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1 de abril de 2019

April Fools' Day

A Laughing Fool

Jacob Cornelisz. van Oostsanen (ca. 1500)
A verdade da mentira ou a mentira da verdade
Westminster resolveu discutir a petição pública online de revogação do artigo 50 para pôr termo ao Brexit no dia das mentirasApril Fools' Day ou All Fools' Day, dirão os súbditos de Sua MajestadeAté ape-tece rir mas é algo muito sério. É que as fake news fazem pouco ou nenhum sentido no Primeiro de Abril quando andam à solta o ano inteiro sem pedir licença a ninguém.

Enquanto os debates parlamentares decorrem na Lower House neste dia oficial das patranhas, tretas e tangas mil, dá vontade de recordar o Paradoxo do Mentiroso. Se um indivíduo declarar «Estou a mentir», então se for verdade é falso e se for falso é verdadeiro. Deve ser por isso que os políticos da nossa e doutras praças só se permitem dizer «Eu sou a verdade».

As mentiras disfarçadas de verdade invadiram de tal modo esta nossa aldeia global, que continuar a alimentar a ilusão fantasista da conversão do Paraíso perdido num Paraíso recuperado, após a saída libertadora do angélico UK da pérfida UE, é pura perda de tempo. Nesta metamorfose épica pós-Brexit nem John Milton tem poder para valer ao caricato John Bull.

Neste engano de sentidos prometidos a torto e a direito, chamemos com apreço os quatro elementos de Giuseppe Arcimboldo, o grande mestre maneirista dos embustes pintados com arte. Sobre a verdade da mentira ou a mentira da verdade plebiscitada pela imortal Albion, digamos: foi tudo por ÁGUA abaixo, foi um AR que lhe deu, foi um FOGO de palha, foi TERRA mal semeada.
I quattro elementi di Arcimboldo:  Acqua - Aria - Fuoco - Terra  (1566 - 1570)

1 de novembro de 2017

A violência titânica da terra

MÚSICA MUNDANA
Robert Fludd, Utriusque Cosmi, 1617

O primeiro elemento...

No dia de Todos os Santos de 1755, a terra tremeu resvés Campo de Ourique e caiu o Carmo e a Trindade. As velas dos templos pegaram fogo e consumiram o casario de Lisboa. Uma onda gigante de água atlântica inundou a cidade. Pelo ar coberto de fumo ecoou o clamor dos que haviam sobrevivido à catástrofe.

Diz-se que el-Rei Dom José I terá questionado Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Conde Ourém e Marquês de Pombal, sobre o que se devia fazer. Este ter-lhe-á respondido: Sepultar os mortos, cuidar dos vivos e fechar os portos. Palavras sábias também atribuídas ao General Pedro d'Almeida, Marquês de Alorna.

A atitude do Secretário de Estado contrastou com a da Santa Inquisição. O terramoto desse 1 de novembro seria um castigo divino aos pecados humanos. Um auto-de-fé foi organizado como penitência. O fogo voltou à terra e as cinzas suspensas no ar acabaram nas águas do Tejo. A purificação estava concluída.

11 de setembro de 2017

A fúria fustigadora do ar

MÚSICA DAS ESFERAS

Robert Fludd,  Utriusque Cosmi, 1617

O terceiro elemento...

Dizem os manuais de geografia física que o vento é o ar em movimento. Dizem também que todos eles circulam sempre das altas para as baixas pressões. A direção que tomam, nos sentidos horário ou anti-horário, depende do hemisfério em que soprem, o Norte ou o Sul. Terão assim direito a integrar-se nas categorias genéricas dos Ciclones (B) e dos Anticiclones (A).

A intensidade com que se fazem sentir condiciona também a sua designação específica. Aragem, brisa, vendaval, tornado, tufão, furacão e outra vez ciclone. Os locais onde se formam conduz a um léxico eólico muito extenso. Áfrico, austro, gregal, levante, mistral, siroco, tramontana, zéfiro, para só referir aqueles que se formam na bacia mediterrânica nossa vizinha.

O ar é o único elemento primordial que não se deixa ver. É o mais misterioso dos quatro. Inspirador de mitos e lendas. Foi com um leve sopro que Iavé deu a Adão o dom divino da vida. Foi com um gesto protetor que Éolo encerrou num odre os ventos nocivos do regresso de Ulisses a Ítaca. Depois é o que se sabe. O Génesis e a Odisseia de Homero dão os pormenores.

Muito zangados estão os deuses com os homens. Muitos pecados terão cometido para merecer tais castigos. O Harvey ainda não tinha acabado de assolar as costas do Caribe mais as do Golfo e já se avistava no horizonte a força destrutiva do Irma e do José com o Katia à arreata, ciclones tropicais do Atlântico Norte com presença no catálogo do Centro Nacional de Furacões.

É um fartar vilanagem. A cólera dos imortais a fustigar os erros dos mortais é ilimitada. Os Senhores dos Ventos e das Chuvas, dos Incêndios e das Secas não têm descanso. Mandam titãs e titânides de todos os panteões a agitar o Ar, a entornar a Água, a atear o Fogo e a estancar a Terra. Estranha cobardia esta da prepotência divina de se vingar da fragilidade humana.

10 de julho de 2017

A punição divina da água

FOUR ELEMENTS, SEASONS AND ZODIAC

Miniature from a english medieval manuscript (Séc. XI)

O segundo elemento...

Afirmam os mitos etiológicos dos grandes sistemas religiosos ter o homem sido criado pela vontade divina de converter estátuas de argila em seres vivos e cientes da sua própria existência. O processo ter-se-á efetuado pela mistura bem dosada dos quatro elementos primordiais: terra, água, ar e fogo. Esta a convicção ameríndia tupi-guarani, africana nagô-ioruba, mesopotâmica assírio-babilónica ou bíblica judaico-cristã.

A relação entre mortais e imortais nem sempre se mostrou pacífica. O Deus do Génesis fartou-se da iniquidade humana e derramou sobre a terra toda a água que cabia num dilúvio universal. Só se salvou quem coube na Arca de Noé: patriarca e família, animais e plantas atuais. A história hebraica seria o eco distante duma outra suméria mais antiga protagonizada por Atrahasis, o supersábio da Epopeia de Gilgamesh.

Corre na Net um vídeo promocional a alertar para a chegada eminente dum tsunami que engolirá toda a Península Ibérica. A vinda é certa. Só não se sabe a data. Dá pelo nome de La gran ola | A grande onda, foi realizado por Fernando Arroyo e alerta para os perigos que a conjugação explosiva dos fenómenos naturais com a ação do homem na prospeção de hidrocarbonetos nas costas de Portugal e Espanha.

O alerta está lançado. Amarelo, laranja, vermelho roxo. De todas as cores. Em tempo de seca severa e no rescaldo dos incêndios, só mesmo a profecia científica dum maremoto apocalíptico. Punitivo. Depois do castigo divino do fogo a punição divina da água. Eucaliptos e petróleo convertidos em bodes expiatórios de todas as catástrofes. Algo de errado haverá nesses seres de barro moldados à imagem e semelhança dos deuses.

19 de agosto de 2016

O fascínio inebriante do fogo

QUATRO CÍRCULOS ELEMENTARES

Günther Zainer, De responsione mundi et de astrorum ordinatione, 1472

[Biblioteki Książąt Czartoryskic]

O quarto elemento...

dezanove séculos e meio que Nero (37-68 EC) carrega o ónus de ter mandado incendiar Roma (64 EC) para depois construir um complexo palácio à sua medida e semelhança. Um dos grandes difusores deste ato tresloucado terá sido Suetónio, que o regista nas páginas d' As vidas dos doze Césares (121 EC). Calúnia do biógrafo que não morria de amores pelo imperador. As culpas foram atribuídas oficialmente aos Cristãos, muito embora se tenha devido com probabilidade a um infeliz acidente. O fogo terá começado num moradia de madeira que o vento terá feito alastrar às demais.

O fascínio pelas chamas é uma constante que tem acompanhado o percurso do homem ao longo da sua travessia milenar dos tempos. A descoberta dos mecanismos mecânicos para as produzir levou-o à tentação do fogo posto. Observá-lo de longe como o bisneto de Augusto terá feito enquanto tocava lira e declamava um dos seus poemas. As pinturas e romances têm propagado à exaustão esta recriação da realidade. O cinema tem-se aproveitado do filão para nos apresentar em tamanho gigante os grandes incêndios mais famosos e devastadores da história sempre com êxito de bilheteira.

Nos dias que correm, os jornais enchem-se de fotos de matas e casa-rios do país envoltos pelas labaredas infernais. As televisões abrem os noticiários com estas cenas dantescas repetidas todos os verões. As causas naturais rivalizam com as criminosas. Dos quatro círculos elementares descritos pelos filósofos pré-socráticos, as imagens destinadas à exposição mediática centram-se sempre no quarto. O mais divino. Nem as cinzas da terra queimada, nem a transparência da água derramada, nem a opacidade do ar irrespirável conseguem rivalizar com o vermelho devorador do fogo apocalíptico.

No rescaldo do grande incêndio de Roma, Nero reergueu a cidade imperial a expensas da sua fortuna pessoal. Segundo garante Tácito no Livro XIII dos Anais (c. 68 EC). Terá ainda aberto as portas do seu palácio aos desalojados e criado um fundo para custear os alimentos dos sobreviventes. Bom exemplo para ser seguido entre nós passados os dezanove século e meio referidos. Enviar os incendiários para avaliação psiquiátrica e reordenar uma vez por todas o território atingido pelo flagelo sazonal. Depois convencer os mass media à moderação informativa. Sairíamos todos a ganhar.