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9 de maio de 2025

O centro e a periferia no dia da Europa

Percursos europeus pela arte da Via Redit

Uma península de penínsulas...

A Europa  conheceu melhores dias para festejar este dia que dizem ser o seu. Também teve piores e conseguiu sempre superá-los e sair por cima como sói dizer-se. foi centro e agora é periferia. Pouco importa, se nos lembrarmos que a terra é redonda e que em todos os quadrantes se está tanto no centro como na periferia.

A profundidade do mundo representado a duas dimensões é-nos dada pela arte pintada num continente que é uma península de penínsulas. Em cada istmo há um ponto de ligação com a faixa de terra menor com a maior a que está ligada. As leis da perspetiva são exímias em marcar as reais dimensões em presença.

Vi na Net um mapa da Europa com a obra de arte mais notável de cada país. As penínsulas limítrofes apontam-nos o centro de todos eles. O Grito de Munch, a Vénus de Milo de Alexandre de Antioquia, O tratador de tartarugas de Hamdi Bey e o Fado de Malhoa. Viva esta unidade na diversidade que no dia de hoje se celebra.

9 de maio de 2024

Cafés e cafetarias na Europa de Steiner

Εὐρώπη | Eúrṓpē

A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. Não há cafés antigos ou definidores em Moscovo, que é já um subúrbio da Ásia. Poucos em Inglaterra, após um breve período em que estiveram na moda, no século XVIII. Nenhuns na América do Norte, para lá do posto avançado galicano de Nova Orleães. Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da «ideia de Europa».

George Steiner, A Ideia de Europa (2006: 26)

NOTA
A celebrar a Europa no dia que lhe é dedicado

21 de março de 2024

Maneirismos versificados em décima rima métrica por três vates laureados

PETRARCA - CAMÕES - QUEVEDO

MANEIRISMO
Forma de arte que se desenvolveu na Itália, depois na Europa, no século XVI, sob a influência dos grandes mestres da Renascença.
Les beaux esprits se rencontrent...
I. Francesco Petrarca
     (1304-1374)

Pace non trovo e non ho da far guerra 

e temo, e spero; e ardo e sono un ghiaccio;
e volo sopra 'l cielo, e giaccio in terra;
e nulla stringo, e tutto il mondo abbraccio.

Tal m'ha in pregion, che non m'apre né sera,

né per suo mi ritèn né scioglie il laccio;
e non m'ancide Amore, e non mi sferra,
né mi vuol vivo, né mi trae d'impaccio.

Veggio senz'occhi, e non ho lingua, e grido;

e bramo di perir, e chieggio aita;
e ho in odio me stesso, e amo altrui.
 
Pascomi di dolor, piangendo rido;
egualmente mi spiace morte e vita:
in questo stato son, donna, per voi.
Canzoniere, 1470
II. Luís de Camões
      (1524-1580)

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo amor?

Rimas, 1595

III. Francisco de Quevedo

       (1580-1645)
Es hielo abrasador, es fuego helado, 
es herida que duele y no se siente, 
es un soñado bien, un mal presente,
es un breve descanso muy cansado.

Es un descuido que nos da cuidado,
un cobarde con nombre de valiente,
un andar solitario entre la gente,
un amar solamente ser amado.

Es una libertad encarcelada,
que dura hasta el postrero paroxismo;
enfermedad que crece si es curada.

Este es el niño Amor, este es su abismo.
¡Mirad cuál amistad tendrá con nada
el que en todo es contrario de sí mismo!
                                         Las tres Musas, 1670
NOTA
No Dia Mundial da Poesia, três poetas e um filósofo.

5 de junho de 2022

Do párodo dramático à parada bélica

Jarra de terracota com um coro de andadores de palafitas

DESFILE DE CORISTAS & TRIBUNA DE HERÓIS
Espaço aberto, amplo, plano, situado numa zona nobre da malha urbana. Uma tribuna a um dos lados do recinto, ocupado por um número limitado de ocupantes. Uma multidão em número indefinido, colocada na parte oposta do local de observação privilegiado. Olhar atento de uns e outros, virados todos eles para o centro fulcral das operações. Uma voz audível por todos anuncia o início do desfile ciclicamente preparado todos os anos.

As procissões e sacrifícios áticos feitos sobre os auspícios dionisíacos estavam marcados pelas deambulações dramáticas dos coreutas. Entravam e saíam na orquestra pelos dois PÁRODOS situados à direita e à esquerda da tribuna dos heróisPelo meio, circulam entre o público e os atores. Com a mediação incisiva do deus que nasceu duas vezes, trazem ao presente os factos gloriosos dum passado heroico e que se impunha eternizar.

Nas modernas PARADAS militares, os caminhantes armados não cantam, não dançam, não falam. Limitam-se a marchar em passo cadenciado, imponente, sincronizado. Junto ao palanque de honra profusamente engalanado, olham reverencialmente as autoridades destacadas para o evento e partem avenida fora como se nada fosse com eles, sempre em frente, impávidos e serenos, senhores do seu nariz e sem dizer água-vai.

ccd

Entre o coro teatral que cantava o párodo de entrada dos dramas helenos e os desfilantes bélicos que marcham ao som das fanfarras nas paradas militares, 2500 anos de devir histórico separam o mundo local antigo do global moderno. O propósito cerimonial de render honras aos heróis registados na memória coletiva é comum às duas exibições. Falta saber se umas e outras se limitam a apaziguar o passado ou a comprometer o futuro.

Cortejo Dionisíaco - Vaso Grego
[Stapleton Collection/Corbis]

13 de maio de 2022

Cantigas profanas da Carmina Burana

Macacaria, o casamento da galinha
Manuel Francisco (?) - Frag. 1660/1667 
[Lisboa, Museu Nacional do Azulejo]

FORTUNA IMPERATRIX MUNDI
O Fortuna | velut luna | statu variabilis, | semper crescis | aut decrescis; | vita detestabilis | nunc obdurat | et tunc curat | ludo mentis aciem, | egestatem, | potestatem | dissolvit ut glaciem. || Sors immanis | et inanis, | rota tu volubilis, | status malus, | vana salus | semper dissolubilis, | obumbrata et velata | mihi quoque niteris; | nunc per ludum | dorsum nudum | fero tui sceleris. || Sors salutis | et virtutis | mihi nunc contraria, | est affectus | et defectus | semper in angaria. | Hac in horasine mora | corde pulsum tangite; | quod per sortem | sternit fortem, | mecum omnes plangite!
Carmina Burana: 
Cantiones profanæ, cantoribus et choris cantandæ, comitantibus instrumentis atque imaginibus magicis (c. 1100-1200)

Na viragem do Ⅱ.º para o milénios, os monges eruditos e errantes conhecidos por goliardos terão compilado a Carmina Burana, um conjunto de 254 cantos dramáticos de natureza mordaz e malicioso, deixados manuscritos num códice encontrado em Benediktbeuern na Baviera e publicados em 1847. Compostos em latim macarrónico, com incursões rápidas ao alto-médio alemão vernáculo e vestígios do frâncico e do provençal, datam dos sécs. -ⅩⅢ e revelam fortes influência duma cultura medieval plena que já se preparava para abrir as portas ao renascimento italiano.

Nas antevésperas da Segunda Guerra MundialCarl Orff musicou 24 desses poemas satíricos oriundos dum passado europeu remoto, deu-lhe a forma duma cantata cénica intitulada Carmina Burana: Cantiones profanæ, cantoribus et choris cantandæ, comitantibus instrumentis atque imaginibus magicis (1935-1936). Estreou-a na Alte Opera de Frankfurt a 8 de junho de 1937, já a Guerra Civil Espanhola tinha dado os seus primeiros passos. A Rota Fortunæ, no seu fluxo cíclico de altos e baixos, não se cansava de revezar os vencedores dum dia com os perdedores do seguinte.

No dia 13 de maio de 2018 o Teatro das Figuras de Faro abriu as portas a todos os que quiseram assistir a uma versão original da Carmina Burana, interpretada pelo Coral Ossónoba e solistas. Vestido de mero espetador, trauteei em silêncio a Fortuna Imperatrix Mundi que abre e encerra a cantata. Uma voz interior disse-me que integrasse o grupo. Segui o conselho. A roda da fortuna estaria do meu lado quando pedisse uma audição. Assim foi. Em junho desse mesmo ano fui aceite. Até hoje e com muitos amanhãs pela frente. Assim se me mantenha a voz afinada e o ouvido apurado.

Rota Fortunae: Extant/Extinction
[ArtXchange Gallery, 2019]

FORTUNA IMPERATRIZ DO MUNDO
Ó Fortuna | és como a Lua | variável de estado, | sempre aumentas e diminuis; | vida detestável | ora oprime | e ora cura | brinca com a mente; | a miséria, | o poder, | ela os funde como gelo. || Destino monstruoso | e vazio, | tu – roda volúvel – | és má, | vã é a felicidade | sempre dissolúvel, | sombria | e velada | também a mim contagias; | agora por brincadeira | o dorso nu | entrego à tua perversidade. || A fortuna na saúde | e virtude | agora está contra mim. | Dá | e tira | mantendo sempre escravizado. | Nesta hora | sem demora | tange a corda | vibrante; | porque a sorte | abate o forte, | chorais todos comigo!

9 de maio de 2022

Dia da Europa e de outros eventos cíclicos dignos de memória

Abraham Ortelius, Theatrum Orbis Terrarum, Antuérpia, 1570

Dizem os almanaques ser o dia 9 de maio o 129.º do calendário gregoriano e 130.º nos anos bissextos, faltando, portanto, 266 dias para o final do ano. Informações de pouca monta se logo de seguida se não elencasse um conjunto considerável de eventos cíclicos de caráter global dignos de memória e de celebração especial.

Neste mesmo dia de anos diferentes nasceu e morreu muita gente como aliás nos restantes dias do ano. Só os nomes das estrelas de primeira grandeza figuram nestas listagens de almanaque. Destaco Schiller ‒ falecido em 1805 ‒, por ter versificado a Ode da Alegria, o hino oficial da União Europeia musicado por Beethoven.

Todos os anos se festeja nesta data o Dia da Europa. Esquecemo-nos das terras e usos, rocas e fusos que nos caraterizam e abraçamos uma comunidade de 27 países unidos na diversidade. Deixámos de ocupar o centro do mundo ‒ como durante muito tempo se pensou ‒ e passámos a meros cidadãos do Theatrum Orbis Terrarum.

Fossem eles números redondos, assinalar-se-ia hoje o desembarque da Nona Cruzada em Acre (1271), a assinatura do Tratado de Windsor (1386) ou a adesão da Alemanha Ocidental à NATO (1955). Com toda a pompa e circunstância habituais, a Federação da Rússia comemora cada 9 de maio o Dia da Vitória na Guerra Patriótica (1945).

O regime do Kremlin não fugirá este ano aos desfiles bélicos tão ao agrado da defunta URSS no final da Segunda Guerra Mundial. se desconhece as surpresas que o atual senhor de Moscovo terá em mente para solenizar a efeméride vivida nesta data: gritar as vitórias sublimes do passado ou calar as derrotas clamorosas do presente.

26 de abril de 2022

Impérios do Mundo

LA JÉRUSALEM CÉLESTE
Tapisserie de l'Apocalypse
[Château d'Angers, France, c. 1375]
Eternos moradores do luzente, | Estelífero Polo e claro Assento: | Se do grande valor da forte gente | De Luso não perdeis o pensamento, | Deveis de ter sabido claramente | Como é dos Fados grandes certo intento | Que por ela se esqueçam os humanos | De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.
Luís de Camões, Os Lusíadas, 1572 (I, 24)
… depois dos três impérios dos Assírios, Persas e Gregos que já passaram, e depois do quarto, que ainda hoje dura, que é o Romano, há de haver um novo e melhor Império que há de ser o quinto e último.
Padre António Vieira, História do Futuro, 1653-1661 (I, i )
Grécia, Roma, Cristandade, | Europa – os quatro se vão | Para onde vai toda idade. | Quem vem viver a verdade | Que morreu D. Sebastião?
Fernando Pessoa, Mensagem, 1936 (III, i, 2.º, 5)

Da Terceira Roma à Nova Jerusalém...

Quando durante a Revolução Neolítica os caçadores-recoletores nómadas se tornaram agricultores-pastores sedentários, o processo embrionário de formação dos impérios começou a perfilar-se no horizonte. Se nos cingirmos à visão bíblica judaico-cristã, ter-se-iam sucedido quatro grandes entidades políticas de dimensão territorial crescente, identificadas com o Assírio-Babilónico, o Medo-Persa, o Greco-Macedónico e o Romano-Bizantino. Outros se lhe seguiram ao longo dos séculos, mas nenhum deles conseguiu conquistar o domínio almejado e inequívoco de Quinto Império do mundo.

A literatura épico-profético-lusitana de Luís de Camões, do P.e António Vieira e Fernando Pessoa olharam para os vastos domínios dos reinos e senhorios de Portugal e Algarves, de Aquém e Além-Mar em África, da Guiné, Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia como globais, sem abranger todavia os vinte e quatro fusos horários da esfera terrestre. Nem o império católico dos filipes hispânicos onde o sol nunca se punha, nem o napoleónico do imperador dos franceses, nem o império anglicano de sua majestade britânica lograram erigir nos seus tempos áureos de conquista eurocêntrica do mundo.   

Os impérios centrais eurasiáticos autocratas altamente belicistas dos alemães, dos austro-húngaros, dos otomanos turcos e dos ortodoxos russos ruíram durante a Grande Guerra, seguidos na geração imediata da queda do eixo imperial germano-italiano-nipónico no final da Segunda Guerra Mundial. O tempo dos impérios parecia ter desaparecido de vez do horizonte planetário global na passagem do segundo para o terceiro milénios, sobretudo a partir do derrube do Muro de Berlim e da subsequente implosão interna do império soviético e do universo da cintura-tampão de países-satélites.

Nos dias de hoje, o sonho delirante do ideado patriarca da alma russa, a real e a imaginária, o candidato presumido a senhor absoluto de toda a Rússia, grande, pequena e branca, empenhou-se na tarefa providencial de recuperar a grandeza imperial de superpotência muito perdida. O predador-vencedor/perdedor continua a sua cruzada de reunir as parcelas sumidas da miríade de entidades multinacionais anexadas pela força das armas no decurso dos séculos. Triste César este de pacotilha, ocupante de ruínas alçadas numa terra queimada, devastada mas nunca subtraída à vontade indomável dos povos.

O novo grão-duque de Moscóvia, o novo czar sem coroa do Kremlin, o novo soberano redentor da Rus eslava, ambiciona ativar a titularia imperial herdada do passado e tornar-se o potentado supremo da urbe humana globalizada, o messiânico conquistador do Quinto Império. Moscovo, já considerada a Terceira Roma terrestre, passaria a ser também uma legítima e merecida Nova Jerusalém celestial, a cabeça bicéfala do ambicionado Império do Mundo. Delírios do novo déspota enlouquecido que nos calhou na rifa. Cuidado com ele que anda por aí às claras a atazanar-nos o juízo.

Reuterswärd – Non-Violence – New York City (2012)

16 de março de 2022

Jogos de tabuleiro a preto e branco

Maria Helena Vieira da Silva
La partie d'echecs | A partida de xadrez
[Paris - Centre Pompidou - 1943]
«Um bom jogador de xadrez está sinceramente convencido de que a sua derrota decorre dum erro seu e então procura esse erro no início do jogo, mas esque-ce que a cada etapa, ao longo de toda a partida, houve erros semelhantes e que nenhum dos seus lances foi perfeito. O erro ao qual o jogador dirige a sua aten-ção lhe parece mais saliente porque o adversário tirou proveito dele. Bem mais complexo que isso é o jogo da guerra, que se passa em condições de tempo determinadas e onde não uma vontade única que governa mecanismos inani-mados, mas, ao contrário, tudo decorre de um conflito incalculável de vontades distintas
Leão Tolstói, Guerra e Paz (1865)
 Jogos de Xadrez  Guerra Paz 

Quem invade um país rival acaba sempre derrotado. Mais tarde ou mais cedo, duma maneira ou de outra. Às vezes uma reviravolta geoestratégica nos jogos de guerra e paz dura menos tempo do que uma partida de xadrez. Os ditadores acabam muitas vezes por ter um final bem mais dramático do que o sofrido pelo rei adversário após o xeque-mate num jogo de tabuleiro pintado a preto e branco.

Napoleão foi derrotado pelo General Inverno na Rússia czarista e acabou exilado em Santa Helena, ao que parece envenenado. Hitler foi derrotado em Estalinegrado na Rússia soviética e acabou por se suicidar num bunker duma Berlim arrasada pelos exércitos aliados. As invasões dos exércitos francês e germânico aos países vizinhos acabaram mal haviam começado. Só deixaram a morte atrás de si.

As lições da História deveriam calar fundo nos países que alguma vez se viram invadidos, impedindo-os de cometer os mesmos erros. A derrota dos exércitos invasores da URSS ao Afeganistão deveriam ter servido de exemplo às agora forças invasoras da Federação Russa à Ucrânia. Parece que as megalomanias napoleónicas e hitlerianas passadas de pouco terão servido às putinadas atualmente em curso.

Nos duelos de David e Golias os anões podem vencer os gigantes. A funda certeira do futuro rei de Israel lançou por terra o soldado filisteu. Uns cocktail molotov bem direcionados pela resistência finlandesa acabou numa centena de dias com as forças invasoras de Stalin no inverno de 1939-1940. As hordas invasoras do novo inquilino do Kremlin que se cuidem. A resistência dos povos move montanhas.

27 de agosto de 2021

As duas rainhas titulares marginalizadas

      Condessa-Rainha Dona Teresa de Leão & Rainha Dona Beatriz de Borgonha      

A lista comummente aceite como oficial da Coroa Portuguesa regista trinta e cinco monarcas, entre os quais se contam duas rainhas da Casa de Bragança, Dona Maria (1777-1816) e Dona Maria Ⅱ (1826-1828 e 1834-1853), apesar de terem partilhado o governo com os consortes Dom Pedro  (1777-1786) e Dom Fernando  (1837-1853). Para além do isolado caso de Garcia de Portugal e Galiza, da estirpe dos Jiménez de Pamplona, ficaram ainda de fora Dona Teresa de Leão e Dona Beatriz de Portugal, soberanas suo iure (= de seu pleno direito) da dinastia condal e real de Borgonha. Reinados agitados por conflitos bélicos regionais, peninsulares e europeus, que abrangem em termos cronológicos a Batalha de São Mamede (1128), o Interregno (1383-1385), as Invasões Francesas (1807-1811) e as Guerras Liberais (1832-1834).

Após a morte do marido, Dona Teresa dirigiu o Condado Portucalense como regina, por ser filha de Afonso Ⅵ, o Imperator totius Hispaniæ, e ter recebido essa honraria papal de Pascoal Ⅱ, pela bula Fratrum nostrum de 18 de junho 1116. A viúva do Conde Dom Henrique assumiu, assim, a soberania plena do território que havia recebido à data do casamento pelo pai e que dirigira de facto (= na prática e de direito) com o marido e sozinha. Em contrapartida, Dom Afonso Henriques, por descender dum mero comiteteve de se contentar com o título de dux, dado por Lúcio  na carta Devotionem tuam de 1 de maio de 1144), antes de se proclamar princeps e rex, mal destituiu a mãe em 1128. O reconhecimento da titularia régia teria de esperar sessenta e três anos pela assinatura de Alexandre Ⅲ na bula Manifestis probatum de 23 de maio de 1179.        

Dona Beatriz, a única filha de Dom Fernando  e Dona Leonor Teles, herdou o trono logo após a morte do pai. Le roi est mort, vive la reine, i.e.,  Real, real, pela rainha de Portugal. Como a nova rainha tinha à data 10 anos e estava casada com Juan  de Castela, o receio de anexação pelo consorte Trastâmara, por Iure uxoris (= em direito da mulher), deu origem à crise dinástica que terminaria com a vitória de Dom João  de Portugal, o Mestre de Avis, na batalha de Aljubarrota. A última representante de iure (= pela lei e pelo direito) dos Borgonha, de 22 de outubro de 1383 a 14 de agosto de 1385, foi deposta pelo tio, sob o pretexto de bastardia, dada a fama da mãe. Marginalizada pelo vencedor, a filha da Aleivosa foi excluída de soberana de Portugal tendo continuado consorte de Castela. O ostracismo histórico a funcionar no seu melhor.

As duas rainhas caídas e esquecidas