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8 de maio de 2024

Escudetes em cruz e besantes em aspa com estrelas de sete pontas aos cantos

Morabitino de Ouro de Dom Sancho I

[Lisboa - Museu da Moeda]

Estalou tempos uma polémica sobre a configuração das quinas na rosa-dos-ventos da Praça do Império em Lisboa. Mais uma a juntar às muitas a que o brasão de armas português anda associado, com direito a validação certificada pelo Polígrafo SIC. Desconheço se o reposicionamento respeitou a cronologia da expansão portuguesa representada no mapa (1418-1525), i.e., com os escudetes laterais e central direitos, com as pontas voltadas para baixo, tal como a heráldica oficial os colocou em 1482-1485, no reinado de D. João II.

Mais recentemente, o Sebastião Bugalho da AD trocou os alhos por bugalhos no discurso de candidatura às eleições para o Parlamento Europeu. Clarificando: contou os sete castelos do escudo português e chamou-lhes quinas. Trocas e baldrocas involuntárias com que se fazem os faits divers mediáticos, as gaffes politiqueiras e os lapsus linguæ discursivos. Mero deslize que nem chega a constituir uma verdadeira polémica digna desse nome. Piada malparida por um jovem comentador televisivo promovido a cabeça-de-lista partidário.

Mitos e contramitos gerados em torno dos símbolos nacionais têm sido recorrentes ao longo dos séculos que inscrevem a sua criação, gestação e fixação atual. As quinas mal contadas pelo aspirante a eurodeputado bem podiam ser nove se nos reportarmos ao brasão atribuído a D. Afonso Henriques e que certamente nunca terá usado na Batalha de Ourique. Os primitivos sinais do rei/reino adotados pela república mais não são do que simples escudetes com um número variável de besantes que o morabitino de D. Sancho I reduz a quatro.

Cinco escudos em cruz e vinte besantes em aspa com quatro estrelas de sete pontas aos cantos assinalam, a ouro, o poder dos Borgonha de cunhar moeda própria. Remontam a uma data incerta próxima da subida ao trono d'O Povoador (1185), cerca de meio século após O Fundador ter terçado armas com as taifas islâmicas do al-Andalus (1139). Sinete pessoal simbólico a afirmar o poder do rei e o prestígio do reino face às demais cabeças coroadas peninsulares, que o devir histórico adaptaria, mutatis mutandi, em emblema nacional do país.

Diz a sabedoria popular que em casa onde não pão todos ralham e ninguém tem razão. por estas bandas de pobretes e alegretes num país à beira-mar plantado, fantasiam-se os momentos de crise com os feitos memoráveis dignos de figurarem para sempre no armorial nacional. Idealiza-se a origem divina da monarquia lusitana com Jesus a coroar o seu primeiro rei e a vencer com a sua égide cinco reis mouros no campo de liça. Cenário milagroso que a atual historiografia afastou de vez, mas o imaginário coletivo teima em repetir e celebrar.

BRASÕES DE DOM AFONSO HENRIQUES

13 de fevereiro de 2023

Uso discreto da coroa real dos oito arcos e da banda presidencial das três ordens

           Batalha de Ourique           
António de Holanda, Genealogia dos Reis de Portugal, 1530-1534

COROAÇÃO ‒ ALÇAMENTO ‒ ACLAMAÇÃO  INVESTIDURA 
O grande circo mediático à escala global prepara-se para levar a todos os cantos da esfera terrestre a cerimónia da coroação de Carlos Filipe Artur Jorge Mountbatten-Windsor. Para tal, teve de aguardar 70 anos pela morte da mãe, passou de Sua Alteza Real, o Príncipe de Gales, a Sua Majestade Britânica, o Rei do Reino Unido e dos Reinos da Comunidade de Nações. Tudo pela Graça de Deus, está bem de ver.

Dom Afonso Henriques não teve de esperar pela morte da mãe para se tornar o primeiro Rei dos Portugueses. Obteve a dignidade régia por mérito próprio. Bastou-lhe vencer os cinco reis mouros na mítica Batalha de Ourique (1139) e ser alçado e aclamado depois pelas tropas ainda no campo da contenda. Só depois, o Arcebispo de Braga o terá coroado com a coroa de bronze dos reis visigodos.

Mitos à parte, a tradição real portuguesa nunca se submeteu a uma coroação formalA entronização dos monarcas fez-se sempre por alevantamento, através dum ato prático, popular e laico celebrado num espaço público, numa aliança simbólica entre o novo soberano e os respetivos súbditos. Um ou outro Borgonha e Avis até terá usado por acaso uma coroa, sempre com peso, conta e medida.

Dom Manuel II encerrou entre nós o ciclo das aclamações reais, quando a 6 de maio de 1908 jurou cumprir solenemente a Carta Constitucional na Assembleia das Cortes em Lisboa. Curiosamente, será a 6 de maio de 2023 que Carlos III será coroado com toda a pompa e circunstância britânicas na Abadia de Westminster de Londres. Acasos que a história de vez em quando gosta de gizar.

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Banda das Três Ordens que os Bragança usaram e abusaram a torto e a direito passou a ser uma insígnia exclusiva do Presidente da República. Tal como a Coroa Real, dispõe dum papel protocolar, sendo envergada em momentos muito especiais excluindo a própria investidura de tomada de posse na Assembleia da República. Aqui, pelo menos, a sobriedade, a moderação e a simplicidade presidem.

COROA REAL & BANDA DAS TRÊS ORDENS
Museu do Tesouro Real - Museu da Presidência da República 

10 de novembro de 2022

Oito ou Oitenta

REPOLHO & COVE-DE-BRUXELAS

O reinado mais longo e o governo mais curto da história da monarquia britânica acabam de ser contados neste verão-inverno de 2022. A rainha Isabel II desempenhou a soberania no Reino Unido durante 70 anos e 214 dias e a primeira-ministra Liz Truss somente 49 dias. Curiosas contrastes exemplificativos dum 8 ou 80 proverbial. Dizem os mass media encartados da aldeia global ter sido a mais longeva representante da Casa dos Windsor a cabeça coroada que durante mais tempo empunhou o cetro do poder a nível mundial. A mesma sorte não terá tido Lady Jane Grey, a sua antecessora da Casa dos Tudor, que só terá reinado de 10 a 19 de julho de 1553, ficando por isso conhecida como a Rainha dos Nove Dias.

Dizem os manuais especializados em datas e as listas cronológicas publicadas na Net ter ultrapassado os 72 anos e 110 dias que Luís XIV brilhou como Rei-Sol absoluto em Versailles e nos domínios da França e Navarra. O desaparecimento prematuro dos antecessores e a subida temporã ao trono está na origem destes casos extremos de chefia dum estado, depois concretizado com um extenso percurso de vida. Dom Sebastião de Portugal e Algarves poderia ter tido um destino semelhante, se os sonhos megalómanos de grandeza o não tivessem conduzido a Alcácer-Quibir onde morreu aos 24 anos de idade. Deteve mesmo assim os destinos dos reinos, senhorios e domínios herdados do avô 21 anos e 54 dias.

Filho de rei, rei será. Isto se for o primogénito ou sobreviver aos irmãos mais velhos. Dom Afonso Henriques nasceu infante e tomou a seu cargo a chefia do Condado Portucalense como príncipe entre as batalhas de São Mamede (1128) e de Ourique (1139). O facto de ser filho dum mero conde não lhe deu acesso imediato ao título de Rei. Teve de o conquistar pela força das armas, direito reconhecido pelo suserano leonês em Zamora (1143) e pelo Santa Sé na bula papal Manifestis Probatum (1179). Um longo percurso que permitiu ao primeiro soberano Casa de Borgonha tomar as rédeas do poder por 73 anos, 1 mês e 4 dias. Um record absoluto que os meios de comunicação social atuais calaram por completo.

Dom Carlos de Bragança reinou 18 anos e 105 dias e mais reinaria não fora o regicídio do primeiro de fevereiro de 1908. Ao que parece, Dom Luís Filipe ter-lhe-á sobrevivido 20 minutos. Rei morto, rei posto. O Príncipe Real não consta em nenhuma lista como Rei de Portugal. Faltou-lhe o ato da aclamação solene na Assembleia de Cortes, como o irmão acabaria por ter 3 meses e 5 dias mais tarde. Uma eternidade. Um tudo ou nada, em suma. Isso não impediu que nesses escassos minutos que sobreviveu ao pai não tivesse aos seus ombros o pesado fardo dos destinos do Reino. Histórias que os anais monárquicos colecionam nestas grandezas que vão dum enorme repolho a uma mera couve-de-bruxelas.

27 de agosto de 2021

As duas rainhas titulares marginalizadas

      Condessa-Rainha Dona Teresa de Leão & Rainha Dona Beatriz de Borgonha      

A lista comummente aceite como oficial da Coroa Portuguesa regista trinta e cinco monarcas, entre os quais se contam duas rainhas da Casa de Bragança, Dona Maria (1777-1816) e Dona Maria Ⅱ (1826-1828 e 1834-1853), apesar de terem partilhado o governo com os consortes Dom Pedro  (1777-1786) e Dom Fernando  (1837-1853). Para além do isolado caso de Garcia de Portugal e Galiza, da estirpe dos Jiménez de Pamplona, ficaram ainda de fora Dona Teresa de Leão e Dona Beatriz de Portugal, soberanas suo iure (= de seu pleno direito) da dinastia condal e real de Borgonha. Reinados agitados por conflitos bélicos regionais, peninsulares e europeus, que abrangem em termos cronológicos a Batalha de São Mamede (1128), o Interregno (1383-1385), as Invasões Francesas (1807-1811) e as Guerras Liberais (1832-1834).

Após a morte do marido, Dona Teresa dirigiu o Condado Portucalense como regina, por ser filha de Afonso Ⅵ, o Imperator totius Hispaniæ, e ter recebido essa honraria papal de Pascoal Ⅱ, pela bula Fratrum nostrum de 18 de junho 1116. A viúva do Conde Dom Henrique assumiu, assim, a soberania plena do território que havia recebido à data do casamento pelo pai e que dirigira de facto (= na prática e de direito) com o marido e sozinha. Em contrapartida, Dom Afonso Henriques, por descender dum mero comiteteve de se contentar com o título de dux, dado por Lúcio  na carta Devotionem tuam de 1 de maio de 1144), antes de se proclamar princeps e rex, mal destituiu a mãe em 1128. O reconhecimento da titularia régia teria de esperar sessenta e três anos pela assinatura de Alexandre Ⅲ na bula Manifestis probatum de 23 de maio de 1179.        

Dona Beatriz, a única filha de Dom Fernando  e Dona Leonor Teles, herdou o trono logo após a morte do pai. Le roi est mort, vive la reine, i.e.,  Real, real, pela rainha de Portugal. Como a nova rainha tinha à data 10 anos e estava casada com Juan  de Castela, o receio de anexação pelo consorte Trastâmara, por Iure uxoris (= em direito da mulher), deu origem à crise dinástica que terminaria com a vitória de Dom João  de Portugal, o Mestre de Avis, na batalha de Aljubarrota. A última representante de iure (= pela lei e pelo direito) dos Borgonha, de 22 de outubro de 1383 a 14 de agosto de 1385, foi deposta pelo tio, sob o pretexto de bastardia, dada a fama da mãe. Marginalizada pelo vencedor, a filha da Aleivosa foi excluída de soberana de Portugal tendo continuado consorte de Castela. O ostracismo histórico a funcionar no seu melhor.

As duas rainhas caídas e esquecidas

27 de junho de 2021

Garcia I, rei de Portugal e da Galiza

GARCIA REX PORTUGALLIÆ & GALLECIÆ

H. R. DOMINUS GARCIA REX PORTUGALLIÆ ET GALLECIÆ, FILIUS REGIS MAGNI FERDINANDI HIC INGENIO CAPTUS A FRATRE SUO IN VINCULIS. OBIIT ERA MCXXVIII XIº KAL. APRIL
[Aqui repousa o rei Garcia, rei de Portugal e da Galiza, filho do grande rei Fernando. Capturado pelo seu irmão e preso, morreu em 22 de março de 1090]
Inscrição da pedra tumular no Panteón de Reyes de San Isidoro de León

              PRIMEIRO REI DE PORTUGAL              

Ciclicamente, por esta altura, surge na Net a notícia do oitavo centenário e muitos picos da fundação de Portugal em 23 de maio de 1149, que completaria a bonita idade de 842 anos nos dias de hoje. Seguem-se os parabéns habituais dos leitores na caixa dos comentários, convencidos do nascimento efetivo do país nessa data, aquela em que o Papa Alexandre assinou a bula Manifestis Probatum, a promover o até então Condado Portucalense em Reino de Portugal, a declará-lo independente do Reino de Leão e a reconhecer Dom Afonso Henriques como seu legítimo soberano com o título de Rei. Do ponto de vista legal, o Vaticano mais não fez do que transferir para a órbita de São Pedro e da Santa Madre Igreja de Roma a proteção do território, que como testemunho de maior reverência e vassalagem deveria pagar anualmente dois marcos de oiro aos novos suseranos.

O filho de Dona Teresa de Leão e de Dom Henrique de Borgonha convertia-se, assim e pela Graça de Deus, no primeiro Rei dos Portugueses. Acontece que o Rei Garcia da Galiza se intitulara também Rei de Portugal, depois de ter derrotado o Conde Nuno Mendes de Portucale na batalha de Pedroso, travada a 18 de janeiro de 1071, 68 anos antes de Dom Afonso Henriques ter agido do mesmo modo em 25 de julho de 1139, logo após a vitória alcançada na batalha de Ourique. Por outras palavras, a elevação unilateral dum condado a reino e dum conde a rei. É verdade que o filho de Fernando Magno exerceria esse cargo efemeramente, por ter sido destituído das suas funções régias por Afonso de Castela e Leão, Galiza e Toledo, que, ao invés do irmão mais novo, nunca assumiu o título de Rei de Portugal, preferindo o mais prestigiante de Imperador de toda Hispânia.

As histórias da História vivem destas historietas que os cronistas gostam de explorar para depois converter nas versões registadas nas atas e manuais oficiais. Esquecem-se que o surgimento dum país não se pode restringir a um momento único e que a sua afirmação como entidade politica mais ou menos autónoma se insere num complexo processo de independência política, medido por períodos de tempo relativamente longos. No caso concreto português, remonta a 868, quando Vímara Peres assume o destino da Presúria do Porto e do Primeiro Condado de Portucale, dando assim início à Dinastia Vimarenense de condes e duques a governar a Terra Portucalense até à sua rendição pela Dinastia Jimena de Garcia , Rei de Portugal e Galiza, e mais tarde pela Borgonhesa dos genros borguinhões de Afonso Ⅵ, Raimundo e Henrique. História um pouco turbulenta, mas, afinal, factos são factos.

Assinatura de Dom Garcia  de Portugal e Galiza 

5 de maio de 2021

Histórias da Língua

«Em 1297, findado o processo de Reconquista, D. Dinis, monarca e grande mecenas da literatura trovadoresca, adotou o português como língua do reino de Portugal, assim como seu avô Afonso X, o Sábio (1221-1284), monarca de Leão e Castela, anos antes fizera com o castelhano, ao mandar redigir na língua grandes obras históricas, astronómicas e legais. O caráter oficial possibilitou ao português seu desenvolvimento autónomo em relação ao galego, língua esta que, em virtude da expansão territorial portuguesa e da dominação castelhana, perdeu a importância literária de outrora.»

  Dia Mundial da Língua Portuguesa  

Fala-se muito tempo na integração do Português no seio das línguas oficiais da ONU, dado ser a mais difundida no Hemisfério Sul e a terceira no Ocidental, para além de ser a sexta a nível global. A grande objeção situar-se-ia nas divergências escritas que separavam as normas escritas portuguesa e brasileira, problema resolvido com o Acordo Ortográfico de 1990, que agora o mundo lusófono interpreta à sua maneira, não afastando as habituais questiúnculas atávicas de lana-caprina que nos caraterizam. Como se as diferenças existentes entre o francês europeu e o canadiano, o inglês britânico e o ianque ou o castelhano peninsular e o hispano-americano tenham impedido a sua oficialização pelos estados-membros que o constituem

A iniciativa até é louvável mas algo difícil de concretizar como tem vindo a ser demonstrado. Nem a eleição de António Guterres como nono Secretário-geral da Organização das Nações Unidas em 2017 resolveu o impasse. Aliás, seria muito pouco espetável que fora do espaço da lusofonia as suas intervenções internacionais passassem a ser proferidas na língua materna no desempenho das suas funções. Fá-lo-ia tanto como grande parte dos deputados nacionais ao Parlamento Europeu o fazem no seio da União Europeia, muito embora o Português seja um dos seus idiomas oficiais, preferindo fazê-lo em Inglês, mesmo após a consecução do Brexit e da saída subsequente do Reino Unido da associação de países em 2020. 

Polémicas à parte, celebra-se hoje nos nove países da CPLP, o Dia Mundial da Língua Portuguesa, instituída em 2019 pela Unesco. Data recente em comparação com a própria idade do idioma, difícil de achar, embora disponhamos de alguns dados para a sua identificação relativa. Sabe-se, por exemplo, cumprir-se agora o 724.º aniversário da sua adoção como língua oficial das chancelarias régias de Dom Dinis, ocorrida em 1297. Todavia, parece que desde 1255 Dom Afonso III já o fazia a par do Latim. Depois, consideremos ainda os documentos mais antigos redigidos em vernáculo, como a Notícia de Fiadores de 1175, lavrada no reinado de Dom Afonso Henriques. Mais ano menos ano, aqui ficam os meus votos de parabéns.

8 de março de 2021

As três rainhas

DAMAS DE AZUL

Τοιχογραφία με γυναίκες στο Ανάκτορο της Κνωσού
[Fresco do palácio de Knossos - Creta - Grécia (1700-1300 AEC)]

Princesas, Infantas, Rainhas & Cortesãs...

Diz-se que a nobreza tinha o sangue azul porque não necessitava de se expor diariamente aos raios ultravioletas do Sol. Sobretudo as titulares de mais alto estatuto, que abrangia as princesas, infantas e rainhas nascidas em berço de ouro e lençóis de cetim, mas também as cortesãs deitadas nos leitos reais despidas das sedas e pedrarias que antes as cobriam. A pele dum branco imaculado dava a sensação das veias cerúleas serem percorridas por um líquido vital diferente do vermelho vivo da restante plebe. Tudo isto nos tempos áureos em que os banhos de mar e a obtenção dum bronzeado perfeito não estavam ainda na moda como acontece nos dias de hoje e o moreno efémero de verão é cobiçado por todos, pelos filhos de algo ou de quem quer que seja.

As cabeças coroadas ou a elas associadas também não terão fugido a esta regra nos 770 anos que a Monarquia Lusitana geriu os destinos dum Reino agora convertido em boa hora numa República. Entre 1140 e 1910, anos em que Dom Afonso Henriques se autointitula Rei dos Portugueses e Dom Manuel II foi destronado, sentaram-se junto do soberano 36 soberanas, se as contas me não falham, 33 rainhas estrangeiras provenientes duma dúzia de cortes europeias de aquém e além-Pirenéus, sobrando três únicas rainhas consorte nadas e criadas em território nacional, escassíssimo número para tão extensa lista de alianças matrimoniais de estado, que geraram tantos príncipes, infantes e reis, quase todos eles portugueses a meio gás.

Dona Leonor Teles de Menezes (c.1350-1386), a quem Fernão Lopes apelidou de Aleivosa na Crónica de El-Rei D. Fernando e na primeira parte da Crónica de El-Rei D. João I de Boa Memória, pelo seu comportamento leviano medido à luz dos padrões vigentes na época. Por motivos de ordem estritamente política, separou-se do primeiro marido de quem tinha um filho, para se matrimoniar em segredo com Dom Fernando. Quando enviuvou, foi governadora e regente do reino, em nome da filha menor, Dona Beatriz, casada com o rei Dom João I de Castela, e assumiu a sua ligação com o Conde Andeiro. Odiada por tudo e por todos, foi uma das principais causadoras da crise de 1383-85, que substituiria a dinastia de Borgonha pela de Avis.

Dona Isabel de Coimbra (1432-1455) é a menos conhecida das três rainhas mas simultaneamente aquela que mereceria ser designada de Desejada, pela paixão que despertou no consorte, o rei Dom Afonso V, seu primo direito, por serem ambos netos de Dom João I, o Mestre, de Avis e de Dona Filipa de Lencastre. Eram também filhos da Ínclita Geração, ele do rei Dom Duarte, o Eloquente, ela de Dom Pedro, o infante das Sete Partidas. A guerra fratricida instigada pelo duque de Bragança, levaria à morte do pai na batalha de Alfarrobeira, travada contra as forças reais. A sua fidelidade e amor ao marido permitiu-lhe reabilitar o bom nome do progenitor e a trasladação do seu corpo para o Mosteiro da Batalha, onde jaz na capela do fundador.

Dona Leonor de Lencastre (1458-1525), a Rainha Velha dos autos de Gil Vicente, mecenas e humanista, promotora do manuelino, fundadora da Misericórdia de Lisboa e do Hospital Termal das Caldas da Rainha, continua a ser a mais conhecida das três, merecendo o epíteto de Princesa Perfeitíssima. Prima e nora da anterior, a infanta casou-se com o futuro rei Dom João II, primo e neto como ela de Dom Duarte. A execução do irmão e do cunhado por motivos políticos, bem como a morte trágica do filho amarguraram-lhe o resto da vida, dificultando a relação com o marido. Dizem as más-línguas que o terá mandado envenenar. O Renascimento no seu melhor, a lembrar-nos por A+B que não há bela sem senão ou que no melhor pano cai a nódoa.

OLHARES DAS TRÊS RAINHAS 
 A Aleivosa (Em frente) – A Desejada (Para baixo) –A Perfeitíssima (para cima)

10 de novembro de 2020

Monarcas, Presidentes & Consortes

    Reis, Damas / Rainhas, Valetes & Jokers    

Desde o já longínquo dia 23 de maio de 1179, data em que o Papa Alexandre III assinou a bula Manifestis Probatum a reconhecer D. Afonso Henriques como primeiro Rei de Portugal, sucederam-lhe no trono 34 monarcas, entre os quais duas rainhas. Tiveram esses herdeiros do Fundador as suas caras-metades, que receberam a designação de Consortes, sem qualquer papel de relevo na ação governativa e vivendo em grande parte à sombra da Casa das Rainhas, fonte principal do seu rendimento. No caso das mulheres, o título de Rainha era-lhes atribuído após o enlace, necessitando os homens de engravidar a soberana para merecerem o título de Rei. Se por qualquer motivo essa função de procriador real ficasse por cumprir, pondo em causa a sobrevivência dinástica, teriam de se contentar com o estatuto de Príncipes consorte.

quase cinco anos que não dispomos duma Primeira-dama, rótulo dado abusivamente à esposa do Presidente da República em exercício ou com quem ele viva em união de facto. No próximo lustro também não teremos nenhuma ou talvez tenhamos de passar igualmente sem um abstruso Primeiro-cavalheiro, Valete, Joker ou como lhe queiramos chamar. Vistas bem as coisas e medindo-as pelo lado estritamente legal, nunca tivemos, não temos, nem nunca teremos um ou uma consorte presidencial com um título especial. É que no baralho de cartas da democracia plena, não há lugar para Primeiras-damas ou Primeiros-cavalheiros, a menos que esta nossa República se tenha transformado por artes de berliques e berloques numa Monarquia disfarçada, por ação de saudosistas impenitentes do anterior regime, extinto de vez há 110 anos.

Como o Gabinete do Cônjuge da Casa Civil da Presidência da República, que presta apoio à alegada Primeira-dama se encontra desativado desde março de 2016, pouco se sabe das atividades das suas ocupantes nos períodos de tempo que desempenharam pro bono este cargo não eletivo. Diz-me uma memória resistente à passagem do tempo e ávida de registar os eventos importantes da nossa História milenar, ter a última dita Primeira-dama que nos coube na rifa ocupado o tempo precioso que escasseava ao presidencial consorte a colecionar presépios, atividade meritória que lhe deve ter reservado por deferência especial um lugar de precedência protocolar no além, assim como o teve neste aquém legislado pelo Estado Português. É o mínimo que se poderia desejar a quem exerceu com tanto brio natalício tão honrosas funções.
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As eleições presidenciais portuguesas de 2021 estão à porta. Se tudo correr com a normalidade prevista, a primeira volta deverá decorrer num domingo situado entre 10 de janeiro e 14 de fevereiro. O Palácio Nacional de Belém terá novos inquilinos a partir do dia 9 de março. Terá ou manter-se-á o mesmo para mais um mandato. Se assim for, lá teremos de passar mais 5 anos sem a figura decorativa duma Primeira-dama de pacotilha, que nem por portas travessas será votada nas urnas eleitorais. Aquele espaço que já foi de reis e rainhas, príncipes e infantes, que já funcionou como residência privada duma dezena de presidentes da república, ficará reduzido às suas funções exclusivas de residência oficial do chefe de estado. Ás de copas, de espadas, de paus e de ouros. Único senhor dum cargo para o qual foi legalmente empossado.