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27 de maio de 2024

Sinestesias perfumadas

Aromas, Odores, Cheiros, Fragrâncias

Maio é considerado o mês da flores, mas como se diz que Portugal é um jardim à beira-mar plantado, digamos haver também por aqui um imenso canteiro vicejante durante todas as estações do ano. Uma paleta matizada de eflúvios, aromas, odores, cheiros, exalações e fragrâncias luminosas, numa sinestesia perfumada de cores, formas e olores mil, catalisadoras de todos os sentidos com sentido.

As minhas memórias olfativas enviam-me para as emações intensas da maresia atlântica, das flores do verde pino, dos eucaliptos e das laranjeiras estremenhas, do musgo nos presépios natalícios e da terra molhada depois duma chuvada há muito esperada. De vez em vez, até me recordo dos vapores sulfurosos das termas da minha infância. Flashes fugazes que o tempo traz e leva a cada momento.

E quem fala de flores fala de pólens fala também de alergias, de coça-coça e de espirra-espirra. É que afinal não há bela sem senão. Olhá-las e cheirá-las tem os seus prós e contras bem definidos. Bálsamo e lenitivo para os olhos, espinhos e abrolhos para o nariz. Só nos resta recorrer às naturezas mortas com vida duma Josefa d'Óbidos a cheirar a verniz sem os efeitos nefastos dos jardins.

22 de dezembro de 2021

Natais do Menino Jesus de antanho

Josefa de Óbidos
A leitura da sina do Menino Jesus - 1667

[Coleção Jaime Eguiguren Art & Antiques]

Quando o presépio ainda era uma presença indispensável na sala de jantar, o musgo era borrifado todos os dias para cheirar a terra molhada e as pratas dos chocolates comidos durante o ano imitavam à perfeição as águas cristalinas dos rios e dos lagos palestinos de Belém de Nazaré. 

Quando a árvore de natal era relegada para segundo plano, o abeto escandinavo era substituído pelo pinheiro-manso mediterrânico, os bugalhos pintados substituíam as bolas de vidro decorativas e uns tufos de algodão-em-rama faziam as vezes dos obrigatórios flocos de neve setentrionais.

Quando uma filhó parecia um pintainho no imaginário criativo da minha avó, a noite da consoada reunia-nos à volta da mesa da cozinha à espera que a noite fosse rápida e manhã chegasse célere para ver os presentes que o Menino Jesus deixara no sapatinho posto na chaminé.

Quando as fitas, os laçarotes e os papéis de embrulhar as prendas se guardavam religiosamente duns anos para os outros, os cartões ilustrados alusivos à época desejar aos amigos e familiares umas boas-festas e feliz ano novo ainda eram escritos à mão e recebidos com todo o prazer.  

Quando o bolo-rei trazia uma fava numa fatia e um brinde noutra a obrigar quem as encontrasse a pagar o próximo doce festivo ou a ser brindado com a boa sorte, o pai natal era ainda uma figura pouco mais do que desconhecida e os três reis magos ainda eram tratados como devido.

Quando o mês de dezembro se adentra, os motivos do barroco seis-centista, pintados pela Josefa de Ayala em Óbidos, fazem-me lembrar os natais da minha infância, aqueles em que o maravilhoso cristão estava vivo e ainda acreditava piamente na vinda anual dum deus menino renascido.

21 de abril de 2019

O Cordeiro Místico & O Coelho Pascal

JOSEFA D'ÓBIDOS

Cordeiro Místico (c. 1660-1670)

[Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo - Évora]
AMÊNDOAS - FOLARES - OVOS

As festividades da Páscoa judaica (פֶּסַח = pesach ou pesaḥ) estão estreitamente ligadas à saída do povo hebreu do cativeiro egípcio. As comemorações da Páscoa cristã (Πάσχα = pascha) começaram a simbolizar a paixão, morte e ressurreição de Jesus. Os rituais de passagem cíclicos narrados no Êxodo e nos Evangelhos resultam certamente dum eco longínquo de tradições religiosas ancestrais que os dois monoteísmos bíblicos adaptaram muito bem à sua maneira.

As celebrações pascais pós-modernas atuais renderam-se de vez à gulodice pantagruélica da quadra e deitaram para trás das costas a frugalidade exemplar atribuída a santos e tzadikim. Os ovos cozidos abandonaram os folares tradicionais onde viviam e converteram-se em amêndoas cobertas de açúcar colorido. O cordeiro místico ainda persiste nas telas barrocas dos museus mas o que está na moda são mesmo os coelhos de chocolate das pastelarias e supermercados.

20 de dezembro de 2017

Vinde, fiéis, alegres e triunfantes...

JOSEFA D'ÓBIDOS

«O Menino Jesus Salvador do Mundo»

[Igreja Matriz de Cascais - 1673]

   Adeste, fideles, læti triumphantes...   

A minha canção preferida de Natal é habitualmente cantada em latim mas há também quem o faça em inglês. Nunca a ouvi interpretada em português, muito embora se diga ter sido composta por Dom João IV (1604-1656), o Rei-Músico. Na ausência de qualquer tipo de documento autógrafo a atestar esta convicção tradicional, alega-se ter existido em tempos uma partitura do Adeste Fideles no Paço Ducal de Vila Viçosa entretanto desaparecida.

A real autoria da composição está longe de colher a aceitação geral dos eruditos. Tudo leva a crer que se deva a um autor anónimo cuja nacionalidade se desconhece. Por vezes aponta-se o nome de John Francis Wade (1711-1786), que a incluiu no seu reportório de música sacra com o título de O come, all ye faithful. Noutros locais, aparecem ainda referências alternativas a John Reading (1588-1667) e de Frederick Oakeley (1802-1880).

A cantiga natalícia é mencionada em diversas publicações inglesas com o título de Portuguese Hymn, por ser cantada na capela da Embaixada de Portugal em Londres, um dos únicos locais onde o culto católico podia ser celebrado em solo britânico. Vicent Novello (1781-1861) inclui-a n'A Collection of Sacred Music, passando a ser conhecida no reportório internacional como o Hino Português. Um final deveras feliz para a cultura musical lusitana.

13 de março de 2017

Queques & Marmelada

JOSEFA DE ÓBIDOS

«Natureza morta - um marmelo»

Palavras vão, palavras vêm... 

Pedi emprestado a um quadro atribuído a Josefa de Óbidos (c1634-1684) a imagem dum marmelo seiscentista, idêntico em tudo aos que então serviriam às religiosas do mosteiro de Odivelas para confeci-onar a mais reputada marmelada da doçaria conventual portuguesa. A fama alcançada no seu tempo chegou até aos nossos dias, pelo que terá a sua quota-parte de verdade assegurada.

É pouco provável que a infanta Catarina de Bragança (1638-1705) tenha levado consigo para a corte de Carlos II Stuart uma reserva desse fruto acabado de colher ou transformado em compota. Já terá bastado à nova rainha consorte da Inglaterra, Escócia e Irlanda (1662-1685) ter-se feito acompanhar do precioso chá de Ceilão com que inaugurou entre os britânicos a tradição do five o'clock tea.

O que parece ser uma certeza é que nas merendas reais haveria uma citrinada de laranja amarga e uns bolos em forma de coroa. A compota virara marmalade pelos súbditos britânicos nos tempos em que Henrique VIII recebera uns boiões de marmelada portuguesa. Palavra vai, palavra vem, a soberana lusitana converteria os cakes em queques. O equilíbrio vocabular ficava assim estabelecido.

QUEQUE

Um cake em forma de coroa...

25 de dezembro de 2016

A noite de Natal do Mário...

 «Josefa de Óbidos e a Invenção do Barroco Português»
[MNAA - LISBOA]


Dia de natal

Tristeza vai-te embora
Tristeza
pequena morte.
Chega a noite, vai-se o dia
e assim há de desaparecer este pobre diabo 
que eu sou
com calças rotas
camisola cosida.
esperavas um milagre nesta noite de natal?
A camisola não recebeste
as calças não tas deram.
Bem feito
para não acreditares em anjos.

mário
1960
IN Maria Rosa Colaço, A criança e a vida (Lisboa: ITAU, 1960)

24 de agosto de 2015

Histórias de deus com palavras, cerejas & livros

Josefa de Óbidos - Cesta com cerejas, queijos e barros (1670/80)
The Quraysh seem to have found a rupture with the ancestral gods profoundly threatening and it would not be long before Muhammad's own life was imperiled. Western scholars have usually dated this rupture with the Quraysh to the possibly apocryphal incident of the Satanic Verses, which has become notorious since the tragic Salman Rushdie affair.
Karen Armstrong, A History of God (1993) 
As palavras são como as cerejas. Vão umas atrás das outras. Com os livros passa-se o mesmo. Pegamos num e aparecem logo outros à boleia. Farto de procurar os sentidos escondidos por Salman Rushdie n'Os versículos satânicos (1988), interrompi a releitura de verão ao romance maldito e parti à procura de ajuda nas fontes habituais da metalinguagem multicultural usadas em casos que tais.

Após algumas tentativas goradas pelos universos virtuais da netosfera, virei-me para a estante real de livros cá de casa. Dei com a Karen Armstrong a propor-me Uma história de Deus (1993) posta mesmo à frente dos meus olhos. Afinal a alegada blasfémia referia-se a um conjunto de versículos heréticos erradicados por Maomé do Alcorão, por lhe terem sido ditados por inspiração satânica.

O bestseller da ex-freira inglesa trouxe-me de novo à ideia que o ho-mem tem de deus, o nada que é tudo e o tudo que é nada. Enviou-me logo ao abri-lo para a religiosidade de infância de Stephen Dedalus em Dublin, posta em palavras por James Joyce no Retrato do artista quando jovem (1916). Leitura futura a mostrar que os livros são como as cerejas. Vêm sempre agarrados uns aos outros.

27 de outubro de 2014

Pintura comestível

Este não é um livro que pretenda liberalizar os doces para as pes-soas com diabetes. Procura, sim, tentar enquadrar, num dos muitos sentidos possíveis. a relação que existe na sociedade com os do-ces. E apresenta algumas sugestões possíveis, a enquadrar nas op-ções de cada um, de doces inspirados nos quadros de Josefa de Óbidos e com ingredientes que os tornam mais apropriados para as pessoas com diabetes. Os adoçantes ou edulcorantes artificiais po-dem ser utilizados para adoçar uma sobremesa uma vez que o seu valor calórico é quase nulo e não têm interferência no metabolismo dos hidratos de carbono. A utilização de outros ingredientes permite reduzir a sua quantidade, que deve ser moderada.
Francisco Sobral do Rosário,Josefa de Óbidos na cozinha da diabetes (2013)
Dizem as más línguas que somos o povo mais guloso do mundo. Para completar a ideia, também se diz termos concebido a doçaria mais rica e variada que se conhece. Exageros à parte, não restam dúvidas que estamos na presença dum gosto refinado e generalizado pelo açúcar e por todas as substâncias que lhe estão associadas. Mel, chocolate, bolos, compotas e marmeladas. É que, como reza o ditado, o que é doce nunca amargou.

Francisco Sobral do Rosário, médico especialista em endocrinologia e contador de histórias nos tempos livres, convidou uma série de amigos interessados pela temática e reuniu os seus testemunhos nas páginas d' As pinturas de Josefa de Óbidos na cozinha da diabetes (2013). Centraram-se nos percursos de vida de duas mulheres exemplares separadas por três séculos e meio de dias cumpridos e deram asas à imaginação fabuladora.

A primeira é nossa contemporânea e dá pelo nome sugestivo de D. Maria dos Prazeres. Declarada diabética em 1926, desenvolveu desde então um ódio irracional aos doces, transformando-se numa referência lendária na luta contra esse flagelo de saúde pública. Solteira por vocação ou militância, guardava em si um segredo que só um acaso tornou público. Era uma autora reconhecida de livros ilustrados de doçaria, modo de superar a gula com os olhos.

Miguel Real continua a parábola com a revelação de que a lendária senhora da história se inspiraria nas telas de doçaria pintadas por Josepha d'Ayalla (1630-1684) na pacata vila de Óbidos. A variedade e poder atrativo dessa arte pantagruélica continuavam a fazê-la salivar abundantemente, sem nunca ter tido o prazer de provar nenhuma das iguarias apelativas representadas a óleo pela grande criadora que empresta o nome à obra.

O livro de histórias conta ainda com um prefácio pedagógico de Bob Andersen e uma leitura metafórica de Raquel Henriques da Silva. A concluir, José Bento dos Santos inspira-se nas naturezas mortas da artista plástica seiscentista e transforma-as em autênticas naturezas vivas. Fá-lo através de dezena e meia de receitas ilustradas sem açúcar. Papos-de-anjo, barrigas-de-freira, toucinho-do-céu. Divinas, sublimes, celestiais. De comer e chorar por mais.