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17 de novembro de 2025

Olhar idealizado da rainha perfeitíssima olhada à distância por José Malhoa

José Malhoa, Rainha D. Leonor de Lencastre (1926)
[Caldas da Rainha, Museu José Malhoa]

Os 500 anos da rainha das caldas e das misericórdias

Num dia como o de hoje de há precisamente quinhentos anos, a Rainha Dona Leonor de Lencastre exalava o último suspiro. Aquela a quem as didascálias da Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente referiam como a Rainha Velha e que a minha geração se habituou a identificar como Dona Leonor de Lencastre, passou a ser apelidada de Avis, de Viseu ou de Portugal. A Rainha Perfeitíssima foi espoliada no universo mediático do nome da Rainha da Boa Memória.

Nas Caldas da Rainha tudo evoca/evocava a sua insigne padroeira, a consorte de Dom João II, duas vezes herdeira da coroa portuguesa, a bisneta mais ilustre de Dona Filipa de Lencastre, a matriarca da Ínclita Geração. O Hospital Termal por si fundado em 1485 continua a lembrá-la em cada recanto que o nosso olhar alcance e os guias turísticos nos conduzam. O mesmo se não poderá dizer do parque fronteiro ao complexo termal, agora rebatizado de Dom Carlos I.

No centro desse espaço ajardinado ao gosto romântico, fica o Museu Malhoa, que possui no seu espólio um retrato póstumo da Rainha Dona Leonor (1926), uma tela a óleo pintada pelo grande mestre caldense e doado à instituição aquando da sua criação em 1933. Ali se mantém imponente até hoje, numa sala condigna da sua grandeza régia, depois de ter esperado provisoriamente na Casa dos Barcos pela inauguração oficial do edifício definitivo no ano seguinte.

O olhar idealizado rainha perfeitíssima olhado à distância por José Malhoa representa-a na flor da idade, pouco depois de ter subido ao trono. A paleta do pintor naturalista não a tingiu com as cores sombrias dum amanhã ainda distante, a mãe enlutada pela perda do filho adolescente e a viúva amargurada sem vontade de sorrir para quem se deixasse olhar. Imagem ainda inacabada duma princesa real com tanta vida ainda para viver e tantas histórias por contar.

Armas da Rainha D. Leonor de Lencastre
Jean du Cros, Livro da Perfeição das Armas (1509)
[Lisboa, BNP]

18 de maio de 2022

Construções emblemáticas

[Bruxelles, KBR, Ms. 10308, fol. 1]

         Autre Nauray –  Tant Que Je Vive           

Rezam as divisas registadas em francês na emblemática ducal de Dijon que Philippe le Bon (1396-1467) teria como lema pessoal Aultre naray (port. «não terei outra»), ao que Isabel de Portugal (1397-1471) lhe respondia com Tant que je vive (port. «enquanto eu viver»). Ela é nem mais nem menos do que o único membro feminino da Ínclita Geração de Altos Infantes, ele é o todo poderoso representante do ramo borguinhão da Casa Capetíngia de Valois.

Esta declaração de amor eterno e originalidade duvidosa terá sido dita noutras ocasiões por outras entidades de sangue azulado, o que não impediu o autoproclamado Grand duc d'Occident de a dedicar à sua terceira e derradeira consorte, a única filha de Dom João I de Avis e Dona Filipa de Lencastre, que terá correspondido como era espectável. A aliança resumida no monograma PY ficava assim garantida para a eternidade, a provar que a noblesse oblige.

A Duquesa Portuguesa sobreviveu ao Duque Borgonhês quatro anos. Protegida pela paliçada do corpo da divisa, ignorou os devaneios extraconjugais sofridos e os diz-que-diz das más-línguas que a cercavam. Desdenhou o facto do Tosão de Ouro criado em sua honra que trazia ao pescoço moreno fizesse lembrar ao marido os caracóis louros da amante flamenga. Deitou tudo às ortigas e seguiu em frente como uma Avis-Lencastre de gema que era e se gabava de ser.

[Bibliothèque royale de Belgique, ms. 9242]

4 de fevereiro de 2021

Principado da Beira

«Mappas do Reino de Portugal e suas conquistas» 

Collegidos por Diogo Barbosa Machado (c. 1729-1730)

bei·ra
(origem duvidosa)
nome feminino
Faixa de terra junto a uma extensão de água.


Um príncipe herdeiro com um principado honorífico...

Já disse por aqui ter sido a Estremadura a marca defensiva entre o Norte da Reconquista Cristã e o Sul da Conquista Muçulmana. Nas estremas das duas faixas limítrofes rivais, ficavam o Condado Portu-calense e os Reinos Taifas, limitados transversalmente pelos rios Douro e Tejo. E assim as fronteiras do futuro Reyno de Portugal se foram fazendo. Sempre em linha reta, ao longo da costa atlântica, em direção imparável ao mar do al-Gharb al-'Andalus, no golfo magrebi-no, mesmo ali às portas do Mediterrâneo islâmico.

A progressão vitoriosa das forças lusitanas e a ampliação do território recuperado pelas armas aos invasores sarracenos obrigou a uma sucessiva reorganização do território. A zona tampão estremenha deslocou-se até à linha do Sado e deixou a descoberto toda a margem direita do Mondego, dando origem à Província das Beiras. Os antigos lugares interiores da beira da serra da Estrela passaram também a incluir a beira litoral oceânica desde o Porto à Figueira da Foz, transformando-se assim na maior região do país.

Com o estatuto que a dimensão espacial lhe conferira, Dom João IV converteu essa banda central no Principado da Beira, uma entidade honorífica cujo titular sucederia ao Monarca, e se chamaria Príncipe do Brasil se fosse um filho ou Princesa da Beira se fosse uma filha. Mais tarde, Dom João V reservou esta honraria em exclusivo para o varão mais velho do herdeiro presuntivo do trono, passando este a designar-se por vontade expressa de Dom João VI por Príncipe Real de Portugal, logo após a independência do Brasil.

O título de Príncipe foi introduzido entre nós por via inglesa, quando Dom Duarte quis distinguir o primogénito dos irmãos, os Infantes a quem outorgou a honraria nobiliárquica de Duque, também a criação do Principado e Príncipe da Beira deve ter seguido a mesma fonte de inspiração, à semelhança dos seus primos da Casa de Lencastre, que contavam com o Principado e Príncipe de Gales e para ombrear com os Principados e Príncipes das Astúrias em Castela, de Girona em Aragão e de Viana em Navarra.

O título de Príncipe da Beira é usado pelo primogénito do Duque de Bragança e Príncipe Real, apesar da titularia monárquica ter sido abolida pela República. Adotou como brasão de armas o escudo real, diferenciado por um lambel de prata de três pés, cada um carregado com uma rosa vermelha abotoada a ouro, provavelmente em memória de rainha Dona Filipa de Lencastre. O conjunto é encimado por uma coroa fechada de três arcos de pérolas visíveis e um invisível. Enfim, com papas e bolos se enganam os tolos...
Brasão de armas do Príncipe da Beira
 a ladear a rosa e o emblema dos Lencastre de Coimbra

29 de julho de 2020

A Rosa Tudor e a Romã Trastâmara

TUDOR ROSES AND SPANISH POMEGRANATES
Thomas More, Coronation Suite (1509)
«-Eu sei, Madame. Mas eu sentar-me-ei aqui ao vosso lado e falarei de tudo menos de infelicidade. Os cortinados da antecâmara precisam de ser reparados. Poderei começar a a arranjá-los ou preferis ajudar-me? Talvez pudéssemos bordar um desenho:ou as rosas Tudor ou o nosso próprio emblema de Romã.»
Julia Hamilton, Catarina de Aragão (1973)


Avises, Trastâmaras, Habsburgos & Tudors  


De 9 a 13 de outubro de 2007, passou na RTP1 The Tudors, série pro-duzida pela Peace Arch Entertainment para a Showtime. Segui-a com interesse até ao quarto episódio e com reservas os seis restantes. A mudança de motivação deveu-se sobretudo à falta de rigor histórico registado na sua conceção televisiva. D. Manuel I de Avis nunca se casou com nenhuma princesa inglesa, tendo optado por duas infantas Trastâmaras e uma Habsburgo. Henrique VIII Tudor seguiu a mesma política de aliança dinástica, contraindo matrimónio com a cunhada Catarina de Aragão, viúva do príncipe Artur e irmã mais nova das duas rainhas consorte de Portugal, Isabel e Maria de Aragão e Castela, e tia da terceira, Leonor de Áustria. Uma verda-deira família real, ligada pelos vínculos de sangue às coroas de três países: Portugal, Espanha e Inglaterra.

Tendo o processo de divórcio do filho do vencedor da Guerra das Duas Rosas e da filha dos Reis Católicos tido início em 1530, seria impossível que a hipotética princesa Margarida Tudor se tivesse casado com o Venturoso ou de o ter sequer assassinado, dado que este falecera de morte natural em 1521. A senilidade lúbrica do monarca lusitano resulta também uma brincadeira de mau gosto, dado que por essa altura reinava em Portugal D. João III, de 28 anos de idade, conjuntamente com Catarina de Áustria, a filha mais nova de Joana-a-Louca e de Filipe-o-Belo. Os erros sistemáticos cometidos não se ficam por aqui, espalhando-se um pouco por toda a série de fundo histórico mas tratada como uma história de ficção televisiva. Dispenso-me de elencar a totalidade das fantasias cometidas, porque outros já se deram ao trabalho de o fazer.

Voltei a visionar os pés encardidos do inventado e decrépito rei de Portugal numa reposição do AXN White, iniciada a 23 de março de 2020. A sensação de repulsa causada pela cena repetiu-se com a mesma intensidade experimentada aquando da estreia da série, só que desta vez resolvi rever todos os episódios da primeira temporada e ver como estreia absoluta os restantes episódios das três temporadas seguintes. Este regresso aos dramas conjugais do fundador da Igreja Anglicana levou-me a recordar As seis mulheres de Henrique VIII, uma outra série produzida pela BBC em 1970 e transmitida no ano seguinte pela RTP. O grande sucesso alcançado com essa saga familiar foi, aproveitada pelas Edições Dêagá em 1973, através da publicação de seis volumes centrados em cada uma das rainhas consorte do segundo monarca Tudor.

Quando a viúva do Príncipe de Gales se casou com o Defensor da Católica em 1509, mal imaginava que estava a dar início à Reforma Inglesa. O divórcio em 1533 pôs também termo à aliança da Rosa Tudor e da Romã Trastâmara, representadas por Thomas More na Coronation Suite. A união dinástica da rosa vermelha Lencastre e da branca York deixou de partilhar a Coroa Real com o emblema da tomada do Reino de Granada aos Nacéridas em 1492. A fertilidade simbolizada nos grãos da romã (granada em castelhano) seguida por Catarina de Aragão como divisa produziria um único fruto, a futura Maria-a-Sanguinária, colheita muito escassa para as aspirações de Henrique VIII. Mais certeiro foi o mote seguido pela rainha, Humble and Loyal. Que melhor lema para definir a Humildade e Lealdade que manteve até à morte para a Roma papal e a Londres real. 

4 de novembro de 2019

To brexit or not to brexit that is the nub...

Nostalgic Britain

Wentworth Wooden Puzzle Collage
Dura brexit, sed brexit...
O neologismo inglês BREXIT foi posto a votação pública em 2016 pela Porto Editora como palavra do ano. Foi derrotado pela mediática «geringonça» parlamentar portuguesa. O resultado era previsível no contexto político nacional em que a corrida ao cobiçado prémio foi disputada. A vencedora manteve-se bem viva quatro anos. A vencida lá continua de pedra e cal até sair vitoriosa vá-se lá saber quando. Como repetiria Júlio Caio César em bom latim kikerista se voltasse a pisar essas terras remotas de bárbaros insulares: veni, vidi, vici.

Acrónimo da moda a nível global composto por duas palavras latinas (br- < Britannia = província romana: 43AEC-410EC + exit = saída) sofre agora uma espécie de síndrome da pilha alcalina americana de longa duração Duracell, que dura dura dura, ou do automóvel nipónico Toyota, que veio para ficar. Esta ideia de dizer que se quer sair sem arredar de facto o pé donde se está até já deu origem ao verbo TO BREXIT (brexitar = adiar), i.e., uma forma renovada e reforçada de «procrastinar». Mantém-se a raiz latina e facilita-se a soletração.

Dizem as estatísticas que 58% do léxico britânico nasceu no Latio, convertendo o inglês na mais românica das línguas germânicas. A culpa terá sido de Roma que conquistou a Britânia e partiu e da Normandia que conquistou a Inglaterra e ficou. Dieu et mon droit vai dizendo o lema do ainda Reino Unido. Nostalgia saudosista insular, definida, à boa maneira de Dom Duarte de Avis & Lencastre no Leal Conselheiro, de se estar onde não se está ou de se estar com quem não se está. E se de facto assim não for, Honni soit qui mal y pense...

13 de setembro de 2019

Altruísmo e martírio do Infante Santo

Emblemática do Infante Dom Fernando
Armas da Ordem de Avis - Divisa - Brasão de Armas Pessoais
[Túmulo do Infante Dom Fernando na Capela Real do Mosteiro da Batalha]
AS QUINAS: D. FERNADO, INFANTE DE PORTUGAL
Deu-me Deus o seu gládio porque eu faça | A sua santa guerra. | Indife-rente ao que há em conseguir | Sagrou-me seu em honra e em desgra-ça, | Às horas em que um frio vento passa | Por sobre a fria terra. || Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me | A fronte com o olhar; | E esta febre de Além, que me consome, | E este querer grandeza são seu nome | Dentro em mim a vibrar. || E eu vou, e a luz do gládio erguido dá | Em minha face calma. | Cheio de Deus, não temo o que virá, | Pois, venha o que vier, nunca será | Maior do que a minha alma.

Fernando Pessoa, Mensagem (1934: I, iii, 2, 1-15)
            Le bien me plet            

A monarquia portuguesa regista nos seus anais cinco processos bem-sucedidos de beatificação católica dos seus reais rebentos. Tantos quantos os dedos da mãoQuatro beatas e um beato que a vox populi se encarregou de incluir no rol dos santos sem terem passado por uma canonização formal da cúria romana. São elas as Infantas D. Sancha, D. Teresa e D. Mafalda, filhas de D. Sancho I, e a Princesa Santa Joana, filha de D. Afonso V. O único varão com honras de altar foi o Infante Santo Dom Fernando (1402-1443), oitavo filho de D. João I e D. Filipa de Lencastre, os reis de Boa Memória fundadores da Dinastia de Avis.

O mais jovem representante da Ínclita Geração seguiu o exemplo dos pais, irmãos e sobrinhos na elaboração da sua emblemática pessoal, enveredando pela simbologia medieval francesa do Roman de la Rose. Escolhe como corpo do brasão três ramos de roseira dispostos em círculos e como alma da divisa o lema Le bien me plet. O gosto de praticar o bem, de lutar contra todas as adversidades espinhosas da vida, dá forma ao ideal cavaleiresco veiculado pelos romans courtois então em voga. Altruísmo militante premonitório que o futuro mártir da cruzada no nascente Reino do Algarve de além-mar em África tão bem comprovaria.

O malogrado Cerco de Tânger (1437)* abriria as portas à veneração do segundo Mestre de Avis e irmão do Rei-Filósofo, do Infante de Sagres e do Príncipe das Sete Partidas. Durante o longo cativeiro marroquino, revelou-se um modelo de virtudes e de devoção cristã que o Papa Paulo II reconhecerá em 1470, poucos anos após a sua morte trágica em Fez. Cantado por Camões e Pessoa, merecerá entre outros a atenção de Calderón de la Barca, que lhe confere o estatuto de herói dramático no El príncipe constante y mártir de Portu-gal (1629), epíteto elucidativo para um sangue azul bem-aventurado da Igreja de Roma.

NOTA
(*) Início: 13 de setembro ; tréguas e negociações: 13 de outubro; tratado de paz: 17 de outubro.

20 de maio de 2019

Desejo emblemático de Justiça do Príncipe das Sete Partidas

Emblemática do Infante Dom Pedro
DOM PEDRO DUQUE DE COIMBRA & FREI JOÃO VERBA
 «Inicial da Dedicatória» do Trauttado da Virtuosa Benfeytoria (c. 1430-1433)
AS QUINAS: D. PEDRO, REGENTE DE PORTUGAL
Claro em pensar, e claro no sentir, | É claro no querer; | Indiferente ao que em conseguir | Que seja só obter; | Dúplice dono, sem me divi-dir, | De dever e de ser — || Não me podia a Sorte dar guarida | Por não ser eu dos seus. | Assim vivi, assim morri, a vida, | Calmo sob mudos céus, | Fiel à palavra dada e à ideia tida. | Tudo mais é com Deus!

Fernando Pessoa, Mensagem (1934: I, iii, 3, 11-12)
           sire          

A moderna historiografia costuma apontar o Infante Dom Pedro como o mais destacado representante da Ínclita Geração da Casa de Avis. O terceiro filho varão de Dom João Primeiro e de Dona Filipa de Lencastre conseguiu associar por diversas vezes o seu nome ao dos restantes irmãos, igualando-os nas qualidades desenvolvidas e ultrapassando-os mesmo nos resultados obtidos. Celebrizou-se na obra filosófica e na arte da governação como Dom Duarte, o Rei Eloquente; tornou-se o Príncipe das Sete Partidas, pelas viagens efetuadas pelo Velho Mundo e Terra Santa, feito que nem o Infante Dom Henrique, o Navegador, sonhou realizar; morreu sem glória nem proveito na Batalha de Alfarrobeira, tal como ocorrera anos antes com Dom Fernando, o Infante Santo, na tentativa malograda da conquista da praça africana de Tânger.

O Infante de Portugal e também Duque de Coimbra e de Treviso, Cavaleiro da Jarreteira e Regente do Reino na menoridade de Dom Afonso Quinto, adotou como alma do brasão pessoal a palavra Désir, gravada na cartela do corpo da divisa. «Desejo» de fazer sempre mais e melhor, registado em francês, a língua da mãe, inglesa de nascimento mas descendente dos Plantegenêt angevinos. As letras do mote poderão ainda representar as iniciais da insígnia da Ordem do Dragão (Draconis Equitas Societas Imperatur et Regis), que lhe foi conferida por Segismundo da Hungria. A Balança, pintada a ouro sob um fundo azul e cinza a rematar a emblemática, simbolizaria a «Justiça» que imprimira à sua conduta de vida e que as intrigas e invejas palacianas cortariam pela raiz, ficando por cumprir parte dos projetos esboçados na Virtuosa Benfeitoria.

NOTA
Quando se cumprem os 570 anos da Batalha de Alfarrobeira e da morte do Infante das Sete Partidas, ocorrida em 20 de maio de 1449.

13 de novembro de 2018

Os talantes de benfazer do Infante de Sagres e os talentos de os realizar...

Emblemática do Infante Dom Henrique
GOMES EANES DE ZURARA (c. 1410-1474?)
 «Frontispício» da Crónica dos feitos da Guiné (1453)
[Paris: Bibliothèque nationale de France - Ms. Portugais 41, 5v]
A CABEÇA DO GRIFO: O INFANTE D. HENRIQUE
Em seu trono entre o brilho das esferas, | Com seu manto de noite e solidão, | Tem aos pés o mar novo e as mortas eras — | O único imperador que tem, deveras, | O globo mundo em sua mão.
Fernando Pessoa, Mensagem (1934: I, v, 1)
     Talant de biẽ faire    

Dom Henrique é sem grande margem de dúvida o mais popular representante da Ínclita Geração de Altos Infantes, cantada por Luís de Camões n'Os Lusíadas (1572: IV, 50, 8), sendo também uma das figuras nacionais mais conhecidas além-fronteira. O Navegador lhe chamaram os historiadores alemães no Séc. XIX. Mais pelo fo-mento das viagens de descoberta de novas terras e novas gentes do que pelas travessias que tenha feito do Mar Oceano. Ter-se-á limitado a cruzar umas quantas vezes o estreito guardado pelas Colunas de Hércules e sempre que necessário o Mar da Palha formado pelas águas calmas do Tejo.

O quarto filho varão de Dom João Primeiro e de Dona Filipa de Lencastre, os fundadores da Dinastia de Avis, escolheu como alma da divisa o Talant de bien faire [= desejo de benfazer]. Terá sido inspi-rado pela cultura angevina da mãe, descendente dos Plantegenêt, que levaram para os domínios ingleses o francês como língua de corte. Pintou o emblema de azul, branco e negro, a simbolizar as fron-teiras infinitas do tudo e do nada. Associou esta paleta cromática ao verde dos ramos de carrasqueiro entrelaçados num anel, a apontar para a força generosa e invencível que permite a comunicação entre o céu e a terra.           

Essa ânsia de cometer grandes proezas foi largamente realizado ao longo da vida associando a palavra algo rara de talante com a mais comum nos nossos dias de talento ou capacidade de realização. Agraciado pelo pai com o título de Duque de Viseu, seria ainda Senhor da Covilhã, Donatário da Madeira, Mestre da Ordem de Cristo, Governador de Ceuta, Cavaleiro da Ordem da Jarreteira e Protetor da Universidade de Lisboa. Entre outras honrarias, avulta a de Infante de Sagres, promontorium sacrum do Reino do Algarve onde expirou a 13 de novembro de 1460. O mote da sua divisa pes-soal cumpria-se à letra.