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22 de setembro de 2023

Quartetos de cordas, rimas & luzes

Salvador Dalí,  La persistència de la memòria, 1931
[NY, Museum of Modern Art - MoMA ]
«O tempo presente e o tempo passado | Estão ambos talvez presentes no tempo futuro, | E o tempo futuro contido no tempo passado. | Se todo o tempo estiver eternamente presente | Todo o tempo é irredimível. | O que poderia ter sido é uma abstração | Permanecendo uma possibilidade perpétua | Somente num mundo de especulação. | O que poderia ter sido e o que foi | Apontam para um fim, que está sempre presente.»
T. S. Eliot, Quatro quartetos (1943: 1,1-11)

Tempo de ver, ouvir e sentir...

A televisão ainda nos pode surpreender quando menos se espera. Muito de tempos a tempos, tropeçamos inadvertidamente com um ou outro filme apetecível, perdido no meio de muitos outros de mediana ou nula qualidade que pululam nos mais de 300 canais postos à nossa disposição 24 horas por dia, em sinal aberto ou por cabo.

Num desses encontros imediatos dum qualquer grau indeterminado, deparei-me com um três em um como nos champôs em campanha de promoção, elaborado em torno de três quartetos com acordes filmados, declamados e tocados. Abençoada falta de sono que me permitiu insistir num zapping fortuito de resultado imprevisível.

Uma navegação rápida na Net lembrou-me ter sido a RTP a exibir A Late Quartet (2012) de Yaron Zilberman, apresentado como um quarteto único na página de divulgação da estação. A ideia de finitude temporal da história a ser assim anunciada ab initio aos potenciais telespetadores dos 105 minutos de duração da fita.

A sintonia mantida pelos executantes do Streichquartettt Nr 14 (1826) de Beethoven ameaça ruir após um quarto de século de sucessos ininterruptos. A saúde do violoncelista, a rivalidade dos violinistas e a crise conjugal dum deles com a violetista põe em risco a realização daquele que poderá ser o derradeiro e tardio concerto do grupo.

As dificuldades da peça musical em sete tempos são vencidos pela qualidade das execuções registadas na película. Convite para a ouvir na íntegra num outro contexto e proceder à leitura atenta dos Four Quartets (1943) de T. S. Eliot. Depois, felicitar o canal público televiso por nos permitir fruir de modo tripartido a cultura que nos é devida.

    QUARTETOS FILMADOS, DECLAMADOS & TOCADOS 

20 de novembro de 2015

Piqueniques, memórias & Internet


RELÓGIO FUNDIDO

Dalí, La persistència de la memòria (1931)
[NY - Museum of Modern Art - MoMA]
Sempre nutri uma simpatia muito especial por piqueniques. Esse gosto deve ter raízes nas aventuras dos famosos cinco que ocuparam as minhas leituras de quase teenager, logo imitados com afinco pela primalhada em tempo de férias no pinhal grande da praia da Areia Branca. Saltando para um tempo mais maduro, recordo um desses convívios de grupo na serra de Sintra com um punhado de colegas e amigos em final de formação académica na grande cidade. O encanto efémero dessa tarde levou-nos a marcar um encontro para dali a uns quantos anos naquele mesmo local. Esqueci-me do combinado e não compareci. Duvido que alguém se tenha lembrado de o fazer. Nem sequer posso confirmar a suspeita, porque lhes perdi completamente o rasto.

Muitos piqueniques passados, voltei ao convívio dalguns colegas de liceu através do mundo virtual da Internet. Pistas perdidas achadas por acaso nas navegações cegas pela blogosfera e redes sociais. Fotos a preto e branco recuperadas pela persistência da memória a saltarem na janela indiscreta do PC doméstico. Os contactos e a atualização de episódios pretéritos foram imediatos. Exumámos das sombras as merendas da quinta-feira da espiga, nas matas das Caldas da Rainha, e as petiscadas do santo chouriço, no adro da ermida de Santo Antão em Óbidos. Tudo ao ar livre. Depois o assunto esgotou-se, o dito e redito instalou-se e os posts findaram de vez. Inexoravelmente. Ficaram os votos rituais de parabéns e de boas festas nas páginas do Facebook.

Voltei a cruzar-me com um rosto perdido há muito no tempo. O MySpace foi o mediador de serviço para fazer a ponte entre dois pontos singulares de devir existencial. Já nos conectámos online e trouxemos a jusante fragmentos das memórias formadas a montante. Trivialidades. Qualquer dia ainda lhe falo duma merienda celebrada com toda a pandilla da altura numa praia fluvial do Tejo espanhol. Provavelmente deixarei este flash com entorno internacional vogar sem destino definido pela Net à escala global. Esperarei que a mensagem chegue ao computador do meu amigo de juventude. Duvido. Os acasos não se fazem por encomenda. Deixariam de o ser. A menos que o insólito entre abruptamente em cena e me venha surpreender. Ya lo veremos...