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7 de março de 2023

Acordes de zarzuela en la ciudad del Cid


Recuerdos lejanos alrededor de medio siglo de existencia me susurran al oído que en aquel invierno del 73/74 hacía un frío glacial en Castilla y León. Por primera vez en mi vida supe lo que eran los menos de -20ºC en la calle. ¡Horrible! Afortunadamente, la calefacción central del apartamento garantizaba una temperatura superior a los 20ºC. ¡Estupendo! Bueno para dar unas vueltas durante el día por la ciudad y quedar en casa toda la noche. 

No me acuerdo de su nombre de pila y no estoy seguro del de cuna. Podría llamarse don Juan, José o Julio Rodríguez de Todos los Santos. Para nosotros era solo el Abuelo de Burgos. Era un anciano severo, señor de pocas palabras, que quedava largos ratos sentado en un sillon de su despacho a leer, a escribir o a escuchar música. Una noche me acerqué de la puerta de su rincón personal y oí una aria de zarzuela en su interior. Ya no me acuerdo cuál. 

Un impulso me hizo mirar hacia adentro y mi abuelo prestado me vio. Me invitó a entrar y me preguntó si yo conocia la zarzuela. Le dije que si, que aún había asistido a un concierto como parte de una Semana de España en Lisboa. No supe decirle lo que había visto. Me dió entonces una silla y me hizo escuchar pista por pista, area por aria, disco por disco para identificar las melodías. Recordé algunas. Una de ellas fue, sin duda, El barberillo de Lavapies.

Al final de la velada, mi anfitrión me invitó a volver cuando quisiera para escuchar tranquilamente sus 33+1⁄3 rpm, los de zarzuela y todos los demás que tenía a su disposición. Que yo sepa, nunca había tenido tal aprecio con sus nietos de sangre, quizás porque sabía de fuente segura que no les gustaba la música clásica y teatral o no tenían ganas de charlar con él. No volví a hacerlo, pero me tocó hondo una cortesía tan casual de mi abuelo español.

El Teatro de la Zarzuela de Madrid reclama mi presencia hace una eternidad. Jamás contesté esa invitación tan insistente. ¡Lástima! Esta temporada aún podría disfrutar de La violación de Lucrecia, del Trato de favor o de Luisa Fernanda. Ya lo veré en la programación siguiente. Me encantaría hallar Doña Francisquita, La boda de Luis Alonso o La verbena de la Paloma en la cartelera. Me daría igual y me marcharía pronto para halagar con una de ellas. ¡Seguro! 

Teatro de la Zarzuela - Programación 2022-2023

30 de abril de 2021

Percorsi di vita attraverso l'opera lirica


Bianca Castafiore & Maria Callas
dall'usignolo milanese alla divina del bel canto ...

A primeira definição que me foi dada de ópera marcou-me pela carga fortemente negativa dos termos utilizados. Não me lembro da ordem exata das palavras que compunham a frase então pronunciada, mas recordo que assentava nos alegados gritos estridentes produzidos em palco por umas senhoras que não sabiam cantar e eram aplaudidas por um conjunto de pessoas que não tinham nada para fazer. Nessa primeira abordagem do canto lírico, não havia lugar para caraterizar as vozes masculinos que acompanhavam as femininas tão severamente causticadas.

Entrei algum tempo depois no universo desenhado por Hergé n'As aventuras do Tintim, e encontrei de imediato na Bianca Castafiore o protótipo perfeito dessas virtuosas de timbre vocal tão penetrante, apesar de ser descrita nos álbuns em que aparece com o epíteto de Rouxinol Milanês. A imagem verbal e a iconográfica estava traçada, só faltava encontrar o registo sonoro para completar um cromo completo da intérprete da «Air des bijoux», do Fausto de Charles Gounod, ou da totalidade de La gazza ladra, de Gioachino Rossini, que tanto sucesso obtivera no Scala de Milão.

As digressões constantes do professor Bento Monteiro, nas aulas de Português ou de História, ou os esclarecimentos da Senhora Dona Maria do Rosário, que depois da catequese me dava pro bono uma ou outra lição de piano. Com o primeiro, ouvi em estreia absoluta Enrico Caruso e Mario Lanza e fui sensibilizado para ver as diferenças existentes entre um e outro, com vantagem do italiano sobre o americano. Com a segunda, descobri que afinal o tal canto bárbaro para desocupados também era conhecido como bel canto. A caricatura traçada começava a ser desmontada.

Dizem que o criador belga se terá inspirado em Renata Tebaldi e Maria Callas para dar vida à sua prima donna, as mais famosas sopranos da época, a rivalizarem entre si e com todas as restantes divas que as antecederam e sucederam nos palcos operísticos do mundo pelo estrelato, preferência do público e atenção dos media. Pelo seu caráter voluntarioso, temperamental e perfeccionista, mais do que pelo perfil lírico, maestria interpretativa ou timbre vocálico inigualável das duas, inclino-me mais para La Divina grega do que para La voce d'Angelo italiana. Chi lo sa dirà!

Na passagem da década de 60 para 70 não falhei uma transmissão pela EN2 das temporadas do São Carlos. O meu percorsi di vita attraverso l'opera lirica fez-se depois nas récitas populares do Coliseu. Lembro-me duma pouco conhecida Manon de Massenet e duma famosa Aida de Verdi. Entre um autor francês e um italiano, ainda couberam muitos outros cantados em inglês e alemão, como o Porgy and Bess de Gershwin e o Die Walküre de Wagner. Uma caminhada pela opera in musica a desmontar por completo a definição que me fora dada tantos anos antes.

Despedi-me do drama cantado ao vivo em palco em 75. O panorama musical fora da capital não prima pela abundância. Passei a ser ouvinte assíduo das gravações em vinil e laser, a visionar as muito escassas difusões televisivas da RTP2 ou do Canal Mezzo. Recorro hoje em dia ao YouTube e a outras plataformas de partilha de vídeos acessíveis através dum mero PC portátil. Vantagens dos nossos tempos internéticos. Avere una compagnia quotidiana de soprani e tenori, de bassi e contralti, de baritoni e mezzosoprani, a po 'di tutto o tutti quanti senza uscire di casa. Ecco!      

HERGÉ, Les aventures de Tintin

29 de abril de 2019

Vedi! Le fosche notturne spoglie...

CORO DI ZINGARI
Vedi! Le fosche notturne spoglie. | De' cieli sveste l'immensa volta; | Sembra una vedova che alfin si toglie | I bruni panni ond'era involta. | All'opra! all'opra! | Dàgli, | martella. | Chi del gitano i giorni abbella? | La zingarella! || Versami un tratto; lena e coraggio | Il corpo e l'anima traggon dal bere. || Oh guarda, guarda! del sole un raggio | Brilla più vivido nel mio/tuo bicchiere! | All'opra, all'opra... | Chi del gitano i giorni abbella? | La zingarella!
Verdi, Il Trovarore (Atto Secondo, Scena Prima)

Opera nel Colosseo

Na década de 70, o Teatro Nacional de São Carlos deixava por uma ou outra noite o requinte aristocrático da Serpa Pinto e dava umas récitas populares de ópera nas plebeias Portas de Santo Antão. Assisti a algumas dessas produções de luxo nas bancadas de madeira ou do pontapé nas costas do Coliseu dos Recreios, à época a maior sala de espetáculos de Lisboa. Ali ouvi cantar em italiano, francês, alemão e inglês. Ali ouvi as vozes de Vincenzo Bello, Mara Zampieri, Alfredo Kraus e Piero Capuccilli. Ali ouvi as obras de Wagner, Puccini, Mozart, Bizet, Donizetti, Rossini, Gershwin. Il canto lirico era allora di moda tra noi ...

Lembro-me com bastante precisão do desempenho memorável da mezzosoprano italiana Fiorenza Cossotto a encarnar a figura incontornável de Azucena, a zingara criada por Giuseppe Verdi para Il Trovatore (1853). Faço-o agora que me foi dada a possibilidade pelo grupo coral Ossónoba de integrar o «Coro degli Zingari», a anteceder a canzone «Stride la vampa», em que a diva brilhou e bisou. Estudei-o na companhia do meu neto de dois anos, que acompanhou com agrado e bateu palmas no final a versão de bel canto alojada no YouTube conduzida por Riccardo Muti. Finché la pianta e tenera bisogna drizzarla.*

Regressado da andaluza Nerja, ainda trago comigo a sonoridade das palavras revestidas de música que ecoaram na sala de concerto daquela cidade mediterrânica, onde em tempos se gravou o Verano Azul. O meu incondicional teria aplaudido de e exigido um Ancora! Mais do que pelas capacidades canoras do avô, teria vibrado com a arte maior que o grande compositor italiano soube imprimir à cultura operista romântica e de todas as épocas. A intemporalidade do belo ou a sem idade do clássico dá vontade de chamar à colação o apelo vibrante de Giuseppe Verdi e repetir com ele: Torniamo all'antico e sarà un progresso.

NOTA
* Uma versão italiana curiosa do nosso de pequenino é que se torce o pepino.

30 de julho de 2018

Va', pensiero, sull'ali dorate...

  Washington National Opera  

CORO DEGLI SCHIAVI EBREI
Va', pensiero, sull'ali dorate. | Va', ti posa sui clivi, sui colli, | Ove olezzano tepide e molli | L'aure dolci del suolo natal! | Del Giordano le rive saluta, | Di Sionne le torri atterrate. | O mia patria, sì bella e per-duta! | O membranza cara e fatal! | Arpa d'or dei fatidici vati, | Perché muta dal salice pendi? | Le memorie del petto riaccendi, | Ci favella del tempo che fu!O simile di solima ai fati,Traggi un suono di crudo lamento;O t'ispiri il signore un concento | Che ne infonda al patire virtù | Che ne infonda al patire virtù | Al patire virtù. 
VERDIANAS
Habituei-me a ouvir o Giuseppe Verdi nas temporadas líricas do Teatro Nacional de São Carlos, a que eu assistia invariavelmente nas récitas populares do Coliseu dos Recreios. Decorriam os últimos anos da década de 60 e os primeiros da de 70. O Ditador já havia caído da cadeira e o Delfim pouco duraria na cadeira do poder. A revolução dos Cravos foi em boa hora a culpada.

Tudo começou com um Rigoletto cantado pelo Álvaro Malta, prosseguiu com um Il Trovatore cantado pela Fiorenza Cossotto e terminou com uma Aida cantada já não sei bem por quem. A falta que os libretos perdidos fazem. Pelo meio ainda ficou uma La Traviata, levada à cena no Trindade pela Companhia Portuguesa de Ópera, cantada pelas duas irmãs Saque, a Elsa e a Zuleica.

Escapou-me até agora assistir à representação do Nabucco num espaço lírico. Os registos audiovisuais disponíveis tem suprido essa lacuna. O Coro degli schiavi ebrei ocupa uma posição cimeira nas minhas preferências melómanas. Cantei-o há pouco no derradeiro concerto organizado pelo grupo coral que integrei este ano. E nas próximas temporadas haverá mais. Va', pensiero, sull'ali dorate...

3 de abril de 2018

D'immenso giubilo s'innalzi un grido...

OPERA LYRA POST

CORO
D'immenso giubilo | S'innalzi un grido: | Corra la Scozia | Di lido in lido; | E avverta i perfidi | Nostri nemici, | Che a noi sorridono | Le stelle ancor. | Che più terribili, | Che più felici | Ne rende l'aura | d'alto favor.
Donizetti, Lucia di Lammermoor, 1835 (III, iii)
Primo atto: radio
Ouvi pela primeira vez cantar na íntegra uma ópera nos finais dos anos 60. Essa oportunidade foi-me dada pela Emissora Nacional 2, que à época fazia transmissões diretas do São Carlos, comentada pela crítica musical Maria Helena de Freitas. Coube-me nessa noite a Lucia di Lammermoor (1835), composta por Gaetano Donizetti com libreto de Salvadore Cammarano, baseada no romance histórico de Walter Scott, The Bride of Lammermoor (1819). Fi-lo noite adentro com a ajuda dum pequeno rádio de pilhas e duns auscultadores minúsculos. E é tudo o que a memória guardou desse debutto all'opera in musica.

Secondo atto: teatro
Na década de 70, a fortuna brindou-me  com a dádiva de trocar as ondas hertzianas da telefonia sem fios pelos palcos de teatro de Lisboa. Substitui as estreias aristocráticas das companhias italianas do Teatro Nacional pelas récitas populares levadas à cena no Coliseu dos Recreios. Os tempos não davam para mais. Ainda tive a sorte de assistir a algumas produções da Companhia Portuguesa de Ópera no Trindade e a uma Antología de la Zarzuela no Tivoli integrada numa Semana de España em Lisboa. O que nunca cheguei a ver foi uma encenação ao vivo e a cores da Lucia de Lammermoor do Gaetano Donizetti.             

Terzo atto: coro
A televisão, os discos e a Internet supriram em parte a inexistência quase absoluta de espetáculos de ópera fora da capital. Meio século passado, a situação poucas alterações sofreu. Outros valores mais altos se levantam neste conturbado início de milénio. Se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha.  Diz-se. Reencontrei-me há uns escassos quatro meses com a Lucia de Lammermor de Gatetano Donizetti no Grupo Coral da Universidade do Algarve. Estreei-me nestas andanças de tenor no «D'immenso giubilo», sempre à espera que nestas novas andanças pelo bel canto, a voz nunca me doa. Ecco! 

14 de fevereiro de 2016

A Fábrica Real de Tabacos de Sevilha em três atos

FÁBRICA REAL DE TABACOS - UNIVERSIDAD DE SEVILLA

ATO 1: Cenário de ópera 

Muito antes de ter visitado pela primeira vez a cidade de Sevilha, já a Fábrica Real de Tabacos fazia parte do meu imaginário pessoal. Via-a como um cenário de ópera. Aquele com que abre o primeiro ato da Carmen de Bizet. A sensibilidade do compositor francês a dar corpo ao espírito espanhol da cigana andaluza. E no ar já ouvia os acordes iniciais do Coro dos Soldados: Sur la place, chacun passe, chacun vient, chacun va; drôles de gens que ces gens-là !...

ATO 2: Roteiro de turista

Quando visitei a cidade de Sevilha pela primeira vez, inclui a Fábrica Real de Tabacos no meu percurso pessoal de primeiro dia. Tinha de ser. ¡Inevitable! ¡Fatal! Institui-a como etapa principal do meu roteiro de turista. Procurei por toda a parte La Carmencita. Mais elle n'était pas là. Só me foi dado ver muitos abanicos, castañuelas, peinetas, mantillas y batas de sevillana nas lojas de recuerdos plantadas estrategicamente nas redondezas. Hélas !...

ATO 3: Sede de reitoria 

Já perdi a conta às vezes que visitei a cidade de Sevilha e a Fábrica Real de Tabacos. Ainda não me cansei. Há sempre recantos inéditos a descobrir. Funciona agora no edifício a sede de reitoria da Universitas Hispalensis. A entrada e saída das tabaqueras foi agora substituído por alumni & magistri de Letras. Ali tenho participado em alguns diálogos ibéricos. Fortuna máxima de quem tem há tantos anos La Ciudad del Nodo en el corazón...