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11 de maio de 2023

Coroas de oliveira, pinheiro, louro e aipo e de veludo, arminho, ouro e pedrarias

Emblem of the Coronation of King Charles III

A Terone de Acragante, vencedor de quadriga
Hinos, soberanos da lira! A que deus, a que herói, a que homem cantaremos? Sem dúvida Pisa é de Zeus; a Olimpíada, como o mais precioso dos despojos de guerra, institui-o Heracles; e é a Terone a quem devemos celebrar pela sua quadriga vitoriosa, homem justo pela sua observância da hospitalidade, baluarte de Acragante, salvaguarda da cidade, flor de anciãos ilustres...
Píndaro, Epicínios, «Olímpica II», est. 1, 1-7 (c. Séc. V AEC)

Nos jogos pan-helénicos, o melhor recebia uma coroa simbólica para celebrar a vitória alcançada sobre os seus adversários. Eram feitas de ramos de oliveira nos Olímpicos, de pinheiro nos Ístmicos, de louro nos Píticos e de aipo nos Nemeus, sendo efetuados em datas cíclicas e intercaladas, para assim honrar Pélops em Olímpia, Poseidon em Corinto, Apolo em Delfos e Zeus em Nemeia. Estavam configuradas como festas religiosas ancestrais associadas à fertilidade da terra e aos cultos funerários.

Saltando da Antiguidade para a Idade Média e desta para a Moderna, apetece perguntar que feito heroico digno de nota terão feito os reis e rainhas dos nossos dias para merecerem uma coroa de ouro maciço e pedrarias, com veludos e arminhos mil, para além de terem sido destinados desde o berço para usarem umaMudam-se os tempos, mudam-se as vontades, já lá dizia Camões, também ele laureado, mas esse, pelo menos, deixou-nos obra feita para memória presente e futura.

O circo mediático global voltou a ostentar com honra e glória os tesouros reais e imperiais que a nobre Albione acumulou ao longo dos séculos de domínio soberano absoluto sobre os povos da British Commonwealth of Nations. Só a Saint Edwards Crown possui 345 águas-vivas, 37 topázios, 27 turmalinas, 12 rubis, 7 ametistas, 6 sa-firas, 2 jargões, 1 granada, 1 espinélio, e 1 carbúnculo, num total de 444 pedras preciosas e semipreciosas. God Save de King, para man-ter tal fardo à sua guarda.

Mesmo assim, os motivos florais não foram esquecidos no emblema oficial da coroação de Carlos III de Windsor, criado por Sir Jony Ive. Ali figura a flora das quatro nações do ainda Reino Unido: a rosa de Inglaterra, o cardo da Escócia, o narciso do País de Gales e o trevo da Irlanda do Norte. Uma simples exibição simbólica estampada em papel mas a remeter para a ostentação monárquica das regalia usadas na cerimónia. Coisas de reis e rainhas de antanho vividas nos nossos dias. Até quando...

COROAS DOS VENCEDORES DOS JOGOS PAN-HELÉNICOS
oliveira: olímpicas - pinheiro: ístmicas - loureiro: píticas - aipo - nemeias

24 de agosto de 2020

Henry VIII, the Knight of the Loyal Heart

THOMAS WRIOTHESLEY
Henry VIII jousting in front of Catherine of Aragon in 1511

    Le Chevalier du Cœur Loyal    

«Não descobrirás a nudez da mulher do teu irmão: é a nudez do teu próprio irmão [...] Se um homem tomar a mulher do irmão, isso é uma impureza; porque descobriu a nudez do seu irmão, morrerão sem filhos.»
LEVÍTICO: 18, 16; 20, 21
Henrique VIII (1491-1547) gostava de colecionar de tudo um pouco: títulos, estilos, emblemas, brasões, divisas, amantes e mulheres, as suas e as alheias, católicas e luteranas, anglicanas e protestantes, casadas e solteiras. Só não conseguiu ter uma ranchada de filhos varões como desejava mas bem ensaiou. Sobreviveu-lhe um mas foi sol de pouca dura. A Eduardo VI, sucederam-lhe uma prima e duas filhas: Jane Grey, a Rainha dos Nove Dias; Maria I, a Sanguinária; e Isabel I, a Gloriana. Ironias dum destino indesejado com contornos trágicos ou dramáticos ou simplesmente tragicómicos.

Henrique Oitavo, pela Graça de Deus, Rei da Inglaterra, França e Ir-landa, Defensor da e Chefe Supremo na Terra das Igrejas da In-glaterra e Irlanda casou-se seis vezes mas só enviuvou legalmente uma. Anulou quatro casamentos e não sobreviveu à última. Para tal recorreu a uma separação litigiosa por questões religiosas e outra de mútuo acordo por antipatia sensual recíproca, mandou degolar duas delas na Torre de Londres por aludidos atos de traição, adultério e incesto, mas já não teve tempo de eliminar a última por uma qualquer desculpa esfarrapada arranjada à última hora.

O Oitavo Henrique de nome na lista de monarcas britânicos usou como insígnias pessoais, desde os seus tempos de mero Duque de Iorque e de Príncipe de Gales, as três Flores-de-Lis gaulesas e os três Leopardos Normandos. Depois, foi-lhe acrescentando outros atributos reais à medida que foi assumindo as rédeas do poder: a Rosa e a Portcullis Coroadas dos Tudor, usadas desde o tempo do fundador da dinastia, ladeadas pelo Galgo de Richmond e o Dragão Vermelho de Cadwaladr, símbolos heráldicos clássicos da honra e legitimidade da casa reinante e da tradição lendária arturiana.

Henry VIII, the king, para além dos obrigatórios Dieu et mon Droit e do Honi soit qui mal y pense, motes retirados das ordens do Tosão de Ouro e da Jarreteira, e do Altera Securitas associado às grades da Porta Levadiça dos Beaufort, adotou ainda um emblema bordado a ouro nas roupas de aparato e armas de lide que levava para as justas de cavalaria, subordinado ao lema Cœur Loyal (= Coração Leal), o que dado o seu historial matrimonial não deixa de ser irónico, embora se diga que esta divisa se dedicasse em exclusivo a Catarina de Aragão, com quem viveu quase um quarto de século.

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Os escrúpulos sentidos de Henrique VIII por ter casado com a viúva do irmão Artur de Gales, não se manifestaram um só momento ao casar-se com Ana Bolena, depois de ter descoberto a nudez da irmã Maria Bolena. É que os preceitos do Levítico se aplicavam de modo estrito aos homens. Mais tolerante terá sido Dom Pedro II, ao desposar Dona Maria Francisca Isabel de Saboia, a viúva do irmão Dom Afonso VI. Neste ponto de incestos reais, parece que os Bragan-ças portugueses tinham uma leitura bíblica bem mais terra-a-terra do que os Tudors ingleses seus antepassados remotos.    
 
The procession with Henry at its heart

16 de junho de 2017

A aliança das rosas

ALIANÇA ANGLO-PORTUGUESA
[16 de junho de 1373]
Prato de porcelana da Vista Alegre comemorativo do 600.º aniversário

Ambas as coisas...

A Fábrica de Porcelana da Vista Alegre produziu em 1973 um prato comemorativo do 600.º aniversário da mais antiga aliança diplomáti-ca do mundo, assinada em 16 de junho de 1373, em Westminster, em nome de D. Fernando I de Portugal e de Eduardo III de Inglater-ra. Está decorado com as armas reais das casas de Borgonha e Plantageneta, e os atuais brasões da República Portuguesa e do Reino Unido, sobre fundo azul e ouro. Faz-se ainda acompanhar dum dístico elucidativo da efeméride e de duas rosas heráldicas identificativas dos dois soberanos, a branca do bisneto da Rainha Santa Isabel e a vermelha do avô da Rainha Filipa de Lencastre.

O tratado estabelecido pelas duas coroas frutificaria por séculos, para proveito mútuo das partes envolvidas. As rivalidades com Castela, pela soberania dos tronos peninsulares, ou com França, pela hegemonia dos impérios globais, levaria ao reforço desse acordo. Entre todos, destacam-se os tratados de Windsor (1386) e Methuen (1703). Pelo meio, ficaram os pactos acordados pelas casas de Bragança e Stuart, aquando da Guerra de Restauração (1640-1668). À luz das relações luso-britânicas, viver-se-á o Bloqueio Continental (1806-1814). À sua sombra, o Mapa Cor-de-Rosa desencadeará a humilhação portuguesa do Ultimato Inglês (1890).

Todas as rosas têm espinhos. As da paz e as da guerra. El-rei D. Fernando I, o Formoso ou o Inconstante, enquadra-se bem neste conceito. Tanto assinava tratados de amizade como os rasgava de seguida. Manteve a palavra com Inglaterra, quebrou-a com Castela. Esta caráter bipolar é confirmado na sentença que dá alma ao cor-po da divisa Cur non untrunque, pedida emprestada a Santo Agos-tinho (Confissões: xii, 32). «Por que não ambas as coisas?». Ser brando com uns e duro com outros. Estar bem com Deus e com o Diabo. Por um qualquer motivo, lembrei-me do Brexit. Sair da Euro-pa e ficar na Europa. Ubiquidade britânica que o tempo esclarecerá.

13 de março de 2017

Queques & Marmelada

JOSEFA DE ÓBIDOS

«Natureza morta - um marmelo»

Palavras vão, palavras vêm... 

Pedi emprestado a um quadro atribuído a Josefa de Óbidos (c1634-1684) a imagem dum marmelo seiscentista, idêntico em tudo aos que então serviriam às religiosas do mosteiro de Odivelas para confeci-onar a mais reputada marmelada da doçaria conventual portuguesa. A fama alcançada no seu tempo chegou até aos nossos dias, pelo que terá a sua quota-parte de verdade assegurada.

É pouco provável que a infanta Catarina de Bragança (1638-1705) tenha levado consigo para a corte de Carlos II Stuart uma reserva desse fruto acabado de colher ou transformado em compota. Já terá bastado à nova rainha consorte da Inglaterra, Escócia e Irlanda (1662-1685) ter-se feito acompanhar do precioso chá de Ceilão com que inaugurou entre os britânicos a tradição do five o'clock tea.

O que parece ser uma certeza é que nas merendas reais haveria uma citrinada de laranja amarga e uns bolos em forma de coroa. A compota virara marmalade pelos súbditos britânicos nos tempos em que Henrique VIII recebera uns boiões de marmelada portuguesa. Palavra vai, palavra vem, a soberana lusitana converteria os cakes em queques. O equilíbrio vocabular ficava assim estabelecido.

QUEQUE

Um cake em forma de coroa...

7 de julho de 2015

The five o'clock tea ou chá das cinco

The World of Samuel Pepys
in Paper Dolls by David Claudon


RAINHA VEM, RAINHA VAI


Diz quem sabe que o Tratado de Aliança Anglo-Português, assinado em 1373 por Eduardo III de Inglaterra e D. Fernando de Portugal, com os seus 743 anos de existência, é o mais antigo do mundo. Como se tal não bastasse, foi renovado-formalizado por D. João I de Portugal e Ricardo II de Inglaterra, em 1386, e dá pelo nome de Tratado de Windsor. Desde então muito se tem dito sobre esta «perpétua amizade, sindicato [e] aliança». Fiquemo-nos pela troca de duas princesas em períodos de conflito armado aceso luso-castelhano, situados na passagem da dinastia de Borgonha para a de Avis (1383-1385) e na de Habsburgo para a de Bragança (1640). Fez-se através de dois casamentos reais muito em voga na altura e agora um pouco caídos em desuso.

D. Filipa de Lencastre (1360-1415) tornou-se rainha consorte de Portugal e Algarve em 1387, após o seu casamento no Porto com o rei D. João I de Avis. Trouxe consigo um modelo multicultural anglo-francês pouco comum no âmbito ibérico das monarquias hispânicas medievais. Foi nesse espírito de renovação de mentalidades que participou na educação dos filhos, a quem Camões designa de Ínclita Geração. O rei-filósofo D. Duarte, o infante-regente das sete-partidas D. Pedro, o infante-navegador D. Henrique, a duquesa de Borgonha D. Isabel, o condestável D. João e o infante-santo D. Fernando. À sua maneira, contribuiu decididamente para tornar o país que a recebera de braços abertos num dos mais prestigiados da Europa medieval a caminho da modernidade.

D. Catarina de Bragança (1638-1705) tornou-se rainha consorte de Inglaterra e Escócia em 1662, após o seu casamento em Portsmouth com o rei Carlos II Stuart. Levou consigo um dote de dois milhões de cruzados e as cidades de Tânger e Bombaim. Fez-se acompanhar ainda dum conjunto de práticas culturais lusitanas que se tornariam numa das mais conhecidas tradições britânicas, o five o'clock tea, o chá preparado em chávenas de porcelana acompanhado de bolos em forma de coroa que tomava pelas cinco da tarde. Aos cakes chamámos nós queques, à marmelada chamaram eles marmalade. Uma permuta de receitas que ainda hoje dão que falar, à margem dos tratados de amizade que, nos nossos dias, se fazem com outros ingredientes bem distintos.