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18 de junho de 2021

Night & Day

    FEATHERS BLACK & WHITE    
« Dire que le pour-soi a à être ce qu'il est, dire qu'il est ce qu'il n'est pas en n'étant pas ce qu'il est, dire qu'en lui l'existence précède et conditionne l'essence ou inversement, selon la formule de Hegel, que pour lui "Wesen ist was gewesen ist", c'est dire une seule et même chose, à savoir que l'homme est libre. Du seul fait, en effet, que j’ai conscience des motifs qui sollicitent mon action, ces motifs sont déjà des objets transcendants pour ma conscience, ils sont dehors ; en vain chercherai-je à m’y raccrocher : j’y échappe par mon existence même. Je suis condamné à exister pour toujours par delà mon essence, par delà les mobiles et les motifs de mon acte : je suis condamné à être libre. Cela signifie qu'on ne saurait trouver à ma liberté d'autres limites qu'elle-même ou, si l'on préfère, que nous ne sommes pas libres de cesser d'être libres. »
Jean-Paul Sartre L’Être et le Néant, Paris: Gallimard, 1943

  ChiaroscuroSfumato Unione - Cangiante - Tenebrismo

Em fevereiro de 2020, dei entrada no CHUA com a esperança de poder sair dali a três dias, para resolver um pequeno problema de saúde. A coisa complicou-se e só tive alta ao fim de dois meses e meio de internamento. Pelo meio, ficaram quatro intervenções cirúrgicas, com passagens obrigatórias pelos cuidados intensivos e intermédios. O chiarescuro renascentista converteu-se logo num tenebrismo barroco indesejado.

Em março de 2021, regressei ao CHUA para concluir o processo iniciado no ano anterior. A quinta ida ao bloco operatório correu sem imprevistos e a recuperação há muito aguardada aconteceu sem incidentes inesperados. O longo período entretanto decorrido permitiu que o sfumato sombrio de permeio se transformasse pouco a pouco numa unione de cores vibrantes a fortalecer o cangiante canónico da arte pictórica quinhentista.

A declaração do estado de emergência e o confinamento provocado pelo novo coronavírus SARS-COV-2 apanharam-me no CHUAAgora que se anuncia a quarta vaga da pandemia, vou iniciar hoje a vacinação contra a COVID-19, que me devia ter sido ministrada há cerca de meio ano. Mais vale tarde do que nunca. Depois do claro se ter feito escuro é a altura ideal de o ser e o nada fazerem as pazes e da noite se fazer dia.

31 de julho de 2015

Náuseas do tudo e do nada


«C'est ça donc la Nausée: cette aveuglante evidence? Me suis-je creusé la tête! En ai-je écrit! Maintenant je sais: J'existe - le monde existe - et je sais que le monde existe. C'est tout. Mais ça m'est égal. C'est étrange que tout me soit aussi égal: ça m'effraie.»
Jean-Paul Sartre, La Nausée (1938)
Na viragem dos anos 60 para os 70, cruzei-me com um clássico da filosofia ficcionada que durante algum tempo se candidatou àquela lista do livro da minha vida. As leituras que se seguiram desde então têm vindo a selecionar outros pretendentes ao podium e sido sucessivamente descartados um a um, deixando atrás de si uma marca indelével tão forte como a provocada por aquele a que agora me refiro, A Náusea (1938) de Jean-Paul Sartre, composta pelo grande teórico francês do existencialismo ateu nas vésperas da Segunda Guerra Mundial.

A fixação no texto deveu-se ao modo como o jovem leitor que eu então era se identificou com as reflexões que o protagonista-narrador lá foi tecendo nas páginas dum diário pessoal. O ser e o nada, a consciência e a contingências, a existência e a essência. A busca dos momentos perfeitos para superar a sensação de vazio, de abismo, de náusea. Durante algum tempo fui existencialista. Depois passou-me. No meio de tanta solidão, silêncio e angústia, achei por bem virar a página desses tempos vestidos de negro e passar à descoberta da vida.

O contacto com outras visões alternativas de explicar o absurdo da existência humana ajudaram-me a tomar essa decisão. A frequência dum curso livre levou-me a considerar esta corrente do pensamento contemporâneo como uma verdadeira filosofia de desocupados, cultivada por quem não tem nada que fazer nem faça ideia do que isso seja ou possa ser. Desliguei. Durante anos tentei ocupar o tempo a preencher os espaços situados entre o ócio e o negócio. Evitar a todo o custo a tendência de cair num abismo de tédio feito de coisa nenhuma.

Triplicada a idade que tinha na altura, a náusea voltou. Diferente. O vómito vem agora de mão dada com o excesso de trabalho. A con-versa da treta, a banha da cobra, as guerras de alecrim e manjerona imperam. Abyssus abyssum invocat. A vertigem instala-se. O dolce far niente acena-me. Já retirei o velho romance de Sartre da prateleira. Já lhe limpei o pó. Já comecei a viajar pelas linhas e entrelinhas que lhe dão forma. Quem sabe se no final do percurso me revele os mistérios insondáveis da condição humana, as tais que habitam o tudo e o nada.