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11 de novembro de 2023

O São Martinho de Gil Vicente

Giorgi Vasari, Musicisti (1545)

A espada e a capa de S. Martinho no dia que o celebra... 

DIDASCÁLIA
O auto que adiante se segue foi representado à mui caridosa e devota senhora a rainha Dona Leonor na igreja das Caldas, na procissão de Corpus Christi, sobre a caridade que o bem-aventurado São Martinho fez ao pobre quando partiu a capa.
Vem São Martinho cavaleiro com três pajens, e diz o 

 

Pobre
Devoto señor, real caballero,

volved vuestros ojos a tanta pobreza,

que Dios os prospere vuestra gentileza:

dadme limosna, que de hambre me muero.

Martinho

Hermano ahora no traigo dinero:

vosotros, traéis que demos, por Dios?

Pajes

No ciertamente.

Martinho

       Entrambos a dos

no traéis que demos a este romero?

Pobre

No hay dolor, que en mí no lo sienta:

habed de mis males señor compasión.

Martinho

Quién ahora tuviese, daquesa pasión

la parte que tienes que más t'atormenta!

Pobre

Guárdeos Dios de tan grande afrenta;

Dios lo prospere con mucha salud.

dadme limosna, por vuestra vertud,

que mi gran pobreza no hay quien la sienta.

 

Martinho

No sé qué te dé, de dolor de ti,

ni puedo a tus males ponerte remedio.

Partamos aquesta mi capa, por medio;

pues otra limosna no traigo aquí:

Ruégote hermano, que ruegues por mí.

Pues sufres dolores nesta triste vida,

tu ánima en gloria será recebida

con dulces cantares, diciendo así:

Enquanto São Martinho com sua espada parte a capa, cantam mui devotamente uma prosa:

Laus et honor tibi sit rex Christe redemptor.


11 de novembro de 2015

Castanhas e vinho do verão de São Martinho

José Malhoa, Festejando o São Martinho (1907)
[Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado]
     No dia de São Martinho, come-se castanhas e bebe-se vinho...
Provérbio popular
Corria o ano de 1504, quando Gil Vicente representou para a rainha D. Leonor de Lencastre o Auto de São Martinho. Tudo se pas-sou durante as festividades do Corpus Christi, provavelmente antes da procissão ter saído da igreja de Nossa Senhora do Pópulo, anexa ao hospital termal que a soberana fundara nas Caldas. A história sobejamente conhecida de todos foi contada em poucas palavras, porque, como confessa o dramaturgo na didascália final, a obra de devoção católica fora pedida muito tarde. Em onze oitavas decas-silábicas, repartidas por duas cenas, o Pobre lamenta-se da sua sorte de indigente e solicita a Martinho esmola, que reparte com o pedinte metade da sua capa. Tudo isto em castelhano, a língua de corte dos Avis-Beja durante pelo menos três quartos de século.

A lenda/milagre terá ocorrido em meados de novembro, altura em que os derradeiros calores estivais começam a ser rendidos pelos primeiros frios outonais. Meia estação conhecida por Verão de São Martinho. Para celebrar essa mudança gradual de temperaturas, costuma celebrar-se o magusto com castanhas assadas regadas com vinho novo ou água-. José Malhoa representou uma dessas festanças pagãs em honra de Dioniso-Baco, numa tela pintada a óleo em 1907. A popularidade que granjeou na época manteve-se intacta até aos nossos dias. Os excessos realistas documentados no quadro levaram a ser conhecido alternativamente como Os bêbados. Título adequado para descrever com uma imagem aquilo que as tais mil palavras seriam incapazes de traduzir cabalmente.

23 de setembro de 2014

Alabardas, espingardas & casas pardas

Gil Vicente, Exortação da guerra. Lisboa: Edições Vercial, 2010
Oh, deixai de edificar | tantas câmaras dobradas, | mui pintadas e douradas, | que é gastar sem prestar! | Alabardas, alabardas! | Espingardas, espingardas! | Não queirais ser genoeses, | senão muito portugueses | e morar em casas pardas.
Gil Vicente, Exortação da guerra (1513: III, clix, 404-412)
A dar crédito nas didascálias preparadas por Luís Vicente na Compilaçam de todalas obras de Gil Vicente (1562), a tragicomédia Exortação da guerra teria sido representada ao mui alto e nobre rei D. Manuel I de Portugal, na cidade de Lisboa, por ocasião da partida para Azamor do ilustre e mui magnífico senhor D. Jaime I, duque de Bragança e Guimarães, corria então a era de 1514. Informação preciosa que nos permitiria celebrar, com toda a pompa e cerimónia exigidas, uma efeméride com meio milénio de existência. A história, todavia, apressa-se a afirmar que o embarque para a tomada de mais uma praça do reino do Algarve de além-mar em África se realizou a 15 de agosto de 1513, tendo a batalha sido travada a 28 e 29 seguintes e a entrada vitoriosa do conquistador ocorrido no primeiro dia do mês de setembro. Pequena incorreção que o filho do dramaturgo terá cometido à distância dos anos e que as edições modernas da obra têm vindo a retificar, sem dar grandes explicações sobre o facto.

Maria Velho da Costa deixa de parte o argumento da peça quinhentista e apropria-se duma das suas estâncias mais conhecidas para dar o título a um romance, as Casas pardas (1977). Os nove versos selecionados são ainda transcritos na íntegra em forma de epígrafe inicial na ficção, mas identifica-os como tendo sido pronunciados por uma qualquer personagem vicentina do Auto da Lusitânia (1532). O criador do teatro português volta a ser vítima dum trato de polé descarado. Aquele que transforma um incitamento à guerra patriótica contra os mouros numa farsa palaciana composta para celebrar o nascimento do príncipe D. Manuel, malogrado herdeiro de D. João III de Portugal e de D. Catarina de Áustria. Para a compreensão do texto mais recente, pouca importância têm as coordenadas exatas da fonte revelada. As guerras são outras. Fala-nos dos últimos momentos de vida do império fundado pelos soberanos da Casa de Avis e em queda livre nos tempos ditatoriais do apregoado Estado Novo. Os claros-escuros de luminosidade ondulante fundem-se num cinzento absoluto para descrever o país dos brandos costumes, o tal reino cadaveroso de paz podre no terrunho natal e de pelejas perdidas em terra alheia.

José Saramago também se deixa contaminar pela força das armas documentadas na estância vicentina em apreço, para dar nome a um outro romance. Inspira-se para tal nos versos centrais da mesma e envereda por um compósito e sugestivo Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas. Compôs uma escassa vintena de páginas, tomou notas sobre a trama a desenvolver e um dia deixou de escrever e não falou mais no assunto. Terá legado à imaginação dos leitores o acabamento da história. Quem sabe. As últimas palavras manuscritas do escritor já foram transformadas em forma de letra impressa. Dizem os mass media nacionais que a edição portuguesa passou a ocupar o lugar em todas as livrarias do país. Hoje, dia 23 de setembro de 2014. Nem mais nem menos. Falta-me confirmar a veracidade da notícia. Dentro de muito pouco tempo vou tirar a prova dos nove. Resisti à tentação de ler os parágrafos iniciais da obra inconclusa, publicadas na imprensa como rastilho publicitário de pré-lançamento. Sei mesmo assim tratar-se dum ensaio antibélico e que o protagonista se chama artur qualquer coisa. Um dia destes ainda regresso aqui para tirar as dúvidas a limpo e dizer um pouco de minha justiça. Vontade não me falta.