Mostrar mensagens com a etiqueta Faits-divers. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Faits-divers. Mostrar todas as mensagens

2 de abril de 2026

Mente sã em corpo são

Corrida de atletas gregos em Olímpia

[Vaso grego, 431-434 - gettyimages]

Orandum est ut sit mens sana in corpore sano.
Fortem posce animum mortis terrore carentem,
qui spatium vitæ extremum inter munera ponat
naturæ, qui ferre queat quoscumque labores,
nesciat irasci, cupiat nihil et potiores
Herculis ærumnas credat saevosque labores
et venere et cenis et pluma Sardanapalli. 
Monstro quod ipse tibi possis dare; semita certe 
tranquillæ per virtutem patet unica vitæ.
Juvenal, Sátiras ( Séc. II EC:  IV.10.356-364) 

Neste primeiro septenário de reformado, aposentado ou jubilado, tenho praticado a mente sã em corpo são a caminhar, a yogar, a cantar, a lecionar e a blogar. Faço-o regularmente todos os dias da semana de modo alternado, com breves intervalos nos meses mais quentes do estio meridional.

O intervalo este ano foi mais prolongado no dois primeiros itens da série. O município laranja da urbe findou as suas funções camarárias fechando as portas a todas as atividades desportivas inseridas no programa sénior, tendo sido retomadas nove meses escoados com a nova equipa camarária rosa.

Voltei ao equilíbrio lunar e solar das asanas, pranayamas, pratyharas e dharanas do Ioga, depois de ter passado em passo de corrida pelas práticas sem registo sânscrito do Pilatos. Hábitos antigos não se mudam do dia para a noite. Juntei as mãos e reavivei a ancestral saudação ritual hindu: Namastê!

As passeatas, marchas e corridas pelos trilhos, veredas e carreiros algarvios, por vales, campos e montes da região, a vencer riachos rurais, asfalto urbano ou terra batida, a andar é que se faz caminho. Sapatilhas nos pés, bastões nas mãos e a meta bem à vista no horizonte ou ao virar da esquina.

Leciono uma manhã por semana. Arejo os livros da biblioteca cá de casa, para lhes dar vida enquanto os abro, leio e comento. Garanto que os neurónios ainda continuam despertos e a funcionar em termos académicos, embora submetidos ao regime pro bono e dirigidos a um pública sénior, tal como eu.

Quem canta seus males espanta. Se for num coral ameniza a vida, se for em dois ainda melhorDepois vêm os concertos, participações, encontros dentro fora das divisas do quotidiano habitual. Plateias, anfiteatros, auditórios abrem-nos as portas e os acordes entoados a várias vozes ecoam em liberdade.

Palavra a palavra, frase a frase, ideia a ideia, as histórias vão surgindo dia a dia, mês a mês, ano a ano neste blogue composto em nome dum herói imaginário nado num romance medieval de cavalaria. E assim, o exercício semanal do corpo são em mente sã lá vai surgindo no fluir dos dias, dos meses e dos anos. 

EPÍGFRAFE 
Deve-se pedir em oração que a mente seja sã num corpo são. | Peça uma alma corajosa que careça do temor da morte, | que ponha a longevidade em último lugar entre as bênçãos | da natureza, que suporte qualquer tipo de labores, | que desconheça a ira, nada cobice e creia mais | nos labores selvagens de Hércules do que | nas satisfações, nos banquetes e camas de plumas de Sardanápalo. | Revelarei aquilo que podes dar a ti próprio; | certamente, o único caminho de uma vida tranquila passa pela virtude.
Juvenal, Sátiras ( Séc. II EC:  IV.10.356-364) 

12 de março de 2025

Caminhar, pedalar, nadar & yogar

Bastard Helene, Randonnée (2020)

Mens sana in corpore sano...

Nunca fui praticante de grandes desportos. Em miúdo andava de triciclo no largo do chafariz d’el-rei e de bicicleta alugada no parque da rainha das caldas. Nada de mais. Jogar à bola com intuito competitivo nunca fez parte dos meus planos traçados a curto ou a longo prazo. Aliás, a bronquite crónica que me começou a fazer companhia desde tenra idade, sempre me inibiu de grandes folias físicas, como correr, saltar, pular e outras atividades afins.

Abandonado o recreio da primária e entrado já no secundário, deixei gradualmente de participar nas aulas normais de educação física e acabei por integrar um grupo restrito de ginástica respiratória, que, depois, mantive noutras paragens fora das instalações escolares. Completava-as sem dificuldade de maior e com algum prazer pelos amplos percursos palmilhados na malha urbana da grande cidade, para onde me mudara transitoriamente.

Em tempos de férias que vão, lancei-me em atividades físicas de maior fôlego com algum cheiro a desporto. Atirei-me às banhadas nos embalses estremenhos do Guadiana espanhol, pus horas a fio o pé no pedal para bicicletar ao longo dos canais flamengos do Limburgo belga e holandês, pratiquei dia após dia randonnées pédestres nas routes bretãs da Fôret de Brocéliande e walking hikings e nos rails irlandeses do Killarney National Park no Kerry.

Depois de ter ensaiado um pouco de montanhismo nas serras de Sintra e Arrábida, investi q.b. no Massif Central e Alpes franceses, lancei-me a aventuras mais amenas nas serranias algarvias de Monchique e do Caldeirão, em escaladas antigas agora substituídas pelas passeatas mais planas pelos trilhos da quinta do Ludo ou da Ria Formosa, pelos sapais de Castro Marim, nas arribas da Ponta de Sagres e nos areais das ilhas-barreira. 

Nos dias e noites que agora fluem, o sonho antigo de fazer o Caminho de Santiago continua de pé, mas a energia para a efetuar é que se dissipou. Deixadas de lado as bicicletadas pela cintura citadina de Faro e as braçadas nas piscinas municipais, restam-me as marchas de fim de domingo e as sessões bissemanais de yoga. Movimentos tranquilos de quem não tem pressa de chegar e posturas milenares vindas das míticas Índias Orientais. Namastê!     

13 de maio de 2024

Ilustre desconhecido com nome de rua

Arte vintage de soldados de brinquedo

Passei com caráter permanente os primeiros dezoito anos da minha vida na rua Capitão Filipe de Sousa, ilustre desconhecido com nome inscrito na toponímia citadina. Nessas duas décadas incompletas, nunca me questionei quem seria esse oficial. Hoje em dia continuo na mesma. Por mais que o procure no Dr. Google, a situação persiste imutável, sem satisfazer a minha curiosidade tardia. Sem dúvida, alguém importante terá sido, para nomear artéria urbana que à data fazia a ligação Lisboa–Porto.

A rua da minha infância e adolescência foi palco de muitos préstitos solenes da mais diversa ordem. Por ela peregrinavam em datas precisas os fiéis devotos das aparições de Fátima, por ela passavam em alegre parada circense as estrelas maiores e menores do Arriola Paramés, por ela desfilavam em vistoso cortejo cavaleiros, toureiros, peões de brega e forcados das corridas à antiga portuguesa, por ela marchavam os recrutas de RI5 rumo à carreira de tiro situada nas aforas da cidade termal da rainha.

À janela da casa dos meus verdes anos, recordo os romeiros dum santuário mariano estremenho, revejo os elefantes, lantejoulas, palhaços, faz-tudos e festões do maior espetáculo do mundo, relembro os coches de gala a caminho da praça de touros, revivo os passos ritmados dos futuros combatentes das guerras africanas. Na rua com nome dum ilustre desconhecido rememoro os trajetos de aparato que por ali se fizeram só desconheço os percursos de vida do militar que lhe deu nome.

A singularidade de saber o nome e o posto dum ilustre desconhecido remete-me para os efeitos perversos da efemeridade da fama. Igualam a glória do momento de tantos famosos virtuais fabricados pelas redes sociais a usurparem o espaço devido aos notáveis reais atirados para um nimbo forçado. Vivem no reino do império minuto, tão depressa erguido como caído. Estrelas-cadentes fugazes duma noite serena de verão, meteoritos celestiais incendiados em contacto vertiginoso com a atmosfera terrestre.

ADENDA
Afinal as informações sobre o ilustre desconhecido com nome de rua andavam por aí perdidas à espera que alguém as encontrasse e revelasse. Esse alguém é um velho colega/amigo de longa data com residência numa acolhedora Casa da Ginja, que merece a pena visitar frequentemente em formado virtual dum blogue concebido como uma gaveta de memórias.

CABO DA VILA
O Rol dos Confessados, de 1656, fala-se no Cabo da Vila, com 20 fogos e, em 1792, referem a rua que vai para o cabo da Vila, no foro imposto em umas casas e que paga Matias da Silva, desta vila, á confraria do Rosário.
No «Livro do lançamento das décimas do ano económico de 1844 a 1845» é já mencionada a como rua. 
Em 20 de Novembro de 1857 é intimado Ricardo da Silva Ribas a abrir a vala que recebe as águas do agueiro da Júlia, porque deterioram a rua do Cabo da Vila, e em 2 de Dezembro a Câmara deu parte ao engenheiro Mousinho (Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque?) da obstrução do Pontão do Cabo da Vila,obrigando as águas a correrem por esta rua e pela do Jardim, danificando-as.
Em 1889 ainda assim é denominada. Na sessão da Câmara compareceu o proprietário Caetano Policarpo, oferecendo-se para calçar o agueiro público [14] que passa junto da sua casa, na rua do Cabo da Vila, «pondo-se assim em estado de asseio a não prejudicar a saúde pública.
A vereação, em sessão de 13 de Maio de 1890, a requerimento de 33 cidadãos, deliberou «que fosse denominada a rua do Cabo da Vila, rua Capitão Felipe de Sousa, perpetuando o nome do valente capitão do exército do Ultramar, Caetano Felipe de Sousa, natural desta vila, que faleceu em acção na Guiné, defendendo, ali os direitos da Nação Portuguesa». [15] 
Rui Forsado, As ruas das Caldas (achegas para uma toponímia caldense).
Caldas da Rainha: Tipografia da Gazeta das Caldas, 1968 (pp. 14-15)

8 de novembro de 2023

Rostos & Nomes

Retratos de Fayoum

O mal e o bem à cara vem...
Nas fotos de grupo da escola primária, reconheço-me no rosto que então tinha, recordo os rostos que entretanto fui tendo, revejo-me no rosto que agora tenho. Esqueci-me dos nomes dos meninos que comigo pousaram para memória futura. Sumiram-se completamente na sombra dos dias, anos e décadas que nos foram separando. Duvido identificar o rosto e nome de qualquer um deles que por mero acaso se venham a cruzar comigo na rua.

O mesmo se diga das fotos que até mim foram chegando dos tempos passados nos bancos da escola antiga do ciclo e dita nova do secundário. Os nomes registados por baixo de cada rosto dos jovens colegas com quem convivi diariamente nada me dizem. Perdi-lhes o rasto por largas temporadas e os reencontros fortuitos ocorridos muito depois mais não são do que ecos distantes duma época remota deixada sem horizonte visível.

Olho-me ao espelho e identifico-me no que fui e no que sou. Continuo a saber de quem se trata. Do mal o menos. Reconheço os rostos de quem vejo todos os dias. Com quem falo ou me limito a olhar. Vejo e sou visto. Reconhecem-me o rosto e até me acertam no nome. Ensaio uma resposta idêntica e falho cada vez mais no intento. Apagam-se-me os nomes de muitos deles e chego a duvidar se alguma vez os soube e soletrei. Do mal a pior.

Se, tal como reza o refrão, o mal e o bem ao rosto/cara vem, a grande esperança é que esta continue a refletir a imagem daquilo que fomos, somos e seremos, sempre com um nome abonável à arreata. As raias exatas da memória são difíceis de traçar e as perdas da faculdade de lembrar são seletivas e cruéis. Que a variabilidade dos traços do rosto se vão dando dia após dia, mas que sem falhas permaneça inalterado o nome preciso que lhe for dado.

Rostos sem Nome

12 de setembro de 2023

Bordões, narizes-de-cera, sentenças de almanaque, rifões e provérbios avulsos

Magritte – Le pépé à la canne (1937)
bordão
Palavra ou locução esvaziada de sentido e sem função morfossintática, que se usa ou repete no discurso, geralmente de forma inconsciente ou automática, por vezes como forma de apoio em momentos de hesitação, esquecimento ou reformulação do pensamento.
TRANSFIGURAÇÕES
Diga-me cá, os outros sinais, também levam nomes latinos, como deleatur, Se os levam, ou levaram, não sei, não estou habilitado, talvez fossem tão difíceis de pronunciar que se perderam, Na noite dos tempos, desculpar-me-á se o contradigo, mas eu não empregaria a frase, Calculo que por ser lugar-comum, Nanja por isso, os lugares-comuns, as frases feitas, os bordões, os narizes-de-cera, as sentenças de almanaque, os rifões e provérbios, tudo pode aparecer como novidade, a questão está em saber manejar adequadamente as palavras que esteja antes e depois, Então por que não diria você noite dos tempos, Porque os tempos deixaram de ser noite de mesmos quando as pessoas co-meçaram a escrever, ou a emendar, torno a dizer, que é obra doutro requinte e outra transfiguração...
José Saramago, História do cerco de Lisboa (Lx: Caminho, 1989: 13)

BENGALAS, BENGALÕES & CAJADOS

Saramago centra-se numa única palavra de raiz latina e enquadra-a na categoria dos lugares-comuns, das frases-feitas, dos bordões, dos narizes-de-cera, das sentenças de almanaque, dos rifões e dos provérbios. Insere-a na órbita restrita da revisão tipográfica dum livro de história contado segundo as regras teóricas da ucronia. Gosto de imaginar os textos magníficos a que conseguiria dar corpo com as bengalas, bengalões e cajados mediáticos vigentes hoje em diaSó de pensá-lo já sinto um arrepio ao lembrar-me da sua partida há quase três décadas e meia. Fiquem então e agora o efetivamente e o por um lado e por outro lado como uma mera amostragem dos atuais clichés da moda, sendo que muitos outros,  estáexistem a dar com um pau e ao virar da esquina.

6 de julho de 2023

Polegar para cima à beira da estrada

Philipp Kazak, Autostop (2018)

Филипп Казак / Artmajeur

A boleia em tempo de férias...
Nos anos 60, esticava o dedo polegar para cima à beira da estrada e, regra geral, os carros paravam ao pedido simbólico de boleia. Nos dias de hoje, não sei se o efeito internacional de autostop seria igual. Duvido. Pessoalmente deixei de executar esse ritual há muito tempo e também não me vejo a satisfazer o pedido a quem eventualmente mo possa vir a solicitar.

Em tempo de férias grandes, a boleia era solicitada para poupar uns trocados e chegar rapidamente à praia, a Foz do Arelho, junto ao chafariz da primeira Plêiade do Magnânimo. Que me lembre, só fiz a pé os 10km do percurso uma única vez e já no regresso a casa. Felizmente para as minhas magras economias da época, o gesto do dedo levantado foi sempre eficaz.

Nos tempos que correm, a autostopagem deixou de fazer parte do meu dia a dia há muito estabelecido. A boleiagem vai-me surgindo mesmo assim de quando em vez e sem recorrer a nenhum dos cinco dedos da mão. A companhia dos colegas e amigos é sempre bem-vinda, muito embora me vá impedindo de fazer uma ou outra caminhada a pé exigida pelo bom senso.   

Alamy - EMBY3B

11 de maio de 2023

Coroas de oliveira, pinheiro, louro e aipo e de veludo, arminho, ouro e pedrarias

Emblem of the Coronation of King Charles III

A Terone de Acragante, vencedor de quadriga
Hinos, soberanos da lira! A que deus, a que herói, a que homem cantaremos? Sem dúvida Pisa é de Zeus; a Olimpíada, como o mais precioso dos despojos de guerra, institui-o Heracles; e é a Terone a quem devemos celebrar pela sua quadriga vitoriosa, homem justo pela sua observância da hospitalidade, baluarte de Acragante, salvaguarda da cidade, flor de anciãos ilustres...
Píndaro, Epicínios, «Olímpica II», est. 1, 1-7 (c. Séc. V AEC)

Nos jogos pan-helénicos, o melhor recebia uma coroa simbólica para celebrar a vitória alcançada sobre os seus adversários. Eram feitas de ramos de oliveira nos Olímpicos, de pinheiro nos Ístmicos, de louro nos Píticos e de aipo nos Nemeus, sendo efetuados em datas cíclicas e intercaladas, para assim honrar Pélops em Olímpia, Poseidon em Corinto, Apolo em Delfos e Zeus em Nemeia. Estavam configuradas como festas religiosas ancestrais associadas à fertilidade da terra e aos cultos funerários.

Saltando da Antiguidade para a Idade Média e desta para a Moderna, apetece perguntar que feito heroico digno de nota terão feito os reis e rainhas dos nossos dias para merecerem uma coroa de ouro maciço e pedrarias, com veludos e arminhos mil, para além de terem sido destinados desde o berço para usarem umaMudam-se os tempos, mudam-se as vontades, já lá dizia Camões, também ele laureado, mas esse, pelo menos, deixou-nos obra feita para memória presente e futura.

O circo mediático global voltou a ostentar com honra e glória os tesouros reais e imperiais que a nobre Albione acumulou ao longo dos séculos de domínio soberano absoluto sobre os povos da British Commonwealth of Nations. Só a Saint Edwards Crown possui 345 águas-vivas, 37 topázios, 27 turmalinas, 12 rubis, 7 ametistas, 6 sa-firas, 2 jargões, 1 granada, 1 espinélio, e 1 carbúnculo, num total de 444 pedras preciosas e semipreciosas. God Save de King, para man-ter tal fardo à sua guarda.

Mesmo assim, os motivos florais não foram esquecidos no emblema oficial da coroação de Carlos III de Windsor, criado por Sir Jony Ive. Ali figura a flora das quatro nações do ainda Reino Unido: a rosa de Inglaterra, o cardo da Escócia, o narciso do País de Gales e o trevo da Irlanda do Norte. Uma simples exibição simbólica estampada em papel mas a remeter para a ostentação monárquica das regalia usadas na cerimónia. Coisas de reis e rainhas de antanho vividas nos nossos dias. Até quando...

COROAS DOS VENCEDORES DOS JOGOS PAN-HELÉNICOS
oliveira: olímpicas - pinheiro: ístmicas - loureiro: píticas - aipo - nemeias

10 de novembro de 2022

Oito ou Oitenta

REPOLHO & COVE-DE-BRUXELAS

O reinado mais longo e o governo mais curto da história da monarquia britânica acabam de ser contados neste verão-inverno de 2022. A rainha Isabel II desempenhou a soberania no Reino Unido durante 70 anos e 214 dias e a primeira-ministra Liz Truss somente 49 dias. Curiosas contrastes exemplificativos dum 8 ou 80 proverbial. Dizem os mass media encartados da aldeia global ter sido a mais longeva representante da Casa dos Windsor a cabeça coroada que durante mais tempo empunhou o cetro do poder a nível mundial. A mesma sorte não terá tido Lady Jane Grey, a sua antecessora da Casa dos Tudor, que só terá reinado de 10 a 19 de julho de 1553, ficando por isso conhecida como a Rainha dos Nove Dias.

Dizem os manuais especializados em datas e as listas cronológicas publicadas na Net ter ultrapassado os 72 anos e 110 dias que Luís XIV brilhou como Rei-Sol absoluto em Versailles e nos domínios da França e Navarra. O desaparecimento prematuro dos antecessores e a subida temporã ao trono está na origem destes casos extremos de chefia dum estado, depois concretizado com um extenso percurso de vida. Dom Sebastião de Portugal e Algarves poderia ter tido um destino semelhante, se os sonhos megalómanos de grandeza o não tivessem conduzido a Alcácer-Quibir onde morreu aos 24 anos de idade. Deteve mesmo assim os destinos dos reinos, senhorios e domínios herdados do avô 21 anos e 54 dias.

Filho de rei, rei será. Isto se for o primogénito ou sobreviver aos irmãos mais velhos. Dom Afonso Henriques nasceu infante e tomou a seu cargo a chefia do Condado Portucalense como príncipe entre as batalhas de São Mamede (1128) e de Ourique (1139). O facto de ser filho dum mero conde não lhe deu acesso imediato ao título de Rei. Teve de o conquistar pela força das armas, direito reconhecido pelo suserano leonês em Zamora (1143) e pelo Santa Sé na bula papal Manifestis Probatum (1179). Um longo percurso que permitiu ao primeiro soberano Casa de Borgonha tomar as rédeas do poder por 73 anos, 1 mês e 4 dias. Um record absoluto que os meios de comunicação social atuais calaram por completo.

Dom Carlos de Bragança reinou 18 anos e 105 dias e mais reinaria não fora o regicídio do primeiro de fevereiro de 1908. Ao que parece, Dom Luís Filipe ter-lhe-á sobrevivido 20 minutos. Rei morto, rei posto. O Príncipe Real não consta em nenhuma lista como Rei de Portugal. Faltou-lhe o ato da aclamação solene na Assembleia de Cortes, como o irmão acabaria por ter 3 meses e 5 dias mais tarde. Uma eternidade. Um tudo ou nada, em suma. Isso não impediu que nesses escassos minutos que sobreviveu ao pai não tivesse aos seus ombros o pesado fardo dos destinos do Reino. Histórias que os anais monárquicos colecionam nestas grandezas que vão dum enorme repolho a uma mera couve-de-bruxelas.

23 de fevereiro de 2021

Abelhas, vespas & companhia

JOANA VIEGAS
Palácio de Seteais
(2014)

Ferroadas voadoras...

1. História de mel amargo
Andou por aí à solta um grupo tresmalhado de abelhas, vespas ou primas próximas dumas e doutras e ferroou em vários locais uma vizinha nossa, que teve de recorrer ao serviço hospitalar. À parte dos inchaços e vermelhões acostumados em casos que tais, o fait divers passou ao rol daqueles episódios caricatos que mais tarde dá vontade de rir a contar. Lembro-me de algumas delas pessoais e ter-me-ei esquecido de algumas mais sem direito a esta historieta de ferroadas voadoras. 

2. História do chafariz d'el-Rei
Em miúdo e graúdo sofri alguns desses ataques aéreos, mas tive sempre tratamento caseiro, rápido e eficiente. No largo das brincadeiras junto ao chafariz d'el-Rei, nas bancadas da praça da fruta, um ou outra que entrou pelo quintal dentro. O segredo então era deixá-las esvoaçar dum lado para o outro sem as incomodar. O pior é quando as perturbamos sem as ter visto. Fui ferroado várias vezes e pronto. Nas mãos, na cara, nas pernas. Sobrevivi sempre para recordar como foi.

3. História do vespeiro da Lourinhã
E houve aquela vez que em estava a brincar com as molas de roupa em casa da minha avó. Estava de calções e sentado no chão a apanhar ar junto à janela entreaberta. Subitamente senti uma dor lancinante nas partes pudendas. Tinha sido uma vespa que se escapara dum candeeiro público colocado naquele primeiro andar. Passou-me com o toque duma faca fria na zona afetada. Adormeci de seguida e acordei curado. Remédio santo sem sequelas a apoquentar-me a memória.

4. História do piquenique de Seteais
O mais recente episódio ocorreu ainda em meados dos anos 70 na serra de Sintra, num piquenique de colegas nos jardins do Palácio de Seteais. Depois de estendida a toalha e disposta a merenda, sentei-me em cima dum vespeiro camuflado na relva viçosa da vasta pradaria. Aos sete ais da lenda juntaram-se os ais adicionais das mordidas. Não me recordo como mitiguei então a dor e o inchaço, mas decerto não foi com a lâmina duma faca de cozinha nem com a ajuda da avó...    

🐝🐝🐝🐝🐝🐝🐝🐝🐝