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1 de dezembro de 2025

O país das laranjas & o pais dos coelhos

LARANJA

Laranja, s. Do persa nārang (por sua vez do sânscrito nāranga) pelo ár. nāranjâ, mesmo sentido; cf.: esp. naranja, galego laranja. Este dualismo hispânico (laranja-naranja) faz-me hesitar quanto ao caso port.: trata-se da evolução ár. nāranjâ < port. laranja, ou, talvez antes, de port. laranja < ár. vulgar nāranâ? Esta última forma é nome de unidade de laranj, muito espalhado pelos dialetod ocidentais...
J. P. Machado, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa,  Lx. Horizonte: 1977 (III, 386b)

Os mitos e lendas greco-latinos localizaram o Jardim das Hespérides nas terras do fim do mundo junto ao grande mar Oceano. Os Pomos de Ouro ali existentes passaram com o tempo a confundir-se com as Laranjas. Provavelmente as amargas, porque as doces parece terem sido introduzidas/inventadas pelos habitantes históricos ali instalados, sobretudo na parte mais ocidental da península. Alguns passaram então a chamar-lhes Portugal ou «Terra das Laranjas».

Inspirados nesse diz que diz enriquecido pela mitologia helénica, portokáli, portocálâ, portokal' e portokal passaram a designar LARANJA em grego, romeno, búlgaro e turco. O exemplo foi depois seguido por outras línguas faladas fora das fronteiras europeias, tais como o arménio, georgiano, afegão ou iraquiano. Até a vintena de países árabes (os introdutores do fruto na península), o fazem no seu dia a dia, registando برتقال e pronunciando bortugal ou burtugálum.

Os mitos e contramitos fenícios não tiveram a mesma sorte neste rincão distante da Ibéria a que chamaram Span ou Spania, que, através da terminação I-shphanim, remeteria para um mamífero roedor da família dos hiracoides ali existentes em grande quantidade. À falta dum nome mais adequado para identificar esse território obscuro onde o sol se punha no final do dia, batizaram-no de «Terra dos Coelhos». A denominação Hispânia viria mais tarde por via latina, derivando depois para Espanha.

No Primeiro de Dezembro de 1640 o País das Laranjas venceu o Pais dos Coelhos. Dizem por aí que o primeiro se libertou da tutela do segundo, ou que recuperou mesmo a sua independência. Bocas. Os Habsburgos coroados caíram e os Braganças levantaram-se. Sai um primo entra outro primo. Castelhanos/Portugueses ou vice-versa. Tudo farinha do mesmo saco. Os herdeiros de Carlos Quinto de Gand e de Isabel de Portugal revezaram-se no poder.

Os festejos da restauração monárquica portuguesa foram breves, sendo logo substituídas pelas fanfarras dos exércitos hispânicos. A Guerra da Aclamação duraria 28 anos a que se seguiram alguns conflitos mais em períodos intermitentes. Até houve uma Guerra das Laranjas ainda viva em Olivença por palavras ditas/reditas nos dois lados da raia. Questiúnculas antigas de irmãos/hermanos desavindos e sempre de braços abertos para o restabelecimento da paz.

1 de dezembro de 2024

Do branco-azul real ao verde-rubro republicano da bandeira em riste

Silva e Sousa, A querela da bandeira (1910)
            «Guerra Junqueiro e Teófilo Braga»            

Registam com esmero didático os manuais escolares oficiais, bem como os guias de pretensa divulgação popular ou de duvidosa cultura histórica, corresponder o verde da bandeira nacional à esperança do povo português e o vermelho à coragem por si manifestada em batalha. Informações patrióticas que os leitores comuns aceitam de ânimo leve, sem pestanejar, como se se tratasse de verdades axiomáticas, e que não se cansam de repetir à tripa forra para memória futura.

Reclamam os monárquicos empedernidos da junção republicana destas duas cores, tão pouco ortodoxa em termos heráldicos, reivindicando a reposição da harmonia multissecular da união real do branco e azul usada desde o tempo dos Borgonhas fundadores. Guerras de alecrim e manjerona transferidas para a tessitura simbólica do estandarte do país, em que todos esbracejam e ninguém tem razão, caricaturado por Silva e Sousa na «Querela da Bandeira» ocorrida em 1910.

Consta que no tempo da restauração dinástica de 1640, o pendão de Dom João IV estava ornado com uma bordadura azul sobre fundo branco. Longe ainda da adoção do campo partido bicolor que os Braganças aprovaram em 1822 e Dona Maria II passou a usar em 1834, após a vitória final dos Liberais sobre os Absolutistas e a sua reposição no trono real de Portugal e Algarves. Uma tradição, afinal, bastante recente, que num cômputo benevolente não atinge a cifra redonda duma centúria.

Arredados de vez os mitos enganosos das origens e clamados os contramitos reveladores da verdade. Digamos que a cruz azul em fundo branco, usado pelo Conde Dom Henrique, se referiria à sua dupla condição de cruzado e capetíngio, intimamente associado ao poder político francês. Por seu lado, o verde-rubro atual mais não representava do que as cores dos ideias, partidos e instituições que haviam realizado a revolução, decerto com bravura e anseio de dias melhores republicanos, está bem de ver.

A nova Bandeira Nacional

1 de dezembro de 2023

Conexões e ruturas ibéricas

Portugalia & Hispania

Lucas Jansz Waghenaer, Europa Ocidental, 1588

Na visão centralista dos Áustrias, Castela e Leão imperavam nos seus domínios ibéricos herdados, conquistados e comprados, com uma espada erguida na mão direita e o globo terrestre na esquerda. O brasão de armas completo de Felipe II é elucidativo dessa realidade ilusória, que alentou o sonho hegemónico espanhol desde a subida ao trono português em 1580 até à queda de Filipe IV desse mesmo trono em 1640. Um elmo central a presidir e os laterais submissos a admirá-lo, ou seja, os dragões alados luso-aragoneses a prestarem vassalagem ao leão acastelado da soberania hispânica unificada.

Trezentos e cinquenta e cinco anos após a assinatura do tratado de Madrid em 1668, que pôs termo a vinte e oito anos de guerra (da Aclamação lhe chamaram na altura e da Restauração em tempos mais recentes), voltou a ouvir-se falar com insistência na hipotética reversão desta separação peninsular. Desconheço ao certo quantos portugueses aceitariam de bom grado esta segunda união ibérica, muito embora algumas sondagens de opinião efetuadas no país vizinho afirmem ser francamente favoráveis. Duvido. Presumo que o grau de aceitação espanhola possa ser superior à nossa. Alvitro.

As vantagens duma tal associação até poderiam ser úteis para ambas as partes, se entretanto as querelas separatistas que continuam a grassar do lado de da fronteira fossem debeladas de vez e as reservas levantadas do lado de cá não agudizassem ainda mais a situação. O problema da centralidade de Madrid (em detrimento de Lisboa/Barcelona), o predomínio do castelhano (em concorrência com o português/catalão), o regime político adotado (em oposição à república/monarquia). Admitir por fim que a unidade desejada terá de passar por um modelo federativo de estados independentes entre si.

Celebra-se hoje a independência da Casa de Bragança face à Casa de Áustria, efeméride festejada efusivamente pelos saudosistas duma Monarquia extinta e olhada com indiferença pelos cidadãos comuns da República vigente. Neste mesmo dia de há cinco anos, frui em Sevilha a chegada da reforma, aposentação ou jubilação, como se lhe queira chamar, consoante o gosto de cada um ou a casta profissional a que se pertença. Independência lhe chamo eu. Sem feriado nacional, sem drama pessoal, sem vivas ou bota-abaixo. Recebi-a de ânimo leve, braços abertos e votos de boas-vindas.

1 de dezembro de 2021

A disputa familiar das coroas ibéricas ou o dualexit dinástico à portuguesa

José da Cunha Taborda - Aclamação de Dom João Ⅳ (1823)
[Lisboa: Palácio Nacional da Ajuda]

No Primeiro de Dezembro de 1640, o risco da associação dinástica tolerada dos Avis-Beja com os Habsburgo-Áustria se converter numa anexação imperial imposta dos primeiros pelos segundos conduziu inevitavelmente ao dualexit, i.e., ao fim anunciado da Monarquia Dual, aquela que durante 60 anos unira os destinos de Portugal e Castela. A Guerra da Aclamação de 28 anos seguintes deitou por terra o projeto filipino de substituir a união pessoal das duas coroas peninsulares numa união real dirigida a partir de Madrid. A edificação duma Ibéria multinacional, à semelhança do Benelux de além-Pirenéus, tem soçobrado a todas as hipóteses entretanto levantadas em quase quatro séculos de devir histórico.

Quando as sondagens de opinião pululam e os resultados oscilam entre o real e o imaginário, o crédito que idealmente nos deveriam merecer é cada vez mais ténue. Independentemente dos dados percentuais obtidos de aceitação do pan-iberismo, o sentimento que ainda hoje se vive entre nós assenta na secular sabedoria popular quando afirma sem oscilar que De Espanha nem bom vento nem bom casamento. As notícias que de vez em quando vêm dos lados de lá da fronteira também não ajudam muito a alterar o secular preconceito contido no provérbio. O plano de Franco para invadir Portugal ou o mapa de Portugal anexado pelo Vox ao império espanhol. Faits divers sensacionalistas que o subconsciente retém.

Faz hoje três anos que celebrei em Sevilha a minha carta de alforria profissional. Não o repeti até hoje por razões alheias ao meu querer. Gosto muito da Ciudad del Nodo e da piel de toro española. Sem preconceitos. Não nego que gostaria de ver os dois países unidos e não ignoro tratar-se duma tarefa a roçar a utopia. Haveria que resolver o problema da república/monarquia que nos separa, do acordar o emprego paritário das línguas que nos identificam, optar por uma capital marítima/continental que nos represente e un montón más de quebra-cabeças que não cabe aqui elencar. Para o ano vou a Sevilha se o Covid deixar. Um quadriénio de autonomia laboral não é uma efeméride qualquer que se deixe passar facilmente em branco.

Os primos desavindos & de costas voltadas
Filipe  de Castela - Dom João 
 de Portugal

1 de dezembro de 2020

Sonhos de união ibérica sem fusão ou anexação

    MIGUEL DA PAZ DE AVIS E ARAGÃO   
Príncipe Herdeiro de Portugal & Príncipe de Asturias y Gerona

Uniões e desuniões dinásticas peninsulares

Celebra-se hoje sem pompa nem circunstância o feriado do Primeiro de Dezembro ou da Restauração da Monarquia Lusitana, separada de vez dos destinos da Hispânica e confiados a título pessoal e sem fusão ou anexação a um Rey de tódalas Españas. A união ibérica de 1580-1640 foi desfeita pela força das armas 380 anos, quando os Áustrias Filipinos se renderam dinasticamente aos Braganças Joaninos. O estado de emergência nacional que vivemos em plena crise pandémica condicionou grandes ajuntamentos junto ao obelisco da praça dos Restauradores em Lisboa, onde uma escassa centena de manifestantes costuma comemorar a efeméride, compelida a fazê-lo, neste 2020 aziago de COVID-19, entre as 5h00 da manhã e as 13h00 da tarde. Provavelmente ninguém dará pela sua falta, salvo duma mancheia de mirones curiosos costumeiros e vezeiros nestas ocasiões e dum punhado de saudosistas monárquicos solidário com o atual pretendente ao extinto trono português, por regra presente na cerimónia, acompanhado de toda a autoproclamada família real.

O sonho duma Ibéria unificada não nasceu com a Monarquia Dual. É tão antigo quanto os primitivos reinos medievais, herdeiros diretos do legado romano-visigodo e manifestaram-se à vez nos diversos espaços políticos hispânicos, regidos por soberanos aparentados entre si. Dom Fernando Ⅰ de Portugal quis ser rei de Castela após o assassinato de Pedro Ⅰ pelo irmão, por ser bisneto legítimo de Sancho Ⅳ, enquanto o fratricida Enrique Ⅱ o era por via bastarda. O Formoso foi derrotado nas três Guerras Fernandinas em que se envolveu, travadas entre 1369 e 1382, dando assim origem ao Interregno de 1383-1385, quando o trono português foi disputado pelo Mestre de Avis e por Juan I de Castilla. A suspeita de bastardia materna que caiu sobre Dona Beatriz de Portugal acabou por recair em Juana la Beltraneja ou a Excelente Senhora, destituída do trono castelhano pelas mesmas razões, levando o tio materno e marido Dom Afonso de Portugal a declarar guerra a Isabel Ⅰ de Castilla e Fernando Ⅱ de Aragón e derrotado na Batalha do Toro em 1476.

As crises surgidas com as sucessões dinásticas problemáticas nem sempre foram resolvidas com recurso a confrontos bélicos travados pelos litigantes. Por vezes também se fizeram por via pacífica sem recurso ao poder de embate de exércitos rivais. Os Reis Católicos não se coibiram de casar a filha mais velha com dois herdeiros de Dom João Ⅱ. A Infanta Isabel, após enviuvar do Príncipe Dom Afonso, desposaria em segundas núpcias o futuro Rei Dom Manuel Ⅰ. Por golpes sucessivos do destino, a nova rainha consorte portuguesa ascenderia a herdeira dos pais, daria à luz o Príncipe Miguel da Paz e sucumbiria de parto. Pela primeira vez na história peninsular, as coroas de Portugal, Castela e Aragão teriam um soberano, aceite por todos sem derrame escusado de sangue. De 24 de agosto de 1498 a 29 de julho de 1500 datas do nascimento em Saragoça e da morte em Granada do Príncipe de Portugal, Astúrias e Gerona ‒, o sonho ancestral da unificação peninsular pairou no horizonte. Depois desfez-se subitamente no ar. Durara menos de dois anos.

Dom Manuel Ⅰainda desposou a Infanta Maria, irmã da anterior consorte, mas os direitos ao duplo trono castelhano-aragonês haviam transitado para a Princesa Joana-a-Louca, casada desde 1496 na Flandres com Filipe-o-Formoso, Duque titular da Borgonha. A tríplice aliança então gorada não seria muito diferente da lograda em 1580 com FilipeⅡde Espanha. O filho varão do Venturoso nunca pisou terra portuguesa e é pouco provável que alguma vez o viesse a fazer, a menos que os deveres dinásticos do momento assim o exigissem de modo categórico. Anteciparia aquilo que os três Filipes da Casa de Áustria fariam mais tarde, enquanto senhores do cetro lusitano. A política de aproximação entre as casas reais de Avis-Beja e de Trastâmara-Habsburgo só vingaria com o herdeiro de Isabel de Portugal e de Carlos Quinto, Sacro-Imperadores Romano--Germânicos e reis de Castela, Leão, Aragão e Navarra. O facto estava consumado e só findaria no Primeiro de Dezembro de 1640, efeméride que hoje se celebra sem pompa nem circunstância.

Armas de Fernando I, D. Beatriz, Afonso V, Joana, Miguel da Paz & Filipe II  

1 de dezembro de 2019

Autonomia & Reforma

            O Jet Set do Lau            

Cartas de alforria do primeiro de dezembro...
Há precisamente um ano fui passar o dia a Sevilha. Longe de mim estava a ideia de celebrar a data em que a Casa de Bragança pôs fim à mal-sucedida Monarquia Dual, que durante seis décadas unira os destinos dinásticos de Portugal e Castela. Também não foi para gozar o feriado, dado ter caído num sábado idêntico aos demais sábados do ano. Atravessei a fronteira para festejar o meu primeiro dia de liberdade, autonomia e independência, na pele de aposentado, jubilado ou reformado. Nunca percebi muito bem o que distingue cada um destes vocábulos, mas para o caso tanto faz.

Este ano dispenso-me de comemorar o meu primeiro de dezembro no outro lado da raia. A efeméride recai agora num domingo e iria encontrar todas as livrarias fechadas, já que o prazer de encontrar um comércio local verdadeiramente diferente aberto fora do país há muito se desvaneceu em toda a União Europeia, uma federação mais alargada e pacífica de viver de facto a desejada união ibérica. Prefiro fazê-lo em casa, na tranquilidade dum dia de aniversário muito especial, sem velas a soprar, sem parabéns a cantar, sem palmas a bater, sem prendas a abrir e sem palavras a agradecer.

À distância dos anos, muitos seriam os episódios dignos de registo escrito para memória futura. Fico-me com a lembrança dum projeto singular sintetizado na sigla GADES, i.e.Graças a Deus é Sexta. Realizava-se invariavelmente na cervejaria Palhacinho, destinava-se a celebrar o início do fim de semana e constituía o único momento autorizado para cortar na casaca dos colegas ausentes. Uma tarde fartámo-nos de dizer mal sempre dos mesmos e adiámos sine die as sessões académicas informais da saudável catarse grupal. Foi pena, porque o riso partilhado nunca fez mal a ninguém.

Num tempo em que a investigação se resume em grande parte à pro-dução a quilo, metro e litro de papers mal-alinhavados que todos se sentem obrigados a escrever e poucos se sentem motivados a ler, é bom virar-lhes as costas e dirigir o olhar para outros desafios mais in-teressantes de concretizar. Resolvi vir de vez em quando a este espa-ço de histórias e voltar-me para o dia-a-dia do Lau. Assumir o papel de avô em full time ou perto disso. Embarcar no jet set da imaginação e voar por aí fora. A viagem é de longo curso e já ruma a um destino que se perde para além na linha visível do horizonte.

1 de dezembro de 2018

Mimos ibéricos com zarolhos e manetas

Cervantes & Camões


 Ditos e ditotes de mancos & tuertos peninsulares 

Tem-se falado com alguma insistência nos últimos tempos de Iberismo e Iberofonia. As duas palavras têm sido chamadas à colação nas ribaltas mediáticas das redes sociais. Os prós e os contras têm tido a ressonância habitual em casos que tais.

Depois, o Primeiro de Dezembro - que este ano se comemora num fim de semana - vem-nos lembrar que as utopias são possíveis mas nem sempre são desejadas ou resultam na perfeição. Os 28 anos da Guerra da Aclamação rebatizada da Restauração que o diga.

Durante o período da Monarquia Dual o fator linguístico também só funcionou num sentido. A história literária regista dezenas de autores lusitanos a renderem-se ao castelhano mas é omissa na nomeação de um ou outro hispânico a fazê-lo em português.

As querelas ibéricas parece que se decidem nos ditos e ditotes. anos, um amigo espanhol atirou-me o motejo: Camões, aunque portugués tuerto (zarolho). Ao que lhe respondi: Cervantes, aunque español manco (maneta). Rimo-nos os dois e findámos a disputa.

15 de dezembro de 2017

Real, real, real, por el-Rei de Portugal!

Veloso Salgado - Coroação de D. João IV - 1908

[Lisboa, Museu Militar: Sala da Restauração]

GUERRA DE PALAVRAS

Do levantamento-aclamação à coroação-restauração


Duas semanas após o levantamento aristocrático do Primeiro de Dezembro de 1640, o até então Duque de Bragança é formalmente aclamado Rei de Portugal, tendo ficado conhecido nos anais históricos como Dom João IV, o Restaurador. A cerimónia decorreu num palanque junto à varanda do Paço da Ribeira, tendo sido testemunhada pelos conspiradores e presenciada pela arraia-miúda concentrada no vasto terreiro palaciano que dava para o Tejo. Coroação lhe chamou Veloso Salgado, seguindo os parâmetros dum romantismo tardio que o inspiraram na recriação da cena.

A notícia da cessação da Monarquia Dual caiu como uma bomba em Madrid, tendo sido particularmente sentida pela Majestade Católica de Filipe IV de Castela, por se ter visto despojado dos reinos e senhorios da Coroa de Portugal. A entronização do novo soberano em Lisboa e a fundação duma nova dinastia, sob a égide da Sereníssima Casa de Bragança, ramo lateral das de Borgonha e Avis-Beja, desencadeou um longo conflito de vinte e oito anos. Na época foi designado por Guerra da Aclamação, a que a leitura nacionalista recente rebatizou de Guerra da Restauração.

A restauração dum rei natural e deposição dum estrangeiro afirma a independência da Monarquia Lusitana face à Hispânica. Revela, também, uma oposição ao projeto do Conde-Duque de Olivares de converter os reinos ibéricos em meros satélites do Rei-Planeta, em torno do qual orbitariam para sempre. A História lá nos vai dizendo que a substituição duma legalidade obsoleta por uma atualizada costuma recorrer a atos de rebeldia contra o poder instituído. Só assim se muda um regime, se aclama uma nova ordem, se recupera um governo autónomo e liberto de vontades alheias.

Anónimo - Juramento e Aclamação de D. João IV (c. 1640)
[Paço Ducal de Vila Viçosa - Fundação Casa de Bragança]

1 de dezembro de 2017

Histórias antigas com história dentro

General George Washington riding a white horse holding a sword
(Painted wood board)
[De Young Museum, San Francisco, California, USA]

Primeiro de Dezembro de 1640

Uma vez, fui passear com três amigos.
Fomos para o campo e chegámos lá e sentámo-nos. E um disse assim: - Conta uma história mas que seja verdadeira.
E eu comecei: - Lembram-se quando cá estavam os espanhóis?
- Lembramo-nos muito bem.
- Pois isto foi no 1.º de Dezembro quando nasceu a liberdade. Eu estava mesmo em frente do palácio real. Às nove horas da manhã abriram as portas do palácio e os conjurados entraram por ali dentro que não foi brincadeira. Mataram os soldados que estavam de guarda ao palácio. Um soldado pegou numa faca e ía dar uma facada a um conjurado. Eu vi aquilo e peguei logo na minha espada de pau feita do cabo da vassoura e fui muito devagarinho por detrás dele e dei-lhe uma cacetada na cabeça que ele até desmaiou. E o conjurado disse-me: - Olá! Então tu salvaste-me a vida? Espera lá fora que eu já te recompenso. E ele foi lá para dentro e eu entrei pela porta da cozinha e dei um chuto no cozinheiro que logo se arrumou para o lado. Então, cheguei lá dentro e vi o senhor Vasconcelos a tomar o pequeno-almoço. E eu disse-lhe: - Olá! Já sabe que hoje acabou a paródia? E ele disse que não sabia e então escondeu-se à pressa no armário dos livros e eu perdi-o de vista.
E já estava tudo derrotado e só faltava esse fulano e a prima do Rei. Então, chamei os conjurados e como vi o armário a mexer, disse: - Está ali dentro!
Eles foram, tiraram-no cá para fora e veio um conjurado à varanda e diz: - Liberdade! Liberdade! Viva El-Rei D. João IV!...
Atiraram o senhor Miguel para a rua e já só faltava a prima. Então, estava ela a ler a Crónica Feminina e eu peguei no livro e espetei-lho na cara. Ela disse: - Quem é que me está a faltar ao respeito? E um conjurado disse: - Se a senhora não quiser sair pela porta, sai pela janela. E ela disse: - Tão amável!... E saiu pela porta mas foi presa.
E os conjurados disseram então: - Viva este rapazinho que nos ajudou tanto e me salvou a vida!
Depois deram-me um cavalo de pau e uma espada de verdade. E a minha espada de pau está agora num museu.
E os meus amigos bateram palmas e disseram: - Foi verdade que fizeste isso tudo? E eu disse: - É. E então fomos para casa muito contentes. E eu disse: - Agora que venham cá chatear mais esses senhores espanhóis que eu lhes digo o que faço: dou um biqueiro em cada um que até andam de asa.

João Manuel – 10 anos
IN Maria Rosa Colaço, A criança e a vida (Lisboa: ITAU, 1960)

1 de dezembro de 2015

Guerras, ventos & casamentos...

Guillermo Harvey, Atlas (Londres: 1868)
[Library of Congress - United States]

O extinto feriado do Primeiro de Dezembro evoca-me os tempos em que nasci e cresci. Celebrava-se com especial ardor a Restauração duma Coroa governada por um rei nascido em território português. O equívoco entre os conceitos de País-Estado-Nação levaram o regime político vigente a associar essa mera mudança de monarca como a recuperação duma independência alegadamente perdida. Dizia-se ainda com mais empenho patriótico de ajuste de contas com a História: De Espanha, nem bom vento nem bom casamento.

O provérbio repetido a torto e a direito por todos os quadrantes da época, incluindo o republicano, sempre me causou uma certa confusão. O mistério do vento aludido só começou a desvendar-se no momento em que a experiência pessoal da nortada estremenha, fresca e húmida, se veio juntar à experiência do levante algarvio, quente e seco. Vistas bem as coisas, as massas de ar atlânticas ou sarianas pouco têm a ver com as fronteiras físicas da Península Ibérica. Atingem-na por inteiro, por igual e sem preconceitos.

A inclusão do casamento na sentença rimada pareceu-me sempre óbvia. Referia-se à política matrimonial seguida pelas monarquias hispano-portuguesas ao longo dos séculos. Afinal de contas, tinha sido através da união de Isabel de Avis com Carlos Quinto que nascera Filipe II. Pesquisas posteriores vieram dizer-me que o problema das rivalidades políticas entre reinos vizinhos tinha criado um conjunto de ditados populares comprovativos dessa realidade. Destaco o franco-inglês: D'Angleterre, ni bon vent ni bonne guerre.

Questiúnculas dinásticas à parte, apeteceu-me saltar esse ambiente de guerra e recuar aos meus 20 e poucos anos, quando estive em Olivença pela primeira vez. Fi-lo com um amigo espanhol. No regres-so, perguntou-me onde ficava a raia portuguesa. Ao olhar para o fir-mamento, livre das luzes da cidade, fui incapaz de identificar a estrela Polar que me apontaria o rumo certo. Então, na imensidão da Via Láctea, percebi o quanto as linhas divisórias entre povos per-dem o seu sentido absoluto e se reduzem a nada. Inexoravelmente.