miúda, venha pairar sobre estas formas tão dentro de si mesmas, juntando a este silêncio o seu silêncio, que tem outra leveza.

Há um carro de bois carregado de hortaliça que desce para perto do rio. O chiar do rodízio e o pousar rítmico, claro, dos cascos do animal, que só pode ser visto a esta hora, enchem a noite da sua certeza profunda, que para cada cidade sua noite. Aqui, há uma perenidade abafada. A rocha basáltica absorve os sons e prolonga-os num ronco atemporal, o respirar duma caverna subterrânea que os homens escutam dormindo, a alma negra do porto, da viagem.

Um galo canta, rouco, e outro. É ainda a secreta proliferação das traseiras, pátios, quintais, periferias internas de lixeiras e barracas. No rio há barcas onde um luzeiro hesita por detrás de um pano, ou da oscilação levíssima de um homem que se levanta do casco para comer, para urinar sobre a borda. Grasna um motor que hesita em pegar, crespo da humidade. Num cacilheiro quase vazio, duas mulheres dormitam uma sobre a outra, sem destino, sob aquela luz amarela.

Junto à linha do horizonte, sobre o mar, começa a lumiar um clarão. Vem branco, o sinal da aurora. Há muita névoa.

Maria Velho da Costa, Lucialima (1983: 11-12)

25 de abril de 2015

Numa quinta-feira luminosa de abril...

Flashes dum dia de abril
[MAI Magazine, 25 de abril de 2014]
O DIA
Encontrei-me com o 25 de Abril de 74 em Lisboa. Como já disse al-gures, vivia então em Campo de Ourique. De vez em quando apa-nhava o 28, que me levava pachorrentamente até ao Calhariz. Descia mesmo em frente da pastelaria Bijou, a poucos passos da rua das Chagas, onde o então Instituto Comercial estava instalado e que eu frequentava mais ou menos a contragosto. Na manhã desse dia, levantei-me particularmente cedo e troquei o trajeto do elétrico pelas subidas e descidas da Domingos Sequeira, calçadas da Estrela e do Combro, pelo percurso pedestre menos acidentado da Sol ao Rato, Escola Politécnica, Príncipe Real e Rosa. Lá poupei assim os preciosos dez tostões do bilhete. Enquanto ia andando entregue aos meus pensamentos, estranhei o silêncio inusitado que ouvi ao longo de toda a travessia. Sobretudo no Bairro Alto, onde a vida de quem trabalha começa muito cedo. Pareceu-me escutar um ou outro cochicho segredado aqui ou além. Atribuiu-o à humidade que se fazia sentir nessa quinta-feira fria duma primavera ainda tímida.

Cheguei cerca das oito horas ao edifício bizantino de traça ortodoxa, onde em tempos funcionara a embaixada russa dos czares. A algazarra era indescritível. Junto à escadaria monumental ladeada por dois lampiões de bronze, deparei-me com um velho estandarte esfarrapado a exibir a dignidade resgatada dum apogeu passado. Tratava-se da bandeira da Associação Académica que tinha vivido os últimos anos na clandestinidade. Fui arrastado para o bar localizado na cave. Em cima duma mesa, um colega esbracejava e dava vivas a um MFA misterioso. Como música de fundo, uma rádio transmitia em alto som uma marcha militar. O caos tinha invadido o pacato ICL. No meio da barafunda, destacou-se uma voz a sair das ondas hertzianas da telefonia com fios. Daqui Movimento das Forças Armadas. A sigla gritada passara a ter algum significado. A repetição constante da palavra revolução ajudou a decifrar todos os enigmas com que me confrontara desde que saíra para a rua. Era altura de ver a história a acontecer ao vivo.

Andei pelas praças da cidade das muitas colinas. Camões, Terreiro do Paço, Rossio. Percorri as ruas que as unem em forma triangular e dão corpo ao Chiado. Garrett, Nova do Almada, Carmo. Por todo o lado testemunhei um ambiente militar florido pouco habitual no país dos brandos costumes impostos com pulso de ferro. Na noite que antecedeu esse dia de tantas novidades, não ouvi o Depois do Adeus e a Grândola. Estaria ligado a um outro posto radiofónico. Nessa madrugada, não vi os tanques na rua Augusta. Rua acima, rua abaixo, ouvi tiros para os lados dos Mártires, presenciei o assalto ao jornal Época, vi um pide em fuga nas escadinhas do Duque. Fui arrastado até ao largo do Carmo para ver cair um regime e ver erguer um outro. Por aqui e por ali, o dia chegou ao fim, mas a festa prolongou-se nos seguintes. Com muitos pormenores que as cronologias registaram. O cinzento dessa quinta-feira desfez-se e a luminosidade duma primavera acordada veio ao encontro das gentes que há muito tempo a esperavam de braços abertos.