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23 de dezembro de 2025

Natal e os pés gelados de Pessoa

Chove. É dia de Natal

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa, Cancioneiro: uma antologia (2013)

13 de junho de 2025

Nasci exatamente no teu dia...

SOUVENIRS DE LISBOA
«Santo António & Fernando Pessoa»

SANTO ANTÓNIO 

Nasci exatamente no teu dia —
Treze de junho, quente de alegria,
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir...
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!
 
Santo António, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Católico, apostólico e romano. 
 
(Refleti.
Os cravos de papel creio que são
Mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João...
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)

Adiante ... Ia eu dizendo, Santo António,
Que tu és o meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demónio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,
És o santo do povo.
Tens uma auréola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração —
Está sempre aberto lá o vinho novo.

Dizem que foste um pregador insigne,
Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,
Etcetera...
Mas qual de nós vai tomar isso à letra?
Que de hoje em diante quem o diz se digne
Deixar de dizer isso ou qualquer outra coisa.
Qual santo! Olham a árvore a olho nu
E não a veem, de olhar só os ramos.
Chama-se a isto ser doutor
Ou investigador.

Qual Santo António! Tu és tu.
Tu és tu como nós te figuramos.

Valem mais que os sermões que deveras pregaste
As bilhas que talvez não concertaste.
Mais que a tua longínqua santidade
Que até já o Diabo perdoou,
Mais que o que houvesse, se houve, de verdade
No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,
Vale este sol das gerações antigas
Que acorda em nós ainda as semelhanças
Com quando a vida era só vida e instinto,
As cantigas,
Os rapazes e as raparigas,
As danças
E o vinho tinto.

Nós somos todos quem nos faz a história.
Nós somos todos quem nos quer o povo.
O verdadeiro título de glória,
Que nada em nossa vida dá ou traz
É haver sido tais quando aqui andámos,
Bons, justos, naturais em singeleza, 
Que os descendentes dos que nós amámos
Nos promovem a outros, como faz
Com a imaginação que há na certeza,
O amante a quem ama,
E o faz um velho amante sempre novo.
Assim o povo fez contigo
Nunca foi teu devoto: é teu amigo,
Ó eterno rapaz.

(Qual santo nem santeza!
Deita-te noutra cama!)
Santos, bem santos, nunca têm beleza.
Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? ...
Tira lá essa capa!
Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico
Em fantasia, promoveu-te a manjerico.

És o que és para nós. O que tu foste
Em tua vida real, por mal ou bem,
Que coisas, ou não coisas se te devem
Com isso a estéril multidão arraste
Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,
Essa prolixa nulidade, a que se chama história,
Que foste tu, ou foi alguém,
Só Deus o sabe, e mais ninguém.

És pois quem nós queremos, és tal qual
O teu retrato, como está aqui,
Neste bilhete postal.
E parece-me até que já te vi.

És este, e este és tu, e o povo é teu —
O povo que não sabe onde é o céu,
E nesta hora em que vai alta a lua
Num plácido e legítimo recorte,
Atira risos naturais à morte,
E cheio de um prazer que mal é seu,
Em canteiros que andam enche a rua.
Sê sempre assim, nosso pagão encanto,

Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.
Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei António —
Isso sim.
Porque demónio
É que foram pregar contigo em santo?

Fernando Pessoa: Santo António, São João, São Pedro
Fernando Pessoa. (Organização de Alfredo Margarido.) Lisboa: A Regra do Jogo, 1986.

26 de abril de 2022

Impérios do Mundo

LA JÉRUSALEM CÉLESTE
Tapisserie de l'Apocalypse
[Château d'Angers, France, c. 1375]
Eternos moradores do luzente, | Estelífero Polo e claro Assento: | Se do grande valor da forte gente | De Luso não perdeis o pensamento, | Deveis de ter sabido claramente | Como é dos Fados grandes certo intento | Que por ela se esqueçam os humanos | De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.
Luís de Camões, Os Lusíadas, 1572 (I, 24)
… depois dos três impérios dos Assírios, Persas e Gregos que já passaram, e depois do quarto, que ainda hoje dura, que é o Romano, há de haver um novo e melhor Império que há de ser o quinto e último.
Padre António Vieira, História do Futuro, 1653-1661 (I, i )
Grécia, Roma, Cristandade, | Europa – os quatro se vão | Para onde vai toda idade. | Quem vem viver a verdade | Que morreu D. Sebastião?
Fernando Pessoa, Mensagem, 1936 (III, i, 2.º, 5)

Da Terceira Roma à Nova Jerusalém...

Quando durante a Revolução Neolítica os caçadores-recoletores nómadas se tornaram agricultores-pastores sedentários, o processo embrionário de formação dos impérios começou a perfilar-se no horizonte. Se nos cingirmos à visão bíblica judaico-cristã, ter-se-iam sucedido quatro grandes entidades políticas de dimensão territorial crescente, identificadas com o Assírio-Babilónico, o Medo-Persa, o Greco-Macedónico e o Romano-Bizantino. Outros se lhe seguiram ao longo dos séculos, mas nenhum deles conseguiu conquistar o domínio almejado e inequívoco de Quinto Império do mundo.

A literatura épico-profético-lusitana de Luís de Camões, do P.e António Vieira e Fernando Pessoa olharam para os vastos domínios dos reinos e senhorios de Portugal e Algarves, de Aquém e Além-Mar em África, da Guiné, Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia como globais, sem abranger todavia os vinte e quatro fusos horários da esfera terrestre. Nem o império católico dos filipes hispânicos onde o sol nunca se punha, nem o napoleónico do imperador dos franceses, nem o império anglicano de sua majestade britânica lograram erigir nos seus tempos áureos de conquista eurocêntrica do mundo.   

Os impérios centrais eurasiáticos autocratas altamente belicistas dos alemães, dos austro-húngaros, dos otomanos turcos e dos ortodoxos russos ruíram durante a Grande Guerra, seguidos na geração imediata da queda do eixo imperial germano-italiano-nipónico no final da Segunda Guerra Mundial. O tempo dos impérios parecia ter desaparecido de vez do horizonte planetário global na passagem do segundo para o terceiro milénios, sobretudo a partir do derrube do Muro de Berlim e da subsequente implosão interna do império soviético e do universo da cintura-tampão de países-satélites.

Nos dias de hoje, o sonho delirante do ideado patriarca da alma russa, a real e a imaginária, o candidato presumido a senhor absoluto de toda a Rússia, grande, pequena e branca, empenhou-se na tarefa providencial de recuperar a grandeza imperial de superpotência muito perdida. O predador-vencedor/perdedor continua a sua cruzada de reunir as parcelas sumidas da miríade de entidades multinacionais anexadas pela força das armas no decurso dos séculos. Triste César este de pacotilha, ocupante de ruínas alçadas numa terra queimada, devastada mas nunca subtraída à vontade indomável dos povos.

O novo grão-duque de Moscóvia, o novo czar sem coroa do Kremlin, o novo soberano redentor da Rus eslava, ambiciona ativar a titularia imperial herdada do passado e tornar-se o potentado supremo da urbe humana globalizada, o messiânico conquistador do Quinto Império. Moscovo, já considerada a Terceira Roma terrestre, passaria a ser também uma legítima e merecida Nova Jerusalém celestial, a cabeça bicéfala do ambicionado Império do Mundo. Delírios do novo déspota enlouquecido que nos calhou na rifa. Cuidado com ele que anda por aí às claras a atazanar-nos o juízo.

Reuterswärd – Non-Violence – New York City (2012)

16 de outubro de 2020

Os olhares de Fernando Pessoa olhados por José de Almada Negreiros

JOSÉ DE ALMADA NEGREIROS


Os dois retratos de Fernando Pessoa representam o poeta de costas voltadas, se os expusermos lado a lado por ordem cronológica crescente de fixação na tela pelo olhar de Almada Negreiros. O mais antigo está voltado para a nossa esquerda e o mais recente para a nossa direita. Estão logicamente impedidos de se olhar de frente. Nem sequer estão a olhar para o que estão a fazer ou a não-fazer. Cigarro na mão esquerda, mão direita sobre uma folha de papel de cores diferentes a suportar, também ela, uma caneta inativa à espera de ser usada. O mesmo se diga das chávenas de café que ocupam também as partes opostas da mesa de café, provavelmente o Martinho da Arcada ou a Brasileira do Chiado, a fazerem companhia ao Orpheu 2, para o qual está a olhar de revés. Nós olhamos atentamente para o chapéu, laço e óculos  inconfundíveis do poeta. Este não se digna olhar para quem o olha, compenetrado que está a olhar para o vazio. Perna cruzada, sapatos pretos, camisa e meias brancas. A elegância britânica que o carateriza bem destacada por quem o olhou e fixou nos dois óleos, o de 1954 de 201 x 201 cm, o de 1964 de 225 x 226 cm.

As duas variantes do retrato de Fernando Pessoa colocam-nos agora o poeta pintado para o restaurante Irmãos Unidos voltado para o encomendado para a Fundação Calouste Gulbenkian, se as alinharmos por ordem cronológica decrescente de fixação na tela pelo olhar de Almada Negreiros. A sensação de simetria é mais visível nesta nova postura dispositiva, apesar dos pequenos pormenores cromáticos e de tamanho assinalados. Para todos os efeitos, os retratados continuam a evitar o olhar um do outro. Quem olha no infinito da criação poética olha para além do olhado pelos sentidos prosaicos dos simples mortais. O próprio criador plástico olhou com um olhar simbólico feito de memórias o vulto maior da primeira modernidade, falecido em 1935, cerca de 20 anos antes da primeira versão e 30 da segunda. Olhares póstumos dum sublime intemporal a marcar tanto o olhar cubista do retratista como o olhar perdido no vazio do retratado. Intersecionismos oblíquos de planos, o pictórico e o verbal, cruzamento sobreposto de sensações estéticas dúbias feitas com cromatismos descritivos e palavras desenhadas a que só a arte consegue atingir e olhar na sua total plenitude.
 

JOSÉ DE ALMADA NEGREIROS

22 de dezembro de 2019

Invernos em verso & tela

Marc Chagall - L'hiver (1966)

Quando está frio no tempo frio...
Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse
                                                                               [agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das coisas
O natural é o agradável só por ser natural.
Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do inverno—
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no facto de aceitar—
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural    
                                                                                  [inevitável.
Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o inverno da minha pessoa e da minha vida?
O inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do verão
E o frio da terra no cimo do inverno.
Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência.
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer coisa que não fosse o Mundo.
Fernando Pessoa | Alberto de Caeiro, «Poemas inconjuntos» (1946)

23 de setembro de 2019

Outonos em verso & tela

Abel Grimmer -  Outono (1607)


Uma névoa de outono...
Uma névoa de outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.
Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.
Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta…

Fernando Pessoa | Alberto Caeiro, «Poesias inéditas» (1930-1935)

26 de agosto de 2019

Fernando Pessoa: Lisboa - O que o turista deve ver | What the Tourist Should See

"Over seven hills, which are as many points of observation whence the most magnificent panoramas may be enjoyed, the vast irregular and many-coloured mass of houses that constitute Lisbon is scattered. For the traveler who comes in from the sea, Lisbon, even from afar, rises like a fair vision in a dream, clear-cut against a bright blue sky which the sun gladdens with its gold. And the domes, the monuments, the old castles jut up above the mass of houses, like far-off heralds of this delightful seat, of this blessed region. The tourist’s wonder begins when the ship approaches the bar, and, after passing the Bugio lighthouse – that little guardian-tower at the mouth of the river built three centuries ago on the plan of Friar João Turriano –, the castled Torre de Belém appears, a magnificent specimen of sixteenth century military architecture, in the Romantic-Gothic-Moorish style. As the ship moves forward the river grows narrower, soon to widen again, forming one of the largest natural harbours in the world with ample anchorage for the greatest of fleets. Then, on the left, the masses of houses cluster brightly over the hills. That is Lisbon."
Fernando Pessoa, Lisbon, what the tourist should see (1925; 2015)
Fernando Pessoa (1988-1935) é um dos grandes poetas da língua portuguesa. É também um dos vultos maiores das letras inglesas. Um nome incontornável da modernidade literária europeia à conquista doutros continentes. Em Lisboa viu a luz do dia. Em Durban, na África do Sul, fez a sua instrução primária e liceal. A Lisboa voltaria para passar o resto dos seus dias. Publicou em vida quatro obras, três em inglês e uma em português. A educação britânica bateu mais forte e marcou-o para sempre. Deixou um baú cheio de inéditos compostos nos dois idiomas e um ou outro em francêsO Alexander Search da juventude abre as portas da imaginação criativa a Bernardo Soares, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro da maturidade. Pseudónimos, semi-heterónimos, heterónimos e ortónimo unem esforços e a obra nasce, cresce e impõe-se.   

O original do Lisbon, what the tourist should see foi achado no final dos anos 80 e terá sido datilografado por volta de 1925. Foi traduzido e dado à estampa em 1992, a que se seguiram outras (re)edições bilingues ou vertidas para italiano, espanhol, francês e alemão. Se a pátria do emissor interno do Livro do desassossego era a língua portuguesa, a pátria do redator do guia da cidade construída sobre sete colinas é mesmo Lisboa, a tal que o turista deve ver, pese embora o facto de a ter descrito em língua inglesa. O cicerone inicia o percurso a bordo dum navio que se prepara para entrar na barra do Tejo e que após a passagem pelo Bugio se deixa deslumbrar por todos os zimbórios, monumentos e castelos antigos que se destacam por sobre o molhe de casas e ruelas desse sítio encantado e dessa região bendita que os olhos podem enxergar e admirar.

As dialéticas de lembrança e esquecimento cruzaram-se a 16 de julho passado, mediram forças entre si e o primeiro elemento da dicotomia ganhou aos pontos ao segundo. Nesse recontro de amigos tive ocasião de referir algumas questões de equilíbrio equacionadas por José Saramago n'O ano da morte de Ricardo Reis. Os meus colegas de três décadas quiseram gravar a memória desse dia com a oferta da mais recente edição do roteiro de Fernando Pessoa, efetuada em 2015 com a chancela do Centro Atlântico. O mundo académico tem por vezes destas coisas. Viajei pelo seu interior em tempo de férias. A tradução de Pedro Coutim ajudou-me a seguir de mais perto a versão original e as ilustrações de Mário Linhares a recrearem os cenários descritos. Facultaram-me a visão duma cidade iluminada por um sol radioso num céu azul e refrescada pela doce brisa do rio.

22 de julho de 2019

Dialéticas de lembrança e esquecimento

FERNANDO PESSOA
Carta Astral de Ricardo Reis
QUESTÕES DE EQUILÍBRIO
«Olham-se ambos com simpatia, vê-se que estão contentes por se terem reen-contrado depois da longa ausência, e é Fernando Pessoa quem primeiro fala, Soube que me foi visitar, eu não estava, mas disseram-me quando cheguei, e Ricardo Reis respondeu assim, Pensei que estivesse, pensei que nunca de lá saísse, Por enquanto saio, ainda tenho uns oito meses para circular à vontade, explicou Fernando Pessoa, Oito meses porquê, perguntou Ricardo Reis, e Fernando Pessoa esclareceu a informação, Contas certas, no geral e em média, são nove meses, tantos quantos os que andámos na barriga das nossas mães, acho que é por uma questão de equilíbrio, antes de nascermos ainda não nos podem ver mas todos os dias pensam em nós, depois de morrermos deixam de poder ver-nos e todos os dias nos vão esquecendo um pouco, salvo casos excecionais nove meses é quanto basta para o total olvido...»
José Saramago, O ano da morte de Ricardo Reis (Lisboa: Caminho, 1984, 80)
Fernando Pessoa ao traçar a biografia do heterónimo que escrevia poemas de índole pagã esqueceu-se de registar a data da sua passa-gem desta para melhor. José Saramago preencheu essa lacuna nas páginas d'O ano da morte de Ricardo Reis. Situou-a em 1936, nas antevésperas da Guerra Civil Espanhola, aquela que prepararia uma outra travada à escala mundial de dimensão nunca vista.

O ser feito de papel só existente na imaginação de quem o lê partiu lentamente com o fluir do tempo. Deixou de ser visto, à medida que a lembrança do seu criador se converteu em esquecimento. Nove meses depois de ter regressado do exílio brasileiro, Ricardo Reis apagou-se da memória coletiva das gentes e entregou-se por inteiro ao total olvido a que Fernando Pessoa já fora votado também.
d
Reencontrei-me dias com a comunidade académica que durante três décadas foi minha. Oito meses após a retirada das atividades docentes, os meus colegas honraram-me com um almoço de convívio num espaço privilegiado da cidade. Gostámos de nos voltar a ver. Foi bom verificar que a lembrança superou o esquecimento. Comprovar que as histórias vividas são sempre superiores às imaginadas.