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30 de outubro de 2022

Baile mandado das horas

Cadran d'horloge de la Révolution française
[Combiné traditionnel et décimal]

Às duas horas deste último domingo de outubro, voltará a ser uma da manhã em Portugal peninsular e Madeira. A antecipação nos Açores far-se-á à uma hora do novo dia, respeitando a diferença de fuso horário de GMT+0 para GMT-1. Dá-se assim início à hora oficial de inverno, ao que parece aquela que estará mais de acordo com a hora solar aparente ou real, num compromisso medial nem sempre pacífico entre a hora fornecida por um relógio solar (sol verdadeiro) e por um relógio comum (sol fictício).

Se o calendário republicano francês continuasse a marcar a dança das horas, teríamos de esperar pelo 8.º minuto, do 8.º dia, da 1.ª década do mês de Brumário, do ano 221, para recolocar o relógio no início do horário oficial de inverno. Complicado mas curioso para quem está afastado desses modismos revolucionários a seu tempo criados e revogados. Napoleão terá tido em boa hora as suas razões para deixar de vez a hora decimal dos sansculotides e restabelecer a duodecimal dos royalistes. Hèlas !

22 de dezembro de 2019

Invernos em verso & tela

Marc Chagall - L'hiver (1966)

Quando está frio no tempo frio...
Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse
                                                                               [agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das coisas
O natural é o agradável só por ser natural.
Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do inverno—
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no facto de aceitar—
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural    
                                                                                  [inevitável.
Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o inverno da minha pessoa e da minha vida?
O inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do verão
E o frio da terra no cimo do inverno.
Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência.
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer coisa que não fosse o Mundo.
Fernando Pessoa | Alberto de Caeiro, «Poemas inconjuntos» (1946)

23 de setembro de 2019

Outonos em verso & tela

Abel Grimmer -  Outono (1607)


Uma névoa de outono...
Uma névoa de outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.
Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.
Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta…

Fernando Pessoa | Alberto Caeiro, «Poesias inéditas» (1930-1935)

21 de junho de 2019

Verões em verso & tela

Sebastian Stoskopff, L'été ou Les cinq sens (1633)

        Como quem num dia de verão...


Como quem num dia de verão abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes, de repente, bate-me a natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber
Não sei bem como nem o quê...

Mas quem me mandou a mim querer perceber?
Quem me disse que havia que perceber?

Quando o verão me passa pela cara
A mão leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que eu o sinta,
Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo...
Fernando Pessoa | Alberto de Caeiro, «O guardador de rebanhos» (1946)

13 de maio de 2019

Galettes de primavera e de todo o ano

MARCHÉ DES LICES

Poster Rennes à colorier


Les galettes-saucisses du Marché des Lices à Rennes ...

A capital da Bretanha acorda cedo todos os sábados. Das 7.30h da manhã às 13.30h da tarde, Rennes donne rendez-vous a todos os interessados no Marché des Lices, para se abastecerem junto de três centenas de produtores, artesãos e comerciantes locais. É assim há 400 anos ou talvez mais. Faça sol ou faça chuva, com calor ou com frio, em dias sim ou assim e assado.

Já perdi a conta às vezes que me deixei envolver pelas ambiências vividas nas mediações das duas Halles Martenot. Tenho-o feito com grande assiduidade desde a década de 70 em período de férias grandes. Ultimamente passei a fazê-lo também pela Páscoa e Carnaval. A animação nunca falta. Os habitués transitam duma estação para outra como se fosse sempre a mesma.

Desde 2017 que não me cruzo com les couche-tard et les lève-tôt, les bourgeois et les bobos, les mamies et leurs chariots, les chefs étoilés et les amateurs de fast good rennais. Tenho de voltar um dia destes. Quanto mais não seja para saborear ali mesmo une galette-saucisse et une bolée de cidre bouché. Néctar das divindades sazonais do verão-outono-inverno-primavera e de todo o ano.

GALETTE-SAUCISSE

20 de março de 2019

Primaveras em verso & tela

Sandro Botticelli - Primavera (1481 - 1482)

[Firenze, Le Gallerie degli Uffizi]

Quando tornar a vir a primavera
Quando tornar a vir a primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a primavera nem sequer é uma coisa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.

Fernando Pessoa | Poemas de Alberto Caeiro (1925)

4 de janeiro de 2019

Churros de inverno e de todo o ano

Plaza Mayor de Salamanca

Tessa Domene Moris

Chocolate con churros en la Plaza Mayor de Salamanca...

Em meados da década de 70, passei parte do Natal, a noite de São Silvestre e o dia de Reis em Espanha, entre Badajoz e Burgos, com paragens em Cáceres, Plasencia, Valladolid e Salamanca. Fi-lo na companhia de amigos da Extremadura com familiares espalhados por Castela e Leão. Em Baños de Montemayor, ouvi o cura local proferir o sermão mais incendiário de toda a minha vida sobre as penas do inferno. Ao atravessar a serra de Béjar, coberta de gelo e neve brancas a contrastar com o cinzento do céu, o Luis Aguilé cantava Es el sol español, es el sol español, uma brincadeira estival radiodifundida num trajeto invernal.

As minúcias da natividade local dariam para várias histórias. Deixo-as no tinteiro virtual da escrita internética. Viro-me para os mosteiros e conventos vistos num dia na mais antiga cidade universitária da Hispânia. Tantos quantos os arcos da ponte romana que celebrizaram o protagonista do Lazarillo de Tormes. À noite, a temperatura desceu para os -12º C. Os pés deram sinal de si em forma de câimbra. O chão chamou por mim. Valeu-me um chocolate bem quente com churros feitos na hora. A Cafetaría Las Torres da Plaza Mayor de Salamanca salvou-me in extremis da catástrofe. Remédio santo de inverno e de todo o ano. Esquisitice não mora aqui.

28 de outubro de 2018

A dança das horas

       O relógio dos livros & a hora das leituras      

O relógio marca a hora...


Adormeci com o horário de verão e acordei com o de inverno. Em conformidade com a legislação que regula a hora em Portugal, atrasei 60 minutos o relógio antes de me deitar e teoricamente terei dormido mais uma hora esta noite, quando na realidade estive na cama o mesmíssimo tempo que estaria num qualquer domingo do ano.

No ar fica a dúvida de saber se a dança das horas se fez pela última vez ou se se vai repetir ab æterno na mudança de estação. Aquela em que os calções e as T-shirts dos dias quentes e os cachecóis e a roupa-de-tapa-tudo dos dias frios disputam entre si a entrada triunfal em cena para executar as suas coreografias semestrais.

A UE diz que o baile vai parar. Por cá o PM diz que vai seguir. Um braço-de-ferro inútil que a breve trecho os 27 porão fimDurante anos a fio disse-se cobras e lagartos contra a mudança de hora. Dum dia para o outro passou a destilar-se veneno pela sua manutençãoVá-se lá ser sacristão nesta freguesia com tais fiéis/infiéis residentes.

10 de outubro de 2018

Pizzas de outono e de todo o ano

Galleria Vittorio Emanuele II di Milano

Alberto Oliva Comics

Pizza nella Galleria Vittorio Emanuelle II di Milano...

Em trânsito de Varsóvia para Faro, fiz escala por algumas horas em Milão. Tudo se passou sete anos, mais dia menos dia, e inseriu-se na participação num Colloque International, organizado pela Chaire de Philologie romane, da Universidade de Łódź. Levei até ali uma reflexão pessoal sobre a Catherine Clément e as Dez mil guitarras, que os seguidores de D. Sebastião terão deixado em Alcácer-Quibir, após a infortunada Batalha dos Três Reis. O texto anda por aí à solta na Net em formato PDF e pode ser encontrado por quem o quiser achar. Deixemo-lo navegar sem sobressaltos.

Sobrevoámos os Alpes, que medeiam a Polónia da Itália, aterrei na capital da Lombardia. Uma navetta levou-me a mim e à minha colega e amiga à stazione centrale. A linha amarela da Metropolitana conduziu-nos à piazza Duomo. A aventura milanesa ia começar. A e de city tour. O Miracolo a Milano do Vittorio de Sica surgiu-nos logo ali, à saída do Metro. Visita lenta à catedral. Olhar atento à città degli Sforza. Praças, estátuas, palácios, jardins. Uma pausa junto ao Teatro alla Scala e ao Leonardo da Vinci impôs-se. E uma área de La Traviata de Verdi soou subitoLibiamo ne' lieti calici.

Uma travessia nos diversos sentidos da Galleria Vittorio Emanuele II encaminhou-nos até ao Il Salotto. Pausa apetecida para degustar uma pizza quattro stagioni outonal e beber uma birra pilsner Nastro Azzurro. Os sabores italianos provados in situ. Tempo para pôr a con-versa em dia, para viver o pós-conferência, para falar doutros pro-jetos coloquiantes com sabor viandante e empenhados na descober-ta de novos horizontes. Tempo para um arrivederci alla prossima vol-ta à Milan e preparar o retorno a casa. O desejo então expresso con-tinua ainda no ar à espera duma concretização rápida. Ecco!

26 de julho de 2018

Gelados de verão e de todo o ano

JULY PARIS MAPS

 Rue Saint-Louis en l'Ile

Les sorbets de l'île Saint-Louis à Paris...
A primeira vez que pus os pés em Paris andei numa lufa-lufa dum lado para o outro. Em três dias palmilhei umas boas léguas bem-medidas de praças e pracetas, de ruas e ruelas, avenidas e alamedas. Um corre-corre sem parar por todos os recantos da Paname banhada pelas das duas margens do Sena. Fiquei-me pelos exteriores da Cidade-Luz, mochila às costas, sapatilhas nos pés e Guide Vert Michelin na mão.

Eu e os meus copains de route piquenicámos no Parc Monceau, no Jardin du Luxembourg e no Champ de Mars. A frescura das fontes e a sombra das árvores amenizaram a canícula estival reinante. Depois do sol se pôr e da lua se levantar, petiscámos nos bairros mais populares. Montmartre, Quartier Latin, Les Halles, Marais, Saint-Germain-des-Prés, Boul’Mich’, Champs Elysées. Um punhado de opções sedutoras ao virar da esquina.

A memória seletiva desse verão fixou-se no coração da velha Lutécia galo-romana. A sabedoria dos meus amigos parisienses levaram-me à Île Saint-Louis, mesmo ali ao lado da Île de la Cité, na pista dos mais famosos gelados da cidade, do país e quiçá do mundo. Saboreei uma meia dúzia dos noventa sabores oferecidos pela Maison Berthillon. Um festim refrescante para os sentidos que mais tarde ou mais cedo terei de repetir. Il le faut absolument.

4 de junho de 2018

Crónica primaveril duma taça de cerejas

UM MONTE DE CEREJAS 
Quem quer uma quer um cento

A passagem lenta dos frios invernais para a canícula estival faz-se através do vermelho carnudo, suculento e sensual da cereja. Os chapéus-de-chuva fecham-se e os chapéus-de-sol abrem-se. Os tempos do negócio cedem passo aos tempos do ócio.       

E as cerejas são como as palavras, atrás dumas outras vêm. A cesta pintada pela Josefa d'Óbidos torna-se numa taça perfumada de cerejas. Primaveril. A linguagem dos sentidos com todos os sentidos consentidos e a gosto. E a natureza-morta ganha vida.

Juventude, doçura, sensualidade, fertilidade, efemeridade, pureza, inocência, fragilidade, felicidade, amor, esperança e nascimento cabem todos numa mão-cheia de cerejas. Cada fruto um mundo de sabores exóticos a festejar a plenitude do ser e do estar.

2 de janeiro de 2018

Crónica invernal duma fartura de feira

   FARTURAS  DE  FEIRA   

Cobertas com açúcar e canela


O rescaldo de Natal é feito com uma memória muito viva das guloseimas próprias da época, sobretudo daquelas que passam pela fritura em azeite e são depois polvilhadas com açúcar e canela. As filhós em casa e as farturas na rua.

Os mercados natalícios propõem-nos ainda os churros à portuguesa (simples ou recheados) e os malacuecos à algarvia (redondos e achatados). Só falta acompanhar os primeiros com chocolate quente e os segundos com um café bem tirado.

A quadra já toca a reta final com o bolo-rei a acenar nas vitrinas das pastelarias. Vai reinar em ambiente republicano até ao Dia de Reis. Só as farturas de feira, cobertas com açúcar e canela, durarão o ano inteiro. Quentinhas. Faça calor ou faça frio.

11 de novembro de 2017

Crónica outonal da castanha na brasa

 CASTANHAS ASSADAS  

Quem quer quentes e boas...


No dia de São Martinho, lume, castanhas e vinho. O magusto este ano foi traído pela falta de qualidade da castanha trazida do híper, imprópria para assar em casa. Assim nem foi preciso trocar a água-pé pela jeropiga, nem o fogareiro a carvão pelo forno da cozinha. A inauguração oficial do outono ficou adiado sine die, neste tempo estival que ameaça prolongar-se até ao Natal.

A castanha é de quem a come e não de quem a apanha. Diz quem sabe. Quentes e boas como as da feira de Santa Iría. Apetitosas e a saber a sal. QB. Casca solta e estaladiça. Cada uma a fazer inveja às restantes. E quem come uma come um cento, ainda que as tenha de repartir por várias etapas. À entrada do Fórum de Faro ou na rua de Santo António acima e abaixo.

A castanha tem três capas de inverno: a primeira mete medo, a segunda é lustrosa e a terceira é amarga. Numa época em que o clima nos troca as voltas, vivamos as memórias da estação. Ouvir os pregões do homem das castanhas. Vê-las a saltar na brasa. Cinzentas e amarelas. Cheirá-las. Levar uma dúzia para casa. Saboreá-las. Matar a fome e chorar por mais.

28 de agosto de 2017

Crónica estival duma bola-de-berlim

 BOLINHAS-DE-BERLIM 

Barquilheiros & Bolinheiros

Nas praias do oeste estremenho da minha infância e adolescência, gritava-se a plenos pulmões: Barquilheeeero, Bolacha Americana!... O pregão ecoava por entre as barracas de lona estampada com riscas coloridas. Aldeias de armar e desmontar todos os verões, com ruas de areia branca e vista para o mar azul.

Nas praias do sotavento algarvio das minhas maturidades pós-adolescentes, grita-se: Boliiiinhas, com creme sem creme, com alfarroba ou chocolate!... O pregão continua a ecoar por entre os guarda-sois garridos plantados a esmo ao longo da costa. Florestas estivais de abrir e fechar no areal à beira-mar.

Nas praias do sul pré-mediterrânico, começa a gritar-se: Saladiiiinhas de Fruta! O pregão ecoa solitário. Sem sucesso. A fruta come-se fresca em casa, a bolinha quente acabada de fritar. A bola-de-berlim continua rainha em terras republicanas. Mistérios gastronómicos dos sentidos que Pantagruel saberá explicar.

21 de junho de 2017

Verões de festa e alegria

ESTATE

Giuseppe Arcimboldo

[Musée du Louvre - Paris - 1573]

O dia mais longo depois da noite mais curta

O verão é a estação do ano por que todos ansiamos enquanto du-ram as restantes. Aos outonos da prosperidade e decadência, aos invernos do recolhimento e reflexão e às primaveras da pureza e re-novação, sucedem os estios da festa e alegria. É o triunfo do dia sobre a noite, da luz sobre as trevas, do cosmos sobre o caos.

Giuseppe Arcimboldo (1527-1583) representa-o como Vertumno. Atribui-lhe as feições joviais da divindade etrusca que promovia a mudança da vegetação e a maturação dos frutos. A alcachofra eleita como emblema simboliza a regeneração da vida e a ressu-rreição dos mortos, porque volta a florescer depois de queimada.

Nas guerras sem trégua de gato e rato, de alecrim e manjerona ou do ser e parecer, as estéticas maneiristas dizem-nos que no final da refrega nunca há vencedores nem vencidos absolutos. Equinócios e solstícios saem sempre empatados. As mesmas horas, os mesmos minutos, os mesmos segundos de claros-escuros anuais.

20 de março de 2017

Primaveras de pureza e renovação

PRIMAVERA

Giuseppe Arcimboldo

[Musée du Louvre - Paris - 1573]

Quando os dias ganham fôlego e igualam as noites

A primavera é a estação do renascimento e da purificação da natureza. Concreção periódica do mito do eterno retorno que nos faz sonhar com o da eterna juventude. A morte a render-se à vida. Coisas de deuses e heróis oferecidas anualmente aos homens. Ilusão efémera situada entre a friagem invernal e a canícula estival.

Giuseppe Arcimboldo (1527-1583) alia-o a Adónis. Às flores fres-cas, às roseiras bravas, às margaridas silvestres. Deu-lhe o aspeto juvenil de alguém que está enamorado da sua própria figura. Veste uma capa feita de elementos vegetais. Folhas, arbustos, musgo. O lírio escolhido como emblema simboliza a glória do amor sublimado.

As lições paradoxais que o maneirismo impôs na cultura quinhen-tista europeia mantêm-se atuantes nos nossos dias. A entrada num novo ciclo vital pressupõe também ele o início do fim. Tempus fugit. Os equinócios e solstícios batem-se entre si pelo predomínio dos dias e das noites. Miragem sazonal de luz e sombra. Nada mais...

21 de dezembro de 2016

Invernos de recolhimento e reflexão

INVERNO

Giuseppe Arcimboldo

[Musée du Louvre - Paris - 1573]

O dia mais curto depois da noite mais longa

O inverno começa com o dia mais curto do ano e termina com o nú-mero de horas idêntico ao da noite. Equilíbrio efémero de imediato desfeito pela primavera dentro e só será recuperado na passagem meteórica do verão para o outono. Luta sem quartel entre equinócios e solstícios a marcar a roda contínua das estações.

Giuseppe Arcimboldo (1527-1583) liga-o a Thanatos. À hera, às raí-zes e aos fungos. Deu-lhe um ar carrancudo de alguém que está de mal com a vida e ganhou um esgar duradoro no olhar. A seiva dos verdes anos secou de vez e deixou um tronco morto em seu lugar. O limão usado como emblema simboliza o azedume da velhice.

A tradição milenar que o maneirismo consagrou associa-o ao final dum ciclo de vida. Aquele que se situa entre o alfa e ómega da exis-tência humana. Tempo de recolhimento e reflexão. A linearidade do homem a perder aos pontos com a circularidade da natura. Sem apelo nem agravo. Imparavelmente. Dia após dia, noite após noite...