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15 de julho de 2022

Charlotte Brontë, a autobiografia vitoriana da precetora Jane Eyre

«"I tell you I must go!" I retorted, roused to something like passion. "Do you think I can stay to become nothing to you? Do you think I am an automaton? a machine without feelings?...Do you think, because I am poor, obscure, plain, and little, I am soulless and heartless? You think wrong — I have as much soul as you, — and full as much heart...I am not talking to you now through the medium of custom, conventionalities, nor even of mortal flesh; — it is my spirit that addresses your spirit; just as if both had passed through the grave, and we stood at God's feet, equal, — as we are."»
Charlotte Brontë, Jane Eyre (1847)

Comecei e terminei a leitura da autobiografia fictícia composta por uma precetora inglesa da era vitoriana pelos prefácios da segunda e terceira edições, assinados por Currer Bell, o pseudónimo literário masculino com que Charlotte Brontë publicou o Jane Eyre (1847), o seu romance mais conhecido. Na abordagem inicial dos textos preambulares, fiquei curioso a propósito das resistências expressas por algumas almas céticas aludidas pela autora, apesar do sucesso indiscutível alcançado pela obra junto de leitores, críticos e editores. No final das quase seiscentas páginas que dão corpo às três partes da história, acabei por compreender melhor quer o ponto de vista dos recetores mais exigentes quer o defensivo da entidade criadora atingida. A visão dissonante do sistema então vigente  de encarar o convencional e a moralidade, a arrogância e a religião, estariam na origem das reservas apontadas, o que nos nossos dias ‒ presumo eu ‒ passariam plenamente ao lado do mirar alheio de todos.

Durante algum tempo, resisti à tentação de ver num canal por cabo televisivo a mais recente adaptação ao cinema do relato, antes de o ter seguido linha a linha na versão escrita original da novelista e poetisa inglesa Depois deixei-me vencer pela tentação e não me arrependo de o ter feito. O confronte entre as duas versões, a filmada em 2011 por Cary Fukunaga e a publicada em 1847 por Smith, Elder & Co., acabaram por se completar e enriquecer. As imagens em movimento apresentam a virtualidade de reduzir as longas tiradas dadas à estampa século e meio antes pela fabuladora a breves momentos perfeitamente assimilados pelo olhar atento do espetador. O cotejo de linguagens específicas de cada uma delas, qual cápsula do tempo, ajuda-nos, desse modo, a captar melhor as práticas estéticas próprias das épocas que lhes serviram de suporte, dando-lhes um estatuto de maioridade raras vezes atingido pela imaginação artística na sua máxima plenitude.

Se quiséssemos economizar palavras, diríamos que esta relação de eventos pessoais inventados e acontecidos se resumiria a um mero Bildungsroman, i.e., a um um típico e teórico romance de formação com caráter autorreferencial. A narradora-protagonista relata-nos os primeiros oito anos de infância vividos em Gates Head Hall e os dez seguintes da adolescência passados em Lowood School, saltando de seguida para as diversas etapas da maturidade, repartidas por Thornfield Hall, Moor House e Ferndean Manor. Depreende-se que a ação central decorra na passagem da centúria de oitocentos para a de novecentos, no norte da Inglaterra, em locais imaginários do Yorkshire, do Lancashire e do Derbyshire. Os mistérios, enigmas e segredos passados conferem aos eventos narrados o lado obscuro específico da literatura gótica ainda em voga à data da escrita, com uma especial ênfase nos efeitos melodramáticos, fantasmagóricos e devastadores gerados pela loucura, determinante na fixação do perfil físico, moral, psicológico, estético, social, político, religioso e sexual de algumas figuras-típicas em cena.

Lidos os livros maiores das irmãs Brontë, diria ser Anne a mais pacata (ou talvez ingénua), Emily a mais criativa (ou até original) e Charlotte a mais copiosa (ou quiçá palavrosa). As minhas preferências deixam-se ver com facilidade. É o que sucede quando confinamos obras ligadas entre si por traços comuns de identificação imediata. No final do percurso literário traçado pelas três, pergunto-me se acaso os fados lhes tivesse dado um pouco mais de vida, lhes restaria ainda alguma aptidão inventiva para continuarem a trilhar os sendeiros ficcionados do real imaginado, criado e recriado, depois de terem esgotado à exaustão o filão pessoal e familiar retrospetivo que até as movera. A questão fica no ar e a resposta sempre por dar. Inexoravelmente.

23 de fevereiro de 2022

Anne Brontë e as histórias verdadeiras com nomes inventados de Agnes Grey

"All true histories contain instruction; though, in some, the treasure may be hard to find, and when found, so trivial in quantity, that the dry, shrivelled kernel scarcely compensates for the trouble of cracking the nut. Whether this be the case with my history or not, I am hardly competent to judge. I sometimes think it might prove useful to some, and entertaining to others; but the world may judge for itself. Shielded by my own obscurity, and by the lapse of years, and a few fictitious names, I do not fear to venture; and will candidly lay before the public what I would not disclose to the most intimate friend."

Emily, Charlotte e Anne, as irmãs Brontë nascidas e criadas nas colinas do Yorkshire, o maior condado histórico da Inglaterra situado no nordeste do país, estrearam-se no universo das letras com um volume de Poems (1846) compostos pelas três e assinados com os pseudónimos masculinos de Currer, Ellis e Acton Bell. Esta última, a mais nova e menos conhecida, prosseguirá a sua curta carreira literária com dois romances de sucesso, o primeiro dos quais baseado na experiência pessoal da romancista como precetora, exercida entre 1839 e 1845 no seio duma família de Thorp Green Hall. Intitula-o Agnes Grey (1847), o nome da protagonista-narradora e quase alter ego da autora, numa edição conjunta partilhada com O Monte dos Vendavais de Emily Brontë.

O relato em prosa inaugural da jovem contadora de histórias está repartido por vinte cinco capítulos numerados, titulados e agrupados, segundo as normas estruturais próprias dum encadeamento narrativo clássico, linear e cronológico. Tudo começa no presbitério paterno da autobiografada e termina no presbitério conjugal da mesma. Entre a introdução e o epílogo canónicos, vão fluindo placidamente três sequências de dimensão diferente, formadas por avanços e recuos discursivos do seu percurso existencial, centradas em espaços educativos específicos, a Wellwood House dos Bloomfield, a Horton Lodge dos Murray e a Escola familiar das Grey, a mãe viúva e a filha casadoura. As memórias das entidades enunciativas esgotam-se ao fim de duas centenas de páginas e o destino de Anne-Agnes não tem mais nada a dizer.

Na criação artística, o factual e a ficção andam sempre de mão dada. Neste romance-novela-crónica-diário-notas seletas com nome de mulher, as histórias verdadeiras da autora são-nos reveladas com nomes inventadosOs pequenos/grandes ensinamentos fornecidos pelo relato têm de ser encontrados no interior da tal noz seca e encarquilhada referida no parágrafo de abertura. Assim se quebre a casca que os envolve. As provações sofridas pela filha de Patrick Brontë são transferidas mutatis mutandis para a filha de Richard Grey, os pastores anglicanos sem meios de fortuna casados por amor com duas descendentes de famílias endinheiradas. Os destinos reais e embuçados dos intervenientes ‒ vividos e decalcados nos alvores da era vitoriana (1837-1901) ‒ prosseguem a bom ritmo ao longo de todo o texto. Seria fastidioso elencá-los aqui um a um. Digamos tratar-se do testemunho duma precetora oitocentista malsucedida, na árdua tarefa de dar uma formação adequada de música, canto, desenho, francês, alemão e latim a um grupo de crianças mimadas, frívolas, ignorantes, irrequietas e desobedientes.

Lidos os desabafos traçados no livro como o objetivo explícito de não ocultar coisa alguma, acabo por esbarrar com um decalque involuntário e quase perfeito do síndrome da Gata Borralheira ou de qualquer outra heroína de literatura infantil. As tais que são sempre perseguidas por um batalhão de inimigos até à reta final do seu penoso percurso iniciático pelas aventuras/desventuras da vida. É nesse momento fulcral da sua existência em que encontra um príncipe encantado capaz de a libertar de todos os males passados e lhe oferece o happy ending merecido há muito esperado. O casamento com Edward Weston, o pároco rural que conhecera em tempos de formadora falhada, abre-lhe as portas para o novo estatuto de mulher casada e mãe de filhos. A mesma sorte não teve a arquiteta deste relato retrospetivo de sucessos pessoais verídicos cobertos com o tal manto diáfano da fantasia, por ter falecido na flor da idade, vítima aos 29 anos de tuberculose pulmonar, solteira e sem filhos, a revelar aos distraídos o quanto a vida real é bem mais dura do que a imaginada nos romances-novelas-crónicas-diários e até nas partes mais difíceis dos contos de fadas.

10 de dezembro de 2021

Emily Brontë, a raiz de urze agreste das charnecas do monte dos vendavais

This is nothing - cried she - I was only going to say that hea-ven did not seem to be my home; and I broke my heart with weeping to come back to earth; and the angels were so angry that they flung me out into the middle of the heath on the top of Wuthering Heights; where I woke sobbing for joy. That will do to explain my secret, as well as the other. I've no more business to marry Edgar Linton than I have to be in heaven; and if the wicked man in there had not brought Heathcliff so low, I shouldn't have thought of it. It would degrade me to marry Heathcliff now; so he shall never know how I love him: and that, not because he's handsome, Nelly, but because he's more myself than I am. Whatever our souls are made of, his and mine are the same; and Linton's is as different as a moonbeam from lightning, or frost from fire.
Emily Brontë, Wuthering Heights (1847)

No final dos anos 50 ou início dos 60, a RTP transmitiu uma película a preto e branco que me ficou gravada na memória até hoje. Esqueci-me dos pormenores que alimentavam as linhas condutoras da intriga, mas ficou-me na retina o ambiente sombrio enquadrador da ação e nos tímpanos o nome gritado de Heathcliff. Refiro-me ao Wuthering Heights (1939), um melodrama de culto norte-americano realizado por William Wyler e interpretado por Laurence Olivier, Merle Oberon e David Niven, numa adaptação cinematográfica do romance inglês de Emily Brontë, O Monte dos Vendavais (1847), dado ao prelo com o pseudónimo de Ellis Bell. Li-o por essas mesma datas juvenis numa edição da Romano Torres (1957) e reli-o agora já na maturidade com a chancela da  Editorial Presença (2009).

Apercebi-me que à boa maneira do uso romântico, o enredo nos é transmitido por uma diversidade de vozes de primeira pessoa, através duma densa rede subjetiva de relatos encaixados e retrospetivos das personagens convertidas em entidades narradoras dialogantes. A variedade de perspetivas ou pontos de vista fica assim assegurada, isentando a instância criadora externa do aparente encargo na exposição egocêntrica da intriga. Mr. Lockwood e Mrs. Hellen Dean, com a ajuda de outros informantes diretos e indiretos, revezam-se na árdua tarefa de desvendar os meandros da paixão arrebatada dos protagonistas do drama vivido no cenário árido e rude das charnecas do Yorkshire, onde a urze fustigada pelos ventos uivantes é rainha e senhora.

A estrutura discursiva da crónica rural está repartida por duas partes, tantas quantos os volumes em que originalmente foi impressa. Esta divisão não assinalada nas versões atuais da obra, corresponde, grosso modo, à dupla saga de duas famílias britânicas oitocentistas, cingindo a geração dos filhos e netos dos Earnshaws da Thrushcross Grange e dos Lintons dos Wuthering HeightsOs amores e desamores cruzados dos irmãos Edggar-Isabelle da primeira casa (caps. 1-18) e de Hindley-Catherine da segunda (caps. 19-36 ) estão na base da textura narrativa urdida na trama, completada pela vingança traçada pela figura maquiavélica de Heathcliff, o anti-herói ou vilão por excelência, o tal que a minha memória infantil reteve por décadas. Os meandros da teia desenvolvida na ficção deverão ser entretanto recolhidos no texto original, cuja leitura obrigatória se impõe.

O prazer de leitura dos clássicos é espantoso, mesmo quando essa etiqueta recai nos títulos redigidos em períodos ditos anticlássicos ou tidos como tal, certamente os mais ricos de todos, por estarem libertos dos espartilhos, regras e leis castradoras da criatividade artística na sua plenitude. Chama-se imortalidade a esta fuga deliberada às exigências genéricas de matriz académica que ciclicamente invade a república das letras, passando cada um destes títulos rebeldes a constituir um dos possíveis livros da nossa vida, aqueles que nos prendem às suas histórias sem parar, convidando-nos a lê-los de fio a pavio, sem parar, até nos revelarem os seus segredos mais íntimos. Assim se passa com esta tragédia gótica em forma de romance, tal como, quiçá, com os restantes escritos ingleses compostos pelas três irmãs Brontë nesse distante meio século pré-vitoriano.