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13 de junho de 2019

Teolinda Gersão: histórias reais e imaginadas da cidade de Ulisses

«A cidade de Ulisses. O nome parecia-nos irrecusável. Havia pelo menos dois mil anos que surgira a lenda de que fora Ulisses a fundar Lisboa. Não se podia ignorá-la, como se nunca tivesse existido.»
Teolinda Gersão, A cidade de Ulisses (2011)
Rezam os registos da memória coletiva que Héracles terá sido o herói mais popular de toda a mitologia grega antiga, entidade semidivina que o panteão romano acolheu ante si de braços abertos, adaptou de bom grado à sua realidade cultural e passou a conhecer com a desig-nação etrusca de Hércules. As referências que lhe são outorgadas pelas obras que sobreviveram à voragem de Cronos são infindáveis. Todavia, esse prestígio passou a ser repartido com Odisseu, sobretu-do a partir do momento em que Homero substituiu o papel de figu-rante que lhe dera na Ilíada pelo de cabeça de cartaz na Odisseia. Teolinda Gersão aproveita essa aura de glória que o devir histórico lhe granjeara, designa-o pela variante onomástica latina que a tradi-ção mediterrânica abraçara e converte-o no fio condutor privilegiado d’A cidade de Ulisses (2011), romance que dá corpo à lenda de ter sido o rei de Ítaca o fundador de Lisboa. 

Três mil e tal anos após as façanhas épicas, o artífice do cavalo de Troia, o mais humano dos semideuses criados pela fantasia helénica, o protagonista inaugural dum extenso ciclo de aventuras andarilhas, o inspirador de tantos anseios de infinito sempre sonhado e nunca al-cançado, onde o desenho romanesco embrionário se faz sentir, empresta o nome a uma exposição de pintura proposta pelo Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian. A fama que o passado fabuloso lhe dera aviva os traços por si deixados na Ulisseum-Olisipo lusitana e demais etimologias improváveis de bati-zar a futura metrópole e capital imperial dum país com fronteiras globais, inspira um relato de amor-e-morte revelado a posteriori pela voz masculina de quem o viveu e sobreviveu para contá-lo como testemunha privilegiada. A preceito. Como convém numa imitação credível de verdades possíveis. Três vertentes duma mesma sequên-cia de eventos banais, mas engrandecidos com a dimensão existen-cial que a condição humana lhe confere. 

Paulo Vaz recorda o affaire amoroso com Cecília Branco. Do alfa ao ómega, de ponta a ponta, de cabo a rabo, sem rebuços e ao sabor da pena. Memórias soltas, coisas isoladas, flashes imprecisos, a fluírem em catadupas, de montante a jusante, a preencherem as lacunas ins-taladas na mente do relator, carente de registos escritos minuciosos do acontecido, de documentarem com precisão as marcas causa-das pela medida arbitrária da duração dos factos. O pintor de profis-são e narrador de ocasião recorre à evocação de sucessos dos tem-pos idos para fazer o ponto da situação dos tempos do porvir. A pala-vra crise reina. Bancarrota, corrupção, impostos, dívida, falência, fome, buraco orçamental e FMI seguem-lhe a peugada e dão-lhe um toque preciso dos cenários onde se tem representado o drama social português. Cíclico. Preferia que a escolha de tais termos se não fizesse em prejuízo de tantos outros menos prosaicos que a língua está sempre pronta a pôr à disposição dos falantes. O lido e relido, o ouvido e reouvido nos jornais, rádios e televisões do nosso dia até dia mediático, mil e uma vezes dito e redito, à exaus-tão, em linhas e linhas de lamúrias mal contidas, registadas em contínuos períodos-parágrafos, sem parar, em páginas e páginas da ficção ultrarrealista que temos entre mãos, sem piedade, acaba por transformar, sem recuo, o prazer da leitura num fardo carregado a contragosto, alvedrio a que só a afeição à literatura concede, de longe em longe, um passe altruísta de livre trânsito. 

No período micénico da cultura europeia, Penélope resiste a vinte anos de espera exemplar pelo regresso do marido. Tece de dia a manta que desfaz à noite. Ulisses partira contrariado para uma guerra gerada pelo arrojo de Páris e volúpia de Helena. Retorna a casa sem lufa-lufas no andar e com planos de desforra no agir. Reocupa o trono, restaura a lei, recupera a mulher. Um trajeto de ardis. No período pós-moderno da cultura ocidental, os sinais heroicos de fidelidade, abalizados por duas décadas de separação conjugal efetiva, é uma ilusão utópica só possível na feição diegé-tica da realidade. O caso de Paulo e Cecília está repartido por três momentos estruturais canónicos: encontro-desencontro-reencontro. Afiança uma nota crítica registada na contracapa do romance termi-nar essa história escandalosamente bem. Não contradigo a autori-dade convocada pelos editores para dar uma maior visibilidade à obra. Limito-me a precisar que o casal se afasta após um primeiro revés para recuperar o equilíbrio perdido em cenários alternativos. Como soe dizer-se, são incomensuráveis os caminhos que condu-zem a um apetecido e novelesco happy end.

NOTA
A cidade de Ulisses também é a cidade de Santo António, duas matrizes culturas complementares a motivarem a transferência deste texto do Pátio de Letras para este espaço de histórias contadas e relembradas, no dia em que a cidade de Lisboa celebra as suas festas anuais.

15 de março de 2016

Retratos pintados e contados

ARPAD SZENES, Marie-Hélène X, 1942

(Arpad Szenes pinta Vieira da Silva pintando Arpad a pintar...)
[Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva]

Je dérange ?

Lembrava-me por exemplo de partilhar a opinião bastante difundida de que Arpad era vítima da excessiva proximidade de Vieira, como o seu ar inofensivo de bicho, Ma Femme Chamada Bicho. Madame Bicho ia visitar o marido a um ateliê que ele tinha construído no jardim, para se livrar de Madame.

Ao contrário de mim ele era um homem suave, demasiado suave para impor quaisquer regras e exigir que fossem cumpridas. Não ousava enfrentá-la e impedi-la de entrar quando ela, uma vez por outra, abria a porta sem bater e perguntava:

«Je dérange?», já depois de ter entrado.

Ela tinha uma espécie de estratégia eficaz: afastava-se e deixava-o em paz por algum tempo, e quando achava que fora tempo suficiente e ele tinha a obrigação de já ter realizado algo que valesse a pena, ali estava ela à sua porta, com ar tímido e curioso de discípula admirativa, que vem visitar o mestre.

«Je dérange?» perguntava com voz humilde, cheia de doçura.

E quando ele cedia, por fraqueza, em vez de fechar a porta à chave ou de gritar com todas as forças:

«Oui, tu déranges!»

ela deitava em volta um olhar voraz, via tudo no mesmo segundo em que entrava, e já saía de novo porta fora, levando a inspiração que procurava.

Dentro de dias aí estavam as ideias dele, transformadas, ampliadas, metamorfoseadas em ideias dela. Imensamente fortes, evidentes, como se tivessem sido dela desde sempre.

Então ele deitava fora os estudos e os esboços em que timidamente experimentava algo de novo, que ela depois desenvolvia e pelo que recebia créditos e admiração do mundo.

Teolinda Gersão, A cidade de Ulisses (2011: 116-117)