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27 de março de 2026

José Saramago e o regresso a uma segunda vida de Francisco de Assis

«Então será como nascer outra vez. No instante do nascimento todos somos iguais em pobreza. Vimos ao mundo nus, fracos, inocentes.»
José Saramago, A segunda vida de Francisco de Assis (1987)

Celebra-se este ano, com toda a pompa e circunstância a que os canais habituais do poder nos habituaram, o oitavo centenário da morte de Giovanni di Pietro de Bernardone. Dito assim às cruas, fica-se sem se saber muito bem a razão desta iniciativa a alguém que dificilmente identificamos com quem seja ou tenha sido. O mistério começa a desvendar-se, quando nos apercebemos tratar-se do fundador da ordem mendicante dos Frades Menores, mais conhecida por Franciscanos, a tal que teve a perícia de renovar o Catolicismo do seu tempo, afastando os seus membros da clausura dos mosteiros e criando a prática da pregação itinerante. Afinal de contas, as comemorações solenes referem-se a São Francisco de Assis, que a Igreja de Roma canonizou em 1228, regia então Gregório IX a cadeira papal de São Pedro na Santa Sé.

No preciso momento em que se festeja o Dia Mundial do Teatro, decidi associar esta efeméride instituída em 1961 ao texto dramático que José Saramago centrou num dos santos mais populares do Cristianismo universal, A segunda vida de Francisco de Avis (1987), levado à cena cerca de quatro décadas pelo Novo Grupo Teatro Aberto, aquando do seu lançamento pela Caminho. Desengane-se, todavia, quem supuser que o Prémio Nobel português da Literatura se limitou a lavrar à distância dos séculos, por palavras escritas e declamadas, distribuídas por dois atos e um número não explicitado de cenas, um panegírico encomiástico ao padroeiro dos animais e da ecologia. A primeira vida não é omitida, mas a segunda anunciada no título toma conta do discurso, até ser revelada nos derradeiros parágrafos da peça, como um projeto a concretizar num futuro não registado no livro ou representado em palco.

O leitmotiv da história conta-se em poucas palavras. O dramaturgo imagina o regresso de Francisco de Assis ao mundo contemporâneo e encontra a ordem religiosa por si fundada convertida numa empresa multinacional de sucesso, baseada nos princípios capitalistas dos lucros elevados, nos jogos das bolsas de valores e no maneio especulativo de ativos. O problema instala-se a partir do momento em que questionamos a localização temporal da ação. Saber se o protagonista veio do passado para um futuro que corresponde ao nosso presente de leitores/espetadores, ou se se limitou a aterrar num mundo transformado/alternativo, em que a realidade medieva tivesse sido substituída pela realidade do nosso dia a dia atual. Só a liberdade literária poderá responder à nossa dúvida, lembrando-nos que no mundo da ficção tudo é possível, desde que aceitemos as novas leis que opõem real e imaginário. Umberto Eco, v.gr., explica-os através da alotopia/ucronia*, o que, em vernáculo puro, se pode traduzir por insólito maravilhoso ou simples alegoria.

Refeito da surpresa observada na ordem por si fundada e goradas as tentativas de reverter a situação criada pelos seus antigos irmãos na austeridade militante e devolver a companhia à sua pureza original, Francesco, Il Poverello, aquele que renunciara à fortuna familiar para viver na mais profunda humildade muda de estratégia. Resolve abandonar os seus confrades doutros tempos e iniciar um novo percurso de redenção para ganhar o céu no final do seu percurso pela terra. Assume o verdadeiro nome, o João com que fora batizado, e reconhece que a pobreza não é santa, pelo que deverá ser eliminada do mundo. O seu novo objetivo assenta na máxima que, se vai para outra vida, outro homem terá de ser. Convida os opositores a segui-lo na nova missão mas só é acompanhado por Clara, Leão e Junípero, figuras centrais da tradição franciscana e do carisma da Ordem. A segunda vida de Francisco de Assis está ainda por escrever e não é relatada nas páginas da peça, que Pica, a mãe do herói, se compromete solenemente a fazer.

* Umberto ECO, «Os mundos da ficção científica», in Sobre os Espelhos e outros ensaios. [1985]. Lisboa: Difel, 1989, p. 202.

23 de janeiro de 2020

Laurent Binet: encontros, desencontros e reencontros ucrónicos de civilizações

« “ Sire, puisque Dieu vous a conféré cette grâce immense de vous élever par-dessus tous les rois et princes de la chrétienté à une puissance que jusqu'ici n'a possédée que votre prédécesseur Charlemagne, vous êtes sur la voie de la monarchie universelle, vous allez réunir toute la chrétienté sous la même houlette. ” || C’est en ces mots que l’archevêque de Mayence Albert de Brandebourg, oncle de Joachim-Hector, lui-même margrave et électeur de Brandebourg, accueillit Atahualpa dans le temple d'Aix-la-Chapelle, sous un immense lustre en cuivre doré, au pied des statues de saint Paul à la croix et de saint Pierre à la clé (deux idoles populaires dans ces pays), pour lui remettre solennellement les attributs de la dignité impériale. » 
Laurent Binet, Civilizations (2019) pp. 274-275
A ucronia literária instala-se no momento em que os eventos narra-dos fogem à verdade histórica documentada nos anais oficiais e en-tram no universo paralelo da fantasia pura e simples da história alter-nativa, hipotética ou especulativa gizada de vez em vez pela ficção. Conjeturar, à boa maneira de George Steiner n'O transporte para San Cristóbal de A. H. (1979), a fuga de Adolfo Hitler para a floresta Amazónica após a queda de Berlim. Demonstrar, como o fez José Saramago na História do cerco de Lisboa (1989), que a cidade podia ter sido tomada por D. Afonso Henriques aos Mouros sem a ajuda dos Cruzados. Defender que D. Sebastião logrou sobreviver à batalha de Alcácer-Quibir, tal como Catherine Clément se atreveu a avançar nas Dez mil guitarras (2010).

A atração por esta modalidade poética de reescrever o percurso mile-nar dos homens parece ter conquistado a verve criativa de Laurent Binet. Após ter convertido n'A sétima função da linguagem (2015) a morte acidental de Roland Barthes num complot internacional, surge agora com um megaprojeto manipulador da realidade factual dado à luz nas Civilizations (2019). O local sai de cena e entra o global. O processo de contrafação das fontes escritas que os séculos nos legaram começa com uma saga de Freydis Eriksdottir, prossegue com o diário fragmentário de Cristóvão Colombo, amplia-se com as crónicas de Atahualpa e culmina com as aventuras de Cervantes. O caráter apócrifo de cada um destes documentos elaborados pelas diversas instâncias discursivas convocadas é claro e não merece nenhum reparo em especial. Só assim as premissas teóricas do género se concretizam e se pode contrapor o não-tempo imaginado pelo faz-de-conta ao tempo real efetivamente acontecido.

Atribuir a um romance francês um título em inglês causou-me uma certa estranheza que me levou a averiguar a causa do insólito. O mistério acaba, quando descobri que o autor se limitara a aplicar no universo das letras as regras dum jogo de vídeo criado em 1991 por Sid Meier. Nesta Civilization, a estratégia a seguir consiste em incor-porar e expandir uma civilização histórica, a fim de superar as rivais. A ideia tinha sido esboçada em 1989 por Roberto Bolaño O Terceiro Reich, quando os wargames da Segunda Guerra Mundial são recri-ados pelo protagonista com os hexágonos e fichas das batalhas tra-vadas num tabuleiro. Laurent Binet vai mais longe do que o novelista chileno. Concretiza a dimensão ucrónica em toda a trama textualA filha de Erik-o-Vermelho desiste de regressar à Escandinávia e ruma em direção a Cuba, México, Panamá e Peru. O descobridor genovês da América alcança as ilhas do mar das Caraíbas mas é vencido pelos povos locais e impedido de regressar a Castela. O Sapa Inca das Quatro Regiões atravessa o grande mar Oceano, desembarca em Lisboa e conquista o velho continente, que converte na Quinta Região do Império do Sol. O biógrafo do Don Quijote torna-se num peregrino europeu da fortuna com destino final nos territórios aztecas dos adoradores da Serpente Emplumada. A inversão surpreendente de factos notáveis ocorridos nos dois hemisfério terrestres separados pelo Atlântico não impediram a Académie française de lhe atribuir o Grand prix du roman nesse mesmo ano do lançamento da obra.  

A posse dos cavalos, do uso do ferro e dos anticorpos legados pelos visitantes vikings e castelhanos desde o ano mil deram aos índios de além-mar todas as condições de invadir as terras do deus pregado, da bolacha branca e da beberagem vermelha, de derrotar sem apelo nem agravo Carlos V e Francisco I. D. João III e Henrique VIII sa-em mais ou menos incólumes desta mundialização de sentido ame-ríndio. A nova ordem planetária imposta pelo Filho do Sol difere pouco da que encontrou nos Países do Levante. A Inquisição dos vencidos é substituída em poucas colheitas pelas Pirâmides dos vencedores e fica tudo na mesma. O não-tempo da ucronia e o não-espaço da utopia geram todavia uma realidade alternativa decisiva nos universos das letras e das artes, revelados nas folhas que falam de Cervantes e nas pinturas mágicas de El GrecoNesta luta de titãs regida pelas rodelas de metal e bastões de fogo, a força livre da cultura tem o poder de resistir à força bruta das civilizações. Mensagem de esperança difícil de encontrar nas histórias acontecidas mas perfeitamente viável nas histórias imaginadas.

4 de fevereiro de 2019

Laurent Binet e a sétima função da linguagem ou de quem matou Roland Barthes

« Néanmoins, en y réfléchissant, ou plutôt en relisant Jakobson, Simon Herzog trouve trace d'une potentielle septième fonction, désignée sous le nom de " fonction magique ou incantatoire ", dont le mécanisme est décrit comme " la conversion d'une troisième personne, absente ou inanimée, en destinataire d'un message conatif " Et Jakobson donne comme exemple une formule magique lituanienne : " Puisse cet orgelet se dessécher, tfu tfu tfu tfu ". Ouais ouais ouais, se dit Simon. »
Laurent Binet, La septième fonction du langage (2015)
Regressei inesperadamente ao meu curso de letras quando entrei de supetão no universo romanesco de Laurent Binet, plasmado no meio milhar de páginas d'A sétima função da linguagem (2015), exercício criativo logo galardoado com os Prix Interallié e Roman Fnac. A semiótica e a linguística irrompem de roldão nas primeiras linhas da trama e fazem-nos companhia até ao derradeiro ponto final. Pelo caminho, ainda dão as mãos em largas e rasgadas digressões à literatura, filologia, retórica, música, arte, cinema, história, política, ciência e comunicação em geral. Os grandes vultos da cultura universitária francesa ou a ela ligada nas vésperas da eleição de François Mitterrand como presidente da república e do render da guarda de Giscard d'Estaing no Palácio do Eliseu dão um ar solene aos atos relatadosMichel Foucault, Jean-Edern Hallier, Bernard Henry-Lévy, Julia Kristeva, Philippe Sollers, Louis Althusser, Jacques DerridaHélène CixousUmberto Eco ou John Searle são só alguns dos nomes das personalidades referidas e convertidas em maior ou menor grau em personagens da intriga, centrada na morte de Roland Barthes a 21 de fevereiro de 1980, vítima dum atropelamento aciden-tal ou dum bem orquestrado complot internacional com implicações imprevisíveis na ordem social da época.

Depois de ter estado cerca de dois anos em fila de espera para ser lido e quase outros tantos para ser comentado, ficou-me a vontade de partir à descoberta da obra já publicada deste jovem inventor de histórias dentro da história ou de aguardar pacientemente que novos títulos sejam entretanto disponibilizados nos locais habituais, para desfrute de todos aqueles que os souberem apreciar. O desejo de fazer anotações sem fim a cada passo foi vencida pela vontade de fruir devidamente o prazer do texto sem interferências académicas inoportunas. Ultrapassados os impulsos irresistíveis de percurso, fixei-me na estrutura genérica seguida pela fábula, toda ela ancorada nos parâmetros habituais do romance policial clássico com final clarificador de todos os enigmas em jogo. Tzvetan Todorov (também ele parte integrante do elenco intelectual citado) incluí-lo-ia nos domínios fantásticos do estranho puro ou do insólito explicado por meios naturais. Os próprios protagonistas de serviço, Jacques Bayard e Simon Herzog, são retratados como caricaturas acabadas do inspetor Sherlock Holmes e do Dr. John H. Watson, dados à luz por Sir Arthur Conan Doyle. Chamemos-lhe pastiche literário ou thriller desconcertante, se preferirmos. A ironia-crítica-sátira emprestada à investigação impediriam outras classificações alternativas que se afastassem minimamente dos meandros da paródia bem humorada.

A sétima função da linguagem funciona na intriga como um acréscimo às restantes seis teorizadas por Roman Jakobson nos Ensaios de linguística geral (1973). Assim, para além das emotiva-apelativa do eixo da subjetividade, das referencial-fática-metalinguística do eixo da objetividade, e da poética formada na cruzamento dos dois eixos referidos, haveria ainda que contar com uma suplementar, difícil de localizar no esquema original e que teria o poder encantatório e manipulador da comunicação humana. Roland Barthes estaria na posse dum documento com a chave de acesso a essa capacidade retórica de convencer infalivelmente os outros da verdade duma qualquer mensagem. A razão da sua eliminação física do mundo dos vivos estava encontrada e com ela o leitmotiv que animaria todo o relato. O faz-de-conta inventado a cada momento pelas poéticas da ficção e filosofias dos símbolos entram em cena. Os atores pisam as ribaltas montadas em Paris, Bolonha, Ithaca, Veneza e Nápoles, num drama repartido por cinco atos e um epílogo. Ocasião, também para atualizar quanto baste a hipótese da ucronia literária definida com precisão por Umberto Eco n'«Os mundos da ficção científica», incluído em Sobre os espelhos e outros ensaios (1985), i.e., de imaginar que os eventos reais do passado ocorreram de modo distinto, tornando as liberdades verbais urdidas na textura narrativa credíveis e aceitáveis.

O jet set de individualidades universalmente conhecidas levadas do mundo exterior para o interior dum romance ganham uma nova vida. Coincidem nos nomes mas distinguem-se em todos os feitos que lhes são atribuídos. Continuam a revivê-las sempre que são atualizadas pela leitura. Ficam congeladas nas páginas dos livros que as contêm. Admirável destino destes seres que podem aspirar à eternidade. Só terão de pertencer a uma obra imortal a que todos os autores podem aspirar e nenhum tem a capacidade de confirmar. Pessoalmente, atrevo-me a antever um futuro promissor na república das letras, assim a vivacidade já manifestada na escrita se mantenha sem falhas e a nossa capacidade de decifração se não esgote. Numa época em que as humanidades andam pela rua da amargura e as universidades já não são o que eram, torna-se um pouco arriscado que a erudição académica consiga trilhar com sucesso as veredas sinuosas da criação diegética. Laurent Binard que se cuide e trate de se adaptar às novas retóricas do terceiro milénio. É que nos dias que correm as eleições presidenciais fazem-se mais à custa das fake news virtuais do que das funções restritas ou ampliadas da linguagem por muito fascinantes que sejam ou pareçam ser.

17 de julho de 2015

Umberto Eco, as ameaças jornalísticas dum número zero inventado

«Non lo nego, ma mio padre mi ha abituato a non prendere le notizie per oro colato. I giornali mentono, gli storici mentono, la televisione oggi mente.»
Umberto Eco, Numero zero (2015)
O sétimo romance de Umberto Eco já está à disposição do leitor nas livrarias da aldeia global e dá pelo nome de Número zero (2015). Tão polémico como os anteriores. Andar pelos labirintos duma biblioteca abacial à procura do mais cobiçado dos livros perdidos de Aristóteles, percorrer à sombra de Foucault os santuários exotéricos da cabala para desvendar os segredos dos templários, naufragar nas águas exóticas dos mares do sul na pista do ponto fixo onde os dias mudam de data, seguir o rasto do Prestes João das Índias para tomar posse dum reino de fantasia utópica prometido por uma epístola imaginária, vasculhar os baús da casa de campo da infância no encalço duma memória perdida, penetrar nos meandros da teoria da conspiração gizada pelos falsos protocolos sionistas de dominação do mundo ocidental, atravessar com uma lupa de inspetor de polícia os mistérios mais recônditos da nossa identidade europeia multissecular. Depois de tudo isto, não contente, o filósofo, medievalista e semiólogo italiano, ensaísta, académico e romancista fabricante de bestsellers garantidos envereda pelos universos atuais da informação manipulada, aquela que nos impede de diferenciar as histórias efetivamente acontecidas das inventadas ao sabor dos interesses mediáticos do momento.

O argumento encontra-se todo sintetizado na contracapa da obra, a toda a largura e comprimento, ocupando vinte e sete linhas bem contadas de texto quase corrido. Está lá tudo. Literalmente o branco no preto. Às vezes pergunto-me, na presença destas práticas editoriais para vender livros, se merece a pena, logo a seguir, ler o que ficou no interior, se já ficou tão pouco por dizer. Os tópicos arrolados remetem-nos para uma frágil história de amor protagonizada por um ghost writer falhado e uma gossip girl inquietante, para as sombras do Gladio, da P2 e da CIA, para o assassínio do Papa Luciani, para os massacres dos terroristas vermelhos e manobras dos serviços secretos, para as chantagens, intrigas e fantasias ignóbeis que fornecem os ingredientes indispensáveis num manual perfeito para promover a venda de jornais. Fiquemo-nos por aqui e entremos no episódio central que serve de pano de fundo à fábula, o fadário do fundador do fascismo após a queda do regime político por si fundado e da libertação subsequente do país.

O tema do sósia é aqui desenvolvido por Umberto Eco do mesmo modo como George Steiner o havia feito n’O transporte para San Cristóbal de A. H. (1979). Adolfo Hitler e Benedito Mussolini não teriam morrido no final da Segunda Guerra Mundial. Teriam sido substituídos por duplos treinados a criar a ilusão de que o führer germânico e o duce italiano continuavam vivos num qualquer local recôndito do mundo, à espera da ocasião adequada para regressarem ao palco das hostilidades e reconstruirem o reich-impero de braço estendido à maneira romana. Reminiscências desse velho mito arturiano do regresso do salvador da lei e da grei num momento de crise nacional profunda, o mesmo que entre nós se transformou no contramito messiânico do sebastianismo. Os pormenores discursivos seguidos por estes dois ficcionistas ficam a cargo dos eventuais interessados em desvendá-los nos originais, sem terem para tal de recorrer aos resumos desmotivantes de conveniência. Digamos que a técnica literária da ucronia* definida pelo obreiro do relato mais recente funciona às mil-maravilhas, permitindo-nos imaginar o hipotético destino do nosso mundo presente se aquilo que de facto aconteceu tivesse acontecido de maneira diferente.

Vivos ou mortos tanto faz. O papel efetivo de mover destinos no eixo europeu duma nova ordem mundial findou nos derradeiros dias de abril de 1945. A memória dos seus líderes foi sendo apagado pelos sobreviventes. Compulsivamente. A catarse à tragédia representada nesses anos está ainda por fazer. As feridas então abertas estão ainda por sarar. A ameaça de futuras catástrofes paira no ar nos dias que correm. As histórias contadas pelos criadores da palavra escrita tentam a todo o custo proceder a essa purificação exigida por todos como necessária. As histórias contadas pelas pessoas sem direito a protagonismo literário recusam-na. Um dia a ablução acontecerá e o sol voltará a brilhar no horizonte com todo o fulgor há tanto tempo almejada pelas gentes. Miragem dum ver para crer que um porvir incerto mais tarde ou mais cedo materializará.

NOTA
* Umberto ECO, «Os mundos da ficção científica», in Sobre os Espelhos e outros ensaios. [1985]. Lisboa: Difel, 1989, p. 202. 

24 de junho de 2015

George Steiner, o transporte imaginado de A. H. para San Cristóbal

«When I turned against the Jews, nobody came to his aid Nobody...»
George Steiner, The Portage to San Cristóbal of A. H. (1979)
Às vezes apercebo-me com alguma mágoa do tempo desmedido que alguns textos de referência internacional levam a ser vertidos para português, se não se tratar de grandes êxitos editoriais confir-mados. É o que se passa, por exemplo, com O transporte para San Cristóbal de A. H. (2007), que George Steiner deu à estampa em 1979, na Kenyon Review, e logo confiou à forma de livro em 1981. Cerca de trinta anos separam a versão inglesa da traduzida para o nosso idioma. Nesse período de espera, o romance foi adaptado ao teatro e levado à cena em Londres e outros palcos que o «Posfácio» do autor, datado de 1999, não especifica. A polémica criada em torno da obra terá sido geral. Que me tenha dado conta, nenhum eco chegou até mim. Pura distração. Outros ouvidos mais atentos terão captado o rumor e falado com os editores. Duvido. O mais provável é que a fama do grande homem da cultura germano-franco-britânica, de origem judaica e pais austríacos, explique a publicação gradual de todos os seus escritos entre nós, incluindo os ficcionados.

O título, algo obscuro para quem desconheça os meandros da controvérsia, remete-nos para um enigmático A. H., que o leitor desprevenido identificará, e bem, com o protagonista do relato. A sigla, mantida estrategicamente no reino das incógnitas, só será desenvolvida, com todo o recato, sem muitas pressas e parcelar-mente, no final do terceiro capítulo, que termina com as palavras «Herr Hitler». O alegado nome completo do «homem muito velho», capturado no fim do mundo, no interior da selva amazónica, entre o Brasil e a Bolívia, só será documentado por extenso bastante mais à frente e sem grandes pudores. O mistério da identidade da personagem novelesca estava desvendado, altura de deslocar o centro das atenções para a identificação da personalidade histórica retratada. Questionar a versão oficial da morte do chanceler alemão com a verdade dos factos vividos em privado no derradeiro dia do mês de abril de 1945 no Füherbunker de Berlim. Averiguar, em suma, se o cadáver semicarbonizado ali encontrado pelas tropas soviéticas corresponderia ao do ditador derrotado ou ao de um mero duplo que terá sido sacrificado em seu nome.

A «narrativa ficcional» desenvolvida por Steiner envereda, precisamente, por esta última hipótese, resumida no conhecido princípio literário da «ucronia» definido por Umberto Eco, i.e., imaginar «o que teria acontecido se aquilo que realmente aconteceu tivesse acontecido de maneira diferente»*. Neste caso concreto, medir as consequências da sobrevivência de A. H. ao III Reich e posterior refúgio na floresta virgem sul americana. O seu transporte para São Cristóvão é, tão somente, a primeira etapa de uma peregrinação maior que o leitor está arredado de seguir. Os preparativos de um julgamento supranacional são referidos, as dificuldades processuais adiantadas, as pressões políticas asseguradas. A vontade exercida pela instância narrativa ou a economia do discurso remetem-nos para o universo das suposições nunca concretizadas. É que um dos segredos da arte de contar histórias com palavras reside nos silêncios que consegue espalhar ao seu redor.

Lido o texto, inteiramo-nos que o romancista-ensaísta põe na boca dos atores do drama um conjunto de tópicos recorrentes e sobejamente comentados. Os nomes de deus, os erros da palavra, a questão judaica, as memórias da história, a música e as coordenadas do tempo. Alguns outros se poderiam agregar. Fiquemo-nos por aqui. O problema da comunicação entre os homens está patente em todo o corpus textual, materializado no cruzamento de línguas, culturas, fontes e testemunhos em confronto. O poder de argumentação posto ao dispor do fantasma-vivo de A. H. como mestre da palavra é surpreendente e motivo de todas as polémicas. A verdade almejada habitará com certeza no interior desse labirinto feito de conceções contraditórias. O problema está em conseguir alcançá-la sem recorrer à intervenção divina, tão ausente do nosso quotidiano desde que os redatores do(s) Livro(s) das revelações compuseram o derradeiro parágrafo. Na visão do criador, este Transporte «é uma parábola sobre a dor (...) a dor da recordação, a imperativa mas intolerável dor da lembrança». Por isso foi «escrita com dor». Não o duvidamos, conhecendo minimamente a crueza dos factos. A leitura da «fábula» poderá também ela ser fonte de dor. Tudo depende dos olhos que leem, da forma como veem e do modo como sentem.

NOTAS
A leitura ainda em curso do mais recente romance de Umberto Eco, Número zero (2015), onde se equaciona a presença dum sósia de Mussolini, levou-me a chamar à colação da memória deste já datado no tempo de George Steiner, O transporte para San Cristóbal de A. H. (1979), onde se imaginava também a existência dum duplo de Hitler. Por esse motivo, resolvi chamar a este espaço um texto que publiquei no primeiro dia de setembro de 2010 no Pátio de Letras. Deixo-o aqui as minhas notas sobre o destino ucrónico do fürer germânico enquanto não dou um tratamento idêntico às dedicadas ao duce italiano.

* Umberto ECO, «Os mundos da ficção científica», in Sobre os Espelhos e outros ensaios. [1985]. Lisboa: Difel, 1989, p. 202.