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18 de abril de 2025

Uvada, um sabor agridoce da infância

Uvada da Estremadura

A seu tempo vêm as uvas e as maçãs maduras...

De repente, uma lufada inesperada de cheiros, sabores, texturas, ruídos de fundo e visões duma infância distante muito perdida surgiu-me no horizonte. Sinestesias concentradas num simples boião de uvada, encontrado por acaso no expositor duma mercearia de bairro transvertida num supermercado dos nossos dias. Peguei rapidamente num e trouxe-o para casa, não fosse alguém arrebatá-lo. O encanto duma era sumida para sempre prometia-me um encontro feliz com uma guloseima agridoce estremenha doutros tempos, espalhada generosamente  numa fatia de pão saloio ou num crepe bretão acabadinho de fazer num fim de semana.

No interior dum frasco de doce de uva, relembrei o processo de confeção do precioso maná da meninice, o tal manjar quotidiano de néctar e ambrosia dos helénicos deuses olímpicos. Primeiro era a vindima depois o pisar da uva no lagar da escola agrícola, onde o meu pai trabalhava e nós brincávamos. Com o mosto assim obtido e com a adição duns peros ali recolhidos, passava-se à preparação em lume brando dos ingredientes a que se juntaria algum açúcar q.b. No final, a compota assim obtida era guardada em tigelas de barro bem protegidas com uma folha de papel vegetal embebido em aguardente. Tudo muito artesanal e caseiro.

Cheguei a casa, esperei uns dias, fiz umas panquecas suculentas, espalhei uma colherada generosa de uvada enfrascada e o sonho desfez-se. Abruptamente. Todo o encanto que até então me habitava partiu sem demora para outras paragens. Não deixou saudades. Os sabores, cheiros, texturas, ruídos e visões de antanho mantêm-se guardados para sempre na memória. Guardados juntamente com todas as demais reminiscências sobreviventes do meu percurso pessoal de décadas pela vida. Estão ali alojadas ao lado dos picles, tomatada, conservas, marmelada e demais conservas preparadas ano a ano na estação devida. Inamovíveis.

31 de janeiro de 2025

Aventura na Escola Agrícola

«Beatus ille qui procul negotiis, | ut prisca gens mortalium | paterna rura bobus exercet suis, | solutus omni fæenore, | neque excitatur classico miles truci | neque horret iratum mare, | forumque vitat et superba civium | potentiorum limina.»
Horatius, Epodos, 2, 1 (30 aec)
«Carpe diem quam minimum credula postero.»
Horatius, Carmina, 1, 11.8 (23 aec)
«Sed fugit interea fugit irreparabile tempus.»
Vergilius, Georgicon, 3, 284 (30-37 aec)
Beatus ille...
Feliz aquele que desfruta a tranquilidade do campo sem se afastar demasiado do bulício da cidade. Horácio não diria melhor nos versos líricos cantados nos seus épodos juvenis. O bucolismo idealizado pela verve amena do poeta latino não permitia a associação então inconciliável do locus amœnus rural com o locus horrendus urbano. Contrariando as percetivas clássicas seguidas na passagem agitada da República Romana para a Imperial, posso-me gabar de ter tido o privilégio de ter o campo na cidade durante a totalidade dos meus tempos de menino e moço. Aproveitei ao máximo a estação agrária onde o meu pai trabalhava e eu brincava horas a fio com o meu irmão nos tempos livres depois das aulas.

Naquele espaço imenso de lazer da minha meninice, situado a meia dúzia de passos de casa, mesmo ali ao lado ao virar da esquina, não havia bois como no campo idílico horaciano. Nem cavalos, nem porcos, nem gado ovino e caprino de porte semelhante. A escola agrícola, como era conhecida, limitava-se a ter umas coelheiras bem fornecidas, uns galinheiros espalhados na paisagem e uma dúzia de peixes coloridos repartidos pelo lago do jardim e nos tanques de rega da quinta. Depois, havia também umas quantas parcelas de terreno cultivadas com uma vasta variedade de legumes, ladeadas com árvores de fruto da região e completado com uma pequena vinha com uvas de diversas castas.

Não guardo na memória nenhuma brincadeira especial tida nesse in illo tempore remoto. Lembro-me todavia de me terem contado uma aventura protagonizada por mim em meados dos anos 50. Deixei de ser visto em todo o recinto fechado do meu paraíso infantil. Procuraram-me por toda a parte, sobretudo nos reservatórios de água de rega extraída dum poço por um moinho de armação metálica. Nada. Lá deram comigo adormecido debaixo dum dos tomateiros ali plantados. Comera um desses frutos vermelhos e já tinha alguns mais de reserva ao meu lado. Não recordo se me terão dito qual o castigo que uma criança com três/quatro anos de idade terá tido. Quero crer que nenhuma.

O edénico El Dorado dos meus verdes anos já não existe. As antigas instalações da IX Região Agrícola mudaram de poiso. Deixaram os limites periféricos da cidade e instalaram-se de pedra e cal no campo. Terão criado um novo beatus ille erigido a uma distância considerável da sua anterior sede onde nunca pus os pés. Para trás ficaram os prazeres menineiros de quem nunca deixou de aproveitar o dia à maneira do carpe diem horaciano. Na altura não pensava muito no amanhã nem sentia real motivo para o fazer. O tempus fugit virgiliano tomou conta dos eventos sem pena nem remissão. Restam-nos as memórias. Sobretudo as boas, como a aventura pré-escolar dos tomateiros da extinta escola agrícola.

EPÍGRAFES
«Feliz é aquele que, longe dos negócios, | Como a antiga raça dos homens, | Ele passa o tempo trabalhando nos campos de seu pai com seus próprios bois, | livre de todas as dívidas, | e não acorda, como o soldado, ao ouvir a trombeta sangrenta da guerra, nem ele tem medo da ira do mar, | ficando longe do fórum e dos limiares arrogantes | de cidadãos poderosos.» [HorácioÉpodos, 2.2 (30 aec)]
«Aproveita o dia e confia o menos possível no amanhã.» [Horácio. Odes, 1, 11.8 (23 aec)]
«Mas o tempo foge e nunca mais regressará.» [Vergílio, Geórgicas, 3, 284 (30-37 aec)]

21 de agosto de 2023

As duas rodas da volta

Henri de Toulouse-Lautrec

The Simpson Chain - La Chaîne Simpson - 1896

Terminou pouco a 84.ª edição da Volta a Portugal em Bicicleta. Nos 1600,5kms da prova, disputados em 11 dias e 10 etapas entre Viseu e Viana do Castelo, nenhum deles aflorou o perímetro urbano de Faro. Aliás, não me lembro de alguma vez ter passado por esta capital de província, região, distrito e concelho desde que aqui vivo quase 50 anos. Distração minha, por certo. Mesmo a Volta ao Algarve passou sempre despercebida ao meu olhar pouco atento a essa competição ciclística com direito a alguma atenção dos canais televisivos de sinal aberto. O tempo de férias, de praia e de calor desculparão, em parte ou na totalidade, essa desatenção ciclopédica.

As poucas vezes que vi passar a Volta andaria ainda na Primária, nos derradeiros anos da década de 50 ou nos primeiros da de 60. Não sei precisar. Fazia-o empoleirado no muro alto da antiga Escola Agrícola que dava para a EN1. Os ciclistas vinham algures dum qualquer ponto de partida e dirigiam-se não sei para onde. Seria no sentido Lisboa-Porto sem chegar a tocar as duas cidades numa única tirada. Corrida efetuada por desportistas cujos nomes a memória não guardou registo. Nem dos vencedores, nem dos percursos das etapas, nem das equipas, nem dos países envolvidos, nem dos camisolas-amarelas nem dos varridos pelos carros-vassoura.

Na minha meninice estremenha, os dias da prova animavam o país. Hoje mal se fazem notar. Outros valores mais altos se foram levantando. A pioneira RTP passou a correr a contrarrelógio com as privadas que entretanto chegaram e as transmitidas por TV-Cabo. As vitórias diárias aos sprints televisivos obedecem agora a outros interesses mais rentáveis em termos publicitários. Das voltas de agora pouco sei ou nada e das doutros tempos pouco me ficou na memória. Só me recordo dos cartuchos de jornal repletos de amoras pretas e brancas colhidas pelo meu pai nas amoreiras do demolido miradouro por onde via passar as duas rodas da volta. 

14 de março de 2023

A bicicleta

Mart Aire - Bicicleta

MEMÓRIAS ANTIGAS & RECENTES  
O Menino Jesus da minha tenra idade ofereceu-me um triciclo de madeira e metal. Usei-o anos a fio enquanto as pernas me deixaram. Pedalei sem parar no largo do chafariz d’el-Rei, pegado à minha residência de infância, e nos trilhos da Escola Agrícola, local de labuta do pai e de recreio dos filhos. Troquei-o em miúdo pelas bicicletas com rodinhas, alugadas à hora no parque da Rainha D. Leonor, e, em graúdo, por uma de duas rodas lá de casa. A pouco e pouco deixei-a parqueada nos recantos mais secretos da memória.

Estive uma longa temporada sem pegar numa bicicleta. Atravessou todo o período escolar e parte do laboral. Aceitei o desafio dum grupo de colegas e peguei muito timidamente numa. Recuperei a destreza perdida nos trilhos e veredas da Ria Formosa e na malha urbano-rural da cidade da Santa Maria Ibn Harun. Tornei-me mais afoito durante as férias de verão gozadas além-fronteiras. Fi-lo acirradamente  nos rails en kanalen flamengos, nas pistes cyclables bretãs do canal d'Ile et Rance e nos havkyster bálticos do Øresund.

O desgaste dos dias e das noites, as maleitas duns e doutros e os confinamentos da pandemia puseram um ponto final no ciclismo amador dos tempos livres. A bicicleta ressentiu-se da paragem forçada e prolongada. Enferrujou. Vive agora livre de cuidados num local tranquilo rodeado de laranjeiras a aguardar uma recuperação total ou uma viagem direta para ferro-velho. Jubilação merecida para quem deu tantas voltas por onde a levaram sem nunca ter tido um destino certo no horizonte. Paz à sua alma. Descanse em paz.

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17 de outubro de 2014

In illo tempore

 Medalhão em cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro
(Coleção da Sociedade Martins Sarmento)

Pedi emprestado ao Trindade Coelho o título duma das obras mais paradigmáticas gizadas pela sua verve satírico-literária, In illo tempore: estudantes, lentes e futricas (1901). Com essa estranha frase latina no título engastada, situava-se o autor naquele tempo glorioso em que pertencera à velha academia coimbrã, erguida na mais tradicional universidade portuguesa e a única a funcionar nessa altura no reino. Dispenso-me de resumir as memórias boémias aí evocadas. Os meus propósitos são outros. Estão ligados a um meio estudantil bem mais restrito e recente. O estabelecimento do ensino secundário que frequentei nas Caldas da Rainha nessa época pretérita de 1964, já lá vai meio século.

Fiz ato de presença na inauguração da Escola Nova. Pouco recordo dos festejos então efetuados. Sei que estiveram nomes sonantes do Estado Novo. Creio que o velho almirante e o velho cardeal. Cor-taram-se fitas e deram-se vivas. Meninas de um lado, meninos do outro. Elas de branco, eles de pardo. A minha visão algo daltónica confunde um pouco as cores. Imagino que predominasse o cinzento muito em moda na altura. Os senhores professores estariam de fato completo, gravata e sapatos engraxados. As senhoras professoras estariam de saia-casaco, mala de pôr no braço e sapatos de salto alto. Tenho uma vaga ideia que havia uma placa comemorativa que os vindouros terão preservado para memória futura.

A década que antecedeu a abertura solene do edifício está mais presente na minha lembrança de menino e moço. O espaço ocupado pelo Escola Nova pertencia então à chamada Escola Agrícola. Local privilegiado da minha infância. A sorte de ser filho dum funcionário dessa instituição pública de formação prática de trabalhadores rurais abriu-me as portas para um mundo mágico do campo na cidade. Uma arcádia paradisíaca ao virar da esquina. A construção duma complexa estrutura pedagógica feita de cimento armado e sem arborização à vista alterou-me por completo o modo pessoal de olhar a vida. A cidade recuperara o espaço que tinha partilhado com o campo.

A Escola Industrial e Comercial | Escola Secundária Rafael Bordalo Pinheiro não é a minha alma mater. Se tivesse de eleger uma, voltava-me para a escola primária que frequentei no bairro da ponte. Foi aí que me iniciei nas artes de ler, escrever e contar. A formação técnica que me foi ministrada ao longo da década de 60 foi ficando para trás. Os livros de contas do deve e haver ficaram arrumados na prateleira dos universos esquecidos. Outros livros e escritas surgiram no horizonte. Os verdes anos foram-se e os maduros chegaram. Vieram acompanhados duma paleta muito colorida com a qual passei a pintar o mundo. Algumas dessas tonalidades provêm desses tempos. Outras nem por isso.