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30 de dezembro de 2022

A vigília da Capela do Rato

1972
30 de dezembro
Um grupo de católicos progressistas e de não católicos ocupa a Capela do Rato, em Lisboa, como o objetivo de comemorar o Dia Mundial da Paz através da realização de uma vigília de 48 horas sobre o tema «A  paz é possível». Os presentes aprovam uma moção na qual condenam a continuação da guerra colonial, reconhecem o direito dos povos das colónias portuguesas a decidirem acerca do seu próprio futuro, classificam de criminosa a «política africana» seguida pelo governo, criticam a atitude de cumplicidade assumida pela hierarquia da Igreja Católica relativamente a esta e a outras questões, de muitos «jovens e trabalhadores portugueses por se manifestarem contra a guerra». A polícia intervém invadindo a capela (que é posteriormente encerrada) e detendo cerca de 70 pessoas - 15 das quais ficam preses à ordem da DGS.
António Simões Rodrigues (coord.), História de Portugal em datas (1997)
A paz é possível...
Faz este fim de semana 50 anos que a Capela do Rato esteve nas bocas do mundo e eu não estava lá. Todos os sábados participava invariavelmente na missa que ali se realizava por volta das 7h30 da tarde. Fazia-o acompanhado dos meus colegas do ICL que à data viviam como eu no bairro vizinho de Campo de Ourique. Naqueles 30/31 de dezembro de 1972, já me encontrava a passar parte da época natalícia em família, fora do bulício de Lisboa.

Soube dos eventos então ali ocorridos já entrados em janeiro e por portas travessas. Nos tempos cinzentos da outra senhora, as notícias tardavam a chegar e traziam sempre as marcas percetíveis dos censores. Comemorar o Dia Mundial da Paz quando se vivia uma guerra colonial em três frentes africanas era uma tarefa a todos os títulos temerária. As detenções que se seguiram a essa vigília de 48 horas num templo católico eram inevitáveis.

Foi também há meio século que deixei de acreditar no poder das preces religiosas para obter a paz. Não voltei a entrar na Capela do Rato a partir dessa data. O minha fé já então periclitante com o transcendente metafísico chegara inexoravelmente ao fim. Até hoje e sem volta à vista. Passou a representar uma fase distante no meu amadurecimento pessoal, sem as fantasias infantis de histórias da carochinha à vista e com os pés bem assentes no chão.

Picasso, La colombe de la paix (1950)

21 de janeiro de 2019

Circos de feira, de Natal e de todo o ano

              PABLO  PICASSO               

Cirque forain (1922)

[Paris: Musée national Picasso]
PALHAÇOS - CAVALOS - MÚSICA
Na minha meninice, o circo descia à cidade por altura da feira de agosto. Esta realizava-se anualmente nas vastas alamedas, prados e clareiras da Mata Real, anexa ao Hospital Termal. Era aí que a grande tenda circular do maior espetáculo do mundo assentava arraiais. Diz-me uma memória fragmentária que por vezes a grande aldeia circense se erguia imponente na amplitude dos espaços ainda vazios da antiga quinta do Borlão. E a festa durava vários dias. Talvez uma semana. Quiçá um pouco mais.

De todas as troupes que incluíam na tournée as Caldas da Rainha, recordo com alguma precisão o fascínio exercido pela parada inicial de rua do Circo Arriola Paramés. Elefantes, cavalos, malabaristas, faz-tudos, porta-bandeiras, músicos e muitas plumas e lantejoulas. Os slogans para soirées e matinées choviam em catadupa junto às bilheteiras de acesso à arena mágica do enorme recinto colorido. É entrar, é entrar, meninos e meninas, senhoras e cavalheiros. A sessão vai começar, no domingo grátis às damas.

décadas que o imenso redondel iluminado saiu do meu universo de referências. O Vasquito & Anhuca ou o Kinito ainda moram no meu imaginário infantil. Tê-los-ei visto num dos circos das famílias Muñoz, Cardinalli ou Mariano. Excluo o Billy Smart's Circus, que só se via a preto e branco nos ecrãs da RTP, por altura do Natal ou Ano Novo. Os palhaços pobres e ricos far-nos-ão agora rir doutro modo. Qualquer dia tiro-me de cuidados e vou reviver as emoções da minha meninice para contar como foi. A ideia fica no ar e bem de pé...

9 de julho de 2018

Picasso e a Guernica a preto e branco com toques de bege e azul

 PABLO PICASSO - GUERNICA (1937) 

[Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía - Madrid]

Alegoria de guerra & paz

No ano em que a Guernica regressou a Espanha, fui visitá-la a Madrid. Estava então alojada provisoriamente no Casón del Buen Retiro, no coração da Cidade do Urso (1981-1992). Pintada por Pablo Picasso em 1937, na sequência do bombardeamento da cidade basca pelos aviões alemães da Legião Condor, ocorrida a 26 de abril desse ano, cumpriu um exílio forçado de 40 anos nos EUA, tendo ficado sob a guarda do Museum of Modern Art (MoMA) de Nova Iorque, atualmente no Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía (MNCARS). O impacto causado pela visão do quadro foi de tal modo avassaladora, que ainda hoje perdura na minha memória. Continuo a sentir muita dificuldade em olhá-lo em pormenor e a aceitar a ideia de se tratar do símbolo de paz ou de antiguerra. A imagem da devastação causada pelas forças nazis e falangistas a uma população indefesa continua a sobrepor-se a todas as interpre-tações entretanto apresentadas.

Muita tinta tem corrido na imprensa do outro lado da fronteira sobre a aprovada exumação de Francisco Franco do Valle de los Caídos, apesar da oposição irredutível dos familiares. A operação de purificação do espaço chegou a estar agendada para este mês de julho. A pesada resistência conservadora à deliberação tomada pelo governo de Pedro Sánchez tem sido pesada. Só se sabe de fonte segura que ocorrerá um destes dias. Nunca estive no monumento megalómano mandado erigir pelo Caudillo, para comemorar a vitória das forças nacionalistas contra as republicanas no final da Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Talvez seja agora a altura exata de o fazer. Prestar homenagem a esse novo Memorial de Reconciliação e Paz. Aproveitar a viagem e fazer uma segunda visita ao grande mural cubista idealizado pelo mestre da arte moderna para dar uma visão global aos mártires de Guernica. A bagagem é de mão e o caminho fácil de fazer.

25 de agosto de 2016

A mais sublime forma de arte

Pablo Picasso - Les demoiselles d'Avignon - 1907

[Museum of Modern Art - New York]


CULTURA & NATURA


Como um metteur en scène severo e caprichoso, Paulo Piconegro submete as suas putas a um rigoroso método de seleção, indiferente a qualquer escrúpulo. Nunca contrata uma mulher sem tê-la experimentado antes, mas procede ao exame com fastio e apenas depois de ter feito perguntas sobre a arte e o assombro, sobre a vertigem da arte, a sua minúcia esmagadora e os seus abismos. Instala a cadeira de roda de costas para Les demoiselles d'Avignon e faz com que as raparigas se sentem diante da enorme reprodução, do seu Picasso de fancaria, e fala-lhes de música e teatro, de pintura e dança, da literatura e do sublime do entardecer nas montanhas, do fragmento de explosão e de caos que há em todos os poentes. Diz-lhes que não tenham medo, que não há motivo nenhum para não terem medo, e pede-lhes que falem um pouco disso, de como é o crepúsculo e o rumor dos regatos no sítio de onde vêm, como são as histórias que lá se contam. A arte é a forma mais sublime da natureza, murmura. Ou vice-versa. A natureza é a mais sublime forma de arte, Repete. Paulo Piconegro num tom de voz apaziguador e quase cúmplice. Parece amistoso apesar do olhar frio que tem, de milhafre. Procura sossegar as mulheres e incita-as a expressarem-se à vontade. Como se eu fosse o teu pai, o teu avô, um tio de que gostes muito, diz-lhes. E esconde um sorriso gelado e sinistro - um sorriso de raposa.

Manuel Jorge Marmelo, Macaco infinito (2016: 25)

5 de agosto de 2016

Uma tisana com chave

Pablo Picasso, Puerta y llave (1919)
[Colección Marina Picasso]
TISANA 17

Era uma vez uma chave que vivia no bolso de um homem. Durante muito tempo desempenhou com honestidade o seu trabalho de abrir portas. Até que um dia descobriu que todo o seu trabalho tinha consistido sempre em abrir portas que já estavam abertas. Quando descobriu isso lançou-se corajosamente para fora do bolso. Caiu no chão. Ficou ali. Passa uma criança vê a chave e diz que coisa tão engraçada para fazer um carrinho.
Ana Hatherly, 351 Tisanas. Lisboa: Quimera (1997)

UMA TISANA BEM SERVIDA EM DIA DE ANIVERSÁRIO
(Ana Hatherly: Porto8 de maio de 1929 – Lisboa5 de agosto de 2015)